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segunda-feira, 25 de junho de 2018

O sonho americano não rebentou esta semana

Os EUA secaram a vida a sul da fronteira. Plantaram golpes, patrocinaram ditaduras, gastaram os pobres, mantendo-os pobres. O lado de baixo da fronteira foi o bordel, o bar, a droga, o trabalho escravo. Em baixo o pesadelo, em cima o sonho. Um paga o outro, e não é de agora.
 
1. A voz das crianças enjauladas corta a direito qualquer humano. São crianças de quatro, cinco, seis anos a soluçarem “mami”, “papá” dentro de uma gaiola, na fronteira dos Estados Unidos da América. Não há filtro, ideologia ou cartilha, a empatia ocupa tudo: choro, choramos com elas, no terror do que o humano é capaz. Somos milhões a chorar, incluindo pivots de TV, Laura Bush, talvez mesmo Ivanka Trump. Então, como até a filha pede, Trump muda alguma coisa para tudo ficar entre antes e agora, sabe-se lá até quando, sabe-se lá como. Mas não foi esta semana que o sonho americano rebentou. Não é agora que a América está a rejeitar os seus valores. Não é o one-man-show-Trump que detona o império americano de repente.
 
2. Há oito anos, por esta altura, pleno Mundial de Futebol, eu estava no México. E tanto no extremo sul como no extremo norte do México vi o pesadelo que fica por baixo do sonho americano. No extremo sul, vi-o em Ixtipec, de onde partem comboios para a Norte, e onde portanto se amontoam homens, mulheres e crianças sem livre-trânsito oficial, fugidos de toda a América Central, de El Salvador, das Honduras, da Guatemala, países no topo das maiores violências do mundo, onde os EUA enfiaram uma ou várias mãos. E no extremo norte do México — onde já só chegam os centro-americanos que pelo caminho não foram violados, escravizados, mortos por gangues — vi esse pesadelo em Ciudad Juárez, cidade mesmo na fronteira, literalmente a alguns passos de El Paso, EUA. Juárez é uma cobaia do capitalismo global, um lugar onde as empresas dos EUA (sobretudo, mas também europeias, japonesas, chinesas) foram abrindo fábricas para montar muitas das coisas que o mundo usa, mesmo o mundo pobre, como telemóveis e televisões. Se é possível ter um vislumbre do que será um mundo de fantasmas, desempregados, quase-escravos, Juárez era esse lugar. Operários que só tomando drogas aguentavam dois turnos em fábricas onde recebiam 36 euros por semana. Era esse o salário de Eva, que trabalhava para uma empresa californiana a montar televisores, exposta a envenamento por chumbo, violências e violações em série para trás. Nestas fábricas (as “maquilas”) não há sindicatos. São as fábricas que resultaram dos acordos de facilidades aduaneiras. Juárez viveu primeiro do turismo gringo (desde álcool na lei seca a sexo barato), depois das fábricas gringas, e finalmente da droga para os gringos. Por toda a parte havia “passaderos” e “picaderos”. “Aqui, onde ponhas o dedo, sai sangue”, disse-me o meu anfitrião, fotógrafo bravíssimo, Julián Cardona. O pequeno comércio estava refém dos gangues. Crianças de sete anos já trabalhavam para os gangues. Pais atrás do sonho americano, mexicanos ou centro-americanos, entregavam a vida a “coiotes”, passadores de gente no deserto, para lá morrerem todos os dias. E, nesse ano de 2010, o recorde mundial de homicídios era mesmo ali, todos os dias apareciam cabeças.
 
3. Há 22 anos atravessei os Estados Unidos da América em diagonal, de Leste para Oeste, em Greyhound Buses. E nesses autocarros, onde só viajavam os sem-tecto, sem-carro, sem cartão-de-crédito, nessas paragens, nesses desvios, nessa jornada ao lado, em volta, por baixo do sonho americano, lá estava o pesadelo. Os lugares onde o resto do planeta não era real, e a Terra talvez fosse plana, e muita gente tinha alguma arma, e muita gente tinha raiva. Gente arrastando sacos de lixo com tudo o que tinha. Gente morando em carros com tudo o que tinha. Gente morando no assento de mais um Greyhound. Gente pregando com e sem bíblias. Gente obesa, esquelética, delirante, humilhada. Nova Iorque era tão longe quanto Marte. Muitas semanas depois, em Nova Iorque, o sonho americano estava tão longe de muitos quanto Marte. O sonho americano existia, tinha parques, museus, bibliotecas esplêndidas, cultura e contra-cultura, guerras pelos direitos civis. E ao lado, em volta, sobretudo por baixo ficava o pesadelo. Aquilo a que os competidores chamam oportunidade. Enquanto isso, os EUA continuavam a secar a vida a sul da fronteira. Um histórico de plantar golpes, patrocinar ditaduras, gastar os pobres, mantendo-os pobres. O lado de baixo da fronteira foi o bordel, o bar, a droga, o trabalho escravo. Em baixo o pesadelo, em cima o sonho. Um servindo o outro.
 
