A
maior líder política britânica do séc. XX, depois de Winston Churchill”, escreveu
anteontem João Carlos Espada sobre Margaret Thatcher. Estão “de luto” os
“amigos da liberdade” pela mulher (Reagan chamava-lhe “o melhor homem” que os britânicos
tinham...) que ocupou o poder na Grã-Bretanha durante 11 anos. Abriu um ciclo político
de que ainda hoje a direita não saiu. Há muitas razões para Thatcher ser a mais
idolatrada das líderes das direitas ocidentais desde o fi m da II Guerra
Mundial. Em 1979, tomou o poder e abriu o caminho a uma viragem à direita (18
anos consecutivos de governos conservadores na Grã-Bretanha) que começou dez
anos antes da queda do Muro e se ampliou a Portugal (o PSD entraria nesse ano
no governo, de onde só sairia 16 anos depois), aos EUA (Reagan e Bush,
1981-93), à Alemanha (Kohl, 1982-98)... Mas daí a dizer que “conseguiu mudar
não apenas a paisagem política do seu país mas a do mundo” vai um passo
disparatado que só gente que a quis imitar, como Tony Blair, é capaz de dar. Thatcher
foi um modelo para a direita, mas, como qualquer conservadora, não reinventou o
mundo: limitou-se a querer voltar atrás 40 anos na história. Em torno dela se
tem construído um autêntico mito que, como ocorre sempre, mais que discutir o
passado, pretende prescrever soluções para o futuro. Para Merkel, Thatcher
tinha “a liberdade individual no centro das suas crenças”. Obama, que podia ter
evitado a bazófia, disse que Thatcher contribuiu para demonstrar que “podemos moldar
a História com convicção moral, coragem inabalável e vontade de ferro”.
Falamos, atenção, da mesma mulher que se opôs até ao fim às sanções internacionais
contra o apartheid sul-africano e considerou o Congresso Nacional Africano, dirigido
por Nelson Mandela, “uma típica organização terrorista” (Guardian, 8.4.2013); ou
que, com os EUA, apoiou na ONU os Khmeres Vermelhos contra o novo governo cambojano
colocado no poder pelas tropas vietnamitas que derrubaram o genocida Pol Pot (John Pilger, New Statesman, 17.4.2000); e que intercedeu a favor de Pinochet
quando a justiça internacional o quis julgar por crimes contra a humanidade.
Para ela, o ditador que deixou três mil desaparecidos e 32 mil torturados foi
quem “trouxe a democracia ao Chile” (BBC News online, 26.3.1999). Thatcher
disse-o atacando a sentença da Câmara dos Lordes que acedia às pretensões da
justiça espanhola e à de três outros países em exigir o julgamento de Pinochet,
pressionando, com sucesso, para que o governo britânico não a cumprisse. Na
construção do mito, é recorrente (e de uma banalidade entediante) a comparação com
Churchill. Supõe-se, assim, que Thatcher terá tido o seu Hitler. Desengane-se,
porém, quem julgar que ele terá sido a ditadura militar argentina, que lhe
ocupou as Malvinas (1982) (alguém julgaria que a anticomunista admiradora de
Pinochet teria grandes objeções aos ditadores argentinos?). Ele foi, pelo contrário,
um líder sindical, Arthur Scargill, que dirigia o Sindicato Nacional dos Mineiros
quando, em 1984-85, lançou a mais longa greve de que há memória na história
britânica. O ministro das Finanças de Thatcher comparou o sindicalista com
Hitler, a imprensa tabloide e os serviços secretos lançaram sobre ele toda a
lama que puderam e a primeira-ministra não hesitou, como não o faria um qualquer
ditadorzeco, em referir-se aos sindicatos, contra quem a verdadeira batalha se
fazia, como “o inimigo interior”. É verdade: ganhou três eleições consecutivas
(1979, 1983, 1987), mas — qual triunfo, qual quê — nunca acima dos 44% dos votos
(menos de 1/3 dos eleitores), as mais reduzidas vitórias eleitorais desde 1945,
cada uma delas com menos votos que a anterior. Apesar de todos os disparates
sobre “a vitória do senso comum sobre a ideologia”, Thatcher nunca convenceu os
britânicos. “O seu legado é o da divisão social, egoísmo privado e o culto da
ganância” (Guardian, editorial, 9.4.2013). Thatcher implantou a fórmula que nos
trouxe até onde estamos: desregulação económica, empobrecimento generalizado dos
assalariados, um aspirador de riqueza de baixo para cima que fez da
Grã-Bretanha a mais injusta das sociedades pós-industriais. Funcionou? Durante
o seu governo, e apesar de todo o petróleo escocês cujo preço subira astronomicamente,
o Reino Unido passou de 5.ª para 6.ª economia mundial, ultrapassada pela
Itália, atrás da França e da própria URSS em plena crise de dissolução. Hoje é
a 7.ª e caminha para o 10.º lugar. Para quem gasta encómios à reforma económica
(melhor seria dizer, à devastação produtiva) thatcherista, os dados da História
parecem não contar para nada... A mulher que garantia que “a sociedade não existe:
o que há são indivíduos e famílias”, proibiu em 1987 as escolas de ensinarem “a
aceitabilidade da homossexualidade como relação familiar”. A classe social,
dizia, era “um conceito comunista” — e nos 11 anos que governou, a proporção de
crianças pobres duplicou (www.theyworkforyou.com, 20.6.2005). Entre a muito boa
música que contra ela se compôs naqueles anos, os The The cantavam já em 1986
que “não poderão nunca ser limpas as manchas no coração de um país doente, triste
e confuso. O 51.º estado dos EUA” (Matt Johnson, Heartland).
Artigo
de Manuel Loff (Público 11/04/2013)