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sexta-feira, 27 de abril de 2018

Israel usa armas químicas com bênção global

A tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas.

Créditos fotografia  / palestinalibre.org

Senhor desalojará diante de vós todos esses povos e submetereis povos maiores e mais fortes do que vós. Toda a região que a planta dos vossos pés pisar será vossa. Desde o deserto até ao Líbano e desde o rio Eufrates até ao mar ocidental serão essas as vossas fronteiras. Ninguém vos poderá resistir; o Senhor vosso Deus espalhará o medo e o terror sobre todos os lugares onde puserdes o pé, como vos afirmou.»
Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 11 – 23, 24 e 25
 
Até prova em contrário, esta é a lei ainda em vigor num mundo sem lei. Palavras atribuídas ao profeta Moisés, que não terão pertencido a Moisés, inscritas afinal não se sabe por quem num dos cinco livros do Antigo Testamento, parte da Bíblia que garante a supremacia do «povo escolhido», o «povo de Israel», sobre os demais povos da Terra. Colectâneas de lendas, ficções e profecias de origens desconhecidas e perdidas no tempo, em torno das quais se alongam discussões e teorias especulativas eternamente inconclusivas, continuam a servir de sustentação a práticas de uma crueldade aterradora, exercidas com uma impunidade absoluta e que se sobrepõem às mais elementares e actuais leis dos homens. Por isso, Israel usa armas químicas contra a população sitiada da Faixa de Gaza enquanto os cidadãos supostamente informados continuam entretidos com a novela da mirabolante e fracassada tentativa de assassínio dos Skripal, a que se somam as contaminadas historietas sobre os arsenais químicos da Síria de Assad, tão bem escondidos como outrora as armas de extermínio à disposição do Iraque de Saddam. Por causa das maléficas, mas invisíveis, armas químicas que teriam sido usadas em Duma, na Síria, a tríade fraternal e justiceira formada por Trump, Macron e May, sob coordenação da NATO, fez chover mísseis de cruzeiro sobre terra síria, alguns de um modelo em estreia absoluta, guiados contra paióis tão venenosos que deles não consta ter-se libertado um átomo de qualquer produto perigoso. Pelo mesmo motivo, sucederam-se reuniões e vetos no Conselho de Segurança da ONU, como se a salvaguarda da lei e do direito no mundo fosse unicamente ameaçada por comportamentos não demonstrados, atribuídos aos senhores de Damasco, amigos e aliados. Foi tanta a atenção concentrada nestes acontecimentos que não chegou para se debruçar sobre a utilização comprovada de armas químicas israelitas contra os seres humanos indefesos encarcerados em Gaza. Usados ainda como cobaias em testes de munições concebidas para provocar sofrimentos longos e torturantes a pessoas cuja única culpa é a de não pertencerem ao «povo eleito» e quererem viver na terra onde nasceram.
«Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz.»
Sobre essa realidade não se pronunciou ainda o Conselho de Segurança da ONU, provavelmente por falta de tempo, ou talvez porque já não se justifique discutir atentados cometidos com engenhos interditos numa situação que se tornou corriqueira, banal, de relevo insuficiente para ocupar espaço na agenda dos senhores do mundo e respectivos vassalos. Em Gaza, todas as sextas-feiras de há umas semanas para cá, milhares de pacíficas famílias palestinianas, sem armas nem símbolos políticos, reúnem-se na zona dos remanescentes terrenos agrícolas do enclave para tentarem, mais uma vez, denunciar ao mundo as crueldades a que mais de dois milhões de pessoas ali continuam sujeitas: cercadas por vedações, sitiadas militarmente, sem infraestruturas que permitam uma existência digna de seres humanos, entre lixos, ruínas e destroços, quase sem água nem energia eléctrica, com carências gritantes de medicamentos e alimentos, sem trabalho nem escolas. Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz. Os palestinianos que participam nessas manifestações cívicas que designaram como «Marcha do Regresso», o regresso às terras que lhes pertencem de pleno direito em toda a Palestina, expõem-se, em campo aberto, aos exercícios de tiro ao alvo e às sevícias engendradas pelas tropas israelitas sitiantes. Activistas de todo o mundo que apoiam solidariamente estas acções de resistência afirmam, com um optimismo pouco objectivo, que a coragem demonstrada por estas famílias palestinianas tem vindo a reflectir-se na opinião pública e entre dirigentes de todo o mundo, que assim adquirem uma nova consciência do desequilíbrio de forças e da injustiça flagrante da situação. Em Fevereiro último passaram 30 anos sobre a primeira vez que estive em Gaza, menos de um mês depois de ter explodido a chamada «Intifada», a genuína, legítima e justa revolta das pedras – iniciada naquele paupérrimo território. O cenário que então chegou a grandes meios de comunicação social, revelando cruamente a desproporção do confronto entre jovens arremessando pedras contra um exército de topo esmagando-os com tanques, chamou a atenção para o problema da ocupação ilegal da Palestina. Porém, a resposta eficaz da propaganda sionista e dos seus poderosos tentáculos ramificados em todo o planeta foi dando volta à situação, tornando fugaz a indignação internacional, transformando a legítima expressão da ira dos ocupados, perseguidos e espoliados em episódios de «terrorismo» doutamente comentados e explicados por quem se ocupa apenas de deturpar a realidade e mentir sobre razões. Os ecos da «Marcha do Regresso» não rompem agora a barreira formada pela propaganda instalada e institucionalmente sedimentada, cavalgando fronteiras. Por isso, a tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas. O notável cirurgião francês Christophe Oberlin tem estado em Gaza, ocupando-se da assistência a vítimas da chacina permanente cometida pelo exército israelita contra a população sitiada. Não tem quaisquer dúvidas em afirmar que estão a ser cometidos atentados com armas químicas «no norte e no sul» do território mártir. «Esses ataques deixam no terreno dezenas de feridos inconscientes e agitados por convulsões durante longos minutos», escreve o Professor Oberlin.  «Convulsões que se repetem regularmente nos feridos hospitalizados nas unidades de cuidados intensivos». A causa são «gases neurotóxicos», explica o médico, que durante 8 e 15 de Abril realizou cirurgias sucessivas no Hospital de Shifa, em Gaza, o mais importante da região. São também «usados outros gases, de cor diferente, que provocam vómitos e diarreias sangrentas», acrescenta. Ao que consta, ninguém encarregou ainda a Organização para a Destruição de Armas Químicas de investigar estas denúncias fundamentadas – quiçá por isso silenciadas. O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes. São balas «com efeitos explosivos que fazem rebentar os ossos, transformam o interior dos crânios em pastas sangrentas, destroçam os corpos abrindo crateras pelas quais podem passar punhos», testemunha o médico. Dezenas de mortos e mais de 500 feridos é, até agora, o balanço das chacinas israelitas cometidas para travar as «marchas do regresso» semanais. Membros da organização «Médicos Sem Fronteiras» presentes no terreno confirmam as informações prestadas pelo Professor Oberlin. Depararam com «ferimentos devastadores de uma severidade pouco habitual, de tratamento extremamente complexo e que deixarão sequelas na maioria dos pacientes». As balas «destroem literalmente os tecidos e pulverizam os ossos», explica a Dr.ª Marie-Elisabeth Ingres, responsável pela equipa dos «Médicos Sem Fronteiras» presente em Gaza.
«O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes.»
Sobre estas utilizações de armas e engenhos interditos que ferem o direito internacional paira um absoluto silêncio do Conselho de Segurança da ONU. Como se já não sobrasse direito internacional para ferir. Silencioso está igualmente o secretário-geral da ONU. Talvez seja melhor assim, ou voltaríamos a escutar um dos seus corajosos apelos à «contenção de ambas as partes»: neste caso os cidadãos desarmados e indefesos que se manifestam pelos seus direitos, garantidos nas resoluções aprovadas pela organização que dirige, mas sempre sonegados; e soldados israelitas recorrendo a armas químicas e apoiados em snipers que actuam em campo livre, e sem resposta, disparando balas que «pulverizam ossos», destroçam tecidos e transformam crânios em «pastas sangrentas». Justiça biblicamente salomónica, a de Guterres. Perante o quadro em que funciona actualmente a chamada «comunidade internacional» é natural que qualquer cidadão israelita, mesmo céptico em relação à religião oficial do seu país, sinta a inutilidade de esgrimir argumentos racionais e humanitários perante as convicções e as verdades divinas invocadas pela doutrina político-religiosa fundamentalista – a essência do sionismo - em que assenta a existência do Estado de Israel. Por isso esta transitou, pacífica e gradualmente, de uma hipócrita democracia formal para um sistema indisfarçadamente elitista, xenófobo, racista, ditatorial e de absolutismo religioso fundamentalista, regredindo 3500 anos ao encontro dos argumentos míticos e lendários do Antigo Testamento, como alicerces providenciais de um nacionalismo dogmático. O Estado de Israel de hoje assume-se, sem rebuço, como o lar do «povo eleito»  – «Passarás o Jordão para entrares na terra que o Senhor, teu Deus, te há-de dar; toma posse dela e habita ali». (Deuteronómio, cap. 11 – 31). Ao Estado de Israel é permitido assumir, com toda a discricionariedade e sem risco de sanção, comportamentos e atitudes agressivas, difamatórias e ameaçadoras para com os outros Estados, povos e cidadãos do mundo. As organizações, interesses e potências que usam o poder da força para fiscalizar abusivamente a «ordem mundial» são de uma tolerância cúmplice e sem limites para com estes procedimentos.
«Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda»
Tal como o Estado de Israel, também estas entidades violam o conjunto das leis internacionais com o qual se comprometeram. Por isso se uniram em aliança dita «indestrutível», porque todos ganham em violar as leis terrenas –  para pragmático usufruto das vantagens terrenas – cultivando fraternalmente as mais inquestionáveis ficções, afinadas em forma de moderna propaganda. São elites sumptuosas e globais que se elegeram a si mesmas – a versão actual do «povo eleito». Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda, mentiras, silêncios, superficialidade, desinformação e intoxicação, retorcidos dogmas religiosos e civilizacionais. Uma circunstância que permite, por exemplo, cantar loas a uma gesta guerreira contra o uso de armas químicas virtuais enquanto se gaseiam impunemente, com armas químicas reais, os indefesos seres humanos confinados a um campo de morte lenta. Em nome dos direitos humanos.

