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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Porto Rico, um povo e um furacão

Com índices de pobreza que roçam os 50 por cento, Porto Rico é hoje como Cuba era antes da Revolução: um paraíso para os gangsters e um inferno para o povo. A causa é, antes de mais, a dominação colonial dos EUA e, no passado recente, a brutal desumanidade com que ignoraram as consequências devastadoras dos furacões de 2017. Se o gigantesco levantamento popular de agora tem origem imediata no repúdio pelo comportamento do governador colonial, as suas causas profundas são muito mais amplas.

(Photo by José Fuentes)

Porto Rico atravessa um momento histórico: pela primeira vez, amanhã, um governador da colónia demitir-se-á, inaugurando uma crise institucional que compromete a posição imperial dos EUA e ameaça resvalar para uma situação pré-revolucionária.

À superfície, o gatilho visível que despoletou o pedido de demissão de Rosselló foi o escândalo desatado pela divulgação de mensagens de texto em que o bonifrate de Trump revela a sua natureza fascista, machista e violentamente homofóbica. Ao longo de mais de 900 páginas de SMS, o governador escarnece dos seus compatriotas mortos pelo furacão Maria, refere-se ao sindicato de professores como uma organização terrorista, deseja a morte a líderes sindicais e refere-se às mulheres e à comunidade LGBT nos termos mais bárbaros e indecentes. Já as razões que levaram 1/5 da população para as ruas de San Juan, nas maiores manifestações da história da ilha, são feridas muito mais profundas.

A presente crise institucional ilustra a degradação do sistema político colonial: a constituição prevê que, num cenário de demissão do governador seja o secretário de Estado a substituí-lo, mas Luis Rivera Marín, que também surge nos chamados «Rickyleaks», também já se demitiu. Os que se seguem enfrentam também acusações de corrupção.

A corrupção, tradicionalmente explícita, dos governantes de Porto Rico é parte indissipável do funcionamento da ilha como um «território não incorporado dos EUA», ou seja, uma colónia à moda antiga. O estatuto colonial ficou patente, como nunca, na sequência dos furacões que, em 2017, devastaram a ilha: a agência dos EUA para as catástrofes ambientais fez vista grossa para a tragédia, abandonando dezenas de milhares de pessoas à sua sorte e às epidemias de doenças. Inicialmente Rosselló admitiu 64 mortos. Soube-se mais tarde que o número real ascendia a 6000.

Os EUA abandonariam a sua colónia, que ficou completamente às escuras durante longos 11 meses. Mas Obama não se ficou por aí: apenas dois meses após o furacão, ordenou ao seu governador a aplicação da PROMESA, um programa neoliberal de choque económico, gerido directamente pelos especuladores de Wall Street, que levou ao encerramento de centenas de escolas, privatização de serviços, despedimento de funcionários públicos e cortes salariais generalizados. Para milhões de trabalhadores ficou claro que a prioridade do governo porto-riquenho era o pagamento da impagável dívida pública de 70 mil milhões de dólares. Com índices de pobreza que roçam os 50 por cento, Porto Rico é hoje como Cuba era antes da Revolução: um paraíso para os gangsters e um inferno para o povo.

Este caldo de descontentamento, que vinha há anos levantando fervura, transbordou finalmente. Durante dez dias, manifestações de massas em que participou um quinto da população, cercaram La Fortaleza, o palácio do governador. Mas foi a greve geral, do passado dia 22, que obrigou o governador a demitir-se dois dias depois.

Dificilmente poderá a ordem colonial manter-se da mesma forma, mas os donos da ilha estão já a estudar formas de se aproveitarem do vazio programático, do mistifório ideológico e do carácter espontâneo de que se reveste o movimento popular de massas para manter, com outras roupagens, a sua dominação. Exemplo destes esforços é a moratória de 120 dias agora concedida por Washington ao pagamento da dívida porto-riquenha, uma caridade que, vá se lá saber porquê, não ocorreu aos EUA quando a ilha se debatia com furacões, mas que dá muito jeito quando o verdadeiro furacão é um povo levantado.

Artigo de António Santos publicado no “Avante!” de 01.08.2019

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Não há raças humanas

Não há raças humanas. Só há “raças” humanas nas cabeças dos racistas, pois permite-lhes fazer classificações e distinções, uma longa história que permanece na actualidade. Há racismo, há desigualdade e há pobreza. Estas três realidades são o caldo ideal para a opressão e a exploração. A desigualdade coloca uns acima e outros abaixo. Ser pobre é um sofrimento permanente. Ser pobre e ter a pele suficientemente pigmentada como sinal distintivo é somar razões para o sofrimento. E para a revolta também. Como se dizia em um dos últimos planos dum filme de Spielberg, “ser mulher, ser pobre e ser negra é uma das piores condições para um ser humano”.

A verdade é que não há raças humanas. Esse é um conceito do século XIX, que percorreu todo o século XX e que ainda hoje está aí. Havia livrinhos com esse mesmo título, Raças Humanas, onde se representavam pessoas com a sua localização geográfica e uns trajos entendidos como regionais, com penas, palhas e umas lanças nas mãos. Este mesmo conceito de raças inspirou as exposições pela Europa fora a que se chama os Zoos humanos, onde as pessoas trazidas de África e da América do Sul eram expostas em recintos cercados dentro das cidades europeias, vestidas com os seus “trajos regionais”, em parte despidas, porque na terra delas faz mais calor, colocadas num cenário apropriado. À volta os europeus contemplavam e comentavam estes seres, que para eles olhavam espantados. E humilhados, com certeza.

Estamos a falar do século XX, muito depois da abolição da escravatura. Portugal representou esse papel com gáudio na Exposição do Mundo Português e ficou registada a indignação de senhoras portuguesas por os respectivos maridos irem ver repetidamente a africana Rosinha, exibida tal como entendiam que vivia em África. Felizmente que houve bastantes fotografias, filmes e reportagens de jornais, senão corria-se o risco de dizerem que se estava a inventar. Se pensarmos que as comunidades africanas não têm esta memória colectiva, estamos enganados. Foram protagonistas os pais, os avós, as avós, os bisavôs. À distância de uma a três gerações. Como muitos brasileiros actuais se lembram da avó índia que foi “pega-no-laço” (isso mesmo, caçada a laço) ou do bisavô que já foi “ventre livre”, ou seja, que ainda estava no ventre da mãe, quando esta foi libertada pela “Lei de Ouro”. Ora, raças só existem de facto para animais que os criadores obrigaram a cruzarem-se selectivamente. Também houve tentativas com os humanos, mas não resultou...

Quanto a nós, seres humanos, usando palavras de taxonomia, somos do género homo, da espécie homo sapiens e da subespécie sapiens sapiens. Todos. E depois disto não há mais subdivisão nenhuma e o estudo do genoma humano assim tem provado. Tem provado também que ao longo de milhares de anos nos fomos cruzando, de sul para norte, de norte para sul, de leste para oeste, de oeste para leste, porque as populações humanas não assentavam arraiais, iam à descoberta. É há pouco tempo que nos sedentarizámos. Que todos viemos de África já sabemos. E a pigmentação da pele foi-se perdendo por selecção e adaptação à medida que as pessoas saíam das zonas com maior incidência do sol para caminharem lentamente no sentido dos pólos. A maior ou menor pigmentação da pele vai seguindo a latitude. Em África, as populações são mais pigmentadas quanto mais próximas do Equador. E bem claros no norte da Europa aqueles que só têm luz solar durante poucas horas do dia durante muitos meses. Mais pigmentados defendidos do sol, mais despigmentados maior síntese de vitamina D na pele. E entre uns e outros fica uma escala de pigmentação. Que nós reavivamos ao sol, na praia, porque muitos e sobretudo muitas gostamos mesmo do tom bronzeado. Todavia, na longa história da humanidade, sobretudo antes de nos sedentarizarmos, misturámo-nos bastante e ainda bem. Foi o que salvou a espécie. Misturando-nos, embora não o soubéssemos, evitámos a concentração de genes “maus” que podia ter sido fatal. É o caso de populações ainda existentes, que os geneticistas classificam em “gargalo de garrafa”, com pronunciado isolamento e endogamia, que são mais vulneráveis e mais propensas a certas doenças. Mas nós, a generalidade dos humanos, somos todos mestiços. Felizmente. Misturámo-nos ao longo de milhares de anos. 


Todavia, apesar das evidências crescentes da ciência, a palavra e o conceito de “raça” mantém-se nos comentadores da comunicação social, escrita e falada, para não falar dos comentários que circulam nas redes digitais. E o mais grave é que se mantém no meio científico. Não é raro que médicos, alguns jovens colegas meus, ao descreverem a história clínica, coloquem à cabeça do texto as expressões “raça caucasiana” (supostamente nós, os europeus) ou “raça negra”, quando a pele é mais pigmentada. Nós, caucasianos? A classificação já é um pouco mais discreta do que “arianos”, mas podemos perguntar-nos se viemos mesmo directamente lá do Cáucaso. O estudo do património genético da população portuguesa mostra que viemos de muito sítio e uma boa parte de populações africanas sub-saharianas, não no tempo longínquo do Out of Africa, mas no tempo histórico bem mais próximo. E o mais interessante é que a “raça negra” para os jovens que inconscientemente o escrevem e para a generalidade das pessoas é assim descrita mesmo que a pessoa tenha três quartos europeus e um quarto africano. Algo nos lembra o “white” e “not-white”, não é? Tal como a expressão “pessoas de cor” usada mesmo por cientistas sociais em tradução de color people. Porque nós, os europeus, somos transparentes, não é? Não temos cor? Este racismo implícito na linguagem na maior parte das vezes nem é consciente nem intencional, mas traduz muitos séculos em que uns dominaram e outros foram dominados. E os dominados tinham uma pigmentação da pele que os distinguia. Alguém se lembra, ao falar de um escandinavo, com características bem diferentes das nossas, de dizer “indivíduo de raça nórdica”? Pois é, há diferentes e diferentes...

E também percebo que os denominados “negros” assumam orgulho em o ser, mesmo que no seu corpo estejam muitos ascendentes “caucasianos”. Eu também o faria. O domínio e a exploração de outros povos são ainda muito recentes e fazem parte da nossa história contemporânea. Os escritos do general Kaúlza de Arriaga sobre as populações africanas têm apenas umas dezenas de anos. Os filhos mestiços de alguns militares das tropas coloniais que por lá ficaram nas ex-colónias são agora homens e mulheres maduros. Há esquecimento colectivo? Não há.

A esta memória histórica, a maior parte das vezes subjectiva, mas presente, soma-se a desigualdade e a pobreza, que muitas vezes coincidem com estas características da pigmentação da pele. Os 20,7% de crianças e jovens e os 18,3% do total da população portuguesa que em 2016 viviam em pobreza não são todos de pele mais escura. É uma vergonha que percorre bairros de várias cores. Mas se fizermos a análise a fracções da população, ver-se-á que para aqueles que são classificados de “negros” a percentagem é incrivelmente maior. Tal como a desigualdade.

Segundo os especialistas, nos últimos 30 anos e nos países da OCDE o rácio entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres subiu de 7,1 para 9,5 vezes e há uma forte associação entre a desigualdade e a pobreza. Em Portugal, durante a troika este último índice subiu para 10,6. Quem o diz não são radicais de esquerda mas estudiosos da pobreza publicados em respeitáveis edições como a da Fundação Francisco Manuel dos Santos (Carlos Farinha Rodrigues e colaboradores). Mais uma vez, se aplicarmos o estudo que foi feito para toda a população portuguesa a fracções de portugueses com pele mais escura, este número sobe muito. Os bairros “problemáticos” como o da Jamaica acumulam tudo – serem olhados com racismo, conterem pobreza e sofrimento e sentirem gravemente desigualdade. Isto gera revolta e a revolta é desordenada, às vezes ela própria injusta.

Queríamos uma revolta “organizadinha”? Não costuma haver. Organizada e pacífica foi a manifestação convocada pelos jovens para o Terreiro do Paço e sabemos como acabou. Problemática é a nossa sociedade. E o nome de Jamaica é bem lembrado. Foi nessa ilha das Caraíbas que os ingleses escravocratas, nem melhores nem piores que os portugueses, desenvolveram a cultura do açúcar à custa de remessas sucessivas de escravos trazidos de África. Até que estes se revoltaram, estabeleceram comunidades livres nas montanhas e deram que fazer aos ingleses. Mas gente “caucasiana” é outra coisa...

Artigo de Isabel do Carmo, Público

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O ano de 2018 visto pelas objectivas da agência Reuters (12)


Um migrante da caravana de milhares de pessoas da América Central sobe a cerca da fronteira entre o México e os EUA, em Tijuana, a 18 de novembro. Foto Hannah Mckay/Reuters



Migrante da América Central, parte da caravana com destino aos Estados Unidos, captado junto a agentes da Polícia, no México, em novembro. Foto Carlos Garcia Rawlins/Reuters



O agente de patrulha de fronteira Jacob Stukenberg vê o cadáver do migrante da Guatemala Misael Paiz, 25 anos, que morreu no deserto de Sonora depois de viajar mais de 3000 quilómetros para cruzar a fronteira entre os EUA e o México, no Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Buenos Aires, Arizona, em setembro. Foto Lucy Nicholson/Reuters



Um menino de quatro anos de idade chora nos braços de um membro da família quando ele e outros foram detidos por agentes de patrulha após atravessarem a fronteira dos EUA a partir do México, perto de McAllen, no Texas, em maio. Foto Adrees Latif/Reuters

domingo, 30 de dezembro de 2018

O ano de 2018 visto pelas objectivas da agência Reuters (11)


Migrante hondurenho, parte da caravana de migrantes da América Central com destino aos EUA, no México, em outubro. Foto Ueslei Marcelino/Reuters



Maria Meza (no centro), uma mulher de 40 anos das Honduras, parte de uma caravana de milhares de migrantes da América Central, foge do gás lacrimogéneo com as filhas gémeas de cinco anos Saira Mejia Meza (à esquerda) e Cheili Mejia Meza (à direita) em frente ao muro da fronteira entre os EUA e o México, em Tijuana, a 25 de novembro. Foto Kim Kyung-hoon/reuters



Antigo presidente das Honduras, Manuel Zelaya, atacado durante protestos contra a reeleição do presidente Juan Orlando Hernandez, em Tegucigalpa, Honduras, janeiro. Foto Jorge Cabrera/reuters



 Galo passeia perto de corpo de membro de gangue, nas Honduras, em setembro. Foto Goran Tomasevic/Reuters


sábado, 29 de dezembro de 2018

O ano de 2018 visto pelas objectivas da agência Reuters (10)


Migrantes resgatados pela ONG Proactiva Open Arms no Mar Mediterrâneo antes de chegar ao porto de Algeciras, em San Roque, sul de Espanha, em agosto. Foto Juan Medina/Reuters



Migrantes desembarcam numa praia em Tarifa, sul de Espanha, em julho. 
Foto Jon Nazca/Reuters



Mave Grace, 11 anos, que teve parte do braço esquerdo mutilado por milicianos quando atacaram a vila de Tchee, com a irmã Racahele-Ngabausi, de dois anos, num acampamento deslocado internamente em Bunia, província de Ituri, leste da República Democrática do Congo, em abril. Segundo testemunhas, os milicianos mataram a mãe grávida, os três irmãos e feriram a irmã. Foto Goran Tomasevic/Reuters

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

O ano de 2018 visto pelas objectivas da agência Reuters (9)


Jovem palestiniano atingido por tropas israelitas na Faixa de Gaza, em junho. 
Foto Ibraheem Abu Mustafa/Reuters



Familiares de um palestino morto na fronteira entre Israel e Gaza num hospital na Cidade de Gaza, em junho. 
Foto Mohammed Salem/Reuters



Um familiar chora quando carrega o corpo da criança palestiniana Laila al-Ghandour, de oito meses, durante o funeral na cidade de Gaza, em maio. Foto Mohammed Salem/Reuters


sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Num país onde um fiscal de transportes públicos rodeado de gente pode insultar, espancar, rebentar a cara de uma jovem negra, eu não quero viver

Não há nós enquanto acontecer um milésimo do que aconteceu a Nicol. Não há nosso país. Será um país de merda, aquele que continua a chamar “preta de merda” às Nicol. Seremos todos responsáveis. Estaremos todos naquela roda de gente em volta daquele homem que arrancou Nicol de um autocarro, chamando-lhe “preta de merda”, “vai para a tua terra”.


1. Tu que dizes, eu não sou racista, mas. Tu que achas que Portugal “nem” é racista, mas é um país branco, e essa é a “nossa identidade”. Tu que achas que Portugal não é racista mas vês uma hierarquia: primeiro os “como nós”; depois “os de Leste”, que trabalham bem e aprendem logo português; depois os “chinocas”, empreendedores; depois “monhés”, “árabes”, “muçulmanos”; por último “ciganos e pretos”. Enfim, tu que rapidamente transformas “os pretos” em “pretos de merda”. Sabes onde é a tua terra? É na cadeia.
 
2. Tolerância Zero. Depois do que aconteceu na madrugada de São João no Porto, o que devíamos estar a discutir era uma Tolerância Zero. Ao mínimo sinal, expor, confrontar em massa; mal for o caso, apresentar queixa. Desmontar de tal modo tentações racistas que ninguém mais se sinta autorizado a uma boca, um gesto. Envergonhar especialmente todos os que que lidam com público, seja em serviços públicos ou privados, e diariamente fazem da vida de tantos portugueses um inferno. Tolerância Zero para com o racismo em Portugal: disfarçado, maquilhado, negado, relativizado, temperado, encoberto. Tanto patriota à espera de D. Sebastião quando temos esse verdadeiro Encoberto sempre aqui connosco. Aconteceu no Bolhão, no Porto. Podia ter sido no Cais do Sodré, em Lisboa. Ou numa das estações da periferia mais negra do país, aquela que atravesso de comboio para chegar a Lisboa, e tem dezenas (centenas?) de milhares de portugueses negros. Eu disse portugueses negros. Vamos dizer portugueses negros centenas de milhares de vezes. Vamos dizer centenas de milhares de vezes que há centenas de anos negros fazem parte do que é Portugal. Branco “puro” é que é capaz de ser mais difícil de arranjar assim no ADN, desde que Portugal não se chamava Portugal, e isto estava cheio de árabes e judeus.
 
3. Não há nós enquanto uma Nicol Quinayas puder ser insultada, brutalmente espancada, ficar de cara rebentada. Não há nós enquanto acontecer um milésimo do que lhe aconteceu. Não há nosso país. Será um país de merda, aquele que continua a chamar “preta de merda” às Nicol. Seremos todos responsáveis. Estaremos todos naquela roda de gente em volta daquele homem que arrancou Nicol de um autocarro, chamando-lhe “preta de merda”, “vai para a tua terra”, e lhe torceu o braço, e lhe desfez a cara aos socos, e a deitou no chão com o joelho em cima, e bateu com a cabeça dela no chão. Nicol, 21 anos, um metro e meio de gente, franzina. Com um monte de merda em cima dela. E em volta uma roda de gente. Alguns segundos de vídeo, foi tudo o que vi, o que circula. Alguns segundos que alguém filmou, e onde se vê que aquele homem, com a sua farda de segurança da empresa 2045, fiscal ao serviço da STCP (Sociedade de Transportes Colectivos do Porto), está em cima de Nicol, imobilizada no chão, e em volta há uma roda, e um rapaz de barba tenta debruçar-se e grita: “Gostavas que fosse a tua filha?! Filho da puta!”, e uma mulher indignada grita: “Exactamente!”, mas há alguém que parece conter o rapaz, não se percebe se alguém da “segurança”. Fim. Vazio. Aquilo está a acontecer na madrugada da festa mais linda da segunda cidade do país. E que país será esse? Que país será para uma rapariga de 21 anos, de nacionalidade colombiana, que desde os cinco mora em Portugal, e neste São João ficou com a cara num bolo, sangue pisado, boca deformada, “traumatismo facial”, disse o hospital. Então vieram os agentes da PSP, e o monte de merda parece que estava a fumar um cigarro, e Nicol ainda foi tratada como aquelas mulheres que são violadas, mas quem as mandou sair de mini-saia? Nem uma ambulância a PSP chamou. Tiveram de ser as amigas de Nicol. E Nicol diz que nem a identificaram, só falaram com os “seguranças”. Como, em que país esta rapariga se pode levantar do chão, cheia de sangue, ver aquela roda, e havia gente a chorar, sim, porque a gente tem coração, claro, e Nicol (olhem o tamanho do coração dela) ainda conseguiu pensar que se ninguém impediu o homem de a espancar terá sido por medo, por ele estar fardado. Nicol teve de chamar a ambulância. Nicol teve de ir a uma esquadra apresentar queixa. Só três dias depois da agressão a PSP abriu um auto.
 
4. Medo misturado com não te metas, confusão, perplexidade? Não sei, não estava lá, não achei mais vídeos. Gostava mesmo de saber. É um horror que aquele homem tenha uma farda, tenha aquele poder. Também é um horror que isto se passe no centro da segunda cidade do país no meio de uma roda de gente. Como? Porquê? Alguém segurou as pessoas indignadas, as impediu de intervir? Um país não devia parar quando não se percebe como uma rapariga pode ser agredida, e depois ignorada por fardas ao serviço do colectivo, perante uma roda de gente? De onde vem isto? Os “pretos de merda”, os “vai para a tua terra”, e em volta o medo, ou pelo menos a inércia? E depois o descaso da polícia no local?
 
5. São perguntas retóricas. Isto tem raízes na História, uma longa história mal digerida, de um longo império mal digerido, de um país que não se consegue ver ao espelho, um país que vive na bipolaridade do maior dos pequeninos. E perpetua-se no facto de Portugal não se ensinar a si mesmo por inteiro na escola. Falta a escala de como o grande Portugal dos Pequeninos extinguiu, capturou, deslocou, transferiu, escravizou milhões pelo mundo. Estou tão farta da conversa de que Portugal “nem” é racista. Tão farta da infantilidade, do ufanismo, das distorções, das desculpas, que os ingleses é que eram mesmo maus, ou então os espanhóis, e já os africanos escravizavam, e então os romanos. Farta de a História valer a pena quando é para sermos os bons, mas não valer quando é para sermos os maus. Farta da sem-noção, ou talvez não, com que se desdenham milhões de mortes violentas, descendentes pelo globo, toda uma parte dos portugueses, todos os portugueses negros, incluindo os que legalmente não podem ser portugueses porque a lei continua errada. E continuam os debates sobre os museus dos descobrimentos e outros brinquedos, colónias de férias da nação, ATL. Portugal não cresce, é um caso psicanalítico. Um Peter Pan da Finisterra Europa. Os barões e os padrões sempre assinalados, contra os não-patriotas, marchar, marchar.
 
6. Era preciso massacrar a 2045, e a PSP, e a STCP, e a Câmara do Porto, e o Governo e quem quer que relativize o que aconteceu na madrugada de São João. Tolerância não é para racistas, xenófobos, homófobos, sexistas. Qualquer pessoa que humilhe ou agrida alguém por ser preto, mulher, gay ou transgénero merece Tolerância Zero. Nem todas as opiniões têm direito a ser declaradas em público, não. Opiniões racistas, homofóbicas, xenófobas são crime. Se a sua opinião declarada publicamente é que preto é merda e deve ir para a sua terra, o seu lugar é na cadeia. Ninguém pode ser insultado como merda por ser da cor que é, ou ter o género que tem, ou transitar entre géneros. Mas quem chama a alguém merda por ser preto ou mulher ou gay transforma-se a si mesmo num monte de merda. Tolerância Zero passa por todos cuidarmos que não vai sair mais ódio de uma boca, de um punho. Que mais nenhuma Nicol se levantará sozinha, cheia de sangue, depois de um criminoso ter actuado na frente de toda a gente. E cada criança deste país saber que não há país, não há nós, não há nada, enquanto alguém continuar a ser agredido por ser quem é.
 
Artigo de Alexandra Lucas Coelho, Sapo24

terça-feira, 19 de junho de 2018

Estados Unidos da América, Século XXI


Estados Unidos da América, 12 de junho de 2018.
Criança Hondurenha de 2 anos chora enquanto a mãe é revistada e detida pela polícia na fronteira do Texas com o México. Fotografia John Moore / Getty Images

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Israel usa armas químicas com bênção global

A tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas.

Créditos fotografia  / palestinalibre.org

Senhor desalojará diante de vós todos esses povos e submetereis povos maiores e mais fortes do que vós. Toda a região que a planta dos vossos pés pisar será vossa. Desde o deserto até ao Líbano e desde o rio Eufrates até ao mar ocidental serão essas as vossas fronteiras. Ninguém vos poderá resistir; o Senhor vosso Deus espalhará o medo e o terror sobre todos os lugares onde puserdes o pé, como vos afirmou.»
Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 11 – 23, 24 e 25
 
Até prova em contrário, esta é a lei ainda em vigor num mundo sem lei. Palavras atribuídas ao profeta Moisés, que não terão pertencido a Moisés, inscritas afinal não se sabe por quem num dos cinco livros do Antigo Testamento, parte da Bíblia que garante a supremacia do «povo escolhido», o «povo de Israel», sobre os demais povos da Terra. Colectâneas de lendas, ficções e profecias de origens desconhecidas e perdidas no tempo, em torno das quais se alongam discussões e teorias especulativas eternamente inconclusivas, continuam a servir de sustentação a práticas de uma crueldade aterradora, exercidas com uma impunidade absoluta e que se sobrepõem às mais elementares e actuais leis dos homens. Por isso, Israel usa armas químicas contra a população sitiada da Faixa de Gaza enquanto os cidadãos supostamente informados continuam entretidos com a novela da mirabolante e fracassada tentativa de assassínio dos Skripal, a que se somam as contaminadas historietas sobre os arsenais químicos da Síria de Assad, tão bem escondidos como outrora as armas de extermínio à disposição do Iraque de Saddam. Por causa das maléficas, mas invisíveis, armas químicas que teriam sido usadas em Duma, na Síria, a tríade fraternal e justiceira formada por Trump, Macron e May, sob coordenação da NATO, fez chover mísseis de cruzeiro sobre terra síria, alguns de um modelo em estreia absoluta, guiados contra paióis tão venenosos que deles não consta ter-se libertado um átomo de qualquer produto perigoso. Pelo mesmo motivo, sucederam-se reuniões e vetos no Conselho de Segurança da ONU, como se a salvaguarda da lei e do direito no mundo fosse unicamente ameaçada por comportamentos não demonstrados, atribuídos aos senhores de Damasco, amigos e aliados. Foi tanta a atenção concentrada nestes acontecimentos que não chegou para se debruçar sobre a utilização comprovada de armas químicas israelitas contra os seres humanos indefesos encarcerados em Gaza. Usados ainda como cobaias em testes de munições concebidas para provocar sofrimentos longos e torturantes a pessoas cuja única culpa é a de não pertencerem ao «povo eleito» e quererem viver na terra onde nasceram.
«Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz.»
Sobre essa realidade não se pronunciou ainda o Conselho de Segurança da ONU, provavelmente por falta de tempo, ou talvez porque já não se justifique discutir atentados cometidos com engenhos interditos numa situação que se tornou corriqueira, banal, de relevo insuficiente para ocupar espaço na agenda dos senhores do mundo e respectivos vassalos. Em Gaza, todas as sextas-feiras de há umas semanas para cá, milhares de pacíficas famílias palestinianas, sem armas nem símbolos políticos, reúnem-se na zona dos remanescentes terrenos agrícolas do enclave para tentarem, mais uma vez, denunciar ao mundo as crueldades a que mais de dois milhões de pessoas ali continuam sujeitas: cercadas por vedações, sitiadas militarmente, sem infraestruturas que permitam uma existência digna de seres humanos, entre lixos, ruínas e destroços, quase sem água nem energia eléctrica, com carências gritantes de medicamentos e alimentos, sem trabalho nem escolas. Em Gaza morre-se lentamente numa situação de agonia tão prolongada como feroz. Os palestinianos que participam nessas manifestações cívicas que designaram como «Marcha do Regresso», o regresso às terras que lhes pertencem de pleno direito em toda a Palestina, expõem-se, em campo aberto, aos exercícios de tiro ao alvo e às sevícias engendradas pelas tropas israelitas sitiantes. Activistas de todo o mundo que apoiam solidariamente estas acções de resistência afirmam, com um optimismo pouco objectivo, que a coragem demonstrada por estas famílias palestinianas tem vindo a reflectir-se na opinião pública e entre dirigentes de todo o mundo, que assim adquirem uma nova consciência do desequilíbrio de forças e da injustiça flagrante da situação. Em Fevereiro último passaram 30 anos sobre a primeira vez que estive em Gaza, menos de um mês depois de ter explodido a chamada «Intifada», a genuína, legítima e justa revolta das pedras – iniciada naquele paupérrimo território. O cenário que então chegou a grandes meios de comunicação social, revelando cruamente a desproporção do confronto entre jovens arremessando pedras contra um exército de topo esmagando-os com tanques, chamou a atenção para o problema da ocupação ilegal da Palestina. Porém, a resposta eficaz da propaganda sionista e dos seus poderosos tentáculos ramificados em todo o planeta foi dando volta à situação, tornando fugaz a indignação internacional, transformando a legítima expressão da ira dos ocupados, perseguidos e espoliados em episódios de «terrorismo» doutamente comentados e explicados por quem se ocupa apenas de deturpar a realidade e mentir sobre razões. Os ecos da «Marcha do Regresso» não rompem agora a barreira formada pela propaganda instalada e institucionalmente sedimentada, cavalgando fronteiras. Por isso, a tropa israelita recorre a armas químicas reais e o mundo não dá por isso, entretido com divagações e mistificações em torno de falsas armas químicas. O notável cirurgião francês Christophe Oberlin tem estado em Gaza, ocupando-se da assistência a vítimas da chacina permanente cometida pelo exército israelita contra a população sitiada. Não tem quaisquer dúvidas em afirmar que estão a ser cometidos atentados com armas químicas «no norte e no sul» do território mártir. «Esses ataques deixam no terreno dezenas de feridos inconscientes e agitados por convulsões durante longos minutos», escreve o Professor Oberlin.  «Convulsões que se repetem regularmente nos feridos hospitalizados nas unidades de cuidados intensivos». A causa são «gases neurotóxicos», explica o médico, que durante 8 e 15 de Abril realizou cirurgias sucessivas no Hospital de Shifa, em Gaza, o mais importante da região. São também «usados outros gases, de cor diferente, que provocam vómitos e diarreias sangrentas», acrescenta. Ao que consta, ninguém encarregou ainda a Organização para a Destruição de Armas Químicas de investigar estas denúncias fundamentadas – quiçá por isso silenciadas. O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes. São balas «com efeitos explosivos que fazem rebentar os ossos, transformam o interior dos crânios em pastas sangrentas, destroçam os corpos abrindo crateras pelas quais podem passar punhos», testemunha o médico. Dezenas de mortos e mais de 500 feridos é, até agora, o balanço das chacinas israelitas cometidas para travar as «marchas do regresso» semanais. Membros da organização «Médicos Sem Fronteiras» presentes no terreno confirmam as informações prestadas pelo Professor Oberlin. Depararam com «ferimentos devastadores de uma severidade pouco habitual, de tratamento extremamente complexo e que deixarão sequelas na maioria dos pacientes». As balas «destroem literalmente os tecidos e pulverizam os ossos», explica a Dr.ª Marie-Elisabeth Ingres, responsável pela equipa dos «Médicos Sem Fronteiras» presente em Gaza.
«O testemunho do Professor Oberlin permite detectar ainda a utilização, pelas tropas israelitas, de engenhos invulgares produzidos por mentes irremediavelmente doentes.»
Sobre estas utilizações de armas e engenhos interditos que ferem o direito internacional paira um absoluto silêncio do Conselho de Segurança da ONU. Como se já não sobrasse direito internacional para ferir. Silencioso está igualmente o secretário-geral da ONU. Talvez seja melhor assim, ou voltaríamos a escutar um dos seus corajosos apelos à «contenção de ambas as partes»: neste caso os cidadãos desarmados e indefesos que se manifestam pelos seus direitos, garantidos nas resoluções aprovadas pela organização que dirige, mas sempre sonegados; e soldados israelitas recorrendo a armas químicas e apoiados em snipers que actuam em campo livre, e sem resposta, disparando balas que «pulverizam ossos», destroçam tecidos e transformam crânios em «pastas sangrentas». Justiça biblicamente salomónica, a de Guterres. Perante o quadro em que funciona actualmente a chamada «comunidade internacional» é natural que qualquer cidadão israelita, mesmo céptico em relação à religião oficial do seu país, sinta a inutilidade de esgrimir argumentos racionais e humanitários perante as convicções e as verdades divinas invocadas pela doutrina político-religiosa fundamentalista – a essência do sionismo - em que assenta a existência do Estado de Israel. Por isso esta transitou, pacífica e gradualmente, de uma hipócrita democracia formal para um sistema indisfarçadamente elitista, xenófobo, racista, ditatorial e de absolutismo religioso fundamentalista, regredindo 3500 anos ao encontro dos argumentos míticos e lendários do Antigo Testamento, como alicerces providenciais de um nacionalismo dogmático. O Estado de Israel de hoje assume-se, sem rebuço, como o lar do «povo eleito»  – «Passarás o Jordão para entrares na terra que o Senhor, teu Deus, te há-de dar; toma posse dela e habita ali». (Deuteronómio, cap. 11 – 31). Ao Estado de Israel é permitido assumir, com toda a discricionariedade e sem risco de sanção, comportamentos e atitudes agressivas, difamatórias e ameaçadoras para com os outros Estados, povos e cidadãos do mundo. As organizações, interesses e potências que usam o poder da força para fiscalizar abusivamente a «ordem mundial» são de uma tolerância cúmplice e sem limites para com estes procedimentos.
«Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda»
Tal como o Estado de Israel, também estas entidades violam o conjunto das leis internacionais com o qual se comprometeram. Por isso se uniram em aliança dita «indestrutível», porque todos ganham em violar as leis terrenas –  para pragmático usufruto das vantagens terrenas – cultivando fraternalmente as mais inquestionáveis ficções, afinadas em forma de moderna propaganda. São elites sumptuosas e globais que se elegeram a si mesmas – a versão actual do «povo eleito». Nos dias que correm, as leis internacionais tornaram-se letra morta, substituídas pelo resultado das combinações oportunistas e voláteis dos efeitos da mistificação intoxicante feita de propaganda, mentiras, silêncios, superficialidade, desinformação e intoxicação, retorcidos dogmas religiosos e civilizacionais. Uma circunstância que permite, por exemplo, cantar loas a uma gesta guerreira contra o uso de armas químicas virtuais enquanto se gaseiam impunemente, com armas químicas reais, os indefesos seres humanos confinados a um campo de morte lenta. Em nome dos direitos humanos.

«Destruirás, pois, todos os povos que o Senhor, teu Deus, te entregar; não olharás para eles com piedade, nem adorarás os seus deuses, porque isso seria para ti uma armadilha». (Antigo Testamento, Deuteronómio, cap. 7 – 16)

Artigo de José Goulão, publicado no Abril Abril 

sexta-feira, 16 de março de 2018

Não é só Marielle: conheça mais 24 casos de lideranças políticas mortas nos últimos quatro anos

O assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) na noite desta quarta-feira (14/03) acendeu o alerta para um fato alarmente: desde 2014, ao menos outros 24 líderes comunitários, ativistas e militantes políticos foram evidentemente executados em diferentes regiões do Brasil. O levantamento não inclui mortes suspeitas de lideranças nem trabalhadores que não tinham, pelo menos de forma evidente, papel político de liderança. Usando esses dois critérios adicionais, a lista chegaria a centenas de nomes.
 

O historiador Fernando Horta, doutorando na Universidade de Brasília, reuniu uma lista dessas vítimas. Opera Mundi conta um pouco da história destes militantes, executados por conta dos trabalhos que desenvolviam por suas comunidades. 
 
Marielle Franco, vereadora no Rio de Janeiro pelo PSOL – 15.mar.2018
A socióloga, ativista dos movimentos feminista e negro, foi executada no centro da capital fluminense. Marielle, a quarta vereadora mais votada na cidade, atuava na comunidade da Maré, onde morava, e, na semana anterior a sua morte, denunciou a violência e os abusos policiais no bairro de Acari. Leia mais aqui.
 
Paulo Sérgio Almeida Nascimento, líder comunitário no Pará – 12.mar.2018
Nascimento era um dos líderes da Associação dos Caboclos, Indígenas e Quilombolas da Amazônia (Cainquiama). Segundo a Polícia Civil, ele foi alvejado por disparos do lado de fora de casa, na cidade de Barcarena. Nascimento era atuante nas denúncias contra a refinaria Hydro Alunorte, responsável pelo vazamento de dejetos tóxicos nas águas da região no começo do mês. Leia mais aqui.
 
George de Andrade Lima Rodrigues, líder comunitário em Recife – 23.fev.2018
Rodrigues foi encontrado com marcas de tiros e um arame enrolado no pescoço, após três dias de buscas. O corpo dele foi achado em um matagal às margens de uma estrada de terra. Ele havia sido sequestrado por quatro homens que se diziam policiais. Leia mais aqui.
 
Carlos Antônio dos Santos, o “Carlão”, líder comunitário no Mato Grosso – 07.fev.2018
Carlão era um dos líderes do Assentamento PDS Rio Jatobá, em Paranatinga, no Mato Grosso, e foi morto a tiros, por homens em uma motocicleta, em frente à prefeitura da cidade. Ele estava dentro de um automóvel com a filha e a esposa, que chegou a ser atingida de raspão. Carlão já havia feito várias denúncias à polícia de que estava sendo ameaçado. Leia mais aqui.
 
Leandro Altenir Ribeiro Ribas, líder comunitário em Porto Alegre – 28.jan.2018
Ribas era líder comunitário na Vila São Luís, ocupação da zona norte da capital gaúcha. Ele havia deixado de dormir em casa desde alguns dias antes por conta da guerra entre traficantes da região. No dia em que foi assassinado, voltou à vila para pegar roupas, mas acabou sendo morto. A polícia suspeita de que Ribas tenha sido executado pelos criminosos ao se apresentar como líder da comunidade e questionar as ações do grupo. Leia mais aqui.
 
Márcio Oliveira Matos, liderança do MST na Bahia – 24.jan.2018
Matos era um dos integrantes mais novos da direção do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e morava no Assentamento Boa Sorte. Aos 33 anos, foi morto em casa, com três tiros, na frente de seu filho. Leia mais aqui.
 
Valdemir Resplandes, líder do MST no Pará – 9.jan.2018
Conhecido como 'Muleta', Resplandes foi executado na cidade de Anapu, no Pará. Ele conduzia uma moto e foi parado por dois homens. Um deles atirou pelas costas; já no chão, o ativista foi alvejado na cabeça. A missionária norte-americana Dorothy Stang foi assassinada na mesma cidade, em 2005. Leia mais aqui.
 
Jefferson Marcelo do Nascimento, líder comunitário no Rio – 04.jan.2018
Nascimento era líder comunitário em Madureira e foi encontrado com sinais de enforcamento um dia após desaparecer. Ele havia feito uma série de denúncias contra uma quadrilha de milicianos dias antes de ser executado. Leia mais aqui.
 
Clodoaldo do Santos, líder sindical em Sergipe – 14.dez.2017
Santos era líder do Movimento SOS-Emprego de Sergipe e foi baleado na cabeça por dois homens que foram à sua casa com a desculpa de entregar um currículo. Após orientar os criminosos a entregarem o documento diretamente à empresa que construía uma termoelétrica na região, o dirigente foi alvejado. Leia mais aqui.
 
Jair Cleber dos Santos, líder de acampamento no Pará – 22.set.2017
Santos foi alvo de um ataque a tiros na companhia de outros quatro trabalhadores rurais. O acusado do assassinato é o gerente de uma fazenda ocupada por trabalhadores ligados à Fetagri (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará). A polícia esteve no local momentos antes e os trabalhadores que estavam lá acusam-na de ter facilitado a fuga do gerente e de outros pistoleiros. Leia mais aqui.
 
Fabio Gabriel Pacifico dos Santos, o “Binho dos Palmares”, líder quilombola na Bahia – 18.set.2017
Binho, como era conhecido, era líder do quilombo Pitanga dos Palmares, na cidade de Simões Filho, Bahia. Ele havia acabado de deixar o filho na escola e seguia para o enterro de uma amiga quando foi abordado por homens em um carro. Um deles desceu do veículo e atirou várias vezes na direção do líder. Leia mais aqui.
 
José Raimundo da Mota de Souza Júnior, líder do Movimento dos Pequenos Agricultures (MPA) na Bahia – 13.jul.2017 
O quilombola Souza Júnior era defensor da agroecologia e educador popular. Momentos antes do crime, o líder camponês havia sido procurado por dois homens em casa. Ele foi baleado enquanto trabalhava na roça com o irmão e um sobrinho. Leia mais aqui.
 
Rosenildo Pereira de Almeida, o “Negão”, líder comunitário da ocupação na Fazenda Santa Lúcia, no Pará – 8.jul.2017 - O líder camponês, ligado ao MST, foi morto na cidade de Rio Marias, próxima à fazenda. Ele havia ido ao local para se esconder após reiteradas ameaças de morte. ele foi executado por dois motoqueiros com três tiros na cabeça. Leia mais aqui.
 
Eraldo Lima Costa e Silva, líder do MST no Recife – 20.jun.2017
Costa e Silva, de 57 anos, estava em casa, em uma ocupação na zona norte do Recife, quando homens armados o arrastaram para fora e o executaram às margens da BR-101, com quatro tiros. Leia mais aqui.
 
Valdenir Juventino Izidoro, o “Lobó”, líder camponês de Rondônia – 4.jun.2017
Lobó foi morto com um tiro a queima roupa em um acampamento em Rondominas, Rondônia. Ele liderava um grupo de sem-terra em ocupações na região. Leia mais aqui.
 
Luís César Santiago da Silva, o “Cabeça do Povo”, líder sindical do Ceará – 15.abr.2017
Silva tinha 39 anos quando foi executado em uma estrada no município de Brejo Santo (CE). Ele era membro do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplanagem (Sintepav-CE) e com militância ativa nas obras do porto de Pecém. Leia mais aqui.
 
Waldomiro Costa Pereira, líder do MST no Pará – 20.mar.2017
Pereira, que era servidor público e atuante no MST, foi morto dentro do Hospital Geral de Parauapebas, no Pará. Cinco homens armados renderam seguranças e foram até a UTI, onde atiraram no ativista. Ele estava internado após ser atacado em seu sítio, em Eldorado dos Carajás. Leia mais aqui.
 
João Natalício Xukuru-Kariri, líder indígena em Alagoas – 11.out.2016
Liderança história dos povos indígenas do nordeste, Xukuru-Kariri foi morto a facadas na porta de casa, em uma aldeia indígena em Alagoas. O assassinato ocorreu de madrugada, quando o camponês se preparava para ir trabalhar na roça. Leia mais aqui.
 
Almir Silva dos Santos, líder comunitário no Maranhão – 8.jul.2016
Santos era líder comunitário da Vila Funil, em São Luiz, e foi executado dentro de casa com tiros na cabeça e nas costas, na frente da mulher, da filha e de vizinhos. O acusado de ter cometido o assassinato teria afirmado, segundo a polícia que matou Santos por não concordar com a construção de uma ponte na comunidade - que atrapalharia o tráfico de drogas ao dar aos policiais acesso fácil ao local. Leia mais aqui.
 
José Bernardo da Silva, líder do MST em Pernambuco – 26.abr.2016
Silva, de 48 anos, era líder do MST em Pernambuco e estava caminhando com a esposa e uma filha às margens da BR-336 quando uma caminhonete se aproximou. Um dos ocupantes do veículo desceu do carro e atirou contra a vítima. Mulher e filha se esconderam e não ficaram feridas. Leia mais aqui.
 
José Conceição Pereira, líder comunitário no Maranhão – 14.abr.2016
Pereira tinha 58 anos quando foi morto com um tiro na nuca dentro de casa na capital maranhense. Nada foi levado da casa do líder comunitário, o que reforçou a hipótese de execução. Leia mais aqui.
 
Edmilson Alves da Silva, líder comunitário em Alagoas – 22.fev.2016
Presidente do asssentamento Irmã Daniela, Silva foi morto a tiros dentro do local. Ele era líder do Movimento de Libertação dos Sem Terra (MLST), o líder comandava ocupações e denunciava crimes ambientais e desmandos supostamente praticados por fazendeiros do litoral norte do Estado. Leia mais aqui.
 
Nilce de Souza Magalhães, a “Nicinha”, líder comunitária e membro do Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB) em Rondônia – 7.jan.2016
Nicinha era pescadora e participou de diversas audiências para denunciar a situação de seus vizinhos e danos ambientais. Ela desapareceu em 7 de janeiro e foi assassinada a tiros. Leia mais aqui.
 
Simeão Vilhalva Cristiano Navarro, líder indígena do Mato Grosso – 1.ago. 2015
O assassinato de Navarro aconteceu durante uma reocupação de terras indígenas por parte dos Guarani-Kaiowá. Uma comitiva de fazendeiros se dirigiu à região e atacaram os indígenas. O ativista foi atingido com um tiro na cabeça quando estava às margens de um córrego procurando pelo filho. Leia mais aqui.
 
Paulo Sérgio Santos, líder quilombola na Bahia - 6.jul. 2014
Santos era líder quilombola e foi assassinado dentro do acampamento Nelson Mandela, em Helvécia (BA). Ele foi surpreendido por homens armados que chegaram em um carro e desceram atirando. Leia mais aqui.
 
Fonte: Opera Mundi

terça-feira, 6 de março de 2018

Marcelo não conheceu o fascismo?

Marcelo Rebelo de Sousa teve a sensatez e a sensibilidade de emitir uma nota “a lamentar” (lê-se no título) a morte do coronel João Varela Gomes: “O Presidente da República apresenta à Família do Senhor Coronel João Varela Gomes condolências invocando a sua militância cívica, em particular, a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada antes do 25 de Abril de 1974”, diz o texto enviado às redações no passado dia 28 de fevereiro.
 
Informo o leitor ou a leitora, caso não saiba, que Varela Gomes passou pelas prisões da PIDE (a polícia política de Salazar), participou na campanha eleitoral do general Humberto Delgado (que desafiou o regime), esteve na conspiração da Sé em 1959 e no assalto ao quartel de Beja em 1962 (que o qualificaram como um dos heróis da resistência).
 
Depois do 25 de Abril, Varela Gomes liderou a 5.ª Divisão do Estado-Maior das Forças Armadas, que percorreu o país a promover sessões de esclarecimento e de propaganda sobre a Revolução dos Cravos e o Movimento das Forças Armadas. No 25 de novembro de 1975 ficou do lado dos derrotados e teve de fugir do país. Voltou em 1979.
Em primeiro lugar tenho de dizer que se o Presidente da República fosse outra pessoa provavelmente a nota que citei nunca teria sido emitida. Cavaco Silva nunca o faria. Jorge Sampaio e Mário Soares talvez o fizessem, mas não tenho a certeza…
 
Em segundo lugar quero sublinhar a definição utilizada por Marcelo Rebelo de Sousa, construída para designar a forma como a República se organizou durante o longo consolado de Oliveira Salazar e Marcelo Caetano: “Ditadura constitucionalizada”… Nem apenas “ditadura”, nem o autodesignado “Estado Novo”, nem o mais popular “fascismo”.
 
Esta versão agora adotada por Marcelo Rebelo de Sousa é a demonstração de como Portugal ainda tem muitos problemas para falar do seu passado, encerrado há 43 anos: o esforço para encontrar uma formulação bateriologicamente pura da infeção ideológica para dizer aos portugueses o que era o regime que Varela Gomes combateu é, por si só, um exercício de ideologia, pois parte da presunção de que falar sobre fascismo em Portugal é uma incorreção, uma inconveniência ou uma infelicidade.
É verdade que há historiadores e académicos a defender essa tese, mas, para mim, isso não faz sentido: houve partido único, houve câmara cooperativa, houve Mocidade Portuguesa, houve Legião, houve censura prévia, houve polícia política, houve prisões e campos de concentração para os opositores e houve um sem-número de outras instituições e leis no Portugal desse tempo – ou em alguns períodos dentro desse tempo – semelhantes a outros regimes fascistas.
Como não sou historiador nem académico, esta minha posição pode ser facilmente contestada por quem, nesta área, tem mais credibilidade do que eu. Porém, ao longo dos meus 54 anos de vida, já assisti a várias revisões profundas da história, sempre com suposto certificado científico, até de coisas bem antigas, milenares, sobre as quais pensava haver imenso saber consolidado.
 
Por isso, aquilo que hoje se escreve como sendo verdade científica acerca de história contemporânea será, de certeza, uma falsidade científica amanhã e, se calhar, voltará ao estatuto de verdade científica depois de amanhã.
 
O problema não é, insisto, de rigor histórico ou científico. O problema é outro. O problema é que quando ouvimos a palavra “fascismo” pensamos em opressão, em repressão, em escuridão. Quando ouvimos “ditadura constitucionalizada” pensamos em legislação, ordem e autoridade. Há aqui um planeta de distância, estamos a falar de dois países diferentes.
 
Imaginemos que o coronel Varela Gomes estava vivo e que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa se cruzava com ele e lhe dizia: “Quero agradecer-lhe, em nome do povo português, a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada.” Varela Gomes, que se definia como antifascista, como se sentiria? Provavelmente ofendido, se calhar até humilhado, certamente indignado.
 
E se em vez de Varela Gomes essa mesma frase, essa expressão “ditadura constitucionalizada” tivesse sido dirigida a Álvaro Cunhal? Ou a Mário Soares? Ou a qualquer um dos milhares de pessoas que passaram pela prisões da PIDE, muitas delas ainda vivas e com ativa participação na vida pública? Como podem essas pessoas, de diversos quadrantes ideológicos, que tantos anos da sua vida deram em torno do conceito mobilizador do derrube do fascismo em Portugal, aceitar agora esta esterilização da sua luta?
 
Como podem os filhos, os netos ou bisnetos dos resistentes a Salazar e Caetano aceitar uma versão oficial de que os seus pais, avós ou bisavós não lutaram contra o fascismo, lutaram antes contra uma “ditadura constitucionalizada”? Julgarão que os seus familiares os enganaram? Ou que o Estado está a trair a memória dos seus familiares?
Dizer, para definir o fascismo português, que se tratou, apenas, de uma “ditadura constitucionalizada” é conseguir inatacável rigor histórico, talvez mesmo para daqui a mil anos, mas é também escamotear a história real, vivida, pessoal de cada lutador político desse tempo, onde se documenta uma parte essencial do que se passou em Portugal durante 48 anos.
Penso que Marcelo tenta, como Presidente, pacificar o país, até com a sua memória. Daí ter decidido lamentar a morte do antifascista Varela Gomes, o que outros, repito, não fariam… Porém, ao tentar as meias-tintas, falhou e, até, afrontou o texto do preâmbulo da Constituição que jurou defender. É pena.


Artigo de Pedro Tadeu, in Diário de Notícias