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domingo, 10 de setembro de 2017

Óscar Lopes - Evocação do Centenário do Nascimento (1917-2017)



Evocação do centenário do nascimento de  Óscar Lopes (1917-2017)
41ª Festa do Avante, Amora, Seixal
Fotografias de João Graça

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Quando Portugal Ardeu (III)


Livro "Quando Portugal ardeu" da autoria do jornalista Miguel Carvalho tem documentos e depoimentos inéditos e que vem acrescentar muito a história daquela que ficou conhecida como a rede bombista do pós-25 de Abril. São quase 600 páginas que retratam os bastidores dos vários atentados que ocorreram em 1975 e 76. Reportagem da RTP.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Quando Portugal Ardeu (I)



Bombistas de extrema-direita revelam pormenores dos atentados do pós-25 de abril

Quando Portugal Ardeu", de Miguel Carvalho conta histórias e segredos da violência política no pós-25 de Abril.
Quem foram as primeiras vítimas mortais da democracia? 
Por que razão foram assassinados Padre Max, Rosinda Teixeira e Joaquim Ferreira Torres? 
Quem protegia e que segredos escondia a rede bombista de extrema-direita? 
Como enfrentou o cônsul dos EUA no Porto o PREC? 
O que relatam os diários do norueguês baleado no Verão Quente de 1975? Como é que a Igreja mobilizou e abençoou a luta contra o «comunismo»? 
O que sabia a PJ sobre o terrorismo político e tudo o que nunca chegou a julgamento? Com recurso a centenas de documentos, entrevistas e testemunhos inéditos, esta investigação jornalística traz à luz do dia histórias secretas ou esquecidas do pós-25 de Abril. Quando Portugal ardeu e esteve à beira da guerra civil.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

A produção perversa de um mito histórico

A História para consumo geral é escrita pelos vencedores e suas estruturas de domínio. E quando a História é ainda contemporânea e se confunde com a comunicação social, guiada por mecanismos de propaganda, dos mais grosseiros aos delicadamente sofisticados, a vantagem das forças dominantes torna-se esmagadora, entrando pelos domínios da mitologia inquestionável, servida por axiomas asfixiantes.
 
A morte não apaga as realidades nem os factos vividos; não os transforma, mesmo quando oportunisticamente manipulados por quem considera legítimo domar consciências, em mandamentos de uma doutrina de obediência colectiva, condenando os que não a aceitam à marginalidade do pariato eterno.
Como se previa ainda em vida, a morte transformou Mário Soares num mito histórico à velocidade da tecnologia de ponta. Para que não entrem em piloto automático os efeitos dos axiomas que balizam a queda no delito de opinião, cabe-me escrever, com toda a honestidade, que não estão minimamente em questão o antifascismo de Mário Soares nem a sua coragem para enfrentar a besta salazarenta, ainda que outros tenham sofrido bem mais dolorosamente as consequências de tal destemor e tantos louvores não tenham recebido, pelo contrário, sejam ainda alvo de insultos e pasto de mentiras difamatórias, mais cruéis ainda quando delas já não se podem defender.
 
Ponto assente: Mário Soares foi um corajoso antifascista.
 
Agora «pai da democracia» e «pai da liberdade»?
Os mitos históricos têm progenitores: a propaganda que fabrica a História regimental e os poderes que a alimentam e dela se nutrem, num descarado processo de parasitismo. Quanto ao pai da democracia, outro não é que não o povo que a pratica, quando não há esbirros ou mecanismos cínicos que o impeçam – à bruta ou através de processos de controlo e manipulação; os pais da liberdade são os cidadãos livres que a conquistam e a defendem, mas têm quase sempre pela frente aqueles que, graças a usos mais ou menos perversos do poder, sustentam estar escrito no destino haver uns cidadãos mais livres do que outros.
 
