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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Os Panteras Negras foram nos EUA a vanguarda dos anos 60

“Eles são a maior ameaça para a segurança interna do país”, sentenciou John Edgar Hoover, o lendário chefe do FBI, durante reunião na qual declarou guerra aberta ao partido de jovens afro-americanos que, no final dos anos 1960, ousava promover motins e enfrentar a polícia.
Os Panteras Negras brotavam como cogumelos nas principais cidades norte-americanas. Rapidamente viravam o símbolo e a direção de quem não aceitava mais oferecer a outra face perante a agressividade das forças racistas. As leis segregacionistas já estavam abolidas desde 1964, mas a brutalidade repressiva contra os bairros negros e a situação de pobreza não se alteravam. Os grandes centros urbanos do norte e da costa oeste, para onde migravam os que fugiam do apartheid sulista, tinham se transformado em panelas de pressão. Levantes frequentes agitavam as cidades e a imaginação. Quando moradores de Watts, distrito na periferia de Los Angeles, se sublevaram contra a prisão arbitrária de um vizinho, em agosto de 1965, abria-se um novo ciclo histórico. Entre os dias 11 e 15, o chão ficou tingido pelo sangue de 34 mortes e mais de mil feridos. Quase 3,5 mil presos e mais de 40 milhões de dólares em danos materiais foram contabilizados. Nos três anos seguintes, a cena se repetiu em muitas outras localidades. Os Estados Unidos pareciam caminhar rumo a uma insurreição. Os encarregados em manter a lei e a ordem perdiam o sono. Estava aparentemente em perigo o sistema que juraram defender. Ao lado das multidões que marchavam contra a Guerra do Vietname, a mobilização dos guetos negros sacudia um mundo marcado por regras e hábitos construídos no encontro entre imperialismo e escravidão. Era esse o clima, em outubro de 1966, no dia 15, quando dois estudantes do Merritt College, em Oakland, cidade vizinha a São Francisco, na ensolarada Califórnia, fundaram o Partido Pantera Negra para a Autodefesa.
Huey P. Newton e Bobby Seale recrutaram mais quatro colaboradores e formaram o núcleo inicial da organização. Também decidiram instituir um uniforme: camisas azuis, calças e boinas pretas, casacos de couro. Tinham mais simpatia pelas ideias de Malcolm X, assassinado em maio do ano anterior, do que pelo pensamento de Martin Luther King, mortalmente baleado dali a dois anos. Sentiam-se atraídos por objetivos nacionalistas e de autodeterminação, a compreensão de que o povo negro estava sob jugo colonial desde que escravos africanos foram capturados e transportados contra a vontade. Flertavam com possibilidades separatistas, entortando o nariz para a narrativa integracionista que predominava nos grupos dominantes da campanha contra a segregação.
Acima de tudo, consideravam inaceitável a estratégia de resistência passiva, não violenta, apregoada por Luther King, com quem costuravam acordos pontuais, mas tendendo a enxergá-lo como um anexo do sistema que sonhavam demolir. Partiam do pressuposto que a falta de reação, cedo ou tarde, afetaria o ânimo e a capacidade de mobilização. A resistência ativa, por outro lado, poderia elevar a autoestima e intimidar os inimigos de sua causa. Viam-se, em certa medida, como herdeiros de Malcolm X, ainda que não partilhassem seus pendores islâmicos. O que definitivamente os entusiasmava era o propósito de ser a ponta de lança das comunidades negras. Seus organizadores e protetores armados frente aos atropelos do Estado e de agremiações racistas como a Ku Klux Klan. Contavam, a seu favor, com uma lei californiana que permitia a todos os cidadãos carregarem suas próprias armas. De rifles no ombro e revólveres em punho, funcionavam como tropa de choque contra a ação policial, protegendo manifestações e protestos.
Crescimento após ação audaciosa
A fama nacional veio com uma ação espetacular, em maio de 1967. A Assembleia Estadual da Califórnia, sediada em Sacramento, tinha agendado a discussão de projeto que proibia o porte de armas. Sob comando de Bobby Seale, trinta militantes ocuparam, armados, as instalações do organismo legislativo, em protesto contra medida que enfraqueceria os Panteras Negras diante da polícia.
Imagens de tamanha audácia percorreram o país. Seu prestígio cresceu aceleradamente, atraindo jovens militantes por toda a parte, que abriam escritórios do partido, aderiam a seu programa e se paramentavam para a guerra. As ambições eram vigorosas: emprego, educação, habitação, fim da brutalidade policial, julgamento de negros apenas por juízes e júris negros, revogação do serviço militar obrigatório, liberdade para os afro-americanos decidirem se queriam continuar incorporados aos Estados Unidos ou fundar sua própria nação. Também manifestavam seu repúdio à intervenção norte-americana no Vietname. Não queriam apenas a paz e a retirada das tropas. Batalhavam pela vitória dos comunistas de Ho Chi Minh, o líder da independência do país asiático, contra os exércitos chefiados pela Casa Branca.
Foi nessa batida que logo se transformaram na corrente mais relevante do chamado Poder Negro.
Sob esse guarda-chuva se abrigava, entre os anos 60 e 70, uma constelação de movimentos e grupos dispostos à insurgência contra um modelo que, aos seus olhos, estava marcado pelo cruzamento entre supremacia branca, domínio dos ricos e neocolonialismo. “Nascemos como uma organização comunitária, mas logo nos reivindicamos como partido revolucionário”, relembra Kathleen Neal Cleaver, primeira mulher a integrar o comitê central dos Panteras Negras. “Sob a influência da Revolução Cubana e da guerra de libertação dos vietnamitas, além do impacto das ideias de Mao Tse Tung, assumimos identidade marxista, mas nas condições específicas da luta anticolonial dos negros norte-americanos.” Aos 71 anos, Kathleen é atualmente professora na Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas do planeta. Formada em Direito, dedica-se ao estudo de questões afro-americanas. Casada por vinte anos com um dos chefes históricos dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver, o terceiro homem da troika que também incluía Newton e Seale, ela foi secretária de Comunicação do partido entre 1967 e 1969, antes de se exilar na Argélia, com o marido, então condenado por tentativa de homicídio, durante tiroteio contra policiais de Oakland.
“Os Estados Unidos são diferentes de outros países capitalistas”, afirma, resumindo análise que embasava sua organização. “A estrutura econômica e social tem um componente de dominação colonial dentro do próprio território, para o qual outros povos foram trazidos à força. Não se trata apenas de preconceito racial, mas de supremacia como forma de Estado e sociedade.” Essa lógica levou os Panteras Negras a aceitarem filiação apenas de afro-americanos. Apostavam que interesses comuns seriam defendidos por coalizões entre distintas agremiações, cada qual com sua própria identidade nacional ou étnica.

