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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O ano de 2018 visto pelas objectivas da agência Reuters (9)


Jovem palestiniano atingido por tropas israelitas na Faixa de Gaza, em junho. 
Foto Ibraheem Abu Mustafa/Reuters



Familiares de um palestino morto na fronteira entre Israel e Gaza num hospital na Cidade de Gaza, em junho. 
Foto Mohammed Salem/Reuters



Um familiar chora quando carrega o corpo da criança palestiniana Laila al-Ghandour, de oito meses, durante o funeral na cidade de Gaza, em maio. Foto Mohammed Salem/Reuters


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

terça-feira, 15 de maio de 2018

Fadi Abu Salah (1989 - 2018)


Fadi Abu Salah tinha 29 anos. Primeiro eles roubaram-lhe a terra, depois tiraram-lhe as pernas em 2008, ontem tiraram-lhe a vida...

Mais aqui, aqui e aqui.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Israel usa armas químicas com bênção global

A tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas.

Créditos fotografia  / palestinalibre.org

Senhor desalojará diante de vós todos esses povos e submetereis povos maiores e mais fortes do que vós. Toda a região que a planta dos vossos pés pisar será vossa. Desde o deserto até ao Líbano e desde o rio Eufrates até ao mar ocidental serão essas as vossas fronteiras. Ninguém vos poderá resistir; o Senhor vosso Deus espalhará o medo e o terror sobre todos os lugares onde puserdes o pé, como vos afirmou.»
Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 11 – 23, 24 e 25
 
