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quarta-feira, 1 de julho de 2015

Where did the Greek bailout money go ?

Less than 10% of the money was used by the government for reforming its economy and safeguarding weaker members of society

 
Only a small fraction of the €240bn (£170bn) total bailout money Greece received in 2010 and 2012 found its way into the government’s coffers to soften the blow of the 2008 financial crash and fund reform programmes.
Most of the money went to the banks that lent Greece funds before the crash.
Unlike most of Europe, which ran up large budget deficits to protect pensioners and welfare recipients, Athens was then forced to dramatically reduce its deficit by squeezing pensions and cutting the minimum wage.
The troika of lenders first stepped in during the spring of 2010 after Athens could no longer afford to finance €310bn borrowed from a wide range of major European banks.
Two years later, the International Monetary Fund (IMF), European commission and European Central Bank (ECB) came up with a second bailout that centred on a €100bn debt write-off by private sector lenders.
Private bondholders saw the value of their bonds drop by 53% and took a further loss by exchanging the debt for securities with a lower interest rate.
This eliminated about €100bn of debt, but €34bn was used to pay for various “sweeteners” to get the the deal accepted. That €34bn was added to the Greek debt. Greek pension funds, which were major private lenders, also suffered terrible losses.
Then €48.2bn was used to bail out Greek banks which had been forced to take losses, weakening their ability to protect themselves and depositors.
Lastly, €140bn has been spent on paying the original debts and interest.
Less than 10% of the bailout money was left to be used by the government for reforming its economy and safeguarding weaker members of society.
Greek government debt is still about €320bn, 78% of it owed to the troika. As the Jubilee Debt Campaign says: “The bailouts have been for the European financial sector, while passing the debt from being owed to the private sector to the public sector.”
 

domingo, 8 de março de 2015

O que ninguém contará sobre Auschwitz


Os grandes media internacionais falam de Auschwitz à sua maneira: reescrevendo a história. E uma das formas de a reescrever é fazer silêncio sobre o papel do grande capital internacional na promoção e no financiamento do nazismo. E fazer silêncio sobre os que tiraram lucro dos crimes monstruosos do nazi-fascismo.
 
Passam setenta anos sobre a libertação do campo da morte de Auschwitz, com toda a probabilidade o nome que evoca o mais próximo que o ser humano, em toda sua história, chegou a estar do mal absoluto. E já não é dizer pouco. Auschwitz, e os outros mais de 50 “campos da morte” disseminados por toda a Europa ocupada, evocados em uníssono apenas com essa menção; e sem contar os quase 1000 campos de concentração do Terceiro Reich, os más de 1150 guetos e tudo o resto. Declarado Património da Humanidade pela UNESCO, falar de Auschwitz continua sendo hoje demasiado difícil, demasiado insuficiente, demasiado assustador. Não há texto nem palavras suficientes para abarcar o que foi Auschwitz, e muito menos num breve artigo, é certo. Contudo, é para mim demasiado inaceitável que mesmo no dia em que se recorda o 70º aniversário da libertação de Auschwitz tudo o que ali sucedeu seja permitido esquecer que Auschwitz foi o maior campo de trabalho forçado da Alemanha nazi. E que Auschwitz foi também “IG Auschwitz”. Filial de IG Farben, o grande Cartel empresarial do momento, formado pelas empresas Bayer, HOECHST e BASF. E não digo o grande Cartel empresarial “alemão”, porque isso não seria verdade, pelo menos até praticamente Dezembro de 1941 e o ataque a Pearl Harbor. E não seria verdade porque, segundo o próprio relatório oficial da Secção de Investigação Financeira do Governo Militar de Ocupação, por altura de 1940, do total das 324.766 acções que compunham o Cartel IG Farben, unicamente 35.616 estavam nas mãos de pessoas com residência na Alemanha, enquanto quase o triplo, 86.671 acções, estavam nas mãos de investidores de nacionalidade estado-unidense, e quase cinco vezes mais, 166.100 acções, estavam nas mãos de cidadãos suíços. Quer dizer que mais de 80% do capital social de IG Farben era financiado a partir de Wall Street e da Suíça, face a pouco mais de 10% de financiamento propiamente alemão. E essa seria, precisamente, uma das razões determinantes para que os responsáveis empresariais de IG Farben (até 24 altos dirigentes da companhia) não tivessem sido processados nos Julgamentos principais de Nuremberga: a dificuldade em conseguir deixar fora da investigação penal outros cidadãos dos Estados Unidos, Reino Unido e outros países.
 
Porque os líderes nazis foram uns monstros e uns dementes, evidentemente que sim, mas algum dia acabará por se falar também da autêntica conspiração de Farben, Krupp e outras grandes empresas mundiais, supostamente “alemãs” que em nome de uma “vantagem” auto-referencial e à margem de qualquer sensatez e humanidade, os promoveram e financiaram sem limite, com mais de três milhões de marcos da época “para que as eleições de 1933 fossem as últimas eleições da República de Weimar” (von Schnitzler dixit) para poderem depois fazer à vontade “negócios” com o regime nacional-socialista aproveitando a “oportunidade de mercado” da invasão de quase toda a Europa bem como de “instalações de trabalho” como Auschwitz… Porque, tal como assinalaria o promotor Taylor no seu “indictment” durante os Julgamentos posteriores a Nuremberga: “IG marchou com a Wehrmacht, concebeu, iniciou e preparou um detalhado plano para, apoiado por esta, se apropriar da indústria química da Áustria, Checoslováquia, Polonia, Noruega, França, Rússia e outros 18 países”. E por isso tão pouco deveria surpreender que após a derrota do nazismo uma das Leis do Conselho de Controlo aliado fosse precisamente a número 9, de 20 de Setembro de 1945, especificamente destinada a dissolver o Cartel IG Farben e fundamentada, segundo as palavras do seu próprio preâmbulo, na necessidade de “impedir que IG Farben pudesse representar qualquer ameaça futura para os seus vizinhos ou para a paz mundial através da Alemanha”.
O que não quer dizer que fosse de esperar que, quando passam 70 anos sobre a libertação, surgisse algum tipo de comunicado ou pedido público de perdão pela “IG Auschwitz” por parte da Bayer, HOECHST ou BASF, empresas estas que, ao contrário da sua matriz Farben, continuam hoje a existir. Considero que “IG Auschwitz” representa um motivo muito real de preocupação acerca da necessidade de rever os “limites e controlos” do poder corporativo no mundo actual, e sobre a actual insuficiência dos instrumentos de Direito penal internacional perante tudo isso. E que, neste dias de rememoração, é demasiado inaceitável, e arriscado para um futuro que ninguém deseja ver repetido, que nem sequer seja mencionada a fundamental responsabilidade assumida por estes e outros actores empresariais no imenso crime de Auschwitz.
 
 
Texto de Miguel Ángel Rodríguez Arias (via ODiario.info)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Tragédia de Bhopal (1984 – 2014)


Os fetos que foram abortadas na sequência da tragédia,  foram preservados para estabelecer a causa da morte.
(Fotografia Magnum)
 
Na madrugada de 2 para 3 dezembro de 1984, uma fuga descontrolada de gás na fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bhopal, na Índia, causou um dos piores desastres humanitários e ambientais da história da humanidade. 24 toneladas de Isocianato de Metila, um composto químico altamente tóxico e mortal, contaminou todas as formas de vida e os recursos naturais que existiam num raio de vários quilómetros em redor da fábrica.
 
 Dr. Sathpathy é o perito forense do Hospital Hamida. Já realizou mais de 20 mil autópsias. (Fotografia Magnum)
 
A Union Carbide, empresa de pesticidas de origem norte-americana, negou-se a fornecer informações detalhadas sobre a natureza dos contaminantes, e, como consequência, os médicos não tiveram condições de tratar adequadamente os indivíduos expostos. Estima-se que entre 22.000 e 25.000 pessoas morreram por contaminação química e que mais de 57.000 pessoas foram expostas a níveis perigosos deste composto, o que causou malformações e numerosas sequelas que em alguns casos passaram de geração em geração.
 
 
 Todas estas mulheres perderam os seus maridos na tragédia. 
(Fotografia Magnum)

Apesar deste quadro absurdo, a fábrica da Union Carbide em Bhopal permanece abandonada desde a explosão tóxica enquanto que os resíduos perigosos e materiais contaminados ainda estão espalhados pela área. 30 anos depois do desastre, a empresa norte-americana que é proprietária da fábrica, a Union Carbide, continua sem responder perante a justiça indiana e milhares de pessoas da região continuam a beber água contaminada, são afetadas por várias doenças ginecológicas e infertilidade.
 

Enterro de uma criança não identificada em 1984.
(Fotografia Magnum)

 
Mais sobre o assunto em:
Desastre de Bhopal (Wikiepadia)


La tragedia según Magnum (El Mundo)
 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O principal Estado terrorista

"É oficial: Os EUA são o principal Estado terrorista do mundo, e orgulhosos disso".

Esta deveria ter sido a manchete da notícia principal no New York Times de 15 de Outubro, a qual foi polidamente intitulada: "Estudo da CIA da ajuda encoberta alimenta cepticismo acerca do apoio a rebeldes sírios".

O artigo informa sobre uma revisão da CIA das recentes operações encobertas dos EUA a fim de determinar a sua eficácia. A Casa Branca concluiu que infelizmente os êxitos foram tão raros que alguma reconsideração desta política era pertinente.

O artigo citava o presidente Barack Obama a dizer que pedira à CIA para efectuar a revisão a fim de descobrir casos de "financiamento e fornecimento de armas a insurgências num país que realmente tivesse funcionado bem. E eles não puderam sugerir muito". Assim, Obama tem alguma relutância quanto à continuação de tais esforços.

O primeiro parágrafo do artigo do Times menciona três grandes exemplos de "ajuda encoberta": Angola, Nicarágua e Cuba. Cada caso foi de facto uma grande operação terrorista dirigida pelos EUA.

Angola foi invadida pela África do Sul, a qual, segundo Washington, estava a defender-se de um dos "mais notórios grupos terroristas" do mundo – o African National Congress, de Nelson Mandela. Isso foi em 1988.

Nessa altura a administração Reagan estava virtualmente isolada no seu apoio ao regime do apartheid, violando mesmo sanções do Congresso quanto ao aumento do comércio com o seu aliado sul-africano.

Enquanto isso Washington somava-se à África do Sul ao proporcionar apoio crucial ao exército terrorista de Jonas Savimbi, em Angola. Washington continuou a fazer isso mesmo depois de Savimbi ter sido completamente derrotado numa eleição livre cuidadosamente monitorada e de a África do Sul ter retirado seu apoio. Savimbi foi um "monstro cuja sede de poder trouxe miséria espantosa ao seu povo", nas palavras de Marrack Goulding, embaixador britânico em Angola.

As consequências foram horrendas. Em 1989 uma investigação da ONU estimava que as depredações sul-africanas levaram a 1,5 milhão de mortes em países vizinhos, sem falar no que estava a acontecer dentro da própria África do Sul. Forças cubanas finalmente repeliram os agressores sul-africanos e obrigaram-nos a retirarem-se da Namíbia ocupada ilegalmente. Os EUA sozinhos continuaram a apoiar o monstro Savimbi.

Em Cuba, após a fracassa invasão da Baia dos Porcos, em 1961, o presidente John F. Kennedy lançou uma campanha assassina e destrutiva para levar "os terroristas da terra" para Cuba – palavras de um colaborador próximo de Kennedy, o historiador Arthur Schlesinger, na sua biografia semi-oficial de Robert Kennedy, ao qual foi atribuída responsabilidade pela guerra terrorista. 
 
      
As atrocidades contra Cuba foram graves. Os planos eram para que o terrorismo culminasse num levantamento em Outubro de 1962, o qual levaria a uma invasão dos EUA. Nesta altura, meios académicos reconhecem que isto foi uma das razões porque o primeiro-ministro russo Nikita Khruschev instalou mísseis em Cuba, iniciando uma crise que esteve perigosamente próxima da guerra nuclear. O secretário da Defesa dos EUA Robert McNamara posteriormente reconheceu que se tivesse estado no lugar de um líder cubano "podia ter esperado uma invasão estado-unidense".

Ataques americanos contra Cuba continuaram durante mais de 30 anos. O custo para os cubanos foi naturalmente rude. Os relatos das vítimas, que dificilmente alguma vez são ouvidos nos EUA, foram relatados em pormenor pela primeira vez num estudo de 2010 do académico canadiano Keith Bolender, "Voices From the Other Side: an Oral History of Terrorism Against Cuba".

O custo da longa guerra terrorista foi ampliado por um embargo esmagador, o qual continua ainda hoje em desafio ao mundo. Em 28 de Outubro, a ONU, pela 23ª vez, endossou "a necessidade de acabar o bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos contra Cuba". A votação foi de 188 contra 2 (EUA, Israel), com abstenção de três ilhas do Pacífico dependentes dos EUA.

Há agora alguma oposição ao embargo em altos postos nos EUA, informa a ABC News, porque "já não é mais útil" (citando o novo livro de Hillary Clinton, "Hard Choices"). O académico francês Salim Lamrani analisou os custos amargos para os cubanos no seu livro de 2013, "The Economic War Against Cuba".

A Nicarágua nem precisaria ser mencionada. A guerra terrorista do presidente Ronald Reagan foi condenada pelo Tribunal Mundial, o qual ordenou aos EUA que terminassem o seu "uso ilegal da força" e pagassem reparações substanciais.

Washington respondeu escalando a guerra e vetando uma resolução de 1986 do Conselho de Segurança da ONU conclamando todos os estados – o que significava os EUA – a cumprirem o direito internacional.

Outro exemplo de terrorismo será assinalado em 16 de Novembro, o 25º aniversário do assassinato de seis padres jesuítas em San Salvador por uma unidade terrorista do exército salvadorenho, armada e treinada pelos EUA. Por ordens do alto comando militar, os soldados invadiram a universidade jesuíta para assassinar os padres e quaisquer testemunhas – incluindo o caseiro do prédio e sua filha.

Este evento culminou nas guerras terroristas dos EUA na América Central na década de 1980, embora os efeitos ainda estejam nas primeiras páginas de hoje em reportagens sobre "imigrantes ilegais", a fugirem em não pequena medida das consequências daquela carnificina e a serem deportados dos EUA para sobreviverem, se puderem, nas ruínas dos seus países de origem.

Washington também emergiu como o campeão mundial na geração de terror. O antigos analista da CIA Paul Pillar adverte do "impacto da geração de ressentimentos devido aos ataques estado-unidenses" na Síria, os quais mais uma vez induzem as organizações jihadistas Jabhat al-Nusra e Islamic State a "emendar suas violações do ano passado e fazerem campanha em conjunto contra a intervenção dos EUA retratando-a como uma guerra contra o Islão!

Isto agora é uma consequência habitual das operações dos EUA que ajudaram a alastrar o jihadismo de um canto do Afeganistão para grande parte do mundo.

A actual manifestação mais temível de jihadismo é o Estado Islâmico, ou ISIS, o qual estabeleceu seu califado assassino em grandes áreas do Iraque e da Síria.

"Penso que os Estados Unidos são um dos criadores chave desta organização", relata o antigo analista da CIA Graham Fuller, um eminente comentador acerca da região. "Os Estados Unidos não planearam a formação do ISIS", acrescenta, "mas suas intervenções destrutivas no Médio Oriente e a Guerra do Iraque foram as causas básicas do nascimento do ISIS".

A isto podemos acrescentar a maior campanha terrorista do mundo: o projecto global de Obama de assassínio de "terroristas". Os "impactos da geração de ressentimentos" com os ataques de drones e forças especiais são demasiado bem conhecidos para exigirem comentários adicionais.

Isto é um recorde a ser contemplado com algum pavor.
       
 
Texto de Noam Chomsky, tradução para pt no resistir.info

Luxembourg Leaks


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Brasil, futebol e protestos

 
É pouco provável que os brasileiros obedeçam o pedido de Michel Platini – no passado um grande jogador, hoje político e presidente da União Europeia de Associações de Futebol (UEFA) – feito em 26 de abril: “Façam um esforço, segurem essa indignação e acalmem-se por um mês”(1). A Copa do Mundo começa em São Paulo no próximo dia 12 e encerra no dia 13 de julho, no Rio de Janeiro. Há uma séria preocupação. Não somente nas instâncias internacionais do esporte como no próprio governo de Dilma Roussef, no caso dos protestos ganharem intensidade durante o evento. O rechaço da população tem sido expressado desde junho do ano passado, quando do início da Copa das Confederações. A maioria dos brasileiros afirmam que não voltariam a postular o Brasil como sede de um mundial. Pensam que isto causa mais danos que benefícios (2). Porque tanto repúdio contra a festa suprema do futebol no país considerado a meca do próprio? Há quase um ano, sociólogos e cientistas políticos tratam de responder a esta pergunta partindo de uma constatação: nos últimos onze anos – ou seja, desde o início do governo do Partido dos Trabalhadores (PT) – o nível de vida dos brasileiros cresceu significativamente. Os sucessivos aumentos do salário-mínimo conseguiram melhorar substancialmente os ganhos dos mais pobres. Graças a programas como “Bolsa Família” e “Brasil sem miséria”, as classes modestas veem suas condições de vida cada vez melhores. Vinte milhões de pessoas saíram da pobreza. A classe média também obteve progresso e agora possuem acesso a planos de saúde, cartões de crédito, moradia e veículos próprios, viagens… Porém, ainda falta muito para que o Brasil seja um país menos injusto e com condições materiais dignas para todos, porque as desigualdades seguem abismais. Ao não dispor de maioria política – nem na câmara dos deputados nem no senado – , a margem de manobra do PT sempre foi muito limitada. Para lograr avanços na distribuição das remunerações, os governantes do PT – e em primeiro lugar o próprio Lula – não tiveram outra opção que não aliar-se a partidos conservadores (3). Isto criou um vácuo de representação e uma paralisia política, pois, o PT teve de frear as contestações sociais em troca deste apoio. Daí temos cidadãos descontentes que se põem a questionar o funcionamento da democracia brasileira. Sobretudo quando as políticas sociais passam a sinalizar seus limites. Pois, ao mesmo tempo, está ocorrendo uma “crise de maturidade” da sociedade. Ao sair da pobreza, muitos brasileiros passaram da exigência quantitativa (mais empregos, mais escolas, mais hospitais) para a qualitativa (melhores empregos, escolas e serviços de saúde). Nas revoltas de 2013, pode-se constatar que os manifestantes eram na maioria jovens pertencentes as classes modestas que se beneficiam de programas sociais implementados pelos governos Lula e Dilma. Estes jovens – que estudam a noite, são aprendizes, ativistas culturais, técnicos em formação- são milhões e recebem baixa remuneração, porém, agora possuem acesso a internet e permanecem muitas horas conectados, o que lhes permite conhecer novas formas de protesto. Desejam “subir no trem”(4) deste novo Brasil até mesmo porque tiveram sua expectativa de vida aumentadas, mais que sua condição social. Mas, neste ponto, descobrem uma sociedade pouco disposta a mudar, a aceitá-los, o que gera frustração e descontentamento. E então, temos a Copa como o catalisador destas insatisfações. Obviamente, os protestos não são contra o futebol, mas sim contra algumas práticas administrativas, contra os conchavos feitos na organização do evento. O mundial exigiu um investimento estimado em 8,2 bilhões de euros. Os cidadãos pensam que, com este montante, poderiam ter ocorrido construções de mais e melhores escolas, mais e melhores casas, mais e melhores hospitais para o povo. Como o futebol é o universo simbólico e metafórico o qual mais se identificam muitos dos brasileiros, é normal que o tenham usado para chamar atenção do governo e do mundo para o que, segundo eles, não funciona no país. Nesse sentido, a copa foi reveladora. Serviu para denunciar, por exemplo, essa forma escusa de se fazer negócios com o dinheiro público. Só nos estádios, o custo final foi 300% superior ao pressuposto inicialmente. As obras foram financiadas com dinheiro público através do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o qual confiou estas gigantescas obras às empresas privadas. Estas, calcularam friamente, e então deixaram atrasar os prazos de entrega, realizando uma extorsão sistemática. Sabiam que, ante as pressões da FIFA, quanto mais atrasassem a construção, maiores seriam os ganhos adicionais a receber. De maneira que os custos finais triplicaram. As manifestações denunciam estes superfaturamentos, feitos em detrimento dos precários serviços públicos de educação, saúde, transporte, etc. Estas mesmas reivindicações denunciam também as expulsões, ocorridas nas cidades sede, de milhares de famílias, desalojadas de seus lares para abrir espaço para a ampliação de aeroportos, rodovias e estádios. Estima-se que 250.000 pessoas foram vítimas destas desocupações. Outros protestam contra o processo de mercantilização do futebol que a FIFA favorece. Segundo os valores dominantes atuais – difundidos pela ideologia neoliberal-, tudo é mercadoria e o mercado é mais importante que o ser humano. Uns poucos jogadores talentosos são apresentados pelos grandes meios de comunicação como “modelos” de juventude, “ídolos” da população. Ganham milhões de euros, e seu êxito cria a ilusão de uma possível ascensão social por meio do esporte. Muitas reivindicações são dirigidas diretamente contra a FIFA, não só pelas condições que impõem para proteger os privilégios das marcas patrocinadoras do mundial (Coca Cola, McDonald’s, Budweiser, etc.) que são aceitas pelo governo, e também pelas regras que impedem, por exemplo, a venda ambulante nas proximidades dos estádios. Diversos movimentos têm por lema “Copa sem povo, tô na rua de novo”, e expressam cinco reivindicações (uma pra cada título mundial ganho pelo Brasil): moradia própria, transporte público, educação, justiça (fim da violência do Estado nas favelas e desmilitarização da polícia militar) e por último, uma sexta: que se permita a presença de vendedores informais nas imediações dos estádios. Os movimentos sociais que lideram as manifestações dividem-se em dois diferentes grupos. Uma fração radical, com o lema “Se não tiver direitos não vai ter copa”, que são os setores de maior violência, incluídos os Black Bloc com sua depredação extrema. O segundo grupo é organizado por meio de comitês populares da copa, e denunciam o “Mundial da FIFA” sem participar de mobilizações violentas. De qualquer forma, as manifestações atuais não parecem possuir a amplitude das de junho do ano passado. Os grupos radicais contribuíram pro esvaziamento dos atos, e não há uma direção orgânica do movimento. Resultado: segundo uma pesquisa recente, dois terços dos brasileiros são contra as manifestações durante a copa. E, sobretudo, desaprovam as formas violentas de protesto. Qual será o custo político de tudo isto para o governo de Dilma Roussef? As manifestações do ano passado constituíram um duro golpe na presidenta que, nas três primeiras semanas, perdeu mais de 25% de aprovação popular. Depois, a mandatária declarou escutava a “voz das ruas” e propôs uma reforma política no Congresso. Essa enérgica resposta permitiu a recuperação de parte da popularidade perdida. Desta vez, o desafio será nas urnas, porque as eleições presidenciais serão no próximo dia 5 de outubro. Dilma desponta como favorita. Porém, terá de enfrentar uma oposição agrupada em dois polos: o do centrista Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), cujo candidato será Aécio Neves; e, o muito mais temível, do polo social-democrata Partido Socialista Brasileiro (PSB), constituído pela aliança de Eduardo Campos (ex-ministro da Ciência e Tecnologia de Lula) e da ambientalista Marina Silva (ex-ministra do Meio Ambiente de Lula). Neste cenário, decisivo não só para o Brasil como para toda a América Latina, será o desenrolar da Copa do Mundo no Brasil.
 
Referências:
(2) Folha de São Paulo, São Paulo, 8 de abril de 2014.
(3) Desde a época de Lula, a base de la coalizão que governa o Brasil é formada fundamentalmente pelo PT e o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, centro-direita, além de outras pequenas forças como o Partido Progressista (PP) e o Partido Republicano de Ordem Social (PROS). (4) Leia-se Antônio David e Lincoln Secco, “Saberá o PT identificar e aproveitar a janela histórica?”, Viomundo, 26 de junio de 2013. http://www.viomundo.com.br/politica/david-e-secco-sabera-o-pt-identificar-e-aproveitar-a-janela-historica.html
 
 
Texto de Ignacio Ramonet
Tradução: Rennan Martins

sábado, 24 de maio de 2014

Enterro da Europa Connosco

25 de Maio
Participe na Cerimónia !
 
No próximo domingo, a política de confisco vai a votos. Uma política que não merece prova de vida continuada. Jaz morta & arrefecida segundo as leis da razão geral, embora se mantenha ligada à máquina da usura & da vilania. Assim sendo, para os defensores dos interesses electivos-colectivos, a pauta da austeridade soa a música fúnebre. De facto, esta UE é mais um cadáver adiado que procria. [1] Sendo o que é, o corpo presente será velado em milhares de urnas. Os que insistam em celebrar o Roubo do Século & a Ocupação do Exército da Finança têm uma bela ocasião para expressar os seus sentimentos à Famiglia do Arco, a quem os portugueses agradecem, entre outras benesses & bençãos, os Fundos Perdidos, o BPN, o BPP, as PPP, os Swap, os Submarinos, a Corrupção em Grande Escala, o Assalto Fiscal aos Indefesos, o Desemprego Massivo, a Emigração em Massa, a Miséria Máxima Garantida, o Desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social, da Escola Pública. Os programadores de ilusões & emoções apreciam eleitores de lágrima fácil, dados a amores de perdição. Domingo, demasiados farão fila para manifestar a sua fidelidade à troika de residência fixa & confessar a sua eterna saudade à troika da falsa partida.
Por outro lado, nós, tendencialmente mais dos que os do costume, denunciaremos as propostas indecentes da Frau Merkel & do Mister Obama, ela, Mordoma dos Donos da Europa, ele, Porteiro dos Senhores do Mundo. Os mandatários & os paus-mandados do Capitalismo Global afivelarão a máscara da vontade popular, uns com ar de velório (temem funestos desfechos), outros com expectativa nas maçãs do rosto (apostam na inércia rotativista). Olhai-os de frente. São eles. Em pose cívica-cínica. Porventura, amáveis. Se mediaticamente correcto, pesarosos. Milhões de empobrecidos & devorados pelos gangsters em três anos de ajuste-saque? É de lastimar. Ninguém ficaria indiferente. Os crocodilos comovem-se. Se for conveniente dar corda ao coração, imitam as vítimas. Partilham as dores da pátria & da mátria. Fingirão pertencer à comunidade. São predadores de boas famílias & de bons princípios. Alguns frequentaram universidades à bolonhesa. Alguns especializaram-se no mundo do crime. Ei-los. Habitualmente rodeados de câmaras, microfones, toma-notas, guarda-cabeças, guarda-costas. Ei-los. Os Trigémeos da Democracia Cristã na Gaveta, da Social-Democracia na Gaveta, do Socialismo na Gaveta. Da Democracia cada vez mais engavetada. Fixai-os de perfil. São eles. Os da Democracia Cristã da Sopa dos Pobres, os da Social-Democracia dos Barões, os do Socialismo da FaceOculta. 

Entretanto, nós, os do
 dia limpo, [2] pronunciar-nos-emos contra o embuste da Europa connosco, daremos a cara pela Civilização Humana, pelos Valores Constitucionais, pela Inalienável Soberania, pela Indesarmável Resistência, pela Efectiva Ruptura, pela Mudança de Projecto/Trajecto. Não faltaremos, pois, à chamada de domingo, 30 dias após o 25 de Abril, a três dias do 28 de Maio.

Participaremos, consequentemente, com a nossa pazada, no euro-enterro.
(1). Fernando Pessoa, Mensagem, Parceria António Maria Pereira, 1934. 
(2) Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, Moraes Editores, 1977. 
CÉSAR PRÍNCIPE
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Europa reocupada

A República Federal da Alemanha absorveu a República Democrática Alemã. Aumentou a massa corporal e muscular. A reincorporação não ocorreu por magia, não obstante a Conversão da Rússia constar dos apostolados. O milagre teve os seus agentes e artífices: na sombra, operou a inteligência germano-americana; à luz do dia, actuou o complexo mediático; e como seguro contra todos os riscos da blitzkrieg 89, a camarilha da Perestroika desguarneceu as muralhas do Kremlin. Até acreditou ou simulou acreditar na promessa de que a NATO jamais integraria estados e regiões da área de influência e segurança da URSS. O ataque-relâmpago do Novo Eixo mereceu tratamento de visita guiada. Gorbachev confessou (sem pingo de rubor) que, no Ocidente, à excepção dos USA, todos estavam contra a queda do muro e a reunificação, desde Thatcher a Andreotti, a Mitterrand: Todos vieram até mim, um após o outro, pedindo isso. Mitterrand era ferozmente contrário. Mais esperto do que os outros, dizia: “Amo a Alemanha de tal forma que prefiro ter duas” Só depois, quando tudo se precipitou, todos assinaram. [1] Os amigos ocidentais (ingleses, italianos, franceses, etc.) chegaram a implorar que o Exército Vermelho esmagasse o levantamento. Contudo, o Actor Principal da Glasnost , capitulacionista de salão e padecente da doença infantil do capitalismo, deu ouvidos ao interlocutor de facto. Genuflectiu como se uma superpotência real não tivesse argumentário. O valentaço Gorby foi o mesmo que, anos antes, noutra entrevista, declarou, visando a marioneta Ieltsin: Temos uma Rússia fraca e um presidente fraco. [2] Quanto à Europa NATO/UE, resmunga e amua mas não passa de pátio dianteiro dos USA, recomendável para acampamentos do Pentágono, estações e prisões da CIA, mobilizações predatórias, vendas de armas e pacotes de propaganda, jogos bolsistas e fundistas, colocação de apples, googles, cineprodutos, transgénicos, fármacos, heroína do Afeganistão e cocaína da Colômbia (demarcações da Esfera político-militar USA). O narcomercado é um dos super-negócios do planeta. Os USA são o guardião- dealer. Na definição dos interesses vitais e dispositivos da sua manutenção, não admira, pois, que a chamada Europa não tenha nem esteja autorizada a ter política de defesa nem política externa fora dos varais e canais dos USA, embora a sede da NATO e a sede da UE, irmãs gémeas, se encontrem na mesma cidade (Bruxelas), com moradas autónomas para fingir independência ou disfarçar que não são geridas desde Washington. Dominique Villepin, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo primeiro-ministro de França, desabafou (cito de memória), num momento de franqueza e finura de guilhotina: Não há NATO. Há generais americanos. A própria Alemanha está sob tutela do patrono atlântico: os USA mantêm em solo alemão cerca de 60 mil efectivos e 227 bases, algumas dotadas de bombas nucleares. As instalações norte-americanas funcionam ainda como parabólicas de espionagem, constituindo a nação-hospedeira um dos alvos. A Alemanha é um ocupante-ocupado, como Portugal foi um colonizador-colonizado. De resto, na linha de reactualização e reconfiguração do Eixo (também o Japão se acha ocupado pelos USA), que aí dispõem de 50 mil efectivos em 135 bases, algumas equipadas com cargas atómicas. A Alemanha e o Japão jazem sob o dicktat dos USA, que lhes distribui guiões e fixa taxas de empenhamento no tarefário geo-estratégico, particularmente no cerco à Rússia e à China. O Império norte-americano não levanta ferro. Nem sequer entreabre a cortina.
Muro na Palestina.
Muro da vergonha
Caiu em Berlim
Vergonha só lá
Muros há sem fim [3]

O mundo estava cortado e recortado por altos e grossos muros e continuou a levantar vedações de betão, arame farpado, cabos eléctricos e torres de metralhadoras, mas só um foi apodado de vergonhoso. Todavia, convém destapar outras barreiras, as credoras de aplauso, de compreensão, tolerância ou esquecimento da comunidade internacional, tão proficientemente facetada e discricionariamente representada pelos USA e pelos seus carros de guerra psicológica, as televisões, as rádios, os jornais. Eis uma lista de muros deixados em paz pelas chancelarias e pelