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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Revolução de Outubro está morta ?



No dia 7 de novembro de 1917, há cem anos, não havia verdadeiras democracias no mundo. Nos países onde se faziam eleições para o poder legislativo só uma pequena parte do povo tinha direito a voto: na maior parte dos casos só os proprietários, os empregados, os mais velhos ou alfabetizados é que podiam votar. Onde não havia ditaduras formais só uma pequena parte da população era chamada a decidir o futuro coletivo.

Na Inglaterra, tantas vezes descrita como a mais avançada das democracias europeias, os homens só tiveram acesso geral ao voto em 1918 e as mulheres, depois de 30 anos de manifestações reprimidas nas ruas, só o teriam em 1928.

Em França as mulheres só puderam votar em 1944, apesar de a Revolução Francesa, a da igualdade e da fraternidade, ter como símbolo uma mulher e de o voto dos homens para elegerem um parlamento ter começado em 1792 e dos homens não brancos em 1916.

Nos Estados Unidos os homens brancos podiam votar desde 1856, as mulheres desde 1920, os nativos desde 1924 mas, em resultado da dura luta dos afro-americanos contra a segregação, a universalidade do voto chegou à "terra dos homens livres" somente em 1965, já grande parte de nós era nascida.

Em Portugal o voto só foi verdadeiramente universal em 1974, graças à Revolução dos Cravos, pois boa parte da população estava proibida de ir às urnas, mesmo na República, antes do fascismo.

No dia 7 de novembro de 1917, há cem anos, os bolcheviques tomaram o poder na Rússia e herdaram o voto universal instituído pelo governo provisório da revolução de fevereiro. A Rússia não foi a primeira: na Nova Zelândia, na Finlândia, na Noruega e na Dinamarca isso já acontecia. Democracia no mundo em 1917? Não, não havia.

A Rússia bolchevique juntou à noção de direito de voto universal muitos outros de sua lavra: habitação, assistência médica e educação gratuitas, legalizou-se o divórcio, terminou a distinção entre filhos legítimos e ilegítimos, promoveram-se direitos das crianças e dos idosos, proibiu-se o trabalho infantil, as jornadas de trabalho foram limitadas a oito horas diárias, houve férias pagas, segurança social, estabeleceu-se salário igual para trabalho igual entre homens e mulheres. Quase ninguém no mundo tinha leis destas...

Os países de sistema capitalista encontraram um adversário que entusiasmava e mobilizava milhões de operários, empregados, intelectuais, professores, estudantes, homens e mulheres explorados, oprimidos, sem voz. Ao longo dos 70 anos seguintes, até à queda da União Soviética, muitos países capitalistas, pressionados pela competição com o campo socialista e pela luta dos deserdados da fortuna dos seus países, concederam inúmeros direitos políticos e sociais que hoje consideramos naturais.

Sim, os crimes contra a humanidade que se praticaram em nome do socialismo - tal como os dos capitalismo - são imperdoáveis. Mas isso não conta toda a história: uma boa parte das melhorias civilizacionais do planeta estão associadas ao desafio colocado pela primeira tentativa de construir uma sociedade sem explorados nem exploradores - e só assim as melhores democracias capitalistas caminharam para o que hoje são. Até no simples voto...

A denunciante mais talentosa da degradação do "comunismo real" é Svetlana Alexievich, a prémio Nobel da Literatura que escreveu O Fim do Homem Soviético. Mas até ela resolveu dizer isto a um jornal português: "O comunismo era uma ideia boa, bonita, no início. E acho que não está morto. O comunismo vai voltar, mais à frente no tempo..." A Revolução de Outubro faz hoje 100 anos mas, segundo Svetlana, a anti-soviética, o seu espírito não morreu... Espanto?


Artigo de Pedro Tadeu no Diário de Noticias

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

As revoluções no centenário de Outubro

Se há atitude que diz muito do ciclo de desdemocratização em que vivemos é, aliás, este regresso da velha abordagem que procura o cabecilha, em vez de entender o movimento.


Foi o acontecimento central da história do séc. XX”, dizia Eric Hobsbawm (A Era dos Extremos, 1994), “da mesma forma como a Revolução Francesa o foi do séc. XIX”. Sendo puros produtos da modernidade ocidental, em toda a sua contradição interna, a qual ajudaram a transformar como nenhum outro processo político, ambas foram transformadas em objetos históricos malditos por todas as direitas do mundo, que as tentaram desocidentalizar como se, numa rançosa lógica colonial, elas não fossem mais do que processos de mudança tumultuária às mãos de massas ignorantes e fanatizadas. Entre a francesa de 1789 e a russa de 1917, Hobsbawm via uma diferença fundamental: 1917 “teve repercussões muito maiores e que se prolongaram por muito mais tempo” do que 1789. “A Revolução de Outubro suscitou o maior, de longe, movimento revolucionário organizado da história moderna”, fazendo com que “ao fim de apenas 30 ou 40 anos da chegada de Lenine à estação da Finlândia em Petrogrado”, em abril de 1917, “um terço da humanidade vivesse sob regimes que decorriam diretamente dos ‘Dez dias que abalaram o mundo’”, como lhes chamou John Reed. De uma forma ou doutra, todos os movimentos emancipatórios do séc. XX se inspiraram nos bolcheviques, na sua luta contra o capitalismo e o imperialismo como modelos de dominação, na Alemanha, na Hungria ou no México dos anos 1917-23, na Espanha de 1936-39, nas resistências antifascistas da II Guerra Mundial, na China de 1949, em Cuba (1959) e nas lutas anticoloniais, até mesmo no Portugal de 1974-75, como tantas vezes Soares achou... Ao contrário da Revolução Americana de 1776, que manteve intactas escravatura e supremacia racial e que abriu caminho à colonização genocida de toda a América do Norte, as revoluções francesa e russa inspiraram durante décadas por todo o mundo movimentos de emancipação das classes exploradas e das minorias étnicas, mas só a russa se lançou na democratização radical da propriedade e, por exemplo, na emancipação das mulheres ou das minorias de orientação sexual. Como escreveu Moshe Lewin (O Século Soviético, 2005), “as representações do sistema soviético” reproduzidas no Ocidente, “largamente influenciadas pelas realidades ideológicas e políticas de um mundo bipolar”, baseadas em “juízos fundamentalmente ideológicos”, têm, desde sempre, impedido avaliar com rigor a dimensão social e cultural do projeto soviético. A sobrepolitização da análise do sistema soviético levou — e leva ainda — a que se “estude a URSS exclusivamente no seu estatuto de Estado ‘não democrático’ e se discuta o que não era, em vez de tentar compreender o que era”.

Na era do medo e do choque como instrumentos de gestão política (Naomi Klein), é revelador que a patologização das revoluções como processos de mudança tenha desenterrado as formas mais preconceituosas de encarar a história. Entre os piores vícios de análise das revoluções que por aí campeiam neste centenário de 1917 estão, antes de mais, essa essencialização da violência como caraterística genética da Rússia e da sua cultura, ou a ideia de que as revoluções, mais do que resultado da ação e da tomada de posição de grandes atores coletivos e da intersecção de tendências profundas (que maçada ter de as estudar...), são produto da manipulação de revolucionários profissionais, de líderes sobre-humanos (Lenine, Estaline) descritos como protagonistas da violência ideocrática, e, portanto, atores sociais desligados do conjunto da sociedade. Da mesma forma que as teses tradicionais da sovietologia ocidental (sobretudo Robert Conquest, 1968) e o próprio discurso oficial da URSS pós-estalinista e da Rússia pós-soviética elevaram Estaline ao altar de “tirano sanguinário empenhado em conseguir o poder total”, dessa forma “esquivando-se ao desafio narrativo de ter de dar conta da variedade das vítimas e dos perpetradores e desentranhar a complexa história da violência política na URSS” (James Harris, O Grande Medo, 2016), o discurso que se tem produzido no centenário continua a falar da “Revolução de Lenine”, que, por essa mesma autoria individual, não teria sido “uma marcha de forças sociais abstratas e de ideologias” (Orlando Figes, A Tragédia de Um Povo, 1996). Se há atitude que diz muito do ciclo de desdemocratização em que vivemos é, aliás, este regresso da velha abordagem que procura o cabecilha, em vez de entender o movimento.