«Destruirás, pois, todos os povos que o Senhor, teu Deus, te entregar; não olharás para eles com piedade, nem adorarás os seus deuses, porque isso seria para ti uma armadilha». (Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 7 – 16)

Artigo de José Goulão, publicado no Abril Abril 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Outros olhares sobre os "Panama Papers"

 
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]. Este país tinha desenvolvido um estrito sigilo bancário, permitindo a pequenos empreendedores realizar transações ao abrigo dos graúdos. Ao forçar a Suíça a abandonar o seu sigilo bancário, os EUA estenderam a sua vigilância em massa às transacções económicas. Desta forma, eles podem facilmente aldrabar a concorrência e sabotar a acção dos pequenos empreendedores.


Durante uma dezena de anos, a Forbes classificou Fidel Castro como o chefe de Estado mais rico do mundo. Embora seja actualmente aceite que era pura propaganda, a Forbes nunca se desculpou.


Os «Papéis do Panamá»
É neste contexto que Washington forneceu ao Süddeutsche Zeitung 11.500. 000 de ficheiros informáticos, pirateados no quarto escritório de advocacia no mundo encarregue de criar empresas off-shore. Sendo esta espionagem um crime, os pretensos «atiradores de lamirés» que o realizaram permaneceram anónimos. É claro que Washington primeiro triou cuidadosamente os dossiês e excluiu, antes de tudo, todos os relativos a cidadãos ou empresas norte-americanas, depois, provavelmente, os que dizem respeito aos seus bons aliados. O facto de alguns pretensos aliados, às boas com a administração Obama, —como o Presidente Petro Porochenko— figurarem nesses documentos, confirma-nos que eles acabam de ser revelados pelo seu poderoso protector. Muito embora o Panamá seja um país de língua espanhola (Castelhano- ndT) e o Süddeutsche Zeitung seja publicado na Alemanha, os arquivos roubados foram nomeados pelos espiões em Inglês : «Panamá Papers». De passagem, os autores desta fantochada tentam persuadir-nos que todos os que se levantam contra Washington seriam ladrões. Lembremos, por exemplo, das campanhas que foram lançadas contra Fidel Castro, acusado de ser um traficante de drogas e colocado pela Forbes entre as maiores fortunas do mundo [
A doutrina Romer: forçar os paraísos fiscais não Anglo-saxónicos a desistir, e desestabilizar a União Europeia até que os capitais refluam de volta para os paraísos fiscais do Reino Unido, da Holanda, dos EUA e de Israel.