Decifrando a cacofonia que vem atordoando o país nestes dias, ladainhando mil e um monólogos redondos em torno de duas ou três mensagens propagandísticas feitas e refeitas, concluiu-se que Mário Soares foi, sim, um dos pais fundadores do tipo de regime financeiro, económico e político que hoje se aplica em Portugal, subsidiário do ordenamento não-democrático da União Europeia; e tutor de uma liberdade sem dúvida condicionada, para a maioria dos cidadãos, pelos instrumentos e tentáculos da mesma União Europeia.
A manipulação subjacente a tanto ruído ambiente, gritando para milhões o que poderia resumir-se em meia dúzia de frases simples, é a confusão abusiva entre democracia plena, prometida pela Revolução de 25 de Abril, e o regime de democracia parcial em funcionamento; e entre liberdade humanista e o labirinto de liberdades, condicionamento de direitos civis, laborais e sociais e austeridades em que se transformou a sociedade portuguesa, marioneta dos interesses convergentes que se empanturram em Bruxelas.
«(...) Mário Soares foi, sim, um dos pais fundadores do tipo de regime financeiro, económico e político que hoje se aplica em Portugal, subsidiário do ordenamento não-democrático da União Europeia (...)»
Mário Soares, o antifascista, cedo abandonou a dinâmica transformadora da Revolução de Abril, passando, no âmbito da sua acção e cargos, a desenvolver contactos com o embaixador norte-americano Frank Carlucci – futuro director da CIA – que se ingeria descaradamente, conspirando, nos assuntos portugueses; e do golpe de 25 de Novembro de 1975 ainda hoje sabemos apenas quanto baste do que interessa aos que dele tiraram proveito e proveitos; o soarismo que lhe sucedeu imprimiu marcas indeléveis que pouco correspondem às deixadas para trás por Mário Soares, no período antifascista.
Paradoxalmente, por uma caprichosa ironia a que, pelos vistos, nem os mais cuidados mitos históricos escapam, a figura tutelar do soarismo desaparece fisicamente num período em que o governo de Portugal resulta de uma solução política que contraria um dos mais rígidos axiomas soaristas – estando, até há pouco, rigorosamente bloqueada.
 
Recordando o percurso de Portugal desde 25 de Abril de 1974, se as realidades vividas pelo país forem encaradas livres de manipulações, enviesamentos e mentiras da propaganda, comprovam que os conceitos de democracia e liberdade aplicados pelo soarismo foram condicionados por um redil político (determinado por poderes financeiros e económicos); uma tal cerca marginalizou os que se afirmaram ideologicamente diferentes, logo acusados, sem provas, de serem adeptos de soluções ditatoriais ou não-democráticas – afastados sumariamente de soluções governativas mesmo que proporcionassem maiorias parlamentares estáveis.
 
Não foram raros os casos como esses registados ao longo de décadas, com a agravante perversa de os excluídos serem também acusados de não pretenderem governar, apesar de multiplicarem apelos ao entendimento, acabando o sistema patrocinado pelo soarismo de se enquistar no «arco da governação» só recentemente quebrado.
 
Os conceitos de liberdade e democracia do soarismo tiveram aplicações práticas orientadas pela vontade de tolher o potencial de desenvolvimento do país libertado popularmente em 25 de Abril de 1974, encafuando Portugal num colete-de-forças de bastidores no qual, durante tempo excessivo, foi privado das suas principais energias económicas, culturais e criativas, delapidado do património estatal, minado por interesses alheios. Enquanto isso, a vontade manifestada livremente pelo povo, em sucessivas eleições, foi ficando refém de entidades e organismos não-eleitos, ao serviço de poderes transnacionais nefastos para o povo, para os cidadãos que se crêem livres.
 
A integração na CEE sem qualquer auscultação da opinião popular, o arranque da liberalização sem fim do mercado de trabalho – com o seu cortejo de inseguranças e perda de direitos dos trabalhadores –, a abertura das portas ao FMI, a destruição da Reforma Agrária, o enfraquecimento do movimento sindical concertado através de uma coligação institucional com o PPD/PSD, a passadeira estendida às privatizações, com os resultados que estão bem à vista, as responsabilidades perante a desastrosa integração no euro – novamente sem que fosse pedida opinião ao povo – são marcos indeléveis no itinerário soarista até um país que continua a sofrer de desigualdades profundas, enquanto é vítima de ataques de entidades não-democráticas que menosprezam a sua soberania.
«Os conceitos de liberdade e democracia do soarismo tiveram aplicações práticas orientadas pela vontade de tolher o potencial de desenvolvimento do país libertado popularmente em 25 de Abril de 1974 (...)»
O ser e o parecer muitas vezes não coincidem, e assim foi em Mário Soares quando, apesar do inflamado discurso anti-neoliberal dos últimos anos, não aproveitou, quando podia, as oportunidades para combater a ascensão e implantação interna do neoliberalismo, uma vez que dispôs dos instrumentos governativos e presidenciais para o fazer.
 
