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quinta-feira, 24 de maio de 2018

«Golpe de Mestre»: o roteiro oficial da guerra contra a Venezuela

Os EUA estão a atacar a Venezuela cumprindo um plano «top secret» elaborado pelo SouthCom do Pentágono, que só será dado como concluído «quando a ditadura corrupta de Nicolás Maduro tiver sido derrotada».



Elaborado para ser aplicado em várias fases, o «Plano para Derrubar a Ditadura Venezuelana – Golpe de Mestre», assim foi baptizado o documento assinado pelo almirante Kurt Walter Tidd, comandante do SouthCom (Comando Sul), prevê uma agressão militar multinacional integrando tropas de combate norte-americanas e de países da região, incluindo o Brasil, sob comando directo do Pentágono. Como se percebe pela leitura integral do texto, esta guerra será um primeiro passo para o «renascimento da democracia» à «escala continental».

Elaborado no início deste ano, embora só recentemente tenha escapado às malhas do secretismo do aparelho de expansão imperial, o plano manteve-se, até agora, nas fases de desestabilização social e política, prevendo a hipótese de o «chavismo», como se escreve amiúde no documento, cair antes das eleições presidenciais de domingo último – nas quais Nicolás Maduro foi reeleito com mais de dois terços dos votos expressos, numa consulta onde a legitimidade e a transparência não foram postas em causa.

Depois desta manifestação democrática e esmagadora da vontade autêntica do povo venezuelano, parece ser hora da passagem a nova fase do «Golpe de Mestre».

«Chegou o momento de os Estados Unidos mostrarem que estão implicados neste processo, no qual a queda da ditadura venezuelana marcará uma viragem à escala continental», adverte o almirante Kurt W. Tidd. Trata-se de agir «em defesa da democracia», e não apenas na Venezuela, onde se assiste «a uma acção criminosa sem precedentes na América Latina»; será um passo «para que a democracia se propague na América, um continente onde o populismo radical está destinado a perder o controlo». Este «renascimento democrático», lê-se no documento, «baseia-se em escolhas corajosas» para as quais «as condições regionais são favoráveis».


A guerra assim traçada contra a Venezuela, e para a qual o Pentágono mobilizou o Brasil, a Argentina, a Colômbia, o Panamá e a Guiana como agressores directos, «é a primeira ocasião para a Administração Trump pôr em andamento a sua visão de democracia e segurança, demonstrando como é crucial para o continente e o mundo inteiro», escreveu o comandante do SouthCom. «Chegou o momento de agir», insiste.

O já veterano, mas avulso, processo norte-americano de conspiração contra a Venezuela soberana – marcado por golpes, tentativas de golpe e sucessivos episódios terroristas intimidando a população do país – foi actualizado em 23 de Fevereiro deste ano sob a forma de plano estratégico, na altura em que Washington obrigou a oposição de extrema-direita, que patrocina, a rejeitar o «acordo de convivência» nacional no qual a mediação do ex-primeiro-ministro espanhol Rodríguez Zapatero fora bem-sucedida. Quando a assinatura estava prestes a acontecer, nesse mês de Fevereiro, o então secretário de Estado de Trump, Rex Tillerson, telefonou ao chefe da delegação Movimento de Unidade Democrática (MUD – de inspiração fascista), Júlio Borges, proibindo-o de assinar o documento.

A ordem assim emanada equivaleu a uma desautorização, a uma secundarização dos dirigentes arruaceiros patrocinados pelos Estados Unidos, forçados agora a uma ausência eleitoral que se virou novamente contra os próprios devido ao desacreditado e desastrado boicote das eleições presidenciais de domingo.

Uma situação agravada com o seu apagamento operacional do plano conspirativo, de cuja aplicação os Estados Unidos assumem agora plenamente as rédeas. «O governo corrupto de Maduro ruirá, mas infelizmente as forças de oposição que defendem a democracia e o nível de vida da população não têm a capacidade necessária para pôr fim ao pesadelo venezuelano», testemunhou o almirante Kurt W. Tidd. Esses sectores são vítimas de «disputas internas», acrescenta, e de «uma corrupção semelhante à dos rivais, partilhando a mesma falta de raízes», o que «não lhes permite tirar o melhor partido da situação e tomar as decisões necessárias para ultrapassar o estado de penúria e de precariedade no qual o grupo de pressão que exerce a ditadura de esquerda mergulhou o país».

Muitas das medidas incluídas no plano de guerra norte-americano contra a Venezuela são já nossas conhecidas do dia-a-dia dos últimos 20 anos. Porém, é fundamental revivê-las à luz da redacção nua e crua que o almirante Tidd lhes deu, escudado na eficácia do «top secret», para que todos entendamos como a informação internacional dominante obedece às ordens dos donos – com especial meticulosidade neste caso venezuelano.

Para alcançar «a erradicação definitiva do chavismo e a expulsão do seu representante», o comandante do SouthCom do Pentágono recomenda que se «intensifique a insatisfação popular, favorecendo mais instabilidade e penúria, de modo a tornar irreversível o descrédito do ditador». Nesse sentido, aconselha a «atacar repetidamente o presidente Maduro, ridicularizá-lo e apresentá-lo como um exemplo de incompetência, um fantoche às ordens de Cuba».

Trata-se ainda, acrescenta este modelar roteiro de agressão imperial, «de aumentar a instabilidade até níveis críticos, intensificando a descapitalização do país, a fuga de capitais estrangeiros e a deriva da moeda nacional através da aplicação de novas medidas inflacionistas».

Recorrendo a um estratagema sempre muito eficaz em relação aos objectivos pretendidos, o almirante recomenda ainda que «se ligue o governo ao narcotráfico, de modo a degradar a sua imagem aos níveis interno e externo».Percorrendo abertamente a estrada da sabotagem e do terrorismo, o almirante Kurt W. Tidd recomenda «fazer obstrução a todas as importações e desmotivar, ao mesmo tempo, os eventuais investidores estrangeiros», de modo a «tornar mais crítica a situação da população»; «apelar aos aliados internos e a outras pessoas bem inseridas no panorama nacional para que promovam manifestações, distúrbios e insegurança, pilhagens, roubos e atentados, sequestros de barcos e de outros meios de transporte para perturbar a segurança nacional nos países limítrofes»; e também «fazer vítimas», responsabilizando por isso o governo, assim «aumentando a dimensão da crise humanitária aos olhos do mundo inteiro».

Estende-se por 11 páginas, este «Golpe de Mestre», exemplo acabado de um roteiro de terrorismo de Estado e de estados que culmina com o planeamento de uma guerra regional e internacional contra um país independente, democrático e soberano com mais de 35 milhões de habitantes, por sinal o maior produtor mundial de petróleo; uma realidade frequentemente escamoteada para esconder a incontida gula internacional, diluída pelos efeitos da manipulação ostensiva dos conceitos de ditadura e democracia.

O essencial do golpe montado com a assinatura do comandante do SouthCom do Pentágono é «fazer a unidade do Brasil, da Argentina, da Colômbia e do Panamá, de modo a contribuírem para o reforço de tropas, usarem a proximidade geográfica e a sua experiência de operações em regiões arborizadas e de selva». Essa «frente internacional contará também com a presença de unidades de combate dos Estados Unidos e das nações mencionadas», ficando «o todo sob o Comando Geral do Estado Maior Conjunto, dirigido pelos Estados Unidos».

Prevê-se também «o estacionamento de aviões de combate, helicópteros, veículos blindados, a instalação de postos de espionagem e unidades militares especiais de logística (polícias, quadros operacionais e prisões)».