Até prova em contrário, esta é a lei ainda em vigor num mundo sem lei. Palavras atribuídas ao profeta Moisés, que não terão pertencido a Moisés, inscritas afinal não se sabe por quem num dos cinco livros do Antigo Testamento, parte da Bíblia que garante a supremacia do «povo escolhido», o «povo de Israel», sobre os demais povos da Terra. Colectâneas de lendas, ficções e profecias de origens desconhecidas e perdidas no tempo, em torno das quais se alongam discussões e teorias especulativas eternamente inconclusivas, continuam a servir de sustentação a práticas de uma crueldade aterradora, exercidas com uma impunidade absoluta e que se sobrepõem às mais elementares e actuais leis dos homens. Por isso, Israel usa armas químicas contra a população sitiada da Faixa de Gaza enquanto os cidadãos supostamente informados continuam entretidos com a novela da mirabolante e fracassada tentativa de assassínio dos Skripal, a que se somam as contaminadas historietas sobre os arsenais químicos da Síria de Assad, tão bem escondidos como outrora as armas de extermínio à disposição do Iraque de Saddam. Por causa das maléficas, mas invisíveis, armas químicas que teriam sido usadas em Duma, na Síria, a tríade fraternal e justiceira formada por Trump, Macron e May, sob coordenação da NATO, fez chover mísseis de cruzeiro sobre terra síria, alguns de um modelo em estreia absoluta, guiados contra paióis tão venenosos que deles não consta ter-se libertado um átomo de qualquer produto perigoso. Pelo mesmo motivo, sucederam-se reuniões e vetos no Conselho de Segurança da ONU, como se a salvaguarda da lei e do direito no mundo fosse unicamente ameaçada por comportamentos não demonstrados, atribuídos aos senhores de Damasco, amigos e aliados. Foi tanta a atenção concentrada nestes acontecimentos que não chegou para se debruçar sobre a utilização comprovada de armas químicas israelitas contra os seres humanos indefesos encarcerados em Gaza. Usados ainda como cobaias em testes de munições concebidas para provocar sofrimentos longos e torturantes a pessoas cuja única culpa é a de não pertencerem ao «povo eleito» e quererem viver na terra onde nasceram.
«Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz.»
Sobre essa realidade não se pronunciou ainda o Conselho de Segurança da ONU, provavelmente por falta de tempo, ou talvez porque já não se justifique discutir atentados cometidos com engenhos interditos numa situação que se tornou corriqueira, banal, de relevo insuficiente para ocupar espaço na agenda dos senhores do mundo e respectivos vassalos. Em Gaza, todas as sextas-feiras de há umas semanas para cá, milhares de pacíficas famílias palestinianas, sem armas nem símbolos políticos, reúnem-se na zona dos remanescentes terrenos agrícolas do enclave para tentarem, mais uma vez, denunciar ao mundo as crueldades a que mais de dois milhões de pessoas ali continuam sujeitas: cercadas por vedações, sitiadas militarmente, sem infraestruturas que permitam uma existência digna de seres humanos, entre lixos, ruínas e destroços, quase sem água nem energia eléctrica, com carências gritantes de medicamentos e alimentos, sem trabalho nem escolas. Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz. Os palestinianos que participam nessas manifestações cívicas que designaram como «Marcha do Regresso», o regresso às terras que lhes pertencem de pleno direito em toda a Palestina, expõem-se, em campo aberto, aos exercícios de tiro ao alvo e às sevícias engendradas pelas tropas israelitas sitiantes. Activistas de todo o mundo que apoiam solidariamente estas acções de resistência afirmam, com um optimismo pouco objectivo, que a coragem demonstrada por estas famílias palestinianas tem vindo a reflectir-se na opinião pública e entre dirigentes de todo o mundo, que assim adquirem uma nova consciência do desequilíbrio de forças e da injustiça flagrante da situação. Em Fevereiro último passaram 30 anos sobre a primeira vez que estive em Gaza, menos de um mês depois de ter explodido a chamada «Intifada», a genuína, legítima e justa revolta das pedras – iniciada naquele paupérrimo território. O cenário que então chegou a grandes meios de comunicação social, revelando cruamente a desproporção do confronto entre jovens arremessando pedras contra um exército de topo esmagando-os com tanques, chamou a atenção para o problema da ocupação ilegal da Palestina. Porém, a resposta eficaz da propaganda sionista e dos seus poderosos tentáculos ramificados em todo o planeta foi dando volta à situação, tornando fugaz a indignação internacional, transformando a legítima expressão da ira dos ocupados, perseguidos e espoliados em episódios de «terrorismo» doutamente comentados e explicados por quem se ocupa apenas de deturpar a realidade e mentir sobre razões. Os ecos da «Marcha do Regresso» não rompem agora a barreira formada pela propaganda instalada e institucionalmente sedimentada, cavalgando fronteiras. Por isso, a tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas. O notável cirurgião francês Christophe Oberlin tem estado em Gaza, ocupando-se da assistência a vítimas da chacina permanente cometida pelo exército israelita contra a população sitiada. Não tem quaisquer dúvidas em afirmar que estão a ser cometidos atentados com armas químicas «no norte e no sul» do território mártir. «Esses ataques deixam no terreno dezenas de feridos inconscientes e agitados por convulsões durante longos minutos», escreve o Professor Oberlin.  «Convulsões que se repetem regularmente nos feridos hospitalizados nas unidades de cuidados intensivos». A causa são «gases neurotóxicos», explica o médico, que durante 8 e 15 de Abril realizou cirurgias sucessivas no Hospital de Shifa, em Gaza, o mais importante da região. São também «usados outros gases, de cor diferente, que provocam vómitos e diarreias sangrentas», acrescenta. Ao que consta, ninguém encarregou ainda a Organização para a Destruição de Armas Químicas de investigar estas denúncias fundamentadas – quiçá por isso silenciadas. O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes. São balas «com efeitos explosivos que fazem rebentar os ossos, transformam o interior dos crânios em pastas sangrentas, destroçam os corpos abrindo crateras pelas quais podem passar punhos», testemunha o médico. Dezenas de mortos e mais de 500 feridos é, até agora, o balanço das chacinas israelitas cometidas para travar as «marchas do regresso» semanais. Membros da organização «Médicos Sem Fronteiras» presentes no terreno confirmam as informações prestadas pelo Professor Oberlin. Depararam com «ferimentos devastadores de uma severidade pouco habitual, de tratamento extremamente complexo e que deixarão sequelas na maioria dos pacientes». As balas «destroem literalmente os tecidos e pulverizam os ossos», explica a Dr.ª Marie-Elisabeth Ingres, responsável pela equipa dos «Médicos Sem Fronteiras» presente em Gaza.
«O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes.»
Sobre estas utilizações de armas e engenhos interditos que ferem o direito internacional paira um absoluto silêncio do Conselho de Segurança da ONU. Como se já não sobrasse direito internacional para ferir. Silencioso está igualmente o secretário-geral da ONU. Talvez seja melhor assim, ou voltaríamos a escutar um dos seus corajosos apelos à «contenção de ambas as partes»: neste caso os cidadãos desarmados e indefesos que se manifestam pelos seus direitos, garantidos nas resoluções aprovadas pela organização que dirige, mas sempre sonegados; e soldados israelitas recorrendo a armas químicas e apoiados em snipers que actuam em campo livre, e sem resposta, disparando balas que «pulverizam ossos», destroçam tecidos e transformam crânios em «pastas sangrentas». Justiça biblicamente salomónica, a de Guterres. Perante o quadro em que funciona actualmente a chamada «comunidade internacional» é natural que qualquer cidadão israelita, mesmo céptico em relação à religião oficial do seu país, sinta a inutilidade de esgrimir argumentos racionais e humanitários perante as convicções e as verdades divinas invocadas pela doutrina político-religiosa fundamentalista – a essência do sionismo - em que assenta a existência do Estado de Israel. Por isso esta transitou, pacífica e gradualmente, de uma hipócrita democracia formal para um sistema indisfarçadamente elitista, xenófobo, racista, ditatorial e de absolutismo religioso fundamentalista, regredindo 3500 anos ao encontro dos argumentos míticos e lendários do Antigo Testamento, como alicerces providenciais de um nacionalismo dogmático. O Estado de Israel de hoje assume-se, sem rebuço, como o lar do «povo eleito»  – «Passarás o Jordão para entrares na terra que o Senhor, teu Deus, te há-de dar; toma posse dela e habita ali». (Deuteronómio, cap. 11 – 31). Ao Estado de Israel é permitido assumir, com toda a discricionariedade e sem risco de sanção, comportamentos e atitudes agressivas, difamatórias e ameaçadoras para com os outros Estados, povos e cidadãos do mundo. As organizações, interesses e potências que usam o poder da força para fiscalizar abusivamente a «ordem mundial» são de uma tolerância cúmplice e sem limites para com estes procedimentos.
«Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda»
Tal como o Estado de Israel, também estas entidades violam o conjunto das leis internacionais com o qual se comprometeram. Por isso se uniram em aliança dita «indestrutível», porque todos ganham em violar as leis terrenas –  para pragmático usufruto das vantagens terrenas – cultivando fraternalmente as mais inquestionáveis ficções, afinadas em forma de moderna propaganda. São elites sumptuosas e globais que se elegeram a si mesmas – a versão actual do «povo eleito». Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda, mentiras, silêncios, superficialidade, desinformação e intoxicação, retorcidos dogmas religiosos e civilizacionais. Uma circunstância que permite, por exemplo, cantar loas a uma gesta guerreira contra o uso de armas químicas virtuais enquanto se gaseiam impunemente, com armas químicas reais, os indefesos seres humanos confinados a um campo de morte lenta. Em nome dos direitos humanos.