O caminho do país sujeito à influência soarista foi percorrido sob uma governação restringida sectariamente a um bloco bipartidário na prática, excluindo da democracia as forças que propunham alternativas de facto e não uma alternância que se foi institucionalizando, favorecendo interesses minoritários, a vertente privada e encorajando a corrupção atrelada a um processo nocivo de privatização do próprio Estado.
 
A imposição do chamado bloco central, apesar – repete-se – das numerosas propostas para materializar uma vontade popular maioritária que proporcionaria frequentes entendimentos governativos do PS com forças à sua esquerda, é a marca mais negativa para o país resultante das opções de Mário Soares, e da qual decorrem praticamente todas as outras. Com a agravante de ter permitido que esse procedimento fosse camuflado com a enorme mentira, resistente até há pouco, segundo a qual partidos como o PCP não tinham interesse em associar-se à acção governativa, remetendo-se a um papel «contestatário», logo decorativo.
 
Neste aspecto, ao corajoso antifascista que foi Mário Soares faltou o destemor para fazer vingar os interesses reais dos portugueses como cidadãos livres usufruindo de uma democracia plena. O soarismo rendeu-se às normas antidemocráticas impostas surdamente através da NATO, impedindo qualquer Partido Comunista de um país ocidental de chegar a plataformas governativas.
É certo que o humanista democrata-cristão italiano Aldo Moro pagou com a vida a ousadia de estabelecer acordos de incidência parlamentar com o PCI, comparáveis aos que existem agora em Portugal entre o PS e o PCP. A coragem que atribuem a Mário Soares na defesa da democracia teria sido então de uma importância determinante para os portugueses se a ela tivesse recorrido, até às últimas consequências, na interpretação da vontade popular.
 
Por ironia do destino, foi ainda em vida de Mário Soares que se deu a primeira ruptura com o edifício do soarismo limitador das potencialidades democráticas do sistema multipartidário. Quando se constrói um mito histórico, a obra só poderá dar-se por terminada quando reflectir a realidade global do percurso percorrido em vida, e não apenas os troços parciais de que alguns pretendem continuar a extrair vantagens, mesmo que seja à custa dos interesses de muitos e dos direitos de todos à democracia e liberdade plenas.
 
Nesse caso restrito, pode ser um mito histórico sectariamente útil; mas é incompleto, impreciso e, mais grave ainda – o que será insultuoso para o próprio – nocivo para o país, insuficientemente democrático, manipulador de consciências, enganador das gerações mais jovens e das que virão.
 
Artigo de José Goulão no AbrilAbril.pt

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Não, isto não é a revolução de Outubro. Tenham calma...