Artigo do Manuel Loff no Público

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Outubro salvou a Humanidade

Em finais de 1941, as forças fascistas dominavam a Europa continental, da Península Ibérica até às portas de Moscovo. Aos comunistas e à URSS coube a cara tarefa de lutar contra o nazi-fascismo e salvar a Humanidade. 



A 27 de Janeiro de 1945, as tropas soviéticas libertaram o campo de concentração de Auschwitz
Créditos

Na Segunda Guerra Mundial, a URSS assumiu o papel determinante de derrotar o nazi-fascismo, num processo que o povo soviético designou como a «Grande Guerra Pátria».

Em Junho de 1941, com as mais poderosas forças militares até então conhecidas na história, a Alemanha invade a URSS. As divisões nazis avançam até Moscovo, onde tem lugar a primeira grande batalha em Setembro de 1941, Estalinegrado e Leninegrado, alvo de um cerco de cerca de 900 dias.

Momento fundamental de viragem na guerra foi a batalha de Estalinegrado, entre Novembro de 1942 e Fevereiro de 1943, na qual foram aniquiladas 20 divisões alemãs com mais de 330 mil militares.

Na contra-ofensiva soviética tiveram lugar outras importantes batalhas, entre as quais a batalha de Kursk (em Julho-Agosto de 1943), uma das maiores da história, onde foram aniquiladas 50 divisões, que possibilitou o contínuo avanço do Exército Vermelho até Berlim; a libertação do Campo de Concentração de Auschwitz, a 27 de Janeiro de 1945; e a tomada do Reichstag, a 8 de Maio de 1945.

A batalha pela produção de armamento foi ganha pela transferência maciça de empresas da indústria pesada e de mão-de-obra para os Urais, que, a par da formação de operários qualificados, possibilitou o crescimento exponencial na produção de aviões, tanques e canhões, suplantando a produção alemã no mesmo período. 

Na obra The wages of destruction – The making & breaking oh the nazy economy, sobre a história económica da Alemanha nazi, Adam Tooze, refere que, «apesar de ter sofrido perdas territoriais e devastação, que se traduziu numa quebra de 25% do produto nacional total, a União Soviética, em 1942, conseguiu produzir mais do que a Alemanha em quase todas as categorias de armamentos». 

Importa recordar que, só depois da Conferência de Teerão (de Estaline com Churchill e Roosevelt), nos finais de 1943, em que se tornou evidente que, com o avanço do Exército Vermelho, a União Soviética estava em condições e a caminho de libertar a Europa com as suas próprias forças, as tropas britânicas e norte-americanas desembarcaram na Normandia em 6 de Junho de 1944.

No seguimento da II Guerra Mundial e do decisivo contributo da URSS para a vitória sobre o nazi-fascismo, alterou-se profundamente a correlação de forças no plano mundial, dando origem a uma nova ordem democrática e antifascista, que inscreveu na Carta das Nações Unidas o respeito pela soberania dos povos, o desarmamento, a solução pacífica e negociada de conflitos entre estados.

A violação destes princípios pelo imperialismo levou ao desencadeamento da chamada «guerra fria», obrigando a URSS a um grande esforço para se dotar do mais moderno e avançado armamento, dando origem a um forte poder militar que permitiu conter a agressividade do imperialismo e criou condições mais favoráveis à luta pela paz e pela libertação dos povos do domínio colonialista e imperialista, de que foi expressão a Revolução de Abril de 1974, em Portugal.

Também na Conferência de Paz de Helsínquia para a Segurança e Cooperação Europeia, concluída em 1975, o papel decisivo da URSS permitiu alcançar importantes acordos de desarmamento e tratados para a limitação das armas nucleares. 

Se a Revolução de Outubro e a construção de uma sociedade socialista significaram extraordinários avanços e transformações libertadoras, o desaparecimento da URSS e as derrotas do socialismo no Leste da Europa resultaram num grande salto atrás nos direitos e conquistas dos trabalhadores e dos povos.

O desastre económico e social da contra-revolução 
O imperialismo desencadeou uma violenta ofensiva a fim de recuperar as posições perdidas ao longo do século XX e impor a sua hegemonia no plano mundial. Como resultado, o mundo tornou-se menos democrático, mais injusto e mais perigoso, tendo-se aprofundado as injustiças e desigualdades sociais.

Desde a proclamação da derrota do socialismo, nos países que constituíam a URSS registam-se mais de 100 milhões de pobres, a esperança média de vida diminuiu e observou-se uma enorme recessão, com contracções do PIB e da produção industrial na ordem dos 50%.

A nova realidade abriu portas a guerras imperialistas (caso da ex-Jugoslávia) e à instauração de regimes ditatoriais e fascistas, como actualmente na Ucrânia.

A nível global, generalizaram-se as acções de desestabilização e as guerras de agressão, tendo-se instituído o ataque a liberdades e direitos fundamentais com a NATO e outros pactos agressivos.

Por outro lado, poderosas multinacionais passaram a comandar Estados e regiões inteiras, e novas formas de exploração foram sendo ensaiadas, aprofundando-se o fosso entre ricos e pobres.

A pobreza, a fome e a doença dominam vastas regiões do planeta, onde a exploração do trabalho infantil, o trabalho escravo, o tráfico de seres humanos, o comércio da droga, a corrupção e outras chagas do capitalismo não param de alastrar.

Com o argumento do combate ao terrorismo generalizaram-se políticas e medidas securitárias que interferem com direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos, da mesma forma que crescem os ataques ao movimento operário e sindical, e germinam forças xenófobas, racistas e fascistas.


No quadro de consequências políticas resultantes do imperialismo surge também o maior movimento de refugiados no pós-2.ª Guerra Mundial, a par da morte de milhares de pessoas no Mediterrâneo.
__________________________________________________
1. Rede internacional de organizações que trabalham para reduzir a pobreza
2. Organização das Nações Unidas
3. Organização Internacional do Trabalho
4. Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico
5. Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)




Fonte: Abril Abril

terça-feira, 7 de novembro de 2017

1917-2017: Cem anos de uma Revolução que muitos desejam efémera


A 7 de Novembro de 1917 (25 de Outubro no antigo calendário russo) apontou-se pela primeira vez na história uma sociedade de seres humanos livres e iguais. O projecto foi interrompido, mas o que o justificou não.

A partir do século XIX, com o ascenso do proletariado como nova força social, o sonho e a utopia deram lugar a um projecto político e de transformação social, no sentido da eliminação de todas as formas de exploração e opressão.


Nascia assim a resposta à primeira grande crise gerada pelo imperialismo, materializada nos milhões de mortos e na destruição provocados pela I Guerra Mundial. Por muitos artigos que se escrevam a desmerecer a sua importância e a asfixiá-la num período da história, a actualidade demonstra que nela reside o futuro e a esperança dos homens e mulheres que não aceitam a exploração como sistema. 

Foi na Rússia semi-feudal, dominada pelo poder autocrático e repressivo dos czares e da mais alta nobreza, com mais de cem nacionalidades oprimidas, conhecida como «prisão dos povos», destruída pela I Guerra Mundial, com um povo fustigado pela exploração, a repressão, a pobreza, a fome e o analfabetismo, que surgiu a 7 de Novembro de 1917 (25 de Outubro no antigo calendário russo) a Revolução de Outubro.

O proletariado russo, liderado pelo Partido Bolchevique, tomava nas mãos o seu destino, conquistando o poder e levando por diante o projecto de uma nova sociedade, com o objectivo de pôr fim à exploração do homem pelo homem.

Iniciava-se a construção de uma nova sociedade de seres humanos livres e iguais, que havia de marcar profundamente a vida mundial pelos êxitos, conquistas, realizações, exemplo e experiências deste empreendimento revolucionário.

Os grandes progressos verificados – direitos dos trabalhadores e dos povos em geral, políticas sociais, derrota do nazi-fascismo e libertação de países do jugo colonial – são inseparáveis da Revolução de Outubro, dos seus ideais e valores, da solidariedade política, diplomática, económica e militar da União Soviética para com a luta dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo.