A estratégia económica dos Estados Unidos

No início de seu mandato, o Presidente Obama designou a historiadora Christina Romer para presidir ao seu Comité de Conselheiros económicos. Esta professora, na Universidade de Berkeley, é uma especialista na crise de 1929 (conhecida como «A Grande Depressão»- ndT). Segundo ela, nem o New Deal de Roosevelt, nem a Segunda Guerra Mundial permitiram sair dessa recessão, mas, sim o afluxo de capitais europeus a partir de 1936, fugindo da «subida dos riscos». Foi em cima desta base que Barack Obama conduziu a sua política económica. Em primeiro lugar, agiu para fechar todos os paraísos fiscais que Washington e Londres não controlam. Depois, ele organizou a desestabilização da Grécia e de Chipre, de maneira a que os capitais europeus se refugiem nos paraísos fiscais anglo-saxões. Tudo começou na Grécia, em Dezembro de 2008, com manifestações após o assassinato de um adolescente por um policia. A CIA transportou, por autocarro, gorilas do Kosovo para desfazer uma manifestação e montar um princípio de caos [
1]. O Departamento do Tesouro pode, então, verificar que os capitais gregos fugiam do país. A experiência era conclusiva, a Casa Branca decidiu mergulhar este frágil Estado numa crise financeira e económica, que pôs em causa a própria existência da zona Euro. Como previsto, cada vez que alguém se interroga sobre uma eventual expulsão da Grécia do euro. ou sobre uma dissolução da zona do euro, os capitais europeus precipitam-se para os paraísos fiscais disponíveis, principalmente britânicos, norte-americanos e holandeses. Em 2012, uma outra operação foi concretizada contra o paraíso fiscal de Chipre. Todas as contas bancárias para além dos 100. 000 Euros foram confiscadas. Foi a primeira, e única vez, numa economia capitalista que observamos esse tipo de nacionalização [2]. No decurso dos últimos oito anos, assistimos a numerosas reuniões do G8 e do G20 que estabeleceram todo o tipo de regras internacionais, supostamente para prevenir a evasão fiscal [3]. No entanto, uma vez estas regras adoptadas por todos, os Estados Unidos –-e, em menor escala Israel, a Holanda e o Reino Unido--- isentaram-se delas, a si próprios.

Os paraísos fiscais
Cada paraíso fiscal tem um estatuto jurídico especial, geralmente absurdo. Actualmente, os principais paraísos fiscais são o Estado independente da City de Londres (membro do Reino Unido, da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte), o Estado de Delaware (membro do Estados Unidos) e Israel, mas existem muitos outros paraísos fiscais, especialmente britânicos, a começar pelas ilhas de Jersey e de Guernsey (membros do Ducado da Normandia e, como tal, colocados sob a autoridade da Rainha da Inglaterra, mas, nem membros do Reino Unido nem da União Europeia), Gibraltar (um território espanhol, cuja contrôlo do terreno é inglês e que o Reino Unido ocupa ilegalmente) até Anguila, Bermudas, Ilhas Caimão, ilhas Turcas, Ilhas Virgens ou Montserrat. Há também alguns ligados à Holanda: Aruba, Curaçao e Saint Maarten. Um paraíso fiscal é uma «zona franca» alargada a todo um país. No entanto, no imaginário colectivo, uma zona franca é indispensável para a economia, enquanto um «paraíso fiscal» é uma calamidade, ora trata-se exactamente da mesma coisa. Claro, certas empresas abusam de zonas francas para não pagar impostos, e outras tiram proveito abusivo de paraísos fiscais, mas isso não é razão para pôr em questão a existência destes dispositivos indispensáveis ao comércio internacional. Na sua guerra contra os paraísos fiscais não Anglo-saxões, os EUA tem-se centrado em desferir golpes contra a Suíça [
45]. Por ter visto as difíceis condições de vida da família Castro, em Cuba, eu pergunto-me como foi possível montar uma tal atoarda. Os novos secretos magnatas seriam, pois, Vladimir Putin Bashar, Bachar el-Assad e Mahmoud Ahmadinejad —cujo frugalidade é aliás legendária—. Esta propaganda contra os adversários políticos, não é senão a ponta visível do icebergue, sendo que o mais importante é o futuro do sistema financeiro internacional.