O almirante Kurt W. Tidd especifica que «devem utilizar-se as facilidades do território do Panamá como retaguarda»; «as capacidades da Argentina para garantir a segurança dos portos e posições marítimas»; a experiência do Brasil e da Guiana em termos de serviços e controlo de migrações para «coordenar o apoio à Colômbia, ao Brasil, Aruba, Curaçao, Trindade e Tobago e outros estados perante o afluxo de migrantes venezuelanos provocado pelo avanço da crise».

Considera-se importante «favorecer a participação internacional neste esforço, como parte da operação multilateral, através da contribuição de estados, ONG e corpos internacionais», sobretudo em matéria de logística, informações e capacidade de antecipar situações.

Depois de apelos à revolta no interior das Forças Armadas venezuelanas e de incentivos ao «envolvimento das forças aliadas no apoio» aos eventuais sediciosos, o «Golpe de Mestre» passa ao «nó da questão» para garantir o triunfo na guerra: «obter o apoio e cooperação das autoridades aliadas de países amigos (Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Guiana); organizar o acantonamento de tropas, apoio logístico e médico a partir do Panamá; fazer uso adequado de tudo o que permita a vigilância electrónica e os sinais inteligentes, meios hospitalares e os fundos enviados para Darién (na selva do Panamá); tirar partido do equipamento do Plano Colômbia em drones, bem como dos territórios das antigas bases militares de Howard e Albrook, e do aeroporto de Rio Hato (Panamá); e também do Centro Regional Humanitário da ONU, concebido para situações de catástrofe e emergência humanitária, que integra uma pista de aterragem e as próprias instalações de apoio.»

O almirante Tidd realça a importância do recurso aos grupos paramilitares, vulgo «esquadrões da morte», sugerindo o reforço do recrutamento sobretudo em campos de refugiados como os de Cúcuta, La Guajira (Colômbia), tirando inclusivamente proveito, para tornar mais eficaz o seu desempenho, do «espaço vital» deixado pelas FARC na sequência do processo colombiano de paz. Um dos objectivos desta frente será o de «alimentar continuamente a tensão na fronteira (entre a Colômbia e a Venezuela), fomentar o tráfico de combustíveis e outros bens, as incursões dos paramilitares e o tráfico de droga para provocar incidentes armados com as forças de segurança fronteiriças».

Em suma, recomenda o comandante do SouthCom, é importante fazer o que for necessário para «tornar insustentável o governo Maduro, obrigá-lo a negociar, a hesitar, a fugir».

O plano de guerra contra a Venezuela aborda ainda o capítulo da propaganda, onde não acrescenta muito ao que tem sido a prática generalizada na comunicação social ao serviço da mundialização anglo-saxónica.

Isso passa, recorda, por «intensificar o descontentamento contra o regime de Maduro», designadamente «assinalando o fracasso dos mecanismos de integração montados pelo regime de Cuba, entre eles a ALBA e a Petrocaribe».O almirante Tidd sublinha, por exemplo, que os conteúdos «informativos» devem obedecer ao princípio essencial de «abafar a simbologia chavista baseada na sua representatividade e no apoio popular», invertendo-a de modo a apresentar «os ditadores como únicos responsáveis pela crise em que a nação mergulhou».

O recurso a «mensagens fabricadas» com base em supostos testemunhos e documentos oriundos do interior do país, a difundir pelos media nacionais e internacionais e pelas redes sociais é outro dos caminhos recomendados. A finalidade: «veicular por todos os meios a necessidade de pôr fim à situação, porque esta se tornou essencialmente insustentável.»

A panóplia de instrumentos de mistificação inclui «assegurar ou montar o uso de meios violentos por parte da ditadura para obter o apoio internacional», utilizando «todas as capacidades de guerra psicológica do exército dos Estados Unidos».

Ao longo do documento são várias as alusões às Nações Unidas, seus órgãos, instalações e meios, integrados como partes activas neste processo de guerra ilegal. Sobre a invocação abusiva – ou não – da disponibilidade e participação da ONU na agressão organizada contra a Venezuela, feita pelo SouthCom do Pentágono, seria interessante conhecer a posição do secretário-geral da organização.

De registar, por outro lado, que nenhum dos países citados como fazendo parte da coligação militar anti-venezuelana – designadamente Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá, Guiana – tem qualquer contencioso com a Venezuela por resolver, muito menos que justifique uma opção extrema de guerra.

No entanto, embora conste que falta ainda a assinatura de Donald Trump para desencadear a fase declaradamente bélica, as operações militares já começaram. Têm decorrido exercícios de guerra na fronteira entre o Brasil e a Venezuela com o envolvimento de tropas norte-americanas, brasileiras, peruanas e colombianas; e nas águas do Atlântico Sul, com a participação de forças navais dos Estados Unidos, Chile, Reino Unido e Argentina. Operações das quais emerge, por exemplo, a coligação absurda entre forças argentinas e britânicas, tecnicamente inimigas por causa do contencioso sobre as Maldivas/Falkland, agora juntas contra a soberana e pacífica Venezuela.

Este cenário reflecte, de facto, o objectivo norte-americano de fomentar uma guerra continental contra o regime democrático venezuelano. O almirante Kurt W. Tidd sublinha que será necessário «colocar a operação militar sob bandeira internacional, com o aval da Conferência dos Exércitos latino-americanos, sob a protecção da Organização dos Estados Americanos (OEA) e a supervisão, no contexto legal e mediático, do respectivo secretário-geral, Luis Almagro».

Atingindo o zénite do cinismo terrorista, o comandante do SouthCom recomenda a conveniência de «declarar a necessidade de reforçar a acção do Comando Continental, servindo-se dos instrumentos da democracia interamericana com o objectivo de evitar a ruptura democrática».

Há um aspecto em que este prospecto criminoso, ofensivo das mais elementares normas de convívio universal, dos direitos humanos e dos princípios democráticos, tem uma utilidade indesmentível: vamos assistindo a sucessivas guerras de agressão e aos efeitos das mais apuradas mistificações com que nos são relatadas e comentadas; a partir de agora, porém, sabemos como se criam estes episódios sangrentos, através dos quais se vai formatando o mundo «na era da globalização».

Devemos agradecer ao almirante Kurt W. Tidd a sua franqueza, ainda que involuntária, valendo-nos também a clareza luminosa de mais um leak entre os vários que, de tempos-a-tempos, nos permitem transformar fundamentadas suspeitas no conhecimento de inegáveis realidades.

Sabemos agora um pouco mais sobre os «golpes de mestre» que inspiram os comportamentos dos mais poderosos entre aqueles que garantem governar-nos em nome da democracia e, frequentemente, «com a bênção de Deus».

POR JOSÉ GOULÃO, in AbrilAbril

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

11 tesis sobre Venezuela y una conclusión escarmentada


“Y se empeñaba en repetir lo mismo: “Esto no es como en una guerra… En una batalla tienes el enemigo delante… Aquí, el peligro no tiene rostro ni horario”. Se negaba a tomar somníferos o calmantes: “No quiero que me agarren dormido o amodorrado. Si vienen por mí, me defenderé, gritaré, tiraré los muebles por la ventana… Armaré un escándalo…”

Alejo Carpentier, La consagración de la primavera

1. Es indudable que Nicolás Maduro no es Allende. Tampoco es Chávez. Pero los que dieron el golpe contra Allende y contra Chávez son, y eso también es indudable, los mismos que ahora están buscando un golpe en Venezuela.