A metáfora até dava jeito porque a revolução de Outubro foi a 7 de Novembro, pelo calendário gregoriano, e foi no sábado, 7 de Novembro, o dia em que António Costa obteve apoio generalizado do PS para o programa de um governo socialista com o apoio parlamentar do PCP e do Bloco de Esquerda.
 Mas basta olhar para as medidas acordadas entre PS, Bloco e PCP para perceber o longe que estamos do assalto ao Palácio de Inverno por forças bolcheviques – por muito que os partidos da direita e alguns militantes do PS passem as noites a sonhar com o Gulag e se sintam, de repente, vítimas de um Estaline reencarnado em Jerónimo de Sousa. Oh, como era simpático Jerónimo quando não contava para os programas de governo!
O comité central do PCP tomou ontem uma decisão histórica. Pela primeira vez em 40 anos de democracia, aceitou fazer parte do “arco da governação” e negociar um programa mínimo para apoiar um governo PS durante quatro anos. O país ganhou: deixou de estar condicionado ao rotativismo PSD/CDS ou PS/PSD. Agora há uma alternativa que não passa pelo assalto ao Palácio de Inverno e é conforme a Constituição da República.
O programa do governo de esquerda é um conjunto de medidas sociais-democratas. Noutros tempos, muitos militantes do PSD até poderiam rever-se nelas. Aliás, o PCP e o BE conseguiram retirar do programa socialista algumas medidas liberais, como o despedimento conciliatório ou a redução da TSU dos patrões e trabalhadores à conta dos cofres da Segurança Social. Curiosamente, eram as medidas que mais polémica tinham criado dentro do próprio PS.
Se isto vai ser fácil? Não vai. Nada é fácil numa Europa capturada pelo “there is no alternative”, um refrão comungado por socialistas e liberais europeus. Mas a perestroika de Jerónimo de Sousa, a mudança de paradigma no Bloco e a ousadia de António Costa vão permitir mudar qualquer coisa em Portugal. E esse qualquer coisa é, só por si, histórico.

Editorial do i, de Ana Sá Lopes

domingo, 14 de junho de 2015

O PCP tornado invisível pela comunicação social

Esta semana, a chamada Marcha Nacional A Força do Povo, feita em nome da CDU, mas na realidade feita pelo PCP, juntou muitos milhares de pessoas em Lisboa. O assunto foi tratado de passagem nas televisões, sem grandes meios e cobertura apenas de circunstância, e na maioria dos casos "existiu" nas páginas interiores dos jornais, também quase por obrigação de agenda.

Eu conheço os argumentos de muitos jornalistas para não darem importância nenhuma (e por isso não noticiarem a não ser por obrigação, ou seja, mal) às manifestações do PCP, mas não me convencem. Não tem novidade, é o que é esperado, é sempre a mesma coisa, já sabemos que o PCP tem esta capacidade única de levar pessoas para a rua. Vêm de todo o País, vêm em centenas de autocarros, são os comunistas convencidos e mais umas franjas, não alteram nada da vida política. Atenção a este último argumento – não alteram nada – porque aí começamos a tocar no lado sensível e ideológico do objectivo desprezo com que estas manifestações são tratadas pela comunicação social. E não é o resultado de uma conspiração dos grandes interesses na comunicação social, muito colados à "situação" (também é, principalmente pelas escolhas das chefias), mas algo que vem das próprias redacções. Uma pequena iniciativa cultural na moda, que nem uma centena de pessoas junta, é muito mais bem tratada.

Há muitas razões de ordem geracional, cultural, de vida, de mentalidade do meio, da precariedade que se vive nas redacções para justificar esta falta de interesse. Mas que o mundo que desfila em Lisboa, à torreira do sol, feito de gente com causas bizarras como os baldios, não interesse a uma jornalista de vinte e poucos anos, saída de uma escola de comunicação social, estagiária, mas na prática desempregada, que não sabe o que é um sindicato, detesta greves e do mundo conhece o que vem na Time Out, percebe-se. O que não se percebe é que na sua redacção não se vá mais longe e se perceba que "aquilo" no Portugal dos dias de hoje é mais excepcional do que parece, "aquilo" implica mais esforço e cidadania do que andar horas a discutir a migração de treinadores entre clubes, como se o mundo estivesse parado nessa logomaquia futebolística.

"Aquilo" é o outro Portugal que não tem nada a ver com os salamaleques do "meu caro Pedro", "meu caro Paulo", muito mais bem tratados do que a vida de centenas de milhares de pessoas invisíveis porque não são o "arco da governação certo", do País "europeísta", da classe social certa. "Aquilo" é uma parte da sociedade portuguesa que existe e que protesta, e que se não protestasse não existia para ninguém. Eles são parte da economia expendable dos nossos tecnocratas, a mesma que impede a jovem jornalista de conhecer mais mundo, ter sido mais bem preparada na escola, e ter um emprego conforme as suas qualificações. Um emprego e não um estágio. E que, a seu tempo, pode precisar do seu sindicato e, imagine-se, ter de fazer greve e protestar. Nesse dia, ela perceberá melhor a condição das pessoas que ali estão a protestar, podendo até ela ser… do PSD, do PS ou de nada.

Artigo de Pacheco Pereira de 12 de Junho de 2015, publicado na Sábado

domingo, 7 de junho de 2015

A Marcha Nacional dos 100.000 em LX




 
Marcha Nacional - A Força do Povo
Marquês do Pombal - Restauradores
Lisboa, 6 de Junho de 2015
 
Mais fotografias no photoblog

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Nos 50 anos do assassinato de Humberto Delgado

"Para prender alguém não é preciso levar cal viva e ácido sulfúrico"


No passado dia 13 cumpriram-se precisamente 50 anos sobre o assassinato em Almerines, em Espanha e muito perto da fronteira portuguesa, do General Humberto Delgado e da sua secretária e companheira Arajaryr Campos, perpetrado por uma brigada da PIDE composta por António Rosa Casaco, inspector, Ernesto Lopes Ramos, subinspector (que tinha estagiado na CIA), Agostinho Tienza, chefe de brigada e Casimiro Monteiro, também chefe de brigada, na sequência de uma armadilha (baptizada «Operação Outono») fria, longa e premeditadamente montada, em cuja concepção desempenhou um papel fundamental Barbieri Cardoso, inspector superior com o pelouro das «informações», e que, como é de toda a evidência, recebeu o aval de Salazar e de outros altos responsáveis do fascismo. E, pela parte dos comunistas portugueses, nenhuma dúvida que a grande marca de água da evocação desta importante efeméride só pode e deve ser a merecida homenagem ao corajoso e destemido combatente antifascista em que se tornou o General Humberto Delgado e a reiterada condenação do regime fascista que deliberadamente o mandou matar, em mais uma destacada confirmação do seu carácter terrorista e sanguinário. Entretanto, não deve constituir surpresa que, 50 anos depois, mesmo após o conhecimento das peças processuais do julgamento (e da sua revoltante e infame sentença) que decorreu em 1981 no Tribunal Militar de Santa Clara e de dezenas de obras e trabalhos jornalísticos sobre este assunto persistam e sobrevivam dúvidas, interrogações e hipóteses diversas sobre certos aspectos concretos do crime que a opinião pública tenderá naturalmente a seguir com o interesse de quem acompanha um romance policial. Entre outras razões e factores, acontece assim, desde logo porque os directa e comprovadamente implicados no crime se esmeraram sempre em diferentes versões do que realmente ocorreu, no seu compreensível interesse em sacudir a água do seu capote para o capote de outros participantes mas, significativamente, todos sempre querendo convenientemente sustentar o carácter acidental da morte de Delgado e ilibar os mais altos responsáveis da PIDE e Salazar. E também porque, de modo algum similar, alguns dos mais próximos companheiros de Delgado nesta época e grandes alimentadores das suas concepções aventureiras, quiseram rapidamente fazer esquecer toda uma vasta documentação (cartas e mais cartas, planos «revolucionários» e mais «planos «revolucionários», etc., etc.) que não abona em nada o papel objectivamente negativo que desempenharam junto do General, com especial gravidade a partir de 1964 quando este se afasta da Frente Patriótica de Libertação Nacional, fica isolado dos principais sectores e personalidades antifascistas e inteiramente nas mãos de bajuladores e arrivistas, de provocadores do mais variado tipo, ou seja, o quadro ideal para que a chamada «Operação Outono» pudesse ser concretizada com êxito, a partir do papel crucial desempenhado pelo informador da PIDE Mário de Carvalho, residente em Itália, e que conseguiu chegar a representante pessoal do General e em quem este manteve total confiança apesar de sucessivos alertas e avisos designadamente do PCP.
 
Manifestação de Apoio ao General Humberto Delgado, Avenida dos Aliados, Porto 14 de Maio de 1958.

Neste sentido, o que mais importará não é saber se a palavra «assassinato» ou «liquidação» foi ou não proferida nas conversas prévias entre Salazar, Santos Júnior, Silva Pais e Barbieri Cardoso (tudo gente boa entendedora para meia palavra lhes bastar), se Delgado foi morto a tiro ou por espancamento brutal (como a autópsia espanhola parece ter indicado) e tantas outras questões deste nível mas sim, ainda que em termos necessariamente breves e muitíssimo incompletos, insistir em dois aspectos essenciais, a saber:

1. A completa falsidade das teorias que tendem a apresentar o assassinato de Delgado como um acidente circunstancial imprevisto e não desejado, já que o objectivo seria a pura detenção e transporte para Portugal do General, e bem assim a tese de que Salazar seria alheio à finalidade consumada da deslocação a Espanha da brigada da PIDE. Entre muitos outros elementos, para se perceber esta conveniente fantasia basta lembrar que Salazar se reunia semanalmente com Silva Pais, que a simples prisão e julgamento em Portugal de Humberto Delgado teriam obviamente uma repercussão internacional que o fascismo teria todo o interesse em evitar, que Salazar não era pera doce a tratar de «erros» ou «deslizes» de subordinados (demitia ministros por recados dados por motoristas) mas todos os directamente implicados no crime foram depois promovidos, para já não falar da escolha para integrar a brigada de Casimiro Monteiro, um consagrado pistoleiro e sádico facínora com dezenas de crimes de delito comum no cadastro até ao transporte para Espanha de cal viva e ácido súlfurico, que, como se sabe, são os materiais mais adequados à «simples» prisão de uma pessoa.

2. Ponto capital é o da compreensão política do processo que conduziu ao assassinato do General Delgado e aqui, sem desmerecer em nada as qualidades e a coragem do General (que até evoluiu positivamente na sua posição sobre a questão colonial), o que de nenhuma maneira se pode ignorar, como continua a ser persistentemente feito (veja-se a este respeito, no que toca ao PCP, as infelizes afirmações feitas no Público de domingo passado pelo seu neto Francisco Delgado Rosa autor do livro Humberto Delgado, a biografia do General Sem Medo), é que o êxito da armadilha montada pela PIDE foi muito facilitada pela impreparação política e mesmo ingenuidade do General, pela sua redução da luta antifascista a um combate pessoal entre ele e o ditador Salazar, pela sua impulsividade e inconstância, pelo seu soberano desprezo pela luta organizada dentro do País e pela ligação às massas, pela sua obcessão por «acções especiais», «putchs» militares de recorte e base incrivelmente fantasiosos, pela sua continuada e reiterada falta de vigilância em relação aos seus aduladores e colaboradores mais próximos, pela incrível facilidade com que dava por sérios planos de «golpes» como aquele proposto por Mário de Carvalho em que este recenseava a distribuição geográfica de 4617 democratas disponíveis para se baterem de armas na mão, entre os quais 843 em Santa Comba Dão!.
 
Recepção ao General Humberto Delgado, Estação de São Bento, Porto 14 de Maio de 1958.
 
Apesar de todas as calúnias despejadas sobre os comunistas e o PCP (incluindo a respeito da autoria do crime, a verdade histórica é que o PCP foi um aliado leal do General Humberto Delgado, fez incansáveis esforços durante o processo de criação, vida e crise da FPLN para garantir ao General um papel de destaque mas inserido no trabalho e responsabilidades colectivas, agiu invariavelmente com flexibilidade e espírito unitário num contexto e em ambientes de exílio muito convulsionados por invejas, intrigas e preconceitos e animosidades contra o PCP, advertiu-o repetidas e fracassadas vezes sobre os provocadores e infiltrados como Mário de Carvalho que o cercavam e empurraram para a morte.
 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O caso BES: Uma intervenção na AR em 2013 para memória futura !



Honório Novo, PCP, 4.6.2013

Intervenção de Honório Novo, na AR, diante do governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. As perguntas directas do deputado do PCP foram feitas no ano de 2013. Nessa altura, para o governador do BP o presidente do BES ainda era um cidadão acima de qualquer suspeita.