O século XX fica marcado pela Revolução de Outubro, pelo poder político dos trabalhadores e pela construção duradoura, pela primeira vez na história, de uma sociedade sem exploradores nem explorados. A Revolução de Outubro é a concretização prática da aspiração secular do homem – a sua libertação social e humana.

Durante mais de meio século, o socialismo ganhou terreno como alternativa ao sistema capitalista. A edificação do novo Estado significou a instauração de um verdadeiro e genuíno poder popular, uma nova forma de democracia participativa – os sovietes, um fulgurante desenvolvimento económico (na indústria e na agricultura), desenvolvimento social e grandes descobertas e avanços na ciência e nas novas e revolucionárias tecnologias.


A construção da nova sociedade defrontou, porém, dificuldades e obstáculos superiores aos que previram os seus pioneiros. Com o desaparecimento da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e do socialismo como sistema mundial, o capitalismo tornou mais evidente a sua natureza com os brutais retrocessos na vida de milhões de seres humanos e o mundo mais exposto às tentativas de imposição de uma nova ordem ao serviço das potências imperialistas não olhando a meios para atingir os seus objectivos.


Fonte: Abril Abril

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Obama contra Trump, Putin e Erdogan: Golpes podem derrotar governos eleitos

Introdução            
Washington organizou uma campanha sistemática, global e ilimitada para expulsar o candidato presidencial republicano, Donald Trump, do processo eleitoral. O virulento ânimo anti-Trump, os métodos, os objectivos e os mass media assemelham-se a regimes autoritários a prepararem-se para derrotar adversários políticos.

Esforços de propaganda comparáveis levaram a golpes políticos no Chile em 1972, no Brasil em 1964 e na Venezuela em 2002. As forças anti-Trump incluem partidos políticos, um juiz do Supremo Tribunal, banqueiros da Wall Street, jornalistas e editorialistas de todos os media mais importantes e os principais porta-vozes militares e da inteligência.

O violento e ilegal esbulho de Trump por Washington é parte integral de uma vasta campanha mundial para o derrube de líderes e regimes que levantem questões acerca de aspectos das políticas imperiais dos EUA e UE.

Trataremos de analisar a política da elite anti-Trump, os pontos de confrontação e propagada, como um prelúdio para impulsionar remover oposição na América Latina, Europa, Médio Oriente e Ásia.

O golpe anti-Trump            
Nunca na história dos Estados Unidos um Presidente e um Juiz do Supremo Tribunal advogaram abertamente o derrube de um candidato presidencial. Nunca a totalidade dos mass media empenhou-se dia e noite numa propaganda unilateral para desacreditar um candidato presidencial ao sistematicamente ignorar ou distorcer as questões sócio-económica centrais da sua oposição.

O apelo ao derrube de um candidato eleito livremente é nada mais, nada menos do que um golpe de estado.

As principais redes de televisão e colunistas pedem que as eleições sejam anuladas, seguindo a pista do Presidente e de líderes eminentes do Congresso e dos partidos republicano e democrata.

Por outras palavras, a elite política rejeita abertamente processos eleitorais democráticos em favor da manipulação autoritário e do engano. A elite autoritária confia na ampliação de questões terciárias, em discutíveis apelos de julgamento pessoal a fim de mobilizar apoiantes para o golpe.

Eles evitam sistematicamente as questões económicas e políticas centrais que o candidato Trump levantou – e atraíram apoio maciço – as quais desafiam políticas fundamentais apoiadas pelas elites dos dois partidos.

As raízes do golpe anti-Trump             
Trump levantou várias questões chave que desafiam a elite democrata e republicana.    
Trump atraiu apoio de massa e ganhou eleições e inquéritos de opinião pública ao:       
  1. Rejeitar os acordos de livre comércio que levaram grandes multinacionais a se relocalizarem no exterior e desinvestirem em empregos industriais bem pagos nos EUA.        
  2. Apelar a projectos de investimento público em grande escala para reconstruir a economia industrial dos EUA, desafiando o primado do capital financeiro.        
  3. Opor-se à ressurreição da Guerra Fria com a Rússia e a China e promover maior cooperação económica e negociações.        
  4. Rejeitar o apoio dos EUA à acumulação militar da NATO na Europa e à intervenção na Síria, África do Norte e Afeganistão.        
  5. Questionar a importação de trabalho imigrante, o qual reduz oportunidades de emprego e salários para cidadãos locais.
A elite anti-Trump evita sistematicamente debater tais questões; ao invés disso distorce a substância das políticas.

Ao invés de discutir os benefícios no emprego que resultarão do fim das sanções à Rússia, os que tramam o golpe berram que "Trump apoia Putin, o terrorista".

Ao invés de discutir a necessidade de redirigir investimento interno para criar empregos nos EUA, a junta anti-Trump fala por clichés a afirmarem que a sua crítica da globalização "minaria" a economia dos EUA.

Para denegrir Trump, a junta Clinton/Obama recorre a escândalos políticos para encobrir crimes políticos em massa. Para distrair a atenção pública, Clinton-Obama afirmam falsamente que Trump é um "racista", apoiado por David Duke, um advogado racista da "islamofobia". A junta anti-Trump promoveu os pais estado-unidenses-paquistaneses de um militar abatido em guerra como vítima das calúnias de Trump mesmo quando eles aplaudiam Hillary Clinton, promotora de guerras contra países muçulmanos e autora de políticas militares que remeteram milhares de soldados americanos para a sepultura.

Obama e Clinton são os racistas imperiais que bombardearam a Líbia e a Somália e mataram, feriram e deslocaram mais de 2 milhões de africanos negros ao sul do Saara.

Obama e Clinton são os islamófobos que bombardearam e mataram e expulsaram cinco milhões de muçulmanos na Síria e um milhão de muçulmanos no Iémen, Afeganistão, Paquistão e Iraque.

Por outras palavras, a política errada de Trump de restringir a imigração muçulmana é uma reacção ao ódio e à hostilidade engendrada por Obama e Clinton com o genocídio de um milhão de muçulmanos.

A política "America First" de Trump é uma rejeição de guerras imperiais além-mar – sete guerras sob o governo Obama-Clinton. Suas políticas militaristas incharam défices orçamentais e degradaram padrões de vida nos EUA.

A crítica de Trump à fuga de capitais e de empregos ameaçou a locupletação de mil milhões de dólares por parte da Wall Street – a razão mais importante por trás do esforço bi-partidário da junta para afastar Trump e o apoio que tem da classe trabalhadora.

Ao não seguir a agenda de guerra bi-partidária da Wall Street, Trump esboçou uma outra agenda que é incompatível com a estrutura actual do capitalismo. Por outras palavras, a elite autoritária dos EUA não tolera as regras democráticas do jogo mesmo quando a oposição aceita o sistema capitalista.

Além disso, a busca de Washington do "poder único" estende-se através do globo. Governos capitalistas que decidam seguir políticas externas independentes são alvos para golpes.

A junta Obama-Clinton torna-se frenética            
O golpe contra Trump proposto por Washington segue políticas semelhantes àquelas dirigidas contra líderes políticos na Rússia, Turquia, China, Venezuela, Brasil e Síria.

O presidente russo, Putin, foi demonizado diariamente pelos media de propaganda dos EUA durante quase toda uma década. Os EUA apoiaram oligarcas e promoveram sanções económicas; financiaram um golpe na Ucrânia; instalaram mísseis nucleares na fronteira da Rússia e lançaram uma corrida armamentista para minar políticas económicas do Presidente Putin a fim de provocar um golpe.

Os EUA apoiaram o "governo invisível" do seu apaniguado (proxy) gulenista no golpe fracassado para derrubar o Presidente Erdogan, por este deixar de adoptar totalmente a agenda dos EUA para o Médio Oriente.

Da mesma forma, Obama-Clinton apoiaram golpes bem sucedidos na América Latina. Foram orquestrados golpes em Honduras, Paraguai e mais recentemente no Brasil para minar presidentes independentes e assegurar regimes neoliberais satélites. Washington apressa-se para impor à força o derrube do governo nacional-populista do Presidente Maduro, na Venezuela.