2. Los enemigos de tus enemigos no son tus amigos. Puede no gustarte Maduro sin que eso implique olvidar que ningún demócrata puede ponerse al lado de los golpistas que inventaron los escuadrones de la muerte, los vuelos de la muerte, el paramilitarismo, el asesinato de la cultura, la operación Cóndor, las masacres de campesinos e indígenas, el robo de los recursos públicos. Es comprensible que haya gente que no quiera ponerse del lado de Maduro, pero conviene pensar que en el lado que apoya a los golpistas están, en Europa, los políticos corruptos, los periodistas mercenarios, los nostálgicos del franquismo, los empresarios sin escrúpulos, los vendedores de armas, los que defienden los ajustes económicos, los que celebran el neoliberalismo. No todos los que critican a Maduro defienden esas posiciones políticas. Conozco gente honesta que no soporta lo que está pasando ahora mismo en Venezuela. Pero es evidente que del lado de los que están buscando un golpe militar en ese país están los que siempre apoyaron los golpes militares en América Latina o los que priman sus negocios por encima del respeto a la democracia. Los medios de comunicación que están preparando la guerra civil en Venezuela son los mismos conglomerados mediáticos que vendieron que en Irak había armas de destrucción masiva, que nos venden que hay que rescatar a los bancos con dinero público o que defienden que la orgía de los millonarios y los corruptos hay que pagarla entre todos con recortes y privatizaciones. Saber que se comparte trinchera con semejante gente debiera llamar a la reflexión. La violencia siempre debe ser la línea roja que no debe traspasarse. No tiene sentido que el odio a Maduro ponga a nadie decente al lado de los enemigos de los pueblos.

3. Maduro heredó un papel muy difícil -gestionar Venezuela en un momento de caída de los precios del petróleo y de regreso de Estados Unidos a Latinoamérica después de la terrible aventura en Oriente Medio- y una misión imposible -sustituir a Chávez-. La muerte de Chávez privó a Venezuela y a América Latina de un líder capaz de poner en marcha políticas que han sacado de la pobreza a 70 millones de personas en el continente. Chávez entendió que la democracia en un solo país era imposible y puso sus recursos, en un momento de bonanza gracias a la recuperación de la OPEP, para que se iniciara la etapa más luminosa de las últimas décadas en el continente: Lula en Brasil, Correa en Ecuador, Morales en Bolivia, Kirchner en Argentina, Lugo en Paraguay, Mujica en Uruguay, Funes en El Salvador, Petro en Bogotá e incluso Bachelet en Chile referenciaban esa nueva etapa. La educación y la salud llegaron a los sectores populares, se completó la alfabetización, se construyeron viviendas públicas, nuevas infraestructuras, transportes públicos (después de la privatización de los mismos o la venta y cierre de los trenes), se frenó la dependencia del FMI, se debilitó el lazo con los Estados Unidos creándose la UNASUR y la CELAC. También hay sombras, principalmente vinculadas a la debilidad estatal y a la corrupción. Pero haría falta un siglo para que los casos de corrupción en los gobiernos progresistas de América Latina sumen, por citar sólo un asunto, el coste de la corrupción que significa el rescate bancario. La propaganda de los dueños de la propaganda terminan logrando que el oprimido ame al opresor. Nunca desde la demonización de Fidel Castro fue ningún líder latinoamericano tan vilipendiado como Chávez. Para repartir entre los pobres, hubo que decirle a los ricos, de América y también de Europa, que tenían que ganar un poco menos. Nunca lo toleraron, lo que puede entenderse, especialmente en España, donde, en mitad de la crisis, responsables económicos y políticos del Partido Popular robaban a manos llenas al tiempo que decían a la gente que tenía que apretarse el cinturón ¿Iba Chávez ese “gorila” a frenarles sus negocios? Desde que ganó las primeras elecciones en 1998, Chávez tuvo que enfrentarse a numerosos intentos de derribarlo. Por supuesto, con la inestimable ayuda de la derecha española, primero con Aznar, luego con Rajoy, y la ya conocida participación de Felipe González como lobbista de grandes capitales. (Es curioso que el mismo Aznar que hizo negocios con Venezuela y con Libia luego se convirtió en ejecutor cuando se lo ordenaron. Gadafi incluso le regaló a Aznar un caballo. Pablo Casado fue el asistente de Aznar en esa operación. Luego, cosas de la derecha, celebraron su asesinato).

4. Chávez no legó a Maduro los equilibrios nacionales y regionales que construyó, que eran políticos, económicos y territoriales. Eran una construcción personal en un país que salía de tasas de pobreza del 60% de la población cuando llegó Chávez al gobierno. Hay cambios que necesitan una generación. Ahí es donde la oposición pretende estrangular a Maduro, con problemas mal resueltos como las importaciones, los dólares preferenciales o las dificultades para frenar la corrupción que desembocan en desabastecimiento. Sin embargo, Maduro supo reeditar el acuerdo “cívico-militar” que tanto molesta a los amigos del golpismo. Algo evidente, pues Estados Unidos siempre ha dado los golpes buscando apoyos en militares autóctonos mercenarios o desertores. El ejército en América Latina solo se entiende en relación con Estados Unidos. Les han formado, sea en tácticas de tortura o en “lucha contrainsurgente”, sea en el uso de las armas que les venden o en el respeto debido a los intereses norteamericanos. En Venezuela, los mismos que formaron a los asesinos de la Escuela Mecánica de la Armada argentina o que sostuvieron al asesino Pinochet lo tienen complicado (el asalto por parte de mercenarios vestidos de militares a un cuartel en Carabobo buscaba construir la sensación de fisuras en el ejército, algo que a día de hoy no parece que exista). Igual que ha comprado militares, Estados Unidos siempre ha comprado jueces, periodistas, profesores, diputados, senadores, presidentes, sicarios y a quien hiciera falta para mantener a América como su “patio trasero”. El cártel mediático internacional siempre le ha cubierto las espaldas. Es la existencia de Estados Unidos como imperio lo que ha construido el ejército venezolano. Los nuevos oficiales se han formado en el discurso democrático soberano y antiimperialista. Son mayoría. Hay también una oficialidad -la mayoría ya jubilándose- que se formó en la vieja escuela y sus razones para defender la Constitución venezolana serán más particulares. Las deficiencias del Estado venezolano afectan también al ejército, aún más en zonas problemáticas como las fronteras. Pero los cuarteles en Venezuela están con el Presidente constitucional. Y por eso es aún más patético escuchar al demócrata Felipe González pedir a los militares venezolanos que den un golpe contra el gobierno de Nicolás Maduro.

5. A esas dificultades de heredar los equilibrios estatales y los acuerdos en la región (la amistad de Chávez con los Kirchner, con Lula, con Evo, con Correa, con Lugo), hay que añadir que la pugna de Arabia Saudí con el fracking y con Rusia, hundió los precios del petróleo, principal riqueza de Venezuela. Esta inesperada caída del precio del petróleo colocó al gobierno de Maduro en una situación complicada (es el problema de los “monocultivos”. Basta para entenderlo pensar qué ocurriría en España si se hundiera un 80% el turismo por causas ajenas a ningún gobierno. ¿Sacaría Rajoy siete u ocho millones de votos en una situación así?). Maduro ha tenido que reconstruir los equilibrios de poder en un momento de crisis económica brutal.

6. La oposición en Venezuela lleva intentando dar un golpe de Estado desde el mismo día que ganó Chávez. Venezuela fue el mascarón de proa del cambio continental. Acabar con Venezuela es abrir la espita para que ocurra lo mismo en los sitios donde aún no ha regresado el neoliberalismo. A las oligarquías les molestan los símbolos que debilitan sus puntos de vista.Pasó con la II República en 1936, pasó en Chile con Allende en 1973. Acabar con la Venezuela chavista es regresar a la hegemonía neoliberal e, incluso, a las tentaciones dictatoriales de los años setenta.