4. Trump não é uma erupção do nada. A grande sanduíche de sonho e pesadelo gerou Trump, e gerou os eleitores que puseram Trump na Casa Branca. No seu perpétuo balanço entre quem paga e quem lucra, quem corre e quem fica para trás, a América pendeu mais do que nunca para a escória e gerou Trump. Trump é a escória do lucro sendo a escória do lucro: ignorante, vaidosa, megalómana, surda. Um dia havia de chegar ao poder para o mundo ver o fundo da América, um dos seus próprios fundos. Crianças, bebés em jaulas, são o fundo do humano. Esse horror precisa de todo o combate, toda a acção. Muita indignação junta faz tremer, e se o planeta não se tivesse indignado era porque estávamos todos mortos. Mas o combate passa por ver, também, que não é aqui que o império americano cai, ao contrário do que críticos de Trump como Paul Krugman disseram esta semana. Porque o pesadelo americano não surgiu com Trump, nem o sonho voltará a brilhar quando Trump partir. Trump é consequência antes de ser causa, uma consequência distópica, um alerta para que a América, e o mundo, olhem para dentro, para trás. Este horror na fronteira tem história, tem raízes, os Estados Unidos da América são tanto um farol dos direitos humanos como a sua escuridão. Nos EUA, tortura é assunto de estado. Fazer guerras, destruir terras, é mato. Milhões vivem pior em muitos lugares do mundo porque os EUA lá meteram o bedelho, ou porque sustentam a violência (pensem em Gaza). Milhões vivem mal no sonho americano: pagam-no. O horror é o horror é o horror, e normalmente tem uma longa cauda.
 
Texto de Alexandra Lucas Coelho

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O PEC III e os recibos verdes no país do faz de conta

Eis que, tal como se esperava, surgiram as medidas do PEC III. Depois de dois planos de contenção e de sacrifício, de promessas infundadas, de previsões incorrectas, de mentiras contínuas, voltamos ao mesmo: mais contenção, mais sacrifício, mais mentira. Subida do IVA para um valor histórico, descidas nos salários na função pública (vá lá que de forma progressiva e só acima dos 1500€), cortes nos benefícios fiscais, agravamento do desconto para a A.D.S.E, o uso do fundo de pensões da PT para mascarar a realidade, etc, etc. E tudo isto com aquele ar de pseudo-responsabilidade, de pseudo-estadista, de pseudo-competência, de pseudo-preocupação, próprio dos mais descarados aldrabões. Enquanto isso, cresce o desemprego e a precariedade.

A propósito deste fenómeno, queria escrever umas palavras sobre uma verdadeira instituição nacional: o RECIBO VERDE. Não falo dos recibos verdes utilizados conforme manda a lei, para trabalhadores independentes, para um biscate, para uma prestação de serviços ocasional, numa lógica de opção própria, de complemento do emprego principal ou de evitar simplesmente o desemprego total. Falo dos funcionários CONTRATADOS por uma empresa para um trabalho com horário fixo, em part-time ou full-time, e que estão ILEGALMENTE a trabalhar por recibos verdes, sem quaisquer subsídios ou protecção e frequentemente com salários insultuosos. Um fenómeno mediático claro e despudorado, transversal a empregos com maior ou menor qualificação e a diversas áreas laborais (não serão quase todas?) e que incluirá naturalmente o sector da comunicação social. Aliás, essa será a razão porque não me lembro de nunca ter visto uma reportagem de fundo sobre esta matéria. Seria estúpido um media se denunciar a si próprio…