Violação da ética pelos jornalistas
O Süddeutsche Zeitung faz parte do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ), uma associação especializada não em jornalismo de investigação, como o título pode sugerir, mas na denúncia de crimes financeiros. Nas sociedades republicanas, a Justiça deve ser igual para todos. Mas o ICIJ, que já tornou públicos mais de 15 milhões de ficheiros informáticos desde a sua criação, jamais atacou os interesses dos Estados Unidos. Ela não pode, portanto, de certeza pretender agir por preocupação de justiça. Por outro lado, os princípios republicanos da nossa sociedade determinam obrigações para os jornalistas. Estas foram formalizados na Carta de Munique, adoptada em 1971 por todos os sindicatos profissionais do Mercado Comum, depois estendidas ao resto do mundo pela Federação Internacional dos Jornalistas. Eu compreendo, perfeitamente, que este texto impõe limitações, por vezes difíceis de suportar. E eu, há alguns anos, fiz parte daqueles que acreditavam ser útil violá-la de vez em quando. Mas, a experiência prova que ao violá-la se abre a via para outras violações, que se voltam contra os cidadãos. Os jornalistas do International Consortium of Investigative Journalists não se colocaram nenhuma interrogação ética. Eles aceitaram trabalhar com documentos roubados, e escolhidos de avanço, sem ter a menor possibilidade de conferir a sua autenticidade. A Carta de Munique estipula que os jornalistas só publicarão informações cuja origem é conhecida, que eles não suprimirão informações essenciais e não alterarão os textos e os documentos; finalmente, que eles não usarão métodos desleais para obter informações, fotografias e documentos. Três requisitos que eles violaram, com perfeito conhecimento de causa, o que deveria excluí-los de organismos profissionais e provocar a saída dos directores da BBC, da France-Télévisions, da NRK, e por que não da Radio Free Europe / Radio Liberty (a rádio da CIA, a qual é também membro do Consórcio de Jornalistas). Este não é o primeiro caso do International Consortium of Investigative Journalists. Foi ele que tornou públicos, em 2013, 2,5 milhões de ficheiros informáticos roubados em 120.000 empresas off-shore. Depois, ainda foi ele quem revelou, em 2014, os contratos assinados entre multinacionais e o Luxemburgo, para beneficiar de uma fiscalidade privilegiada. E, foi sempre ele que revelou, em 2015, as contas do banco britânico HSBC na Suíça. O International Consortium of Investigative Journalists, suspeita-se, é financiado por diversas organizações ligadas à CIA, como a Fundação Ford, e as fundações de George Soros. Este último exemplo é o mais interessante : para os membros do ICIJ o dinheiro do Sr. Soros não vem da CIA mas das suas especulações financeiras, em desfavor dos povos, o que tornaria a coisa mais aceitável.



Princípio fundamental das sociedades republicanas: para ser legítima, a Justiça deve aplicar-se por igual a todos (artigo 6 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789). Ora, desde a sua criação, o ICIJ abstêm-se de revelar os crimes dos EUA. Ao fazê-lo, ele acrescenta à injustiça.

Sem paraísos-fiscais não Anglo-saxões, mais Resistência

Que o Hezbolla detêm empresas e contas secretas no Panamá, e por outros lados, nada têm de surpreendente. Eu referia num artigo recente os esforços da Resistência libanesa para se auto-financiar, sem ter que depender de subvenções iranianas. A complexa montagem financeira à qual se dedicou deverá ter de ser inteiramente reconstruida, à mingua do qual o Líbano se tornará a presa dos seus vizinhos israelitas. Que o Presidente Ahmadinejad tenha criado sociedades off-shore, para contornar o embargo do qual o seu país era vítima e vender petróleo, não só não é um crime, mas, sim todo um elogio. Que a família Makhlouf, os primos do Presidente el-Assad, tenha utilizado uma montagem financeira para contornar o embargo ilegal das potências ocidentais, e permitir aos Sírios alimentar-se durante cinco anos da guerra de agressão, é também totalmente legítima. Que vai restar desta vasta revelação ? Primeiro, a reputação do Panamá fica destruída e levará muitos anos a reparar. Em seguida, os pequenos malfeitores que se aproveitaram do sistema serão processados na Justiça, enquanto uma enorme quantidade de comerciantes honestos terão de se justificar perante os tribunais. Mas, ao contrário das aparências, os que animam esta campanha velarão para que nada mude. O sistema irá permanecer, portanto, em acção, mas, sempre, cada vez mais em exclusivo benefício do Reino Unido, da Holanda, dos Estados Unidos e de Israel. Acreditando defender as suas liberdades, aqueles que participarem nesta campanha irão tê-las, na realidade, mais diminuídas. 
 
Artigo de Thierry Meyssan - Tradução Alva
Rede Voltaire
[1O meus agradecimentos para os leitores que encontrarão a entrevista que dei a um média grego sobre este assunto, em 2009. Eu não escrevi nenhum artigo, apenas um parágrafo, a propósito, em « La "révolution colorée" échoue en Iran» («A “revolução colorida” falha no Irão»- ndT), por Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 24 juin 2009.
[2] “O pião cipriota”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) ,Rede Voltaire, 25 de Março de 2013.
[3] « Le G 20 : une hiérarchisation des marchés financiers» («O G-20 : uma hierarquização de mercados financeiros»- ndT), par Jean-Claude Paye, Réseau Voltaire, 9 avril 2009.
[4] « Lutte contre la fraude fiscale ou main mise sur le système financier international ? », « UBS et l’hégémonie du dollar», par Jean-Claude Paye,Réseau Voltaire, 3 mars et 21 octobre 2009.
[5] « Forbes invente la fortune de Fidel Castro», par Salim Lamrani,Réseau Voltaire, 24 mai 2006.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Tragédia de Bhopal (1984 – 2014)


Os fetos que foram abortadas na sequência da tragédia,  foram preservados para estabelecer a causa da morte.
(Fotografia Magnum)
 
Na madrugada de 2 para 3 dezembro de 1984, uma fuga descontrolada de gás na fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bhopal, na Índia, causou um dos piores desastres humanitários e ambientais da história da humanidade. 24 toneladas de Isocianato de Metila, um composto químico altamente tóxico e mortal, contaminou todas as formas de vida e os recursos naturais que existiam num raio de vários quilómetros em redor da fábrica.
 
 Dr. Sathpathy é o perito forense do Hospital Hamida. Já realizou mais de 20 mil autópsias. (Fotografia Magnum)
 
A Union Carbide, empresa de pesticidas de origem norte-americana, negou-se a fornecer informações detalhadas sobre a natureza dos contaminantes, e, como consequência, os médicos não tiveram condições de tratar adequadamente os indivíduos expostos. Estima-se que entre 22.000 e 25.000 pessoas morreram por contaminação química e que mais de 57.000 pessoas foram expostas a níveis perigosos deste composto, o que causou malformações e numerosas sequelas que em alguns casos passaram de geração em geração.
 
 
 Todas estas mulheres perderam os seus maridos na tragédia. 
(Fotografia Magnum)

Apesar deste quadro absurdo, a fábrica da Union Carbide em Bhopal permanece abandonada desde a explosão tóxica enquanto que os resíduos perigosos e materiais contaminados ainda estão espalhados pela área. 30 anos depois do desastre, a empresa norte-americana que é proprietária da fábrica, a Union Carbide, continua sem responder perante a justiça indiana e milhares de pessoas da região continuam a beber água contaminada, são afetadas por várias doenças ginecológicas e infertilidade.
 

Enterro de uma criança não identificada em 1984.
(Fotografia Magnum)

 
Mais sobre o assunto em:
Desastre de Bhopal (Wikiepadia)


La tragedia según Magnum (El Mundo)
 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um romance português

Capítulo I: Em 2004, o Governo português era, como hoje, resultado de uma coligação entre o PSD e o CDS. O primeiro-ministro era Durão Barroso; Paulo Portas era ministro da Defesa. O Governo negociou então com o consórcio alemão GSC, de que faz parte a Ferrostaal, a compra de dois-submarinos-dois para a Marinha, que custaram a módica quantia de 880 milhões, negócio que desde cedo levantou dúvidas.

Capítulo II: Ontem, um tribunal alemão condenou dois ex-executivos da Ferrostaal a dois anos de prisão e ao pagamento de elevadas coimas por suborno de funcionários públicos estrangeiros na venda dos submarinos. O tribunal deu como provado que a Ferrostaal subornou o ex-cônsul de Portugal em Munique, pagando-lhe 1,6 milhões de euros para que ele propiciasse "contactos com o Governo português".

Capítulo III: Em Portugal corre também no DCIAP, desde 2006, um processo sobre o negócio por indícios de tráfico de influências, financiamento partidário ilegal e corrupção. Em meados do ano, estava parado "por falta de meios". Fora-lhe atribuído um só magistrado, que acumulava com outros processos; as traduções da documentação enviada pelas autoridades alemãs continuavam por fazer; ainda não tinham sido nomeados os peritos necessários ao prosseguimento da investigação...

Final feliz: Durão Barroso é hoje presidente da Comissão Europeia e Paulo Portas voltou ao Governo e é agora ministro dos "Negócios Estrangeiros".


Texto de Manuel António Pina no JN