«Destruirás, pois, todos os povos que o Senhor, teu Deus, te entregar; não olharás para eles com piedade, nem adorarás os seus deuses, porque isso seria para ti uma armadilha». (Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 7 – 16)

Artigo de José Goulão, publicado no Abril Abril 

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Gaza : Imagine como será !

 
Gaza : Imagine como será !

Eduardo Galeano: Pouca Palestina resta; Israel está apagando-a do mapa

Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo os seus autores quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los.

 Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem sequer respirar sem autorização. Têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. Algo parecido tinha ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.

Banhados em sangue, os habitantes de El Salvador expiaram a sua má conduta e desde então viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem. São filhos da impotência os rockets caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desleixada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da Palestina. Já pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está a apagá-la do mapa.

Os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma das suas guerras defensivas, Israel engoliu outro pedaço da Palestina, e os almoços continuam. O repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita. Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros.

Quem lhe presenteou o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está a executar a matança em Gaza? O governo espanhol não pôde bombardear impunemente o País Basco para acabar com a ETA, nem o governo britânico pôde arrasar Irlanda para liquidar a IRA. Talvez a tragédia do Holocausto implique uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde vem da potência 'manda chuva' que tem em Israel o mais incondicional dos seus vassalos? O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis chamam-se danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais.

Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinos mortos, um israelita. Gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a achar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinianas. E esses meios também nos convidam a achar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.

A chamada comunidade internacional, existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos assumem quando fazem teatro? Ante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial destaca-se uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas, rendem tributo à sagrada impunidade. Ante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.

A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça aos judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada dos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. Eles estão a pagar, em sangue, na pele, uma conta alheia.

Por Eduardo Galeano, no Sin Permiso
 

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Gaza, o cinismo e os mortos

“Temos de os matar – não só os militantes do Hamas, mas toda a população de Gaza!" É o que diz a um correspondente do Guardian um soldado israelita de 22 anos no funeral de um camarada seu, um dos 18 soldados israelitas mortos na enésima invasão de Gaza, um miúdo de 20 anos que fazia o serviço militar obrigatório.
 
 
"Não temos escolha: se não lutarmos até ao fim, eles matam-nos." Nas ruas de Jerusalém todos se dizem contra um cessar-fogo: querem que se “dê cabo do Hamas. E isso leva tempo”. Perguntados pelas centenas de palestinianos mortos (até ontem de manhã eram mais de 600, o equivalente aos passageiros de dois aviões iguais ao da Malaysia Airlines abatido na Ucrânia), 80% dos quais civis, segundo a ONU, 20% crianças. A lengalenga sinistra é a mesma de sempre: “Muita gente foi morta porque o Hamas usa escudos humanos. Os palestinianos não têm respeito pela vida, nós é que temos.” De descrições de inimigos fanatizados e sem apego à vida está a História cheia: os americanos achavam o mesmo dos vietnamitas, era o que os nazis diziam de soviéticos e jugoslavos na II Guerra Mundial... Como explica uma porta-voz da B'Tselem (uma ONG israelita de direitos humanos), “os israelitas não negam que [os palestinianos] morram; simplesmente fazem um raciocínio que os culpa pela sua própria morte”. E queixam-se de que os media “mostram imagens de crianças mortas sem explicar o contexto do conflito” (Guardian, 20 e 21.7.2014).
 