Washington aumentou seus esforços para desgastar, minar e derrubar o governo do Presidente Xi-Jinping, da China, através de várias estratégias combinadas. Uma acumulação militar de uma força de ar e terra no Mar do Sul da China e bases militares no Japão, Austrália e Filipinas; agitação separatista em Hong Kong, Formosa e entre os uigures; acordos comerciais de livre comércio entre EUA, América Latina e Ásia que excluem a China.

Conclusão            
A estratégia de Washington de golpes ilegais e violentos para manter a ilusão de império estende-se através do globo, indo desde Trump nos EUA a Putin na Rússia, desde Erdogan na Turquia a Maduro na Venezuela e Xi Jinping na China.

O conflito é entre o imperialismo dos EUA-UE apoiado pelos seus clientes locais contra regimes endógenos enraizados em alianças nacionalistas.

A luta é contínua e prolongada e ameaça minar o tecido político e social dos EUA e da União Europeia.

A principal prioridade para o Império estado-unidense é minar e destruir Trump por quaisquer meios. Trump já levantou a questão de "eleições manipuladas" ("rigged elections"). Mas a cada ataque dos media da elite a Trump parece aumentar e fortalecer seu apoio de massa e polarizar o eleitorado.

Quando as eleições se aproximam, será que a elite se limitará à histeria verbal ou passará dos assassínios verbais para os de "outra espécie"?

A estratégia global do golpe de Obama mostra resultados mistos: eles tiveram êxito no Brasil mas foram derrotados na Turquia; eles tomaram o poder na Ucrânia mas foram derrotados na Rússia; eles ganharam aliados de propaganda em Hong Kong e Formosa mas sofreram graves derrotas económicas estratégicas na região quando a China avançou políticas comerciais asiáticas.

Quando as eleições estado-unidenses se aproximam, e o legado imperial perseguido por Obama entra em colapso, podemos esperar maiores fraudes e manipulações e talvez mesmo o recurso frequente a assassínios daqueles que a elite designa como "terroristas".        

      
O original encontra-se em http://petras.lahaine.org/?p=2096            
Fonte: 
http://resistir.info/ 

terça-feira, 6 de maio de 2014

A voz do dono

 
No conflito ucraniano, as grandes vítimas são a população daquele país, mas a primeira foi a verdade jornalística. Há muito que os media não fazem mais que propaganda.
 
Um assassinato é um assassinato, aqui ou na China. O que é uma verdade cristalina parece escapar a grande parte do chamado jornalismo de referência. Em muitos media reina a ideia orweliana de que as pessoas são todas iguais mas há umas muito mais iguais que outras.

No dia 2 de Maio realizou-se uma manifestação pela unidade da Ucrânia na cidade de Odessa. Integraram essa marcha milhares de pessoas, entre as quais 1500 ultras de claques de futebol, armados, muitos vindos da parte ocidental do país. Durante a manifestação verificaram-se confrontos violentos com grupos que são contra o governo de Kiev, que atacaram a marcha. Na sequência desses incidentes, milhares de manifestantes independentistas ucranianos queimaram um acampamento de activistas contra o governo de Kiev, vulgarmente designados "pró-russos", perto da sede da união dos sindicatos locais. As pessoas que estavam no acampamento refugiaram-se na sede do sindicato, que foi atacada com cocktails-molotov lançados pelos independentistas. Foram queimadas vivas mais de 40 pessoas, fala-se de 42 a 46 vítimas, perante a passividade da polícia e a inacção dos bombeiros. A polícia, actuando às ordens das autoridades de Kiev, prendeu activistas pró-russos que escaparam à fornalha. Dias depois, milhares de manifestantes libertaram os sobreviventes do massacre. O jornal "Público" reza a esse respeito: "Cerca de 30 militantes separatistas que estavam detidos no quartel-general da polícia de Odessa, sob suspeita de envolvimento nos violentos confrontos de sexta-feira que fizeram mais de 40 mortos, foram libertados na sequência de ataque surpresa de activistas pró-russos." Neste texto, igual ao da maior parte dos jornais e televisões, escamoteia-se o essencial: quem matou e quem foi morto. Em nenhum local dessas notícias é dito o óbvio: foram assassinados mais de 40 opositores ao governo de Kiev por manifestantes armados, afectos às forças que apoiam o governo ucraniano, nomeadamente os sectores nazis ligados ao Svoboda e ao Sector das Direitas. Apesar de os factos serem indesmentíveis, a comunicação social ocidental relatou o acontecido com a seguinte grelha de leitura : "No decorrer de incidentes entre pró-russos e independentistas ucranianos morreram mais de 40 pessoas. As autoridades de Kiev acusam Moscovo de infiltrar elementos nos activistas pró-russos e orquestrar uma provocação." Estamos perante um crime, aqui, na Ucrânia ou no deserto do Sara, mas os jornalistas de turno ignoram-no.

Artigo de Nuno Ramos de Almeida no i

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Europa reocupada

A República Federal da Alemanha absorveu a República Democrática Alemã. Aumentou a massa corporal e muscular. A reincorporação não ocorreu por magia, não obstante a Conversão da Rússia constar dos apostolados. O milagre teve os seus agentes e artífices: na sombra, operou a inteligência germano-americana; à luz do dia, actuou o complexo mediático; e como seguro contra todos os riscos da blitzkrieg 89, a camarilha da Perestroika desguarneceu as muralhas do Kremlin. Até acreditou ou simulou acreditar na promessa de que a NATO jamais integraria estados e regiões da área de influência e segurança da URSS. O ataque-relâmpago do Novo Eixo mereceu tratamento de visita guiada. Gorbachev confessou (sem pingo de rubor) que, no Ocidente, à excepção dos USA, todos estavam contra a queda do muro e a reunificação, desde Thatcher a Andreotti, a Mitterrand: Todos vieram até mim, um após o outro, pedindo isso. Mitterrand era ferozmente contrário. Mais esperto do que os outros, dizia: “Amo a Alemanha de tal forma que prefiro ter duas” Só depois, quando tudo se precipitou, todos assinaram. [1] Os amigos ocidentais (ingleses, italianos, franceses, etc.) chegaram a implorar que o Exército Vermelho esmagasse o levantamento. Contudo, o Actor Principal da Glasnost , capitulacionista de salão e padecente da doença infantil do capitalismo, deu ouvidos ao interlocutor de facto. Genuflectiu como se uma superpotência real não tivesse argumentário. O valentaço Gorby foi o mesmo que, anos antes, noutra entrevista, declarou, visando a marioneta Ieltsin: Temos uma Rússia fraca e um presidente fraco. [2] Quanto à Europa NATO/UE, resmunga e amua mas não passa de pátio dianteiro dos USA, recomendável para acampamentos do Pentágono, estações e prisões da CIA, mobilizações predatórias, vendas de armas e pacotes de propaganda, jogos bolsistas e fundistas, colocação de apples, googles, cineprodutos, transgénicos, fármacos, heroína do Afeganistão e cocaína da Colômbia (demarcações da Esfera político-militar USA). O narcomercado é um dos super-negócios do planeta. Os USA são o guardião- dealer. Na definição dos interesses vitais e dispositivos da sua manutenção, não admira, pois, que a chamada Europa não tenha nem esteja autorizada a ter política de defesa nem política externa fora dos varais e canais dos USA, embora a sede da NATO e a sede da UE, irmãs gémeas, se encontrem na mesma cidade (Bruxelas), com moradas autónomas para fingir independência ou disfarçar que não são geridas desde Washington. Dominique Villepin, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo primeiro-ministro de França, desabafou (cito de memória), num momento de franqueza e finura de guilhotina: Não há NATO. Há generais americanos. A própria Alemanha está sob tutela do patrono atlântico: os USA mantêm em solo alemão cerca de 60 mil efectivos e 227 bases, algumas dotadas de bombas nucleares. As instalações norte-americanas funcionam ainda como parabólicas de espionagem, constituindo a nação-hospedeira um dos alvos. A Alemanha é um ocupante-ocupado, como Portugal foi um colonizador-colonizado. De resto, na linha de reactualização e reconfiguração do Eixo (também o Japão se acha ocupado pelos USA), que aí dispõem de 50 mil efectivos em 135 bases, algumas equipadas com cargas atómicas. A Alemanha e o Japão jazem sob o dicktat dos USA, que lhes distribui guiões e fixa taxas de empenhamento no tarefário geo-estratégico, particularmente no cerco à Rússia e à China. O Império norte-americano não levanta ferro. Nem sequer entreabre a cortina.
Muro na Palestina.
Muro da vergonha
Caiu em Berlim
Vergonha só lá
Muros há sem fim [3]