Estado versus Panteras Negras
Parte da imprensa aproveitou este critério para enquadrar o agrupamento como racista, defensor de alguma espécie de supremacia negra. A outra perna da campanha de desconstrução era pintá-lo como adepto da violência e do terror.
“Nós estávamos em guerra e tínhamos o direito de nos defender”, declara Elaine Brown, a última presidente do partido antes de sua dissolução. “Mas recorríamos à violência apenas quando atacados. Nosso trabalho principal era educacional e de organização social.” Nascida em um gueto de Filadélfia, atualmente com 73 anos, a ativista também se fez cantora e escritora. Quando os Panteras Negras estavam já em seu ocaso, divididos e sob severa repressão, Elaine foi nomeada por Newton, foragido em Cuba, a nova comandante do movimento, cargo que ocuparia entre 1974 e 1977. “Ninguém tinha a receita para enfrentar o padrão repressivo que foi sendo adotado pelo governo”, relembra Elaine. “Tentamos aplicar uma das máximas de Mao, de que a guerrilha deve se mover entre as pessoas como um peixe nadando no mar. Mas o cerco se fechava.” Além da autodefesa, a legenda fez-se conhecida por implantar programas de assistência nos bairros mais pobres, dos quais o mais famoso talvez tenha sido o café da manhã para crianças de famílias paupérrimas. Provou-se estratégia inteligente para ampliar influência e atrair novos militantes, além de permitir a construção de expressiva rede financeira entre artistas, intelectuais e até empresários.
Os Panteras Negras também conseguiram manter um semanário de circulação nacional e construir escolas de formação política, nas quais milhares de homens e mulheres foram educados. Participaram igualmente de processos eleitorais, na fórmula do Partido Paz e Liberdade, uma casa de esquerda até hoje em atividade, pela qual Eldridge Cleaver disputou as eleições presidenciais de 1968. Conquistou menos de 50 mil sufrágios: poucos eram os afro-americanos inscritos para votar. Não alcançaram, em seu auge, mais que 10 mil militantes, segundo cálculos de vários dirigentes. O potencial de crescimento social, político e até militar, contudo, despertou a atenção e a ira dos organismos de segurança.
Hoover ordenou ao FBI que praticasse toda sorte de operação para desmoralizar, dividir e destruir os Panteras Negras. A caixa de ferramentas contra a organização rebelde era completa: infiltrações, denúncias forjadas, assassinatos, prisões em massa, provas plantadas. A polícia de Los Angeles, seguida pela de outras cidades, deu contribuição cinematográfica à caçada anunciada, com a criação da SWAT, tropa especial forjada para o combate ao partido de Newton, Seale e Cleaver. Seu batismo de fogo foi uma batalha para tomar de assalto a sede da agremiação na cidade dos anjos.

Fim do grupo nos anos 80
O Senado norte-americano, em 1975, reconheceria oficialmente as ilegalidades cometidas. Nenhuma reparação, no entanto, foi determinada. Os que haviam sobrevivido, muitos apodrecendo atrás das grades, não foram contemplados por qualquer lei de amnistia ou indulto. Os policiais responsáveis jamais seriam punidos.
A esta altura, além do mais, o fardo de prisões, mortes e divisões já era insuportável. O partido praticamente deixara de existir, apesar dos empenhos de sobrevida até 1982.
Muitos de seus militantes iriam se incorporar a outros agrupamentos, especialmente ao Exército Negro de Libertação, atuante até meados dos anos 80. O poder de mobilização e representação dos Panteras Negras, no entanto, tinha sido esmagado pelo Estado mais poderoso do mundo.
O chefe da polícia federal norte-americana cumprira a ameaça contida em um documento oficial do FBI: “Jovens negros e ativistas moderados precisam entender que, caso resolvam se transformar em revolucionários, serão revolucionários mortos.”
Artigo de Breno Altmann publicado no Opera Mundi.
Fonte: odiario.info

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A 27 de Janeiro de 1945 os Soviéticos libertaram a «Fábrica da Morte»

Assinalam-se 67 anos sobre a libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, o mais conhecido dos campos de extermínio construídos pelos nazis. Horrorizados com o cenário que encontraram, os soviéticos denominaram o complexo de «Fábrica da Morte».
 
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A libertação de Auschwitz pelos soviéticos vindos da frente ucraniana ocorreu na tarde do dia 27 de Janeiro de 1945. Sete a oito mil prisioneiros permaneciam no campo, os últimos de um total de pelo menos um milhão e trezentos mil que, entre 1940 e 1945, ali foram assassinados. Escassos foram os que sobreviveram às câmaras de gás, aos fornos crematórios, ao trabalho escravo, às torturas, ao arbítrio sádico dos biltres, à inanição, ao frio, às doenças, às experiências macrabas nas quais seres humanos eram usados como cobaias.
Sendo o maior entre uma extensa rede de campos espalhados pela Europa, Auschwitz era um complexo de três campos.
No início da campanha militar destinada a impor uma nova ordem mundial que perdurasse mil anos, as autoridades do III Reich mandaram construir Auschwitz I com o objectivo de encarcerar opositores políticos. Os primeiros ocupantes, em Maio de 1940, foram alemães e polacos transferidos dos campos de concentração de Sachsenhausen, na Alemanha, e de Lodz, na Polónia.
Judeus, militantes comunistas, sindicalistas e antifascistas, democratas e intelectuais, homossexuais, ciganos, deficientes, testemunhas de Jeová, doentes psiquiátricos e indivíduos com comportamentos que fugissem ao ideal-tipo do homem ariano, eram todos inimigos do regime criminoso liderado por Adolf Hitler. Dachau, Sachenhausen ou Buchenwald foram dos primeiros campos construídos pela canalha nazi.
No início de 1942, começou a funcionar Auschwitz II (Auschwitz-Birkenau), uma ampliação do primeiro campo. Em Outubro de 1942 entrou em funcionamento o Auschwitz III, que mais tarde seria renomeado de Monowitz. Este último campo era vocacionado para a exploração extrema da mão-de-obra escrava.
 
«Solução final»
Estrategicamente colocado no centro da Europa, Aschwitz-Birkenau foi o campo que mais prisioneiros exterminou, sobretudo judeus (quase um milhão num total de 2,7 milhões de semitas mortos em todos os campos de extermínio, e num total de seis milhões liquidados pelos nazis).
O assassínio nas câmaras de gás foi instituído no final de 1941. Os testes com Zyklon-B, usado para combater pragas, foram efectuados com sucesso em soviéticos e polacos. A partir de então, em Auschwitz-Birkenau e noutros campos semelhantes, aquele era o principal instrumento de extermínio.
Em Janeiro de 1942, durante a Conferência de Wannsee, os líderes nazis discutiram em detalhe a «Operação Reinhardt» ou «solução final» da questão judaica, como diziam. Adolf Eichmann administrou o holocausto organizado com minúcia. Reinhardt Heydrich respondia pela coordenação geral.
A Auschwitz-Birkenau chegava uma linha de comboio cuja circulação era ininterrupta. Vagões apinhados descarregavam vítimas a toda a hora e de todos os pontos da Europa ocupada e das ramificações nazis nos regimes vassalos e aliados. Na Croácia fascista funcionava um outro campo de extermínio, em Jasenovac.
Entre a chegada a Auschwitz-Birkenau e a entrada nas câmaras de gás, após selecção dos aptos e inaptos para o trabalho escravo, podiam passar apenas duas horas.
A «Fábrica da Morte» chegou a aniquilar seis mil seres humanos por dia. Quando os fornos crematórios não carbonizavam os milhares de cadáveres com celeridade, os corpos eram empilhados e queimados ao ar livre.
 
Horror multiplicado
Nos últimos meses de 1944, face ao imparável avanço do Exército Vermelho, os nazis mandaram destruir as câmaras de gás e crematórios de Auschwitz-Birkenau. A ocultação das provas dos crimes cometidos não conheceu limites, e em Janeiro de 1945 tudo servia para matar prisioneiros.
A 17 desse mesmo mês foi dada ordem de evacuação dos três campos de Auschwitz. Mais de 60 mil prisioneiros foram obrigados a marchar dia e noite. Milhares sucumbiram pelo caminho ou foram abatidos. Noutros campos de concentração, trabalho e extermínio evacuados antes da chegada das tropas aliadas, centenas de milhares de prisioneiros foram igualmente obrigados a percorrer quilómetros nas famosas «Marchas da Morte».
Para além de Auschwitz-Birkenau, a Alemanha nazi instalou outros seis campos dedicados quase exclusivamente ou definitivamente ao genocídio. Em Chelmo, Maly Trostenets, Majdanek, Treblinka, Bełżec ou Sobibór executou-se milhões de inimigos do III Reich.  
 
Experiências cruéis e bizarras
Tal como noutros campos de concentração e extermínio, também em Auschwitz-Birkenau o poder nazi ordenou experiências cruéis e bizarras em seres humanos. No Bloco 10 do campo, Joseph Mengele, responsável pela triagem dos prisioneiros enviados para extermínio ou para trabalho escravo, ficou conhecido como o «anjo da morte».
Usando seres humanos como cobaias, Mengele testou a esterilização em mulheres, injectou substâncias para mudar a cor dos olhos a crianças e bebés, amputou e feriu para apurar métodos de estancamento de hemorragias, coleccionou milhares de órgãos após cirurgias violentas e vivissecações, uniu gémeos para tentar criar siameses, injectou substâncias várias para «tratar» o nanismo, o síndroma de Down ou a homosexualidade.
Nos campos de Dachau, Sachsenhausen e Buchenwald, homens eram mergulhados em tanques de água para testar os efeitos da hipotermia ou sujeitos a compressão e descompressão, agonizando enquanto os carrascos tiravam notas. Eram infectados com tifo, peste, lepra, cólera, ou sujeitos a inalação de produtos tóxicos.
As práticas não eram marginais ou iniciativa de um punhado de sádicos, mas financiadas e acompanhadas com interesse e fascínio pelos máximos responsáveis do III Reich. Foram publicados artigos e criados institutos. As ossadas de judeus, ciganos, mestiços ou deficientes eram enviadas para Berlim para demonstração da superioridade da raça ariana. Empresas sustentáculo do poder nazi, como a IG Farben (Bayer), compravam seres humanos para os usar nos laboratórios. 
 
Grande capital lucrou
No complexo de Auschwitz, o campo de Monowitz funcionava fundamentalmente como pólo de trabalho forçado. Deutsche- Ausrüstungs-Werk – DAW (empresa de armamento das SS), IG Farben-Bayer (que era também a fornecedora do gás Ziklon-B) ou Krupp foram algumas das empresas que ali instalaram unidades alimentadas pela mão-de-obra escrava. A abundância colmatava a exclusão semanal dos inaptos e doentes, imediatamente sentenciados à morte. A esperança média de vida dos prisioneiros sujeitos a jornadas brutais em condições inumanas rondava os três meses.
Em Auschwitz-Birkenau foram fundados quase 40 subcampos onde milhares de pessoas produziam produtos agrícolas e industriais; eram enviados para a extracção de carvão ou pedra. Em Dachau, que administrava mais de 30 outros grandes campos de trabalho, em Buchenwald, que administrava mais de 80 estruturas, ou em Sachsenhausen, donde eram geridos 60 campos de trabalho espalhados por toda a Alemanha, a consigna era igualmente fazer lucrar o capital à custa da escravatura.
Nos latifúndios germânicos e nas casas dos senhores do III Reich e militantes nazis, milhares de eslavos foram explorados até à exaustão. Quando morriam, compravam-se outros escravos. 
 
Cúmplices na impunidade
Derrotada a besta, muitos dos criminosos foram capturados, julgados e sentenciados. Muitos mais furtaram-se à justiça. Não poucos escaparam porque, aniquilado o imperialismo alemão, o alvo voltava a ser a URSS.
Contra o primeiro Estado de operários e camponeses, a reacção mundial havia atiçado as hordas nazi-fascistas, que foram derrotadas e empurradas até ao seu covil, em Berlim, pelos heróicos soviéticos que sabiam estar a defender a pátria de todo o proletariado.
Logo após a capitulação do regime hitleriano, os EUA, através da «Operação Paperclip», empenharam-se na caça dos especialistas nazis, particularmente os envolvidos na máquina militar e de inteligência.
O responsável pelo programa de foguetes da Alemanha hitleriana e membro do Partido Nazi, Wernher von Braun, é um dos quase dois mil cientistas e técnicos resgatados. A posterior carreira de sucesso de von Braun no programa espacial norte-americano não é caso isolado.
No rol de colaboradores das fugas de criminosos nazis, destaca-se ainda a neutral Suíça, a Argentina e o Vaticano do papa Pio XII (que enquanto cardeal obrigou os bispos católicos alemães a jurar fidelidade a Hitler).
Através de um complexo processo de recriação de identidades e emissão de passaportes, centenas de nazis deram o salto para as pampas sul-americanas do fascista Juan Perón, e daí para outros territórios da América Latina. Joseph Mengele, o «anjo da morte de Auschwitz» foi um deles.
  
Revoltas e resistência
Em Auschwitz, à semelhança do que acontecia noutros campos de concentração e de extermínio, funcionavam orquestras compostas por prisioneiros, cuja finalidade era não deixar entediar os algozes e pacificar as multidões que chegavam nos comboios com terminal na morte ou os prisioneiros enviados em cacho para o trabalho escravo.
Mas face ao horror nazi, não havia pacificação possível, e apesar da brutal repressão e da morte certa, e não raras vezes, eclodiram revoltas nos campos.
Em Auschwitz centenas de prisioneiros ter-se-ão rebelado em 1944. Mataram guardas e fizeram explodir um dos edifícios onde funcionavam as câmaras de gás e os fornos crematórios, usando granadas trazidas de uma fábrica de armamento onde trabalhavam.
Calcula-se que cerca de 700 prisioneiros tenham tentado fugir de Auschwitz. Menos de metade terão tido êxito.
Um dos casos de resistência e revolta passou-se no campo de Buchenwald e chegou até nós escrito por Bruno Apitz, comunista alemão que transpôs no romance «Nu entre Lobos», editado recentemente pela Avante!, a experiência vivida por si e por muitos dos seus camaradas.
Em Buchenwald foi assassinado Ernst Thaelmann, presidente do Partido Comunista Alemão, revolucionário tenaz que os nazis nunca conseguiram quebrar durante os 11 anos passados nos cárceres do III Reich, a exemplo de milhares de outros que resistiram à barbárie nas condições mais extremas e perante os maiores obstáculos, conservando a centelha de vida e esperança donde germina o futuro.
 
Tarrafal
Identificando-se com os métodos, partilhando a ideologia e servindo os mesmos interesses de classe do regime nazi, a ditadura fascista de Salazar criou o Campo de Concentração do Tarrafal. A 29 de Outubro de 1936 chegaram ao «Campo da Morte Lenta», inspirado nos congéneres nazis, os primeiros 152 de um total de 340 antifascistas que ao longo dos anos para lá foram deportados (comunistas, sobretudo).
No total, os presos do Tarrafal cumpriram mais de dois mil anos de pena, a maioria sem ter comparecido a qualquer julgamento.
Tal como nos campos nazis, também no Tarrafal quem chegava vinha «para morrer», como dizia o seu director, Manuel dos Reis. 32 morreram mesmo, sucumbindo aos maus-tratos, aos trabalhos forçados, à biliosa, entre os quais o secretário-geral do PCP, Bento Golçalves.
 
Fonte: Avante

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

70 anos após a libertação pelas tropas soviéticas do campo de concentração de Auschwitz



Nos 70 anos da libertação de Auschwitz

Recentemente, a propósito do assassinato de cartoonistas e outros franceses, entre os quais quatro judeus, em Paris, o jornalista Jonathan Freedland intitulou um artigo, no The Guardian, de 9 de Janeiro, com a seguinte frase: "First they came for the cartoonists, then they came for the Jews." Esta frase inspirou-se numa outra do pastor luterano alemão Martin Niemöller, alertando contra a indiferença das pessoas face às perseguições contra os “outros”, na Alemanha nacional-socialista.

Se é certo que a História não se repete, pois os contextos diferem consoante os períodos, mas não deixa de ter matrizes idênticas, devido à agência humana do processo decorrido no passado. Por isso, a História, enquanto disciplina que recorda o passado, para além das memórias particulares, não deixa de ser um importante instrumento de alerta, para que crimes idênticos, cujos antecedentes se assemelham não se repitam. Neste caso alerta e lembra o que pode provocar o aumento do anti-semitismo e a indiferença face a ele e às perseguições. Da mesma forma alerta e lembra o Dia internacional de Lembrança ou de Memória do Holocausto, instituído pela ONU em 2005, assinalando o dia da libertação de Auschwitz.

Hoje, dia 27 de Janeiro de 2015, ano em que se comemora também o septuagésimo aniversário do final da II Guerra Mundial, decorrem precisamente os mesmo 70 anos da libertação, pelas tropas soviéticos, de Auschwitz, nome que é um símbolo do maior crime cometido contra a humanidade – o Holocausto, ou Shoah. Ou seja, o extermínio de pessoas, pelo simples facto de terem nascido judeus, considerados pelos nazis como fazendo parte de uma “raça” que não mereceria, segundo eles, habitar a face da terra.

Na sua ofensiva geral na frente leste, o Exército Vermelho chegou, em 27 de Janeiro de 1945, a Auschwitz, onde encontrou cerca de 7500 prisioneiros, deixados no campo. Os soldados e oficiais soviéticos aperceberam-se de que um crime sem precedentes tinha ali sido cometido. Com a libertação dos campos de Bergen-Belsen, pelas tropas britânicas, e de Buchenwald e Dachau, pelo Exército norte-americano, pela primeira vez, observadores ocidentais confrontaram-se com os horrores cometidos pelos nazis. Muitos dos sobreviventes desses campos tinham chegado, evacuados em "marchas da morte" de Auschwitz, descritos por todos como os piores campos.

Mas muito haveria ainda que ser depois investigado, no pós-guerra, até que se conhecesse a realidade dos campos de extermínio, distintos dos outros campos de concentração, e onde a maioria das vítimas tinham sido judeus. O plano nazi de aniquilação de todos os judeus da Europa, bem como a função dos campos de extermínio de Belzec, Chelmno, Treblinka, Majdanek, Sobibor e Auschwitz Birkenau só mais tarde seriam verdadeiramente conhecidos, também devido à dificuldade de “compreender” que um crime sem precedentes tinha sido cometido numa escala industrial de milhões de mortos.

Etapas para o Holocausto
Ainda mais tempo decorreria até que os historiadores concordassem que o processo que levou ao Holocausto (ou Shoah) decorreu por etapas, num processo sem retorno cujo seguimento e desfecho seriam inimagináveis, à época da chegada dos nazis ao poder. Ao colocar o anti-semitismo racial no centro da sua ideologia e prática, o regime nacional-socialista começou por definir a figura do judeu e apelar, logo em 1 de Abril de 1933, ao boicote ao comércio judaico. Os nazis prosseguiram com a legislação de exclusão dos judeus das profissões liberais e da função pública e, através das Leis de Nuremberga, de Setembro de 1935, ano em que as SS ficaram com a direcção dos campos de concentração, atribuiu um estatuto de cidadania e "sangue" diferente aos judeus.

Seguiu-se uma política de expropriação e de “arianização” do património dos judeus, levada a cabo paralelamente com a “emigração”/expulsão destes dos territórios alemães, de modo a fazer deles “purificados de judeus” (Judenrein), nomeadamente a partir de Novembro de 1938. A II Guerra Mundial, iniciada em Setembro de 1939, com a invasão da Polónia pelas tropas da Wehrmacht, dificultou, no entanto, a emigração-expulsão e, com a sucessiva ocupação de outros países, a Alemanha nazi ficou com mais três milhões de judeus, da Checoslováquia, Áustria e da Polónia, o país europeu onde havia mais judeus.

A partir de Junho de 1941, com a invasão da URSS iniciada em 22 de Junho, a política nazi relativamente aos judeus mudou e já não mais passou pela expulsão destes, mas, sim, pela concentração e o seu enclausuramento em guetos, antes da deportação para os campos de extermínio, onde viriam a ser assassinados em massa. Efectivamente, houve uma nova etapa em direcção ao Holocausto, devido à emissão por Hitler e pelas autoridades SS da ordem de dar plenos poderes aos Einsatzgruppen – batalhões de polícia que seguiam as tropas nazis e viriam a ser responsáveis pelo assassinato de cerca de dois milhões de pessoas – e, por outro lado, devido às directrizes sobre a actuação de combate a leste relativamente aos "comissários políticos" soviéticos, dando ordem (Komissarbefehl) para que todos fossem fuzilados, assim que capturados. Dada a identificação e amálgama nazi dos comunistas com os judeus, esta ordem passou rapidamente a atingir civis, mulheres, crianças e velhos.

A relação entre eliminação física a leste, a impossibilidade de chegar a uma solução territorial e a missão confiada a Reinhard Heydrich e ao Reichsführer SS, Heinrich Himmler, de conceber uma solução de conjunto do problema judeu nos territórios sob domínio alemão desembocou na "solução final". Em 13 de Outubro, Himmler decidiu a construção de um campo em Belzec, na Polónia, onde os judeus seriam mortos, através do gás dos tubos de escape de camionetas. Outro centro semelhante seria erguido em Chelmno. No entanto, também era claro que os fuzilamentos em massa, bem como a utilização das carrinhas de gás não resolviam o problema da escala de extermínio pedida por Himmler.

A posição das SS triunfaria sobre as outras facções nazis com a conferência de Wannsee, convocada para 20 de Janeiro de 1942, por Heydrich, onde este e outros 15 dirigentes nazis viriam a delinear a sequência e a logística da "Solução Final da Questão Judaica Europeia". Nessa conferência, foi definitivamente decidida, em substituição da "emigração", a "evacuação dos judeus em direcção a leste", opção que já constituía "uma experiência prática muito significativa para a próxima solução final da questão judaica" europeia, que abrangeria mais ou menos 11 milhões de judeus.

E Auschwitz?
Auschwitz, na realidade um complexo de vários campos, de concentração (Auschwitz I), de extermínio (Auschwitz II-Birkenau) e de trabalho escravo (Auschwitz III-Buna-Monowitz), situado perto de Oswiecim (Auschwitz, em alemão), perto de Cracóvia, na Alta Silésia, anexada pela Alemanha nazi à Polónia, foi considerado o instrumento e símbolo do Holocausto. Estima-se que cerca de pelo menos 1,1 milhão de judeus foram ali assassinados, a par de mais de 70.000 polacos, 21.000 ciganos e cerca de 15.000 prisioneiros de guerra soviéticos.

Em 1 de Março de 1941, Heinrich Himmler ordenou o alargamento do Auschwitz I, ou campo principal (Stammlager), de modo a que ali se passasse a eliminar judeus, o que aconteceu em Agosto desse ano. Em Setembro, as SS testaram, nesse campo, o gás Zyklon B, como instrumento de massacre em massa. Em 22 de Julho, iniciaram-se as deportações dos judeus de Varsóvia para o campo de extermínio de Treblinka, onde foram mortos cerca de 800.000 judeus em quatro meses. Depois Himmler ordenou a deportação de todos os judeus dos territórios ocupados para Auschwitz.

Em 8 de Outubro de 1941, começou a ser erguido, junto a Auschwitz I, um complexo maior, conhecido por Auschwitz II-Birkenau, cuja primeira câmara de gás provisória começou a operar em Janeiro de 1942. Entre Maio e o Verão morreram cerca de 800.000 judeus vindos da Hungria, continuando as operações de gazeamento até Novembro de 1944, quando Himmler ordenou a destruição das câmaras de gás e a evacuação dos 60.000 prisioneiros de Auschwitz, através das "Marchas da Morte", em direcção aos campos de concentração a oeste.

Por Irene Flunser Pimentel
(Público)

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Valls, como Blair, como Sócrates…

Em cima de queda, coice! Foi a Manuel Valls, o Sarkozy do PS francês, que François Hollande se lembrou de chamar para chefiar o governo, de que o próprio já fazia parte como ministro das polícias (Sarkozy bem sabia o jeito que dá essa pasta nestes anos de pós-11 de setembro!), depois da forte derrota eleitoral face à direita causada por uma deserção de uma parte muito importante do eleitorado popular que votara socialista em eleições anteriores.
 
Hollande e o PS francês caminham para o suicídio político: depois de dececionar todos quantos dele esperavam a proteção dos direitos sociais adquiridos e o confronto com o austeritarismo liberalão que Merkel e Sarkozy impuseram ao resto da Eurozona em favor da economia alemã e das troikas, os socialistas querem copiar a direita que derrotaram há menos de dois anos arranjando um homem que imita Sarkozy. Como Blair imitou Thatcher, como Renzi imita Berlusconi (e este, por mais pateticamente original que pareça, copiara já tiques caceteiros doutro socialista, Craxi), como Sócrates imitou o Cavaco dos dez anos à frente do governo em Portugal. Em todos os casos, plana um estranho raciocínio marketeiro de que com eles é que se ganham eleições – e que é isso que importa. O próprio Valls assumiu-o numa conversa informal com os jornalistas há meses: “O importante [para um dirigente político] é ganhar estatura, ser capaz de responder a uma procura de autoridade, de clareza, de visibilidade e de força!” (Libération, 1.4.2014) Eu sei que os socialistas gostam de falar de bem-estar, de desenvolvimento sustentado, de justiça social, mas afinal é isto que preocupa quem eles põem à frente dos governos.
 
O que têm em comum todos estes líderes da socialdemocracia europeia dos últimos 20 anos, os da treta do Fim da História? O buraco que cavaram dentro si próprios ao decretar o fim das ideologias (Valls acha que o adjetivo socialista “é datado, já não significa nada”, e por isso publicou em 2008 o livro Pour en finir avec le vieux socialisme... et être enfin de gauche!) é habitualmente coberto por uma ambição pessoal desmedida, que, curiosamente, é tida pelos seus apoiantes como uma garantia de determinação e empenho. Passaram pelos movimentos estudantis (umas vezes vindos da extrema-esquerda, outras, como Blair e Sócrates, da própria direita), dali foram diretamente para cargos partidários, deputados, assessores. Nos países do Sul, viraram maçons. Apostaram na comunicação. Seduzir jornalistas está-lhes no sangue. Quando não conseguem, movem cordelinhos para os reduzir a pó. Nunca vêm, isso não, do mundo do trabalho, ao contrário de muitos dos seus antecessores até aos anos 70, sobretudo na Europa do Norte. Os sindicatos associados aos socialistas (e que deram origem a estes partidos no séc. XIX), apesar de reformistas e moderados desde há um século, pesam-lhes. Fizeram de tudo para os minar. Só lhes parecem bons para, fazendo-os assinar um acordo qualquer, procurarem legitimar as suas traições eleitorais: prometeram defender/repor os direitos sociais, mas, com pena deles, não podem deixar de prosseguir as políticas de competitividade.
 
Estes homens são puros produtos do aburguesamento das sociedades europeias nos anos 1950-80, e, desligados do ramerrame do salário, não admira que não acreditem, como Valls, em “utopias do séc. XIX”. Parecem julgar que à sua volta tudo é classe média como eles, mas sabem bem que não é assim. Imaginam cada vez mais uma Europa da mesma forma como os americanos imaginam os EUA: a mobilidade social está ao alcance de todos! – e não aprenderam nada com as Ciências Sociais que, em geral, não estudaram ou lhes parecem tomadas por velhos marxistas ou utópicos ingénuos. Preferem o convívio e as lições aprendidas com grandes empresários que, na boca deles, são sempre modernizadores e criativos – sobretudo se lhes pagarem as campanhas e se colocarem as suas televisões e jornais ao serviço deles (enquanto convier aos empresários, claro). Admitem publicamente que não partilham quase nada da cultura histórica da esquerda: as revoluções – francesa, russa, portuguesa – parecem-lhes totalitárias, eram jovens de mais para terem feito alguma coisa em 1968 (ou em 1974), e quando olham para a guerra do Vietname, Che Guevara e a descolonização só vêem o que chamam geopolítica e desprezam a emoção emancipadora que atravessou o mundo. Podem hoje papaguear umas coisas sobre Mandela, às vezes Gandhi, mas sabem tanto deles quanto sabem da vida de uma operária têxtil que perde o emprego. Todos aqueles que à sua esquerda querem discutir o direito ao trabalho digno, ao descanso, à justa remuneração, ou a propriedade e a gestão democrática dos serviços públicos, parecem-lhes “esquerda conservadora”, como dizia Sócrates. Os que querem discutir os direitos dos migrantes, o racismo, o respeito pela diferença, a discriminação positiva daqueles grupos que o preconceito esmagou durante séculos, parecem-lhes “esquerda compassiva”, “misericordiosa”, como lhes chamou, com infinito desprezo, Valls, o ministro do Interior que expulsou mais imigrantes que Sarkozy e que reabriu a caça ao cigano. Sabendo bem que é assim que se conquista popularidade numa Europa cada vez mais racista.
 
Reconheço, Valls tem razão: chamarem-se socialistas já não significa nada. Nada.
 
Texto de Manuel Loff no Público