Pois é, o contexto... A Aministia Internacional (AI) tem repetido que é precisamente o inverso que se passa: nas sucessivas operações punitivas sobre Gaza, “soldados israelitas utilizaram civis palestinianos, crianças incluídas, como escudos humanos durante as operações militares”. Foi o que aconteceu na operação Chumbo Fundido (22 dias entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009): cerca de 1400 palestinianos mortos, “incluídas pelo menos 330 crianças” Cinco anos depois (e, pelo meio, outra operação, em 2012, que matou mais 160 palestinianos), tudo se repete: Israel, ainda que incomparavelmente menos pressionado que qualquer outro ator internacional, martela a opinião pública com esta propaganda de que, se há mortos, a culpa é da forma perversa como os seus adversários fazem a guerra – mas quando a poeira assentou em 2009, o que as organizações independentes (a AI, as agências da ONU) comprovaram é que o Exército israelita atacou “15 dos 27 hospitais de Gaza”, “uma trintena de ambulâncias”, “matou 16 membros do pessoal médico”. Ao contrário do que dizia a propaganda israelita, “a AI não encontrou indício algum de que os combatentes do Hamas ou doutros grupos armados tenham utilizado os hospitais para se esconder ou para conduzir ataques, e as autoridades israelitas não forneceram provas dessas alegações”. Pelo contrário: “impediram deliberadamente a ajuda humanitária e as equipas de socorro [da Agência das Nações Unidas para os Refugiados e da Cruz Vermelha] de entrar em Gaza, ou obstaculizaram a sua circulação, atacaram veículos, centros de distribuição e pessoal médico.” (AI, Relatório Anual 2010)
 
 
Por tudo isto é verdadeiramente patética a discussão sobre se é “desproporcionada” a reação israelita aos rockets lançados a partir de Gaza. Desproporcionada, não; ela é um crime internacional, feito enquanto o resto do mundo olha para os restos do avião Malysia Airlines! Invoca Obama o direito de Israel a defender-se, como se Gaza fosse um país independente que agride outro país independente. Não: é Israel que desde há 47 anos ocupa Gaza (e a Cisjordânia, e Jerusalém Oriental) ilegalmente, e a bloqueia por terra, ar e mar (nenhum barco se pode aproximar da costa, nenhum avião pode aterrar sem autorização militar israelita) desde 2007, controlando todos os seus acessos (salvo Rafah, no qual tem a colaboração do Egito). A retirada militar israelita em 2005 não alterou em nada o estatuto de território ocupado. Em apenas 360 km2 (o tamanho do concelho de Sintra) vivem 1,8 milhões de pessoas, 43% delas menores de 14 anos, 80% dependendo de ajuda humanitária por causa do desemprego, da pobreza extrema. Para a AI, “a amplitude do bloqueio e as declarações dos responsáveis israelitas sobre os seus objetivos demonstram que esta medida é uma forma de castigo coletivo infligido à população de Gaza, em violação flagrante do Direito Internacional.”
 
 
De todo o quadro de ilegalidades cometidas por Israel que a UE e os EUA toleram, o bloqueio a Gaza supera tudo. Nada há neste planeta mais próximo de um gueto (o mundo deveria pensar a que é que isto soa...) no qual se fecham, até à exasperação total, quase dois milhões de pessoas.  Os israelitas – e esta coisa a que cinicamente se chama comunidade internacional – comportam-se como se eles fossem todos “terroristas” do Hamas.  Os media (veja-se o Huffington Post, 13.7.2014) mostram moradores das colinas próximas de Gaza sentados em cadeiras de praia a aplaudir o espetáculo dos aviões e drones que bombardeiam Gaza. Trazem pipocas, fumam cachimbos de água – enquanto a poucos quilómetros de distância famílias inteiras ficam soterradas debaixo dos escombros, crianças são levadas em desespero para hospitais bombardeados, onde se operam feridos num corredor...
 
“Os palestinianos não têm respeito pela vida!”
 
Texto de Manuel Loff, no Público

domingo, 1 de setembro de 2013

El silencio políticamente correcto

Mientras Detroit de cae a pedazos y la ciudad símbolo de la industria norteamericana vende sus museos para evitar la bancarrota, porque el sistema falló, el capitalismo falló y se vio víctima de su propia voracidad, Barak Obama anuncia que atacará Siria y, en una demostración del talante pacífico que le hizo obtener el Premio Nobel de la Paz, declara que esperará hasta el día 9 de septiembre para obtener la aprobación del congreso, de vacaciones hasta esa fecha. Sin embargo, y para evidenciar que un afroamericano en la presidencia de los Estados Unidos no significa ni un solo cambio en la política imperialista, de agresores auto designados policías planetarios, asegura que el ataque se producirá de todas maneras, que contar o no contar con el apoyo de sus “aliados” carece de importancia, y que considera irrelevante el informe de los inspectores de Naciones Unidas que viajaron a Siria para determinar si los ataques con gases tóxicos a la población civil provenían de las tropas gubernamentales o de una oposición armada por occidente.
 