Perante isto, o que faz o Estado para punir as inúmeras empresas que agem à margem da lei. Simples: rigorosamente nada. Porque as coisas são assim, em Portugal a lei é feita para não ser cumprida. A não ser que se faça alarido, que não se tenha poder ou que se coloque em causa as instituições ou o sistema. Aí sim, vem a referência ao “Estado de Direito” (designação um tanto ou quanto irónica, quando é mantido impunemente um trapaceiro como primeiro-ministro), que a brincadeira tem limites. O verdadeiro país do faz-de-conta…


Post de João Torgal replicado do Cinco Dias

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Magalhães precário

Trabalho precário e salários abaixo da tabela na JP Sá Couto. Em apenas três meses de 2009, a JP Sá Couto cresceu 3300 por cento e tem previstas receitas de 450 milhões de euros para o corrente ano, mas em termos de emprego, a empresa que produz os computadores «Magalhães», denuncia a CDU, pratica «a pior das precariedades existente no nosso país». Os comunistas pedem, por isso, ao Governo para fiscalizar as condições de trabalho e obrigar esta empresa a alterar a sua política laboral. Em conferência de imprensa, o deputado e vereador em Matosinhos, Honório Novo, acrescentou ainda que dos cerca de 160 trabalhadores afectos à produção e montagem dos computadores Magalhães, 95 por cento são recrutados a empresas de trabalho temporário. Além disso, «recebem cerca de 100 euros abaixo da tabela». Segundo revelou a CDU, estes trabalhadores, a quem são exigidas habilitações mínimas ao nível do 12º anos, «estão a receber salários de 465 euros mensais» quando o contrato colectivo dos trabalhadores das indústrias eléctricas prevê um vencimento de 566 euros para a categoria mais baixa. O deputado Honório Novo revela que a própria administração da JP Sá couto já reconheceu, em reuniões de negociação sindical, que está a pagar de acordo com o contrato dos trabalhadores do comércio (salários são mais baixos). Mas há mais. A CDU denuncia ainda a rescisão de contrato com o único trabalhador sindcalizado da empresa, dispensando-o de comparecer no local de trabalho, apesar de lhe pagar até final de Agosto, e a compra da Micromáquinas por parte da JP Sá Couto, com o propósito «de a extinguir e fazer desaparecer um concorrente». «Encerrou a empresa e extinguiu 37 postos de trabalho», precisou Honório Novo. Perante estes dados, a que se juntam outros já conhecidos e denunciados pela CDU, os comunistas exigem que a JP Sá Couto, tantas vezes «bandeira do Governo», «apontada como exemplo pelo primeiro-ministro», e merecedora de todo o apoio, «de forma única e privilegiada», do «poder central e também local (Matosinhos)», seja também «um exemplo na forma como trata os seus trabalhadores». Não se compreende, continua Honmório Novo, que uma empresa que «conta com José Sócrates como um dos seus principais agentes de marketibng, tenha um comportamento tão inaceitável e indigno nas relações com os seus trabalhadores». Este deputado comunista, assim como o deputado da Assembleia Municiapal de Matosinhos, José Pedro Rodrigues, pedem ao primeiro-ministro e ao ministro do Trabalho que ordenem com urgência «uma fiscalização completa e rigorosa da Autoridade para as condições de Trabalho» e que obriguem a JP Sá Couto a acabar ou reduzir «de forma drástica a precariedade laboral existente» e a repor a legalidade salarial, seguindo o que está estabelecido no contrato colectivo dos trabalhadores das indústrias eléctricas. Quanto ao terreno que a autarquia de Matosinhos vai ceder por mais de duas décadas à JP Sá Couto para que esta aumente a capacidade instalada e promova o emprego, Honório Novo desafia o poder local a suspender o contrato de cedência, até que as condições laborais e remuneratórias sejam alteradas. (IOL)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Portugal, o país dos paradoxos...

No programa eleitoral do PS, José Sócrates promete acabar com os falsos recibos verdes na Função Pública. Cristina Andrade, da Associação Ferve (Fartos destes Recibos Verdes) denuncia «o paradoxo» de que na própria Autoridade para as Condições do Trabalho a lei está a ser violada. Um total de 22 juristas que trabalham na Autoridade para as Condições de Trabalho denunciam uma situação que consideram «vergonhosa», dizem que não têm contrato de trabalho e afirmam que são falsos recibos verdes. (TSF)