7. Venezuela tiene además las reservas de petróleo más grandes del mundo, agua, biodiversidad, el Amazonas, oro, coltán -quizá la reserva más grande del mundo de coltán-. Los mismos que han llevado la destrucción a Siria, a Irak o a Libia para robarles el petróleo, quieren hacer lo mismo en Venezuela. Necesitan ganarse previamente a la opinión pública para que el robo no sea tan evidente. Necesitan reproducir en Venezuela la misma estrategia que construyeron cuando hablaban de armas de destrucción masiva en Irak. ¿O no se creyó mucha gente honesta que había armas de destrucción masiva en Irak? Hoy, aquel país antaño próspero es una ruina. Quien se creyó aquellas mentiras del PP, que mire cómo está hoy Mosul. Enhorabuena a los ingenuos. Las mentiras siguen todos los días. La oposición puso una bomba al paso de policías en Caracas y todos los medios impresos publicaron la foto como si la responsabilidad fuera de Maduro. Un helicóptero robado lanzó granadas contra el Tribunal Supremo y los medios lo silencias. Son actos terroristas. De esos que abren portadas y los telediarios. Salvo cuando suceden en Venezuela. Un referéndum ilegal en Venezuela “presiona al régimen hasta el límite”. Un referéndum ilegal en Catalunya es un acto cercano al delito de sedición.

8. El cártel mediático internacional ha encontrado un filón. Se trata de una reedición del miedo ante la Rusia comunista, la Cuba dictatorial o el terrorismo internacional (nunca dirán que el ISIS es una construcción occidental financiada con capital norteamericano principalmente). Venezuela se ha convertido en el nuevo demonio. Así se les permite acusar de “chavistas” a los adversarios y les evita hablar de la corrupción, del vaciamiento de las pensiones, de la privatización de los hospitales, las escuelas y las universidades o de los rescates bancarios. Mélenchon, Corbyn, Sanders, Podemos o cualquier fuerza de cambio en América Latina son descalificados con la acusación de chavistas, ahora que acusar de comunistas o de etarras tiene poco recorrido. El periodismo mercenario lleva años con esa estrategia. Nadie nunca ha explicado qué política genuinamente bolivariana va en los programas de los partidos de cambio. Pero da lo mismo. Lo importante es difamar.Y gente de buena voluntad termina creyendo que hay armas de destrucción masiva o que Venezuela es una dictadura donde, curiosamente, todos los días la oposición se manifiesta (incluso atacando instalaciones militares), donde los medios critican libremente a Maduro (no como en Arabia Saudí, Marruecos o Estados Unidos) o donde la oposición gobierna en alcaldías y regiones. Es la misma táctica que construyó durante la guerra fría el “peligro comunista”. Por eso en España, con Venezuela, tenemos una nueva Comunidad Autónoma de la que solamente falta que nos digan al final de los telediario el tiempo que va a hacer en Caracas ese día. De cada cien veces que se dice “Venezuela”, noventa y cinco sólo buscan distraer, ocultar o mentir.

9. Venezuela tiene un problema histórico que no ha resuelto. Al carecer de minas durante la colonia, no fue un Virreinato, sino una simple capitanía general. El siglo XIX fue una guerra civil permanente, y en el siglo XX, cuando se empezó a construir el Estado, ya tenían petróleo. El Estado venezolano siempre ha sido rentista, carente de eficacia, agujereado por la corrupción y rehén de las necesidades económicas de los Estados Unidos acordadas con las oligarquías locales. El choque entre la Asamblea y la jefatura del Estado actual debiera haberse zanjado jurídicamente. Señales de la ineficiencia vienen siendo evidentes desde hace tiempo. El rentismo venezolano no se ha superado. Venezuela redistribuyó la renta del petróleo entre los más humildes, pero no ha superado esa cultura política rentista ni ha mejorado el funcionamiento de su estado. Pero no nos engañemos. Brasil tiene una estructura jurídica más consolidada y el Parlamento y algunos jueces han dado un golpe de Estado contra Dilma Roussef. Donald Trump puede cambiar a la Fiscal General y no pasa nada, pero si lo hace Maduro, Jefe del Estado igualmente elegido en unas elecciones, se le acusa de dictador. Una parte de las críticas a Maduro son tramposas porque olvidan que Venezuela es un sistema presidencialista. Es por eso que la Constitución permite al Presidente convocar una Asamblea Constituyente. Gustará más o menos, pero el artículo 348 de la Constitución vigente de Venezuela faculta al Presidente en esa tarea, igual que en España el Presidente del Gobierno puede disolver el Parlamento.

10. Zapatero y otros ex Presidentes, el Papa, Naciones Unidas vienen pidiendo a ambas partes en Venezuela que dialoguen. La oposición reunió en torno a siete millones de votos (si bien es más complicado que puedan llegar a ese acuerdo en torno a un candidato o candidata a la Presidencia del país). Maduro, en un contexto regional muy complicado, con fuertes estrecheces económicas que afectan a la compra de insumos básicos, incluidas medicinas, ha juntado ocho millones de votos (aunque sean siete, según las declaraciones tan sospechosas del Presidente de Smarmatic, que acaba de firmar un contrato millonario en Colombia). Venezuela está claramente dividida. La oposición, como otras veces, ha optado por la violencia y luego no entiende que Maduro sume tantos millones de apoyos. Si en España un grupo quemase centros de salud, quemase escuelas, disparara contra el Tribunal Supremo, asaltara cuarteles, contratara a marginales para sembrar el terror, impidiese con formas de lucha callejera el tránsito e, incluso, quemase vivas a personas por pensar diferente ¿alguien se extrañaría que la ciudadanía votase en la dirección contraria a esos locos?

11. Fracasada la vía violenta, a la oposición venezolana le quedan dos posibilidades: seguir con la vía insurreccional, alentada por el Partido  Popular, Donald Trump y la extrema derecha internacional, o intentar ganar en las urnas. Estados Unidos sigue presionando (en declaraciones a un semanario uruguayo, el Presidente Tabaré dijo que votó para expulsar ilegalmente a Venezuela del Mercosur por miedo a las represalias de los países grandes). 57 países de Naciones Unidas han exigido que se respete la soberanía de Venezuela. Como Estados Unidos no logra mayoría para forzar a Venezuela, insiste en inventar espacios (como la Declaración de Lima, sin ninguna fuerza jurídica porque no han conseguido mayoría en la OEA). La derecha mundial quiere acabar con Venezuela, aunque eso le cueste sangre y fuego a la población venezolana. Por eso algunos opositores, como Henry Ramos-Allup, han llamado al fin de la violencia. Venezuela tiene en el horizonte elecciones municipales y regionales. Es el escenario donde la oposición debiera demostrar esa mayoría que reclaman. Venezuela tiene que convocar esas elecciones y es una oportunidad excelente para medir electoralmente las fuerzas. Porque, de lo contrario, el choque que estamos viendo se enquistará y se convertirá en una gangrena terrible. ¿A quién le interesa una guerra civil en Venezuela? No nos engañemos. Ni al PP ni a Trump le interesan los derechos humanos. Si así fuera romperían con Arabia Saudí, que va a decapitar a quince jóvenes por manifestarse durante la Primavera Árabe, o dan latigazos a las mujeres que conducen; o con Colombia, donde van 150 asesinados por los paramilitares en los últimos meses; o en México, donde se asesina cada mes a algún periodista y aparecen fosas comunes con decenas de cadáveres. Penas de 75 años están pidiendo en Estados Unidos contra manifestantes contra las políticas de Trump. Venezuela se ha convertido en España en la 18 Comunidad Autónoma sólo porque el Presidente Rajoy ha tenido que comparecer como testigo por la corrupción en su partido. Es más airoso hablar de Venezuela que de la corrupción de los 800 cargos del PP imputados. Hay ingenuos que les creen. ¿Qué dirán ahora que el grueso de la oposición ha aceptado participar en las elecciones regionales? El pacto entre el PSOE y Podemos en Castilla-La Mancha ha sido presentado por la derecha manchega como el comienzo de la venezonalización de España. Cuánta caradura y cuánta estupidez. Hay gente que les cree. Mientras, el PP guarda silencio ante, por ejemplo, las persecuciones que la dictadura monárquica marroquí hace en España de los disidentes políticos, o encarcela por orden del dictador Erdogan a un periodista crítico con la dictadura turca. ¿Nos va a decir alguien que a estos gobiernos les interesan los derechos humanos?