Y frente a los tambores de guerra que redoblan al compás marcado por Washington, en el mundo se escucha un silencio muy similar en su “corrección política” al que se oyó cuando se decidieron los “bombardeos humanitarios” sobre Belgrado en 1999. En esa ocasión los Estados Unidos y la OTAN impusieron un clamoroso silencio políticamente correcto, que acalló las voces que desde el inicio de la crisis balcánica y desaparición de Yugoslavia, apuntaban a los socios de la OTAN como grandes responsables del desmembramiento yugoslavo.
 
Luego del ataque terrorista al World Trade Center nada, ningún indicio señalaba a Irak como responsable de la atrocidad, Al Quaeda operaba desde un Afganistán social, económica, cultural y políticamente destruido por el fanatismo de los talibanes, de un integrismo religioso capaz de atacar objetivos occidentales más allá de sus fronteras, y el silencio de lo políticamente correcto una vez más acalló las voces que acusaban a occidente, especialmente a los Estados Unidos, de ser los grandes responsables del poderío militar de los integristas, pues fue occidente quien armó y preparó a los muyahidín para que, tras derrotar a las entonces tropas soviéticas, se apropiaron y destrozaron un Estado aconfesional, laico, y lo hicieron retroceder hasta la edad de piedra. A sabiendas de que Al Quaeda, Osama Bin Laden incluido, mantenían fuertes vínculos con la satrapía saudí y otros emiratos ricos en petróleo en los que los intereses del capitalismo estaban fuertemente representados, permitieron que Afganistán en manos de los talibanes se convirtiera en la amenaza que los golpeó de manera brutal. Pero el capitalismo y su brazo armado, la OTAN debía reaccionar, y decidieron atacar Irak.
 
Es cierto que cuando se anunció la agresión a Irak el silencio de lo políticamente correcto no pudo imponerse fácilmente a las voces que dijeron No a la guerra, no obstante, las falsedades de un Collin Powell en Naciones Unidas mostrando un salero que según él contenía un poderosos agente bacteriológico, y la declaración de Las Azores protagonizada por Bush, Blair, un ambicioso sin medida llamado Aznar y un portugués que servía café, decretaron que Irak poseía armas de destrucción masiva y que, con el consejo de seguridad de Naciones Unidas en contra, más la protesta de millones de personas a lo largo y ancho del planeta, le declaraban la guerra Irak.
Las armas de destrucción masiva nunca fueron encontradas, la guerra costó a los iraquíes un millón de muertos y cientos de miles de desplazados, pero los beneficios de las empresas petroleras con participación directa de Donald Rumsfeld o Dick Cheney, secretario de defensa y vicepresidente de los Estados Unidos respectivamente, aumentaron de manera más que considerable. Se destruyó un país entregándolo a las bandas armadas que día a día aumentan el número de víctimas y, aunque Sadam Hussein era un miserable dictador, bajo su régimen la vida de los iraquíes sometida a los designios de una dictadura, era por lo menos una vida con perspectivas, con esperanza y por muy dura que fuera, el régimen de Sadam Hussein los mantenía salvo del integrismo islámico. Hasta la aniquilación de Irak como Estado, sin embargo de ser de mayoría creyente musulmana, la ley no la marcaba la sharia sino un código de derecho inspirado en moldes occidentales, como en Afganistán.
Para los Estados Unidos, para la OTAN, para el capitalismo, el régimen de Sadam Hussein fue tolerable, era un “amigo” que apaleaba a su pueblo y masacraba a los kurdos. Esto último era fácilmente silenciable por la poderosa voz de lo políticamente correcto, hasta que los tres cerdos de las Azores decidieron que el petróleo de Irak era un buen argumento para hacerlo desaparecer como Estado.
 