O mundo estava cortado e recortado por altos e grossos muros e continuou a levantar vedações de betão, arame farpado, cabos eléctricos e torres de metralhadoras, mas só um foi apodado de vergonhoso. Todavia, convém destapar outras barreiras, as credoras de aplauso, de compreensão, tolerância ou esquecimento da comunidade internacional, tão proficientemente facetada e discricionariamente representada pelos USA e pelos seus carros de guerra psicológica, as televisões, as rádios, os jornais. Eis uma lista de muros deixados em paz pelas chancelarias e pelos agitadores de direitos universais: USA-México, Índia-Bangladesh, Índia-Paquistão, Índia-Birmânia, Paquistão-Afeganistão, Marrocos-Sara Ocidental, Botsuana-Zimbábue, Coreia do Sul-Coreia do Norte, China-Coreia do Norte, Uzbequistão-Quirquistão, Irão-Paquistão, Arábia Saudita-Iraque, Israel-Cisjordânia, Israel-Líbano, Egipto-Gaza, Grécia-Turquia, Chipre (divisória greco-turca), Ceuta/Melilla (Espanha), Belfast (Irlanda do Norte), Bagdad (Iraque), La Molina (Peru), Rio de Janeiro (Brasil). Todos se encontram de pé e prometem durar e perdurar. Inadiável era a queda do Muro de Berlim, prenúncio aparatoso e ruidoso do desabamento da URSS e do bloco socialista. Festejável com música rock, tanques de cerveja, pichagens alucinogénias. Vinte anos depois, enquanto os redesenhadores de mapas e as trupes do Wall Show celebravam a efeméride, a população da ex-Alemanha Democrática sentia o ferrete da anexação ou reunificação. [4]

 

IV Reich em acção

Demolido o muro, riscada do planisfério a Alemanha socialista, a Alemanha capitalista e imperialista encetou o desarme das alfândegas continentais, acobertando-se sob as vestes da confraria europeia: instituiu a livre circulação de capitais; fixou taxas de câmbio irrevogáveis; fez entrar o marco em circulação com nome de euro, assim se posicionando como player nos mercados de divisas e condicionando as exportações, especialmente dos países do Sul/Leste; desestruturou as actividades concorrenciais (desmantelamento e deslocalização de indústrias, abate de frotas pesqueiras, subsídios de funeral para as agriculturas). De seguida, a Nova Alemanha, a que carrega 100 milhões de mortos (contabilidade do séc. XX) e uma vasta geografia de ruínas, acelerou a reocupação dos submetidos na II Grande Guerra. Só a Noruega resistiu. Acertaram o passo com o ex-ocupante: Áustria, Bélgica, Bulgária, Checoslováquia (República Checa e Eslováquia), Dinamarca, Estónia, França, Grécia, Hungria, Itália, Jugoslávia (Croácia/ Eslovénia/ Macedónia/ Sérvia/ as duas últimas à espera que o ex-ocupante aceda ao pedido de reocupação), Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Mónaco, Holanda, Polónia, República Checa, San Marino, Ucrânia (a caminho da reocupação). Paralelamente, o IV Reich foi ornando o cinturão de caça com uma série de troféus que no período do III Reich haviam demonstrado comportamento de bons alunos : Espanha, Finlândia, Portugal, Roménia. Há igualmente que inscrever a zona grega do Chipre e a República de Malta na Cartografia da Grande Guerra Financeira. Pelo meio, com a Alemanha Democrática reintegrada, dissolvida e recentrada, a Germânia liderou a desintegração da República Federativa da Jugoslávia, que tinha de levar uma ensinadela por se manter não-alinhada, soberana e socialista. O Curso de PatroNATO durou de 24/03/ a 11/06 de 1999, sem mandato das Nações Unidas, a pretexto de instantes razões humanitárias. O programa NATO School incluiu escombros generalizados e selectivos, doses de urânio empobrecido com certificado de garantia para centenas de milhares de anos, extensas manchas de sangue e lágrimas e a imposição de um estado fantoche e artificial (Kosovo), com uma super-base USA, governado com savoir-faire pelo mundo do crime (local e sem fronteiras).

Wehrmacht do Euro

O Euro é o Marco do Neo-Expansionismo. Na guerra económico-financeira, os Estados do Sul, previamente desarmados, entre a espada da moeda forte e a parede da economia fraca, tentaram o salto em frente, seduzidos pelo crédito de torneira aberta e pela carteira de fundos, contraindo a doença da dívida galopante e do défice excessivo, estimulada pelos credores, apostados em arrastar os esfomeados de barriga dilatada para uma situação de emergência. Sob a bota e a batota da usura, com governos-carpete que vendem a pataco as jóias da economia e tripudiam os princípios da soberania, o capitalismo euroglobal lançou os seus rapazes ou rapaces sobre os activos sociais (salários, reformas, pensões, receitas fiscais, reservas de ouro e divisas, serviços públicos) e os activos empresariais do Estado. A operação de saque amigo foi implacavelmente montada. Nem será preciso recorrer a teóricos de última geração da economia de guerra e do garrote financeiro. Bastará rebuscar fontes da mesma água, validadas pela constância dos factos e a didáctica dos séculos. Neste caso, fontes euro-americanas. Portadoras de credenciais. Insuspeitíssimas. Uma a jorrar da bocarra de um banqueiro, alemão e judeu, e outra da carranca de um fazendeiro, congressista e presidente com direito a efígie monetária e a inscrição In God We Trust/Deus Seja Louvado/Confiamos em Deus.

Eis a voz da banca:
Dai-me o controlo da moeda de um país e não me importará quem faz as leis.
[5]

Eis o porta-voz:
Há duas maneiras de submeter e escravizar uma nação: uma é pela espada e outra é pela dívida. A dívida é uma arma contra os povos. Os juros são as munições.
[6]

Guião falangista

De sublinhar que o projecto de domínio regional e intercontinental está a ser assessorado pela extrema-direita. Cada vez mais motivada com chavões anticomunistas, anti-semitas, racistas, xenófobos, homofóbicos, machistas. Está a levedar um microclima século XX, anos 30. O capitalismo volta a dar corda à delinquência falangista, a fim de ensaiar governos de mão dura para acentuar a espoliação e conter a resistência popular. Enraivecer e desnortear as massas, desviando-as dos referenciais democráticos e do sentido de classe, faz parte do caderno de encargos da besta negra. Os operacionais de trabalhos sujos da História aí estão nas ruas e os branqueadores movem-se pelos parlamentos, pelos governos, pelos meios de comunicação, pelas academias. É o caldo de cultura dos bárbaros. Que não estão às portas da Europa: estão dentro. A Ucrânia é o mais recente caso de tomada do poder pelo bandoleirismo nazifascista, redoutrinado, treinado, municiado e subvencionado (com especial zelo pela Alemanha e pelos USA). Em termos eleitorais e sociais, Holande e Valls, garçons de bureau do alto capital e catapultas da assunção aos céus de Nôtre Dame Le Pen, são o cartaz mais patético da França e a caricatura mais servil da social-democracia. Phillipe Pétain, marechal da desonra, primeiro-ministro e presidente da República (1940-1944), condenado à morte por traição e indultado por De Gaulle, sepultado na Île d`Yeu, sorrirá como só as caveiras sabem sorrir.
      
(1). La Repubblica, entrevista de Fiammetta Cucurnia, 09/11/2009, 20º aniversário da queda do muro.
(2). Jornal de Notícias, entrevista de César Príncipe, 17/06/1995, no 4º aniversário da dissolução da URSS.
(3) César Príncipe, Correio Vermelho, Seara de Vento, 2008.
(4) O dia em que se comemoram os 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim, uma sondagem conclui que os alemães de Leste consideram que a reunificação não foi consumada e que a esmagadora maioria sentia-se bem na antiga Alemanha Democrática. O estudo indica que 50 por cento dos cidadãos da antiga Alemanha Democrática lamentam as diferenças reais do nível de vida, lembrando que no Leste o desemprego é maior, os salários são mais baixos e o PIB é de apenas de um terço do registado no lado ocidental do país. Doze por cento dos inquiridos recordam com saudade os tempos da RDA e outros tantos defendem mesmo que o muro devia ser reconstruído. Somente um quinto dos alemães de Leste considera que a reunificação vai no bom sentido e muitos outros dizem que os irmãos do Ocidente os tratam com arrogância. [TSF , 09/11/2009)
(5) Mayer Amschel Rothschild (1744-1821), fundador da dinastia de banqueiros.
(6) John Adams (1735-1826), presidente dos USA.
        
     

Artigo de César Príncipe publicado em http://resistir.info/              

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Ucrânia e o renascimento do fascismo na Europa

 
A violência nas ruas da Ucrânia é muito mais do que uma manifestação da ira popular contra um governo. É, ao invés, simplesmente o exemplo mais recente da ascensão da mais insidiosa forma de fascismo que a Europa já viu desde a queda do Terceiro Reich.

Os últimos meses assistiram a protestos regulares da oposição política ucraniana e seus apoiantes – protestos ostensivamente em resposta à recusa do presidente Yanukovich a assinar um acordo comercial com a União Europeia, encarado por muitos observadores políticos como o primeiro passo rumo à integração europeia. Os protestos foram razoavelmente pacíficos até 17 de Janeiro, quando manifestantes armados com paus, capacetes e bombas improvisadas desencadearam uma violência brutal sobre a polícia, atacando edifícios governamentais, batendo em quem fosse suspeito de simpatias pelo governo e provocando destruição generalizada nas ruas de Kiev. Mas quem são estes extremistas violentos e qual é a sua ideologia?

A formação política conhecida como "Pravy Sektor" (Sector Direita) é basicamente uma organização chapéu para um certo número de grupos ultra-nacionalistas (ler fascistas) incluindo apoiantes do Partido "Svoboda" (Liberdade), "Patriotas da Ucrânia", "Ukrainian National Assembly – Ukrainian National Self Defense" (UNA-UNSO) e "Trizub". Todas estas organizações partilham uma ideologia comum que entre outras coisas é veementemente anti-russa, anti-imigrantes e anti-judia. Além disso, partilham uma reverência comum pela chamada "Organização de Nacionalistas Ucranianos" liderada por Stepan Bandera, os infames colaboradores dos nazis que combateram activamente contra a União Soviética e cometeram algumas das piores atrocidades da II Guerra Mundial.

Apesar de forças políticas ucranianas, oposição e governo, continuarem a negociar, uma batalha muito diferente está a ser travada nas ruas. Utilizando intimidação e força bruta mais típica dos "Camisas castanhas" de Hitler ou dos "Camisas negras" de Mussolini do que de um movimento político contemporâneo, estes grupos conseguiram transformar um conflito sobre política económica e alianças políticas do país numa luta existencial pela própria sobrevivência da nação que estes assim chamados "nacionalistas" afirmam amar tão ardentemente. As imagens de Kiev a queimar, as ruas de Lvov cheias de brutamontes e outros exemplos assustadores do caos no país ilustram sem sombra de dúvida que a negociação política com a oposição do Maidan (a praça central de Kiev e centro dos protestos) já não é a questão central. É, antes, a questão de apoiar ou rejeitar o fascismo ucraniano.

Pelo seu lado, os Estados Unidos lançaram-se no lado da oposição, sem considerar o seu carácter político. No princípio de Dezembro, membros do establishment dirigente dos EUA, tais como John McCain e Victoria Nuland, foram vistos no Maidan a apoiar os manifestantes. Entretanto, quando nos últimos dias o carácter da oposição se tornou evidente, os EUA e a classe dominante ocidental e sua máquina dos media pouco fizeram para condenar o levantamento fascista. Ao invés disso, seus representantes encontraram-se com representantes do Sector Direita e consideraram que não eram "ameaça". Por outras palavras, os EUA e seus aliados deram aprovação tácita à continuação e proliferação da violência em nome do seu objectivo final: a mudança de regime.

Numa tentativa de arrancar a Ucrânia da esfera de influência russa, a aliança EUA-UE-NATO aliou-se, não pela primeira vez, com fascistas. Naturalmente, durante décadas, milhões na América Latina foram desaparecidos ou assassinados por forças militares fascistas armadas e apoiadas pelos Estados Unidos. Os mujahideen do Afeganistão, os quais depois transmutaram-se na Al Qaeda, também reaccionários ideológicos extremos, foram criados e financiados pelos Estados Unidos com o objectivo de desestabilizar a Rússia. E naturalmente há a penosa realidade da Líbia e, mais recentemente da Síria, onde os Estados Unidos e seus aliados financiam e apoiam extremistas jihadistas contra um governo que se recusa a alinhar com os EUA e Israel. Há um padrão perturbador aqui que não tem sido compreendido por observadores políticos: os Estados Unidos sempre fazem causa comum com extremistas de direita e fascistas para ganho geopolítico.

A situação na Ucrânia é profundamente perturbadora porque representa uma conflagração política que poderia muito facilmente dilacerar o país menos de 25 anos depois de se tornar independente da União Soviética. Contudo, há outro aspecto igualmente perturbador na ascensão do fascismo naquele país – ele não está só.

Ameaça fascista por todo o continente

A Ucrânia e a ascensão do extremismo de direita não pode ser vista, muito menos entendida, isoladamente. Deve, ao invés, ser examinada como fazendo parte de uma tendência crescente através da Europa (e na verdade do mundo) – uma tendência que ameaça os próprios fundamentos da democracia.

Na Grécia, a austeridade selvagem imposta pela troika (FMI, BCE e Comissão Europeia) arruinou a economia do país, levando a uma depressão tão má, se não pior, quanto a Grande Depressão nos Estados Unidos. É contra este pano de fundo do colapso económico que o partido Aurora Dourada cresceu até se tornar o terceiro maior partido político do país. Esposando uma ideologia de ódio, o Aurora Dourada – efectivamente um partido nazi que promove o chauvinismo anti-judeu, anti-imigrante e anti-mulher – é uma força política que o governo de Atenas entendeu ser uma grave ameaça ao próprio tecido da sociedade [NR] . Foi esta ameaça que levou o governo a deter a liderança do partido depois de um nazi da Aurora Dourada ter esfaqueado um rapper anti-fascistas. Atenas lançou uma investigação ao partido, embora os resultados desta investigação e o processo permaneçam pouco claros.

O que torna o Aurora Dourada uma ameaça tão insidiosa é o facto de que, apesar da sua ideologia central nazista, sua retórica anti-UE e anti-austeridade atrai muita gente na Grécia economicamente devastada. Tal como muitos movimentos fascistas no século XX, o Aurora Dourada transforma em bodes expiatórios os imigrantes, muçulmanos e africanos por muitos dos problemas que os gregos enfrentam. Em circunstâncias económicas terríveis, tal ódio irracional torna-se atraente; uma resposta à questão de como resolver problemas da sociedade. Na verdade, apesar de líderes do Aurora Dourada estarem presos, outros membros do partido ainda estão no parlamento, ainda concorrem a funções como à presidência de Atenas. Embora uma vitória eleitoral seja improvável, outra mostra de força nas eleições tornará muito mais difícil a erradicação do fascismo na Grécia.

Se este fenómeno estivesse confinado à Grécia e à Ucrânia, ele não constituiria uma tendência continental. Contudo, tristemente vemos a ascensão, embora menos abertamente fascista, de partidos políticos por toda a Europa. Na Espanha, o Partido do Povo, governante e pró austeridade, avançou com leis draconianas restringindo o protesto e a liberdade de palavra, bem como fortalecendo e aprovando tácticas policiais repressivas. Em França, o partido da Frente Nacional, de Marine Le Pen, que veementemente transforma imigrantes muçulmanos e africanos em bodes expiatórios, ganhou aproximadamente vinte por cento dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais. Analogamente, na Holanda, o Partido pela Liberdade – que promove políticas anti-muçulmanas e anti-imigrantes – cresceu a ponto de se tornar o terceiro maior partido no parlamento. Por toda a Escandinávia, partidos ultra-nacionalistas que outrora totalmente irrelevantes e obscuros são agora actores significativos em eleições. Estas tendências são preocupantes, para dizer o mínimo.

Também deveria ser observado que, para além da Europa, há um certo número de formações políticas quase-fascistas que são, de uma maneira ou de outra, apoiadas pelos Estados Unidos. O golpe de direita que derrubou os governos do Paraguai e de Honduras foram tacitamente e/ou abertamente apoiados por Washington no seu objectivo aparentemente infindável de suprimir a esquerda na América Latina. Naturalmente, também deveria ser lembrado que o movimento de protestos na Rússia foi encabeçado por Alexei Navalny e seus seguidores nacionalistas que adoptam uma ideologia racista e anti-muçulmana que encara imigrantes do Cáucaso russo e de outras antigas repúblicas soviéticas como inferiores a "russos europeus". Estes e outros exemplos pintam um retrato muito feio de uma política externa estado-unidense que tenta utilizar a adversidade económica e a reviravolta política para estender a hegemonia dos EUA por todo o mundo.

Na Ucrânia, o "Sector Direita" retirou o combate da mesa de negociação para as ruas numa tentativa de cumprir o sonho de Stepan Bandera – uma Ucrânia livre da Rússia, de judeus e de outros vistos como "indesejáveis". Animatdo pelo apoio contínuo dos EUA e da Europa, estes fanáticos representam uma ameaça mais grave para a democracia do que Yanukovich e o governo pró russo. Se a Europa e os Estados Unidos não reconhecem esta ameaça no seu início, quando o fizerem poderá ser demasiado tarde.
Texto de Eric Draitser  [*]



Ver também:        


Ukraine “Color Revolutions”: At the Crossroads of Euro-Atlantic and Eurasian Power Politics

[NR] É muito discutível que o actual governo de Atenas tenha esse entendimento.   A sua atitude é, antes, de conivência passiva e omissão.   Forças policiais gregas pouco ou nada fazem para reprimir o Aurora Dourada, só actuando em casos extremos.

[*] Fundador do StopImperialism.com , analista geopolítico independente residente em Nova York, ericdraitser@gmail.com .

O original encontra-se em
www.globalresearch.ca/ukraine-and-the-rebirth-of-fascism-in-europe/5366852


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/                      
     

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Nadezhda Tolokonnikova


Nadezhda Tolokonnikova, membro do grupo punk-rock russo Pussy Riot, ontem à entrada para o tribunal. Fotografia de MAXIM SHEMETOV/REUTERS

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Silenciar os Críticos

A ideia de que os EUA são uma democracia quando não têm, em absoluto, uma imprensa que funcione como um observador atento, é risível. Mas os media não se estão a rir. Estão a mentir. Tal como o Governo, cada vez que os grandes meios de comunicação abrem a boca ou escrevem uma palavra, estão a mentir. De facto, os grandes senhores corporativos pagam aos seus empregados para mentir. É esse o seu trabalho. Se disserem a verdade, passam à história, como foi o caso de Buchanan e Napolitano e Helen Thomas.
Em 2010, o FBI invadiu a casa de activistas pela paz em vários estados e apreendeu bens pessoais, no que chamou (e tendo orquestrado falsos “grupos terroristas”) de investigação de “actividades relacionadas com o apoio ao terrorismo”. Os que protestavam contra a guerra foram intimados a depor perante um júri, enquanto a acusação fabricava o argumento de que a oposição às guerras de agressão de Washington representa apoiar e encobrir terroristas. O objectivo destas buscas e intimações era refrear e desmobilizar o movimento anti-guerra.  Na semana passada, de uma assentada, os últimos dois críticos do imperialismo de Washington / Tel Aviv foram eliminados dos grandes meios de comunicação social. O popular programa de Andrew Napolitano, Freedom Watch, foi cancelado pelo canal Fox, e Pat Buchanan foi despedido da MSNBC. Ambos especialistas tinham muitos espectadores e eram apreciados por falarem com franqueza.  Muitos suspeitam de que Israel usou a sua influência junto dos anunciantes da TV para silenciar os que criticam os esforços do governo israelita para levar Washington para a guerra com o Irão. A questão é que a voz dos grandes meios de comunicação é agora uniforme. Os norte-americanos ouvem uma voz, uma mensagem, e a mensagem é propaganda. A dissidência é tolerada apenas em assuntos como, por exemplo, saber se os cuidados de saúde a cargo dos empregadores deverão incluir contraceptivos. Os direitos constitucionais foram substituídos por direitos a preservativos grátis.

Os média ocidentais demonizam aqueles a quem Washington aponta o dedo. As mentiras chovem para justificar a agressão de Washington: os Talibã são misturados com a Al-Qaeda, Sadam Hussein tem armas de destruição massiva, Kadhafi é um terrorista e, ainda pior, dava Viagra aos seus soldados para que violassem as mulheres líbias. O Presidente Obama e membros do Congresso, ao lado de Tel Aviv, continuam a afirmar que o Irão está a construir uma arma nuclear, apesar de terem sido publicamente desmentidos pelo Secretário de Estado da Defesa dos EUA, Leon Panetta, e pelo relatório dos Serviços Secretos da CIA. De acordo com relatórios noticiosos, o chefe do Pentágono, Leon Panetta, disse aos membros da Câmara dos Representantes, a 16 de Fevereiro, que “Teerão não tomou uma decisão quanto a prosseguir com o desenvolvimento de uma arma nuclear” (http://www.denverpost.com/nationworld/ci_19978801?source=rss).

No entanto, em Washington, os factos não contam. Apenas os interesses materiais de poderosos grupos de interesse tem importância. Neste momento, o ministério da verdade [1] norte-americano divide o seu tempo entre mentiras relativas ao Irão e à Síria. Houve recentemente algumas explosões na longínqua Tailândia e o Irão foi responsabilizado por isso. Em Outubro passado, o FBI anunciou a descoberta de uma conspiração iraniana para pagar a um vendedor de carros usados mexicano que teria contratado traficantes de droga mexicanos para matar o embaixador da Arábia Saudita nos EUA. O imbecil que falava pela Casa Branca afirmou acreditar nesta inacreditável conspiração e declarou ter “fortes evidências”, mas nenhuma foi divulgada. O objectivo do anúncio desta conspiração foi justificar as sanções de Obama, que representam um embargo (um acto de guerra) contra o Irão pelo desenvolvimento de energia atómica.

Como um dos signatários do Tratado de Não-proliferação Nuclear, o Irão tem o direito de desenvolver energia nuclear. Os inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) estão permanentemente no Irão e nunca reportaram qualquer desvio de material nuclear para um programa de armas. Por outras palavras, de acordo com os relatórios da AIEA, o relatório dos Serviços Secretos e o actual Secretário de Estado da Defesa, não há evidência de que o Irão tenha armas nucleares ou de que esteja a fabricá-las. No entanto, Obama impôs sanções ao Irão quando a própria CIA e o seu próprio Secretário de Estado da Defesa, em simultâneo com a AIEA, reportaram que não existe base para as sanções. A ideia de que os EUA são uma democracia, não tendo, em absoluto, uma imprensa que funcione como um observador atento é risível. Mas os média não se estão a rir. Estão a mentir. Tal como o Governo, cada vez que os grandes meios de comunicação abrem a boca ou escrevem uma palavra, estão a mentir. De facto, os grandes senhores corporativos pagam aos seus empregados para mentir. É esse o seu trabalho. Se disserem a verdade, passam à história, como foi o caso de Buchanan e Napolitano e Helen Thomas.  O ministério da verdade chama “manifestantes pacíficos brutalizados pelo exército de Assad” ao que são, na verdade, rebeldes armados e financiados por Washington. Washington fomentou uma guerra civil. Reclama a intenção de salvar o povo sírio, vítima de opressão e maus-tratos, de Assad, tanto quanto salvou o povo Líbio, vítima de opressão e maus-tratos, de Kadhafi. Hoje, a Líbia “libertada” é uma imagem do seu passado, aterrorizada por milícias em confronto. Graças a Obama, mais um país foi destruído. Os relatórios de atrocidades cometidas contra civis sírios pelo exército poderão ser verdadeiros, mas provêm dos rebeldes que querem a intervenção do Ocidente para subirem ao poder. Além disso, em que diferem estas baixas civis das infligidas a civis no Bahrein pelo seu governo, apoiado pelos EUA, e cujo exército foi reforçado com tropas da Arábia Saudita? Não se ouvem protestos na imprensa ocidental quando Washington fecha os olhos às atrocidades cometidas pelos seus estados fantoches.  Em que diferem as atrocidades sírias, se forem reais, das atrocidades de Washington no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, no Iémen, na Líbia, a Somália, em Abu Ghraib, na Prisão de Guantánamo, e em prisões secretas da CIA? Porque se mantém o ministério da verdade norte-americano em silêncio em relação a estas violações dos direitos humanos massivas e sem precedentes? Recordem-se também os relatórios das atrocidades sérvias no Kosovo que Washington e a Alemanha usaram para justificar o bombardeamento de civis sérvios pela NATO e EUA, incluindo o consulado chinês, considerado outro dano colateral. 13 anos mais tarde, um destacado programa de TV alemão revelou que as fotografias que despoletaram a campanha de atrocidades foram mal interpretadas e não eram fotografias de atrocidades cometidas por sérvios, mas de separatistas albaneses mortos num tiroteio entre albaneses e sérvios. As baixas sérvias não foram reveladas. http://www.freenations.freeuk.com/news-2012-02-19.html

O problema no conhecimento da verdade é que os media ocidentais mentem continuamente. Nas raras instâncias em que as mentiras são corrigidas, isso acontece sempre muito depois dos acontecimentos terem tido lugar e, portanto, os crimes permitidos pelos média já estão consumados. Washington pôs a Síria em causa perante os seus fantoches da Liga Árabe, com o objectivo de a isolar perante os seus congéneres, para melhor poder atacá-la. Assad evitou que Washington pusesse a Síria no caminho da destruição quando marcou um referendo nacional para 26 de Fevereiro por uma nova constituição que possa alargar a perspectiva de poder para além do Partido Baath (o partido de Assad).  Poderíamos pensar que, se Washington e o seu ministério da verdade realmente quisessem a democracia na Síria, Washington apoiaria este gesto de boa vontade por parte do partido do poder e aprovaria o referendo. Mas Washington não quer um estado democrático. Quer um estado fantoche. A sua resposta é de que o covarde Assad enganou Washington dando passos em direcção à democracia na Síria antes que Washington consiguisse esmagá-la e instalar um fantoche. Eis a resposta de Obama às medidas de Assad pela democracia: “É na verdade risível; é gozar com a revolução síria”, disse o porta-voz da Casa Branca Jay Carney a bordo do Air Force One. Obama, os neoconservadores e Tel Aviv estão realmente contrariados. Se Washington e Tel Aviv conseguirem descobrir como contornar a Rússia e a China e derrubar Assad, irão julgá-lo como criminoso de guerra por propor um referendo democrático.  Assad era oftalmologista em Inglaterra até que o seu pai morreu e ele foi chamado para chefiar o conturbado governo sírio. Washington e Tel Aviv demonizaram Assad por recusar ser seu fantoche. Outro ponto nevrálgico é a base naval russa em Tartus. Em Washington estão desesperados para expulsar os russos da sua única base no Mediterrâneo, para fazer deste um lago norte-americano. Washington, inculcada com visões neoconservadoras de domínio mundial, quer o seu próprio mare nostrum [2] Se a União Soviética ainda existisse, os planos de Washington para Tartus seriam suicidários. Mas a Rússia é política e militarmente mais fraca que a União Soviética. Washington infiltrou-se na Rússia com organizações não-governamentais que trabalham contra os interesses da Rússia e irão perturbar as próximas eleições. Além disso, as “revoluções coloridas” [3] financiadas por Washington fizeram do que eram partes da antiga União Soviética estados fantoches de Washington. Washington não espera que a Rússia, esvaziada de ideologia comunista, prima o botão nuclear. Deste modo, a Rússia está lá para tirar proveito. A China representa um problema mais difícil. O plano de Washington é cortar-lhe o acesso a fontes independentes de energia. O investimento chinês em petróleo no leste da Líbia é a razão pela qual Kadhafi foi derrubado e o petróleo é uma das razões fundamentais por que Washington aponta agora para o Irão. A China tem grandes investimentos em petróleo no Irão e vai buscar 20% do seu petróleo ao Irão. Vedar-lhe este acesso, ou converter o Irão num estado fantoche de Washington, ameaça 20% da economia chinesa.

A Rússia e a China levam tempo a aprender. No entanto, quando Washington e os seus fantoches na NATO fizeram um uso abusivo da resolução da ONU relativamente à zona de exclusão área na Líbia infringindo-a e transformando-a numa agressão militar contra as forças armadas líbias, que tinham todo o direito de reprimir uma rebelião apoiada pela CIA, a Rússia e a China finalmente perceberam que não podem confiar em Washington. Desta vez, a Rússia e a China não caíram na armadilha de Washington. O seu veto no Conselho de Segurança da ONU impediu um ataque militar à Síria. Agora Washington e Tel Aviv (nem sempre é claro quem é o fantoche e quem o manipula) têm de decidir se irão prosseguir face à oposição russa e chinesa.


Os riscos para Washington multiplicaram-se. Se Washington prosseguir, a mensagem que é transmitida à Rússia e à china é que, a seguir ao Irão, chegará a sua vez. Portanto, a Rússia e a China, ambas dispondo de armas nucleares, provavelmente irão pôr o pé na linha traçada sobre o Irão. Se os loucos militaristas em Washington e Tel Aviv, com a fúria arrogante que lhes corre forte nas veias, ignorarem a oposição russa e chinesa, o risco de um confronto perigoso aumenta. Por que razão os média norte-americanos não questionam estes riscos? Vale a pena rebentar o planeta para impedir o Irão de ter um programa de energia nuclear ou mesmo uma arma nuclear? Pensará Washington que a China ignora que aquela aponta para as suas fontes de energia? Pensará que a Rússia ignora que está a ser cercada de bases militares hostis?  Que interesses estão a ser servidos pelas guerras infinitas de Washington, que custam tantos triliões de dólares? Certamente não os interesses de 50 milhões de norte-americanos que não têm acesso a cuidados de saúde, nem os 1 500 000 crianças sem abrigo, que vivem em carros, quartos de motéis abandonados, cidades de acampamentos e colectores de águas dos temporais no subsolo de Las Vegas, enquanto enormes somas de dinheiros públicos são usados para resgatar bancos e esbanjados em guerras pela hegemonia mundial. http://www.youtube.com/watch?v=suJCvkazrTc

Os EUA não têm imprensa e televisão independentes. Tem prostitutas mediáticas [4] pagas pelas mentiras que proferem. O Governo dos EUA, na prossecução dos seus fins imorais, obteve o estatuto do governo mais corrupto da história da humanidade. E no entanto, Obama discursa como se Washington fosse a fonte da moral do homem.  O Governo dos EUA não representa os norte-americanos. Representa uns poucos interesses especiais e um poder estrangeiro. Os cidadãos dos EUA não contam, e certamente não contam os do Afeganistão, Iraque, Líbia, Somália, Iémen e Paquistão. Washington encara a verdade, a justiça e a misericórdia como valores risíveis. O dinheiro, o poder, a hegemonia, são tudo o que conta para Washington, a cidade sobre a colina, a luz das nações, o exemplo para o mundo.

Notas da tradução:
[1] Trata-se de um dos ministérios do governo imaginado por George Orwell em 1984, que se ocupa de fabricar a verdade histórica conforme as conveniências políticas do momento.
[2] Os Romanos chamavam Mare Nostrum ao Mediterrâneo.
[3] “Revoluções coloridas”: muitos meios de comunicação social têm assim designado uma série de manifestações políticas no que foi território da URSS, depois CEI, supostamente contra governos e líderes “tiranos”, acusados de serem “ditadores”, etc., desde começos da década de 2000.
[4] No original: “presstitutes”


Artigo de Paul Craig Roberts
Tradução: de André Rodrigues P. da Silva para ODiario.info

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

São Petersburgo

Jovens cadetes durante a cerimónia de abertura do congresso de cadetes russos, em São Petersburgo. Fotografia ANATOLY MALTSEV/LUSA