Conclusión: no hace falta comulgar, ni mucho menos, con Maduro y su manera de hacer las cosas, para no aceptar el golpe de estado que se quiere construir en Venezuela. Estamos hablando de no volver a cometer los mismos errores creyéndonos las mentiras que construyen los medios. Venezuela tiene que solventar sus problemas dialogando. Y es evidente que tiene problemas. Pero dos mitades enfrentadas no van a ningún lado monologando. Aunque a una parte le apoyen los países más poderosos del ámbito neoliberal. Ni el PP ni la derecha quieren diálogo. Quieren que Maduro se entregue. ¿Y cree alguien que los ocho millones de votantes de la Asamblea Constituyente se iban a quedar de brazos cruzados? El nuevo gobierno les reprimiría e, incluso, les asesinaría. Los medios dirían que la democracia venezolana se estaría defendiendo de los enemigos de la democracia. Y volvería a haber gente ingénua que les creería. Desde el resto del mundo, en nombre de la democracia, bastan dos cosas: exigir y alentar el diálogo en Venezuela, y entender que sería bueno no permitir ni al PP ni a las derechas internacionales, empezando por Donald Trump, reeditar una de sus miserias más horribles que consiste en sembrar dolor en otros sitios para ocultar el dolor que construyen en nuestros propios países.


Blog Comiendo Terra, de Juan Carlos Monedero

domingo, 6 de agosto de 2017

Contra a corrente

Aqui estamos contra a corrente. Sabendo que nos há-de cair o Carmo e a Trindade em cima. Tendo por certo que entre a acusação de atávico a antidemocrático com que se será brindado há-de caber um rol imenso de impropérios, que por decoro e respeito pelo jornal e pelos leitores não antecipo. Sabendo que ainda a prosa não estará meia lida e já estarão a "mandar-nos para a Sibéria". Antevendo isso, e tudo o mais, ainda assim não se deixará de dizer o que tem de ser dito. Não se sucumbirá à chantagem ou à rasoura da opinião dominante nem se desertará do confronto de ideias. Quando se perdem princípios e valores perde-se a credibilidade e o direito a merecer o respeito de outros, mesmo quando de nós discordam.

E sobretudo não nos deixaremos arrastar para o redil da grelha da leitura e da formatação de opinião que é construída sobre os acontecimentos e a situação internacionais. Vamos a exemplos. Ainda que, tal como na teoria da intersecção de conjuntos, há elementos que simultaneamente pertencem a dois ou mais conjuntos. Cada manobra de desestabilização de países soberanos (seja a Venezuela ou Angola), cada processo de remoção de governos legítimos (seja a Líbia ou o Brasil), cada opção soberana de Estados que não convirja com a submissão aos interesses dos EUA e dos seus aliados (seja o Irão ou Cuba), cada acção intervencionista ou acto de guerra dos EUA e seus aliados (seja na Síria ou no Iraque) é meticulosamente elaborada.

A visão dos acontecimentos que nos impõem é, sistematicamente, não a que corresponde aos factos, mas aquela que a artilharia de condicionamento ideológico dos centros de difusão do imperialismo decretam que seja fabricada. Cada uma das intervenções é suportada na intoxicação da opinião pública, repetindo os argumentos que apesar de falsos hão-de ser de tantas vezes repetidos, tidos como bons, dando como verdade o que sabem ser mentira para justificar os actos a perpetrar. Feita verdade a mais descarada mentira - seja a das armas de destruição massiva de Saddam ou a do genocídio atribuído a Kadhafi em Bengazi - aplanado fica o terreno não só para os verdadeiros criminosos agirem, como para criminalizar os que ousem questionar, duvidar ou demonstrar a falsidade em que assentam. Uma máquina imparável de condicionamento de consciências e de amputação do direito a discordar é posta em marcha. Os que ousem interrogar - seja a catalogação de "regimes" ou "rebeldes", a existência de armas químicas, os critérios que conduzam à arrumação na categoria de "ditadores" ou de "corruptos", seja as proclamadas intenções "libertadoras e humanitárias", a nobreza de "revoluções coloridas" ou a fabricação de "dissidentes" -, ou saem da frente ou arriscam-se a ser trucidados. Para já em palavras, ainda que as palavras de alguns como as que por cá se lêem revelam que pudessem eles e ganhariam a forma do cano de uma espingarda.

Evitando amálgamas, seguramente injustas, distingamos posicionamentos. Um primeiro, que no essencial se remete a repetir e ruminar tudo o que lhes é fornecido para reproduzir. Seja por razões de preguiça, falta de sentido profissional ou temor, fazem-no sem cuidar de apurar factos ou confrontar fontes. Um segundo, que agrupa os engajados no objectivo e sintonizados com os centros ideológicos, reproduz e amplia o que ali é elaborado. Sabem ao que estão, não se coíbem de repetir as mentiras confiantes que a "máxima" de Gobbels comprove que uma mentira tantas vezes repetida há-de ganhar a cor da verdade. Hoje em torno de qualquer cabala como décadas atrás com a provocação do incêndio do Reichstag. Um terceiro, os que tendo como único critério o que lhes pareça render popularidade, aí os vemos alimentando-se do que bordeja a opinião pública, desprezando o apuramento da verdade, chutando para onde estão virados desde que haja quem os aplauda. Sempre com aquele brilhozinho nos olhos de quem, na crista mediática, faz o "dois em um": vazam o preconceito anticomunista que os povoa desde pequeninos ao mesmo tempo que farejam o reconhecimento fácil que valha uns quantos votos e elogios.

Aí os temos, por junto, embevecidos com a farsa plebiscitária na Venezuela mas silenciando o boicote terrorista da votação da Constituinte; aí os temos ciosos da intocabilidade da liberdade de imprensa mas mudos e quedos aquando da destruição pela NATO da estação de televisão jugoslava; aí os temos clamando pelo carácter sagrado dos Parlamentos mas revivendo com gáudio o bombardeamento do Parlamento Russo em 1993; aí os vimos exultando com a Primavera Árabe para justificarem a destruição do Estado Líbio. Todos iludindo os interesses de classe, objectivos socioeconómicos e estratégias de dominação em presença no plano internacional. Por mais que se disfarcem há sempre uma pontinha do rabo que os denuncia. Sem que nunca lhes pese na consciência nem ninguém os responsabilize pelo que, do Chile em 1973 à actual tragédia dos refugiados, é obra directa da conspiração e agressões do imperialismo.

Artigo de Jorge Cordeiro, Diário de Noticias de 4/8/2017

sábado, 29 de julho de 2017

Em defesa da Venezuela

A Venezuela vive um dos momentos mais críticos da sua história. Acompanho crítica e solidariamente a revolução bolivariana desde o início. As conquistas sociais das últimas duas décadas são indiscutíveis. Para o provar basta consultar o relatório da ONU de 2016 sobre a evolução do índice de desenvolvimento humano. Diz o relatório: “O índice de desenvolvimento humano (IDH) da Venezuela em 2015 foi de 0.767 — o que colocou o país na categoria de elevado desenvolvimento humano —, posicionando-o em 71.º de entre 188 países e territórios. Tal classificação é partilhada com a Turquia.” De 1990 a 2015, o IDH da Venezuela aumentou de 0.634 para 0.767, um aumento de 20.9%. Entre 1990 e 2015, a esperança de vida ao nascer subiu 4,6 anos, o período médio de escolaridade aumentou 4,8 anos e os anos de escolaridade média geral aumentaram 3,8 anos. O rendimento nacional bruto (RNB) per capita aumentou cerca de 5,4% entre 1990 e 2015. De notar que estes progressos foram obtidos em democracia, apenas momentaneamente interrompida pela tentativa de golpe de Estado em 2002 protagonizada pela oposição com o apoio ativo dos EUA.

A morte prematura de Hugo Chávez em 2013 e a queda do preço do petróleo em 2014 causou um abalo profundo nos processos de transformação social então em curso. A liderança carismática de Chávez não tinha sucessor, a vitória de Nicolás Maduro nas eleições que se seguiram foi por escassa margem, o novo Presidente não estava preparado para tão complexas tarefas de governo e a oposição (internamente muito dividida) sentiu que o seu momento tinha chegado, no que foi, mais uma vez, apoiada pelos EUA, sobretudo quando em 2015 e de novo em 2017 o Presidente Obama considerou a Venezuela como uma "ameaça à segurança nacional dos EUA", uma declaração que muita gente considerou exagerada, se não mesmo ridícula, mas que, como explico adiante, tinha toda a lógica (do ponto de vista dos EUA, claro). A situação foi-se deteriorando até que, em dezembro de 2015, a oposição conquistou a maioria na Assembleia Nacional. O Tribunal Supremo suspendeu quatro deputados por alegada fraude eleitoral, a Assembleia Nacional desobedeceu, e a partir daí a confrontação institucional agravou-se e foi progressivamente alastrando para a rua, alimentada também pela grave crise económica e de abastecimentos que entretanto explodiu. Mais de cem mortos, uma situação caótica. Entretanto, o Presidente Maduro tomou a iniciativa de convocar uma Assembleia Constituinte (AC) para o dia 30 de Julho e os EUA ameaçam com mais sanções se as eleições ocorrerem. É sabido que esta iniciativa visa ultrapassar a obstrução da Assembleia Nacional dominada pela oposição.

Em 26 de maio passado assinei um manifesto elaborado por intelectuais e políticos venezuelanos de várias tendências políticas, apelando aos partidos e grupos sociais em confronto para parar a violência nas ruas e iniciar um debate que permitisse uma saída não violenta, democrática e sem ingerência dos EUA. Decidi então não voltar a pronunciar-me sobre a crise venezuelana. Por que o faço hoje? Porque estou chocado com a parcialidade da comunicação social europeia, incluindo a portuguesa, sobre a crise da Venezuela, um enviesamento que recorre a todos os meios para demonizar um governo legitimamente eleito, atiçar o incêndio social e político e legitimar uma intervenção estrangeira de consequências incalculáveis. A imprensa espanhola vai ao ponto de embarcar na pós-verdade, difundindo notícias falsas a respeito da posição do Governo português. Pronuncio-me animado pelo bom senso e equilíbrio que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, tem revelado sobre este tema. A história recente diz-nos que as sanções económicas afetam mais os cidadãos inocentes que os governos. Basta recordar as mais de 500.000 crianças que, segundo o relatório da ONU de 1995, morreram no Iraque em resultado das sanções impostas depois da guerra do Golfo Pérsico. Lembremos também que vive na Venezuela meio milhão de portugueses ou lusodescendentes. A história recente também nos diz que nenhuma democracia sai fortalecida de uma intervenção estrangeira.

Os desacertos de um governo democrático resolvem-se por via democrática, e ela será tanto mais consistente quanto menos interferência externa sofrer. O governo da revolução bolivariana é democraticamente legítimo e ao longo de muitas eleições nos últimos 20 anos nunca deu sinais de não respeitar os resultados destas. Perdeu várias e pode perder a próxima, e só será de criticar se não respeitar os resultados. Mas não se pode negar que o Presidente Maduro tem legitimidade constitucional para convocar a Assembleia Constituinte. Claro que os venezuelanos (incluindo muitos chavistas críticos) podem legitimamente questionar a sua oportunidade, sobretudo tendo em mente que dispõem da Constituição de 1999, promovida pelo Presidente Chávez, e têm meios democráticos para manifestar esse questionamento no próximo domingo. Mas nada disso justifica o clima insurrecional que a oposição radicalizou nas últimas semanas e que tem por objetivo, não corrigir os erros da revolução bolivariana, mas sim pôr-lhe fim e impor as receitas neoliberais (como está a acontecer no Brasil e na Argentina), com tudo o que isso significará para as maiorias pobres da Venezuela. O que deve preocupar os democratas, embora tal não preocupe os media globais que já tomaram partido pela oposição, é o modo como estão a ser selecionados os candidatos. Se, como se suspeita, os aparelhos burocráticos do partido do governo sequestrarem o impulso participativo das classes populares, o objetivo da AC de ampliar democraticamente a força política da base social de apoio à revolução terá sido frustrado.

Para compreendermos por que provavelmente não haverá saída não violenta para a crise da Venezuela temos de saber o que está em causa no plano geoestratégico global. O que está em causa são as maiores reservas de petróleo do mundo existentes na Venezuela. Para os EUA, é crucial para o seu domínio global manter o controlo das reservas de petróleo do mundo. Qualquer país, por mais democrático, que tenha este recurso estratégico e não o torne acessível às multinacionais petrolíferas, na maioria, norte-americanas, põe-se na mira de uma intervenção imperial. A ameaça à segurança nacional, de que fala o Presidente dos EUA, não está sequer apenas no acesso ao petróleo, está sobretudo no facto de o comércio mundial do petróleo ser denominado em dólares, o verdadeiro núcleo do poder dos EUA, já que nenhum outro país tem o privilégio de imprimir as notas que bem entender sem isso afetar significativamente o seu valor monetário. Foi por esta razão que o Iraque foi invadido e o Médio Oriente e a Líbia arrasados (neste último caso, com a cumplicidade ativa da França de Sarkozy). Pela mesma razão, houve ingerência, hoje documentada, na crise brasileira, pois a exploração do petróleo do pré-sal estava nas mãos dos brasileiros. Pela mesma razão, o Irão voltou a estar em perigo. Pela mesma razão, a revolução bolivariana tem de cair sem ter tido a oportunidade de corrigir democraticamente os graves erros que os seus dirigentes cometeram nos últimos anos. Sem ingerência externa, estou seguro de que a Venezuela saberia encontrar uma solução não violenta e democrática. Infelizmente, o que está no terreno é usar todos os meios para virar os pobres contra o chavismo, a base social da revolução bolivariana e os que mais beneficiaram com ela. E, concomitantemente com isso, provocar uma ruptura nas Forças Armadas e um consequente golpe militar que deponha Maduro. A política externa da Europa (se de tal se pode falar) podia ser uma força moderadora se, entretanto, não tivesse perdido a alma.

Artigo de BOAVENTURA SOUSA SANTOS, Público 29/07/2017

segunda-feira, 27 de março de 2017

Jornalista da CNN diz que a cadeia recebe pagamento por publicar notícias falsas


A jornalista Amber Lyon converteu-se em importante “whistleblower” (alertadora), ao revelar como os governos pagam aos media para que falsifiquem noticias, publica esta quinta-feira a Venezolana de Televisión (VTV). Lyon demitiu-se da cadeia estado-unidense CNN depois da sua reportagem ‘Revolution’, onde mostrava as atrocidades do regime de Bahrein, não ser retransmitida na CNN Internacional devido a pressões do Governo daquele país. A jornalista veio depois a saber que este país pagava elevadas quantias à CNN para ser apresentado de forma favorável. Apesar do elevado custo do documentário em comparação com a maioria das reportagens jornalísticas - mais de 100 mil dólares - não foi transmitido. Tendo vivido na própria carne o que ocorria neste país do própria Médio Oriente, Lyon verificou claramente que a cobertura que a CNN transmitia quotidianamente era completamente falsa. Lyon crê que países como o Bahrein e outros pagam milhões de dólares para mostrar um conteúdo que é supostamente objectivo. Isto é algo que ocorre regularmente: infomerciais para ditadores. Mas também para promover as novas movimentações naa estratégia geopolítica dos EUA, denuncia Lyon.
 
Num vídeo de 2015 de RT em inglês (https://youtu.be/CFDC7zmJgQg) podia já ver-se como a CNN edita os acontecimentos políticos para fazer avançar uma propaganda bélica. Vemos a diferença na forma como cobrem os discursos do primeiro-ministro do regime de Israel, Benyamin Netanyahu, e do ex-presidente de Irão Mahmud Ahmadineyad na Organização das Nações Unidas (ONU), com um claro desvio a favor do dirigente israelita. “Preocupa-me que se encaminhem os cidadãos para um novo conflito através de coberturas selectivas… Ahmadineyad estava na realidade a dizer que havia caminhos para a paz, mas isso foi omitido pela CNN. Ao mesmo tempo reforça-se a mensagem prefabricada com filmes como ‘Argo’, que criam uma propaganda bélica a favor de certos interesses”… Trata-se de uma retórica “que conduz à guerra, tal como ocorreu com o discurso das ‘armas de destruição massiva’”, que foi utilizado para lançar a guerra contra o Iraque, sublinha Lyon.
 
Os factos que Lyon observou na CNN são a norma e não a excepção, especialmente em países como México, onde o presidente tem fortes laços com a mais importante emissora de televisão do país.
 
Fonte: ODiario.info


sábado, 11 de março de 2017

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Best of Luck with the Wall

As 10 vitórias do Presidente Nicolás Maduro em 2016

No início de 2016, tudo parecia complexo para as autoridades de Caracas. E isto principalmente por três motivos:
   1) A oposição neoliberal havia vencido as eleições em dezembro de 2015 e controlava a Assembleia Nacional;
   2) A queda do preço do petróleo, o principal recurso da Venezuela, atingia o seu nível mais baixo desde há décadas;
   3) O presidente dos Estado Unidos, Barack Obama havia assinado uma Ordem Executiva declarando a Venezuela uma "ameaça incomum e extraordinária para a segurança nacional e política externa dos Estados Unidos".

Ou seja, em três áreas decisivas – política, económica e geopolítica – a Revolução Bolivariana aparecia na defensiva, enquanto a contra-revolução, tanto interna como externa, pensava ter finalmente o poder ao seu alcance.

Tudo isto num contexto de guerra mediática de longa duração contra Caracas, que começou com a chegada à Presidência de Hugo Chávez em 1999, que se intensificou em Abril de 2013 e atingiu níveis sem precedentes de violência após a eleição do Presidente Nicolás Maduro.

Este clima de assédio mediático, agressivo e permanente, produziu uma desinformação insidiosa sobre a Venezuela, semeando a confusão mesmo entre numerosos amigos da Revolução Bolivariana. Especialmente porque nesta época da "pós-verdade", a mentira, a fraude intelectual, o manifesto logro não é sancionado por quaisquer consequências negativas nem sobre a credibilidade, nem sobre a imagem dos que o praticam.

Vale tudo nesta "era do relativismo, pós-factual", em que mesmo os factos e dados mais objetivos não são tidos em consideração. Mesmo o argumento – tão óbvio para a Venezuela – do complô, da conspiração, da conjura, não é aceite. O novo discurso mediático dominante denuncia e ridiculariza desde logo "a pretenso conjura" como um argumento inaceitável de "relatos à antiga", não admissíveis...

No início de 2016, tudo parecia difícil para o presidente venezuelano. A um ponto tal que o canhestro adversário neoliberal Henry Ramos Allup, embriagado pela sua maioria parlamentar, se atreveu a assegurar em Janeiro de 2016, no seu primeiro discurso como presidente da Assembleia Nacional, que "num prazo de menos de seis meses" ele expulsaria Nicolas Maduro do poder. Isto provavelmente inspirando-se no golpe institucional contra a presidente Dilma Roussef, do Brasil e apostando na vitória num referendo revocatório.

Assim estavam as coisas, quando o presidente Maduro, numa sequência magistral de que ninguém se apercebeu no jogo de xadrez que se desenvolvia, surpreendeu a todos. Ele renovou, como era sua prerrogativa de acordo com a Constituição, os membros do Tribunal Supremo Justiça (TSJ), instância superior do poder judiciário, cuja Sessão Constitucional tem a última palavra na interpretação da Constituição.

A oposição imbuída da sua soberba, cometeu então dois grandes erros:

1) Decidiu ignorar os avisos do TSJ e admitiu em funções três deputados do Estado do Amazonas, cuja eleição em Dezembro de 2015 fora objecto de suspensão por irregularidades. Perante esta afronta, o TSJ evidentemente declarou a não validade das decisões da Assembleia Nacional devido à presença de três deputados "não eleitos regularmente". O TSJ declarou a Assembleia Nacional em desobediência, e por conseguinte, "todas as suas decisões seriam consideradas nulas". Assim, pelos seus próprios erros, a Assembleia não conseguiu nem legislar nem controlar o governo, mas pelo contrário, tal como reconhecido por renomados especialistas em direito constitucional, anulou-se a si mesma, delapidou o seu poder, auto-dissolveu-se. Esta foi a primeira grande vitória do Nicolas Maduro em 2016.

2) Na sua obsessão de derrubar o Presidente, a oposição antichavista decidiu igualmente ignorar o que estipula o artigo 72º da Constituição sobre as etapas indispensáveis e os requisitos legais para a realização de um referendo revocatório em 2016. Neste ponto a oposição conheceu também uma importante derrota. E foi outra grande vitória para Nicolas Maduro.

Apesar disto, em Março-Abril de 2016, tudo se tornou mais complexo. Porque às ofensivas habituais das forças hostis à Revolução Bolivariana veio juntar-se uma impressionante seca, a segunda maior desde 1950 e uma onda de calor, em resultado do fenómeno El Niño. Ora, na Venezuela 70% da energia provém de centrais hidroeléctricas, a principal das quais depende da albufeira de El Guri. Com a ausência de chuva, os níveis desta barragem diminuíram até quase atingir o mínimo.

A contra-revolução tentou aproveitar-se destas circunstâncias para aumentar as sabotagens eléctricas, procurando criar um caos energético, cólera social e manifestações. O perigo era grande, porque o problema eléctrico foi agravado pela falta de água potável, em resultado da persistência da seca...

Mas mais uma vez o Presidente Maduro respondeu rapidamente tomando medidas drásticas: decidiu substituir milhões de lâmpadas incandescentes por lâmpadas de baixo consumo; ordenou a substituição de velhos condicionadores de ar por outros mais eficientes; decretou meio dia de trabalho na administração pública e implementou um plano nacional especial de consumo de energia eléctrica e água.

Graças a estas medidas audaciosas, o Presidente conseguiu evitar o colapso energético. E obteve uma das vitórias mais populares de 2016.

Outro dos problemas importantes que o governo teve de enfrentar (talvez o mais grave) – em parte consequência da guerra económica contra a Revolução Bolivariana – foi o do aprovisionamento alimentar. Lembremos que antes de 1999, 65% dos venezuelanos viviam em situação de pobreza e apenas 35 por cento poderia beneficiar de uma boa qualidade de vida. Ou seja, em cada 10 venezuelanos, apenas três se alimentavam regularmente com carne, café, milho, leite, açúcar... No decorrer dos últimos 17 anos, o consumo de alimentos (graças ao enorme investimento social da revolução) aumentou em 80%.

Esta mudança estrutural explica por si só por que a produção nacional de alimentos, muito mais importante do que se pensa, se tornou insuficiente.

Com o enorme aumento da procura a especulação cresceu vertiginosamente. Face a uma oferta estruturalmente limitada, os preços dispararam. O fenómeno do mercado negro ou 'bachaqueo" propagou-se: tratava-se de comprar produtos subsidiados pelo governo, a preços mais baixos que os de mercado para os revender a preços superiores aos do mercado. Ou "exporta-los" maciçamente para países vizinhos (Colômbia, Brasil) revendendo-os a preços duplos ou triplos dos subsidiados. Assim, a Venezuela era "esvaziada" de seus dólares – cada vez menos devido ao colapso do preço do petróleo – para engordar os "vampiros" que despojavam os mais humildes dos produtos base, enriquecendo de forma escandalosa.

Uma tal imoralidade não poderia continuar. Mais uma vez, o Presidente Maduro agiu com firmeza. Primeiro – muito importante – mudou a filosofia da assistência social. Corrigiu um grande erro cometido pela Venezuela desde há décadas. Decidiu que o Estado, ao invés de subsidiar os produtos, devia subsidiar as pessoas, aqueles que realmente tivessem necessidade. Para que apenas aqueles que realmente precisavam, pudessem ter acesso aos produtos subsidiados pelo Governo. Para todos os outros, os preços dos produtos eram os preços justos fixados pelo mercado. Isto evitava a especulação e o "bachaqueo".

Como segunda medida decisiva: o Presidente anunciou que de futuro o governo iria orientar todos os seus esforços para a mudança do modelo económico do país, passando de um "modelo rentista"' para um 'modelo produtivo". E o Presidente definiu o que chamou de "dois motores" para impulsionar a actividade económica tanto no sector privado como no sector público e na economia comunitária.

Estas duas decisões essenciais convergiram numa criação original, imaginada pelo Presidente Maduro: os CLAP (Comités Locais de Aprovisionamento e Produção), constituindo uma nova forma de organização popular. Casa a casa, representantes das comunidades organizadas, entregam sacos com alimentos a um preço regulamentado. Muitos destes alimentos vêm de nova produção nacional. Os CLAP deverão aprovisionar durante os próximos meses de 2017 cerca 4 milhões famílias de menores rendimentos, assegurando desta forma a alimentação do povo, assim rubricando uma nova grande vitória do Presidente Maduro.

Uma outra vitória não menos importante no difícil ano de 2016 foi a taxa recorde de investimento social, representando 71,4% do orçamento nacional. É um recorde mundial. Nenhum outro Estado do mundo gasta quase três quartos do seu orçamento em investimento social.

Em matéria de saúde, por exemplo, o número de hospitais foi multiplicado por 3,5 desde 1999. E o montante dos investimentos no novo modelo da saúde pública foi multiplicado por dez.

No quadro da Missão "Barrio Adentro", cujo objectivo é o acesso aos cuidados de saúde nas zonas urbanas mais modestas do país, tiveram lugar quase 800 milhões de consultas salvando a vida de quase 1 400 000 pessoas. As escolas médicas formaram 27 mil médicos em 2016 e outros 30 mil deverão obter o seu diploma em 2017. Oito Estados da Venezuela estão cobertos a 100% pela Missão "Barrio Adentro", enquanto o objetivo fixado era de seis Estados.

Outra vitória social fundamental, não mencionada pelos media dominantes, diz respeito a pensões de reforma. Antes da revolução, apenas 19% das pessoas em idade de se reformarem recebiam uma pensão, os restantes subsistiam frequentemente na miséria ou dependentes de suas famílias. Em 2016, 90% das pessoas em idade da reforma recebiam uma pensão, isto mesmo que não tivessem podido contribuir para a Segurança Social durante sua vida activa. Um recorde na América do Sul.

Uma vitória espectacular – mais uma vez mais não mencionada pelos media dominantes – foi a "Misión Vivienda", cujo objectivo é construir habitação social a preços regulados para famílias mais modestas.

Em 2016, esse programa entregou 359 mil habitações (a título de comparação, um país desenvolvido como a França apenas construiu 109 mil habitações sociais em 2015). Acrescente-se que 335 mil habitações foram renovadas como parte do maravilhoso programa "Misión Barrio Nuevo, Barrio Tricolor". Missão que recebeu elogios do grande arquitecto Frank Gehry, criador do Museu Guggenheim em Bilbao e Museu Louis Vuitton, em Paris e que afirmou querer participar. Estamos a falar de quase 700 mil habitações sociais em 2016. Um número ímpar no mundo.

Desde o início do seu mandato em 2013, o Presidente Maduro já entregou às famílias modestas quase 1 milhão e meio de habitações. Um recorde mundial passado em silêncio pelos meios de comunicação hostis à Revolução Bolivariana. E que mesmo os seus amigos por vezes negligenciam mencionar.

Por último, lembremos algumas das vitórias brilhantes obtidas no domínio da geopolítica. Por exemplo: ter impedido a Organização dos Estados Americanos (OEA), controlada por Washington, de condenar a Venezuela como queria o secretário-geral da organização, Luis Almagro, invocando contra a Venezuela a Carta Democrática.

Outro sucesso foi a 27ª Cimeira do Movimento dos Países Não Alinhados (MNOAL), que se realizou em Setembro de 2016 no Centro de Convenções Hugo Chavez, na ilha Margarita, na presença de muitos Chefes de Estado e de Governo e de representantes de 120 países que manifestaram a sua solidariedade com a Venezuela.

Mas a principal vitória do Presidente Maduro neste domínio foi o incrível sucesso do acordo entre os países da OPEP e NÃO OPEP para uma redução concertada das exportações de petróleo, fruto de numerosas viagens do Presidente em busca deste objectivo.

Este acordo histórico, assinado em Novembro de 2016, imediatamente desacelerou a queda no preço do petróleo, que havia entrado em colapso a partir de meados de 2014, quando o preço ultrapassou 100 dólares por barril. Com esta importante vitória, o preço do petróleo, que fora 24 dólares em Janeiro, ultrapassava os 45 dólares no final de Dezembro de 2016.

Assim, durante o ano, o mais duro e o mais longo, durante o qual muitos apostaram no seu fracasso, o Presidente Nicolás Maduro, frustrou todas as armadilhas e todas as dificuldades, mostrou a sua excepcional dimensão de estadista e de líder indestrutível da Revolução Bolivariana. 
 
Artigo de Ignacio Ramonet
 
Original encontra-se em www.telesurtv.net/... e a versão em francês em: www.legrandsoir.info/les-10-victoires-du-president-nicolas-maduro-en-2016.html                
Versão em português encontra-se em http://resistir.info/