Hace apenas un par de años la voracidad del capitalismo decidió prescindir de otro “amigo” y esta vez le tocó el turno a Muhammar El Gadafi. Libia era un país “tolerable”. Occidente, la OTAN consintió que un atentado terrorista ordenado por Gadafi se olvidara luego de una negociación, pago en petróleo y arrepentimiento público del general que se autoproclamó sucesor del panarabismo de Nasser. Pocos días antes de la navidad de 1988 un avión de Pan American estalló sobre la ciudad escocesa de Lockerbie, murieron las 259 personas que viajaban en él más otras 11 que recibieron los restos de la nave, pero no hubo una acción de castigo como el inflingido a Irak, no hubo invasión, el régimen de Gadafi siguió siendo tolerado como una excentricidad árabe, hasta que las crecientes necesidades de petróleo aconsejaron a Occidente, al capitalismo, impulsar “una primavera árabe” en Libia, financiada y armada por Occidente y protagonizada, más que por Libios ávidos de democracia, por muyahidines llegados desde todo el espectro integrista islámico. Libia también desapareció como Estado. Otro país que, con todos los efectos perversos que una dictadura mesiánica tiene, era un freno efectivo al integrismo islámico, una garantía de estabilidad en la región y, además, Gadafi hacía estupendos regalos a los gobernantes occidentales. Incluso al pequeño mequetrefe de Aznar le obsequió un caballo, un pura sangre árabe llamado “Rayo Líder” que hoy languidece su vejez a cargo del erario público español. Y en Libia la ley tampoco la dictaba la sharia sino un sistema que oscilaba entre el sistema de justicia socialista basado en tribunales populares y el código romano. Libia era el único Estado árabe en donde los derechos de la mujer estaban consagrados en su constitución.
La poderosa voz de lo políticamente correcto grita que citar estos detalles de la Libia bajo Gadafi es justificar una dictadura, y acalla las voces de los nos opusimos a los ataques aéreos, a los “ bombardeos selectivos” que evitarían “daños colaterales”. Así el capitalismo se apropio hace menos de dos años de la riqueza petrolera libia, y el Estado asesinado se debate entre las bandas armadas de muyahidines. Cuánta razón tenía Lawrence al decir que el único interés occidental en los países árabes era devolverlos al atroz primitivismo.
 
Tampoco estuvo muy clara la intención de occidente al incentivar “la primavera árabe” que termino con el régimen de Mubarak en Egipto, el posterior gobierno de los Hermanos Musulmanes, el golpe de Estado del un ejército que, tal como ocurre con el ejército turco, garantiza la sobrevivencia de un estado aconfesional, esa base imprescindible para que se puedan desarrollar las iniciativas democráticas. Y una vez más la estentórea voz del silencio de lo políticamente correcto, nos quiere convencer que se trata de “cosas de árabes, esa gente que nunca aprende”.
 
Y ahora le toca el turno a Siria, geográficamente muy sensible por sus fronteras con Turquía e Israel. Nadie puede sino condenar el uso de armas químicas, de gas sarín contra una población indefensa. Pero tampoco nadie puede ignorar que de todos los Estados Árabes de la región, sin embargo de ser una dictadura muy peculiar, era hasta hace un año uno de los factores de seguridad en la región. Desde que occidente empezó a organizar, apoyar y armar “la primavera siria” violó las reglas elementales de la seguridad regional al armar, con medios cada vez más sofisticados, no tanto a opositores a Bashar Al-Assad, como a, una vez más, muyahidines llegados desde todos los lugares en los que el integrismo islámico aplasta cualquier intento de sociedad civilizada. La naturaleza de los combates emprendidos desde las ciudades como Alepo, conquistadas por esa “oposición” alimentada, financiada y armada por Occidente tiene muy poco de insurrección popular contra un dictador, y mucho de agresión mercenaria contra un Estado soberano.
 
Pero la poderosa voz del silencio de lo políticamente correcto impide hacer públicas estas y otras consideraciones, como que el Estado Sirio es aconfesional y que su estructura jurídica es la más occidentalizada de todas las naciones árabes. Tampoco es posible citar que Naciones Unidas han condenado sin paliativos los asesinatos y ejecuciones sumarias de soldados sirios y de funcionarios estatales cometidas por las bandas armadas de “opositores” apoyados por occidente. La Alta Comisionada de Naciones Unidas para los Derechos Humanos, Navi Pillay mostró las imágenes y videos de la masacre de Khan Al-Assal ocurrida entre el 22 y el 26 de julio de este año, hace poco más de un mes, en las que se ve a muyahidines golpeando y asesinando a varias docenas de soldados y funcionarios con las manos atadas a la espalda. Pero la implacable voz del silencio de lo políticamente correcto impuso una censura informativa seguida por casi todos los medios occidentales sin excepción.
 
Al parecer la suerte está echada. Barak Obama anuncia, como culminación de las celebraciones del aniversario del I Have a Dream pronunciada por Martín Luther King hace cincuenta años, que el ataque a Siria ocurrirá aún con la oposición de Naciones Unidas. Cuesta entender la posición francesa apoyando la agresión, o tal vez no cueste hacerlo, después de todo François Hollande es un socialdemócrata del siglo XXI, es decir uno de esos socialdemócratas que nada tienen en común con Olaf Palme y Willi Brandt, mucho menos con Rosa Luxemburgo, y sólo entienden las relaciones internacionales basadas en demostraciones de vasallaje ante las órdenes del imperialismo norteamericano y del capitalismo agresor.
 
Y después, ¿qué? Con Siria en manos de bandas de muyahidines la seguridad de Israel estallará como una bengala y el conflicto en el medio oriente alcanzará una gravedad muy previsible. Y después, ¿qué? ¿una “solución final”al problema palestino? Y después, ¿qué? Argelia es también un país de ricos yacimientos petroleros. ¿Promoverán los Estados Unidos y sus cómplices de la OTAN una “primavera salafista”? Es hora de gritar muy fuerte y de actuar, para evitar que la omnipresente voz del silencio de lo políticamente correcto nos enmudezca para siempre.
 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Hebron


Palestinianos durante um confronto esta semana com soldados israelitas em Hebron, Cisjordânia.
Fotografia de Mussa Qawasma

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

World Press Photo 2013


1º prémio do World Press Photo 2013
Duas crianças mortas na Faixa de Gaza.
Fotografia de Paul Hansen
 
Suhaib Hijazi tinha apenas dois anos quando a sua casa foi destruída por mísseis israelitas. Muhammad, o irmão mais velho (três anos), e o pai, Fouad, também morreram. A mãe sobreviveu, mas foi internada nos cuidados intensivos. 20 de Novembro, mais um dia de bombardeio israelita sobre Gaza. Na fotografia que valeu ao sueco Paul Hansen o prémio principal da World Press Photo de 2012, anunciado nesta sexta-feira, vêem-se em primeiro plano os corpos das duas crianças, numa rua estreita da Faixa de Gaza. São os tios, irmãos de Fouad, que os levam ao colo. Os rostos serenos de Suhaib e Muhammad contrastam com o desespero, a raiva e a tristeza que marcam os adultos. O pai vem atrás, envolto numa mortalha branca como manda a tradição, numa maca. Só há homens neste cortejo que parece encenado. A mesquita onde farão a cerimónia fúnebre não fica longe. Fonte Público.
 
 
Galeria de fotografias premiadas do World Press Photo

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gaza: Não há cliché jornalístico que esconda a realidade

“Ataques aéreos cirúrgicos”, “extirpar o terror”, “ciberterrorismo”... Nós, jornalistas, estamos a escrever como ursos de circo, repetindo todos os clichés que usamos, sem parar, há 40 anos.  Por Robert Fisk, The Independent
Manifestação no Cairo em solidariedade com Gaza
 
Terror, terror, terror, terror, terror. Lá vamos nós outra vez. Israel vai “extirpar o terror palestiniano” – o que, vale lembrar, Israel tenta, sem sucesso, há 64 anos – e o Hamas (...) anuncia que Israel “abriu as portas do inferno”, quando assassinou o seu comandante militar, Ahmed al-Jabari.
 
O Hezbollah anunciou várias vezes que Israel abrira “as portas do inferno” ao atacar o Líbano. Yasser Arafat, que foi super-terrorista e, depois, super-estadista – quando capitulou nos jardins da Casa Branca – e depois voltou a ser outra vez super-terrorista, quando se deu conta de que fora enganado em Camp David, Arafat também falou de “portas do inferno” em 1982.
 
E nós, jornalistas, estamos a escrever como ursos de circo, repetindo todos os clichés que usamos, sem parar, há 40 anos. O assassinato do comandante Jabari foi “assassinato predefinido”, foi “ataque aéreo cirúrgico” – como outros “ataques cirúrgicos israelitas” que mataram quase 17 mil civis no Líbano em 1982; 1.200 libaneses, a maioria dos quais civis, em 2006; ou os 1.300 palestinianos, a maioria dos quais civis, em Gaza em 2008-9, ou a mulher grávida e o bebé, assassinados também por “ataque aéreo cirúrgico” em Gaza na semana passada – e os 11 civis assassinados numa casa em Gaza. O Hamas, pelo menos, com os seus rockets Godzilla, não se pretende atacante “cirúrgico”. (...)
Os ataques israelitas também visam matar mulheres, crianças, qualquer coisa viva, em Gaza. Mas não se atreva a dizer tal coisa, ou você será nazi antissemita perigoso, praticamente o demónio, o mal, a perversão, tão assassino quanto o Hamas, com o qual (mas, por favor, nem pense em dizer tal coisa) Israel negociou muito, alegremente, nos anos 80s, sim, quando Israel encorajava o Hamas e os seus homens a assumir o poder em Gaza, porque esse movimento decapitaria Arafat, o super terrorista exilado. A bolsa de mortes em Gaza está hoje em 16 mortos palestinianos por israelita morto. E a proporção vai aumentar, é claro. Em 2008-9, a cotação foi 100 palestinianos, para 1 israelita.
 
E nós jornalistas estamos também a ajudar a construir mitos. A última guerra de Israel contra Gaza foi um fiasco tão completo – sempre “erradicando o terror”, claro – que as afamadas unidades de elite do exército de Israel não conseguiram sequer achar um soldado, um, capturado, Gilad Shalit, cuja libertação, são e salvo, foi trabalho, ano passado, não de Israel, mas do comandante Jabari em pessoa.
Para a Associated Press, o comandante Jabari seria “o líder nº 1 na clandestinidade” do Hamas. Mas que diabo de “líder na clandestinidade” seria alguém perfeitamente conhecido, nome, endereço, data de nascimento, detalhes da família, anos de prisão em Israel, período durante o qual mudou de lado, do Fatah, para o Hamas?! Como?! Tantos anos de prisão em Israel não converteram ao pacifismo o comandante Jabari? Nada de lágrimas: homem que viveu pela espada morreu pela espada, destino que, claro, não preocupa os guerreiros do ar de Israel, enquanto matam civis, de longe, em Gaza.
Washington apoia o direito de Israel “autodefender-se”, em seguida, fala de uma neutralidade espúria – como se as bombas que Israel lança contra Gaza não viessem dos EUA, tão certo quanto os foguetes Fajr-5 virem do Irão.
 
Enquanto isso, o lastimável, lamentável William Hague decide que o Hamas seria o “principal responsável” pela mais recente guerra. Mas... de onde tirou essa ideia? Segundo o The Atlantic Monthly, o assassinato, por israelitas, de um palestiniano “mentalmente desequilibrado” que caminhou em direção à fronteira, pode ter sido o detonador da mais recente guerra. Há também quem suspeite que tudo tenha começado com o assassinato de um menino palestiniano, que seria ato deliberado de provocação. E há quem diga que o menino foi morto por israelitas quando um grupo de palestinianos armados tentava cruzar a fronteira e foi impedido por tanques israelitas. Nesse caso, pistoleiros palestinianos – talvez não do Hamas – podem ter sido o detonador de tudo.
 
E não há meio para deter essa loucura, esse lixo de guerra? É verdade que centenas de foguetes são lançados contra Israel. É verdade também que milhares de acres de terra são roubadas dos árabes, por Israel – para judeus e só para judeus – na Cisjordânia. Hoje, já não resta terra suficiente, sequer, para um Estado palestiniano.
 
Apaguem o parágrafo acima, por favor. Só há os heróis e os vilãos neste conflito horrendo, no qual os israelitas dizem que são os heróis, para os aplausos dos países ocidentais (os quais, imediatamente, passam a perguntar-se por que tantos muçulmanos não gostam muito de ocidentais).
O problema, por estranho que pareça, é que as ações de Israel na Cisjordânia e o sítio de Gaza trazem cada dia para mais perto o evento que Israel diz temer todos os dias: Israel talvez se veja face a face com a própria destruição.
 
Na batalha dos foguetes – com os Fajr-5 iranianos e os drones do Hezbollah – os dois lados avançam por uma nova senda de guerra. Já não se trata de tanques israelitas que cruzam a fronteira do Líbano ou a fronteira de Gaza. Começamos a falar de foguetes e drones de alta tecnologia e de ataques cibernéticos – ou “ciberterrorismo” quando a iniciativa é dos muçulmanos – e, cada dia que passa, a escória humana deixada aos pedaços à margem do caminho será ainda mais irrelevante do que é hoje e ao longo dos últimos três dias.
 
O despertar árabe começa a seguir caminho próprio: os líderes terão de ouvir a voz das ruas. Desconfio que acontecerá também ao pobre velho rei Abdullah da Jordânia. O palavreado dos EUA sobre “paz”, ao lado de Israel, já não vale uma vela queimada, entre os árabes. E se Benjamin Netanyahu crê que a chegada dos primeiros foguetes Fajr do Irão exigirá um Big Bang israelita contra o Irão, e depois o Irão devolve os tiros – e, talvez, também os norte-americanos – e, no pacote, logo virá também o Hezbollah – e Obama acaba engolido em mais uma guerra ocidente-muçulmanos... Sim, mas... então... o que acontecerá?
 
Ora... Israel pedirá um cessar-fogo, o que Israel sempre pede, contra o Hezbollah. E pedirá outra vez o imorredouro apoio do ocidente na sua luta contra o mal do mundo, o Irão incluído.
E o assassinato do comandante Jabari? Por favor, esqueçam que os israelitas estavam a negociar com o próprio Jabari, usando como intermediário o serviço secreto alemão, há menos de um ano. Não se negoceia com terroristas, certo? Israel negoceia.
 
Israel batizou o mais recente banho de sangue que promove em Gaza de Operação Pilar da Defesa. Está mais para Pilar da Hipocrisia.
 
19/11/2012, Robert Fisk [The Independent], em Information Clearing House
Tradução do coletivo de tradutores da Vila Vudu, via esquerda.net

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lágrimas em Gaza


Um palestiniano chora sobre os corpos dos membros da família al-Dallu, vítimas dos bombardeamentos israelitas, durante o seu funeral em Gaza. Fotografia de Mahmud Hamsmahmud Hams/AFP/Getty Images.





Um homem chora junto ao corpo de um familiar morto, na sequência dos ataques israelitas, na morgue do hospital de Shifa em Gaza. Fotografia de Bernat Armangue/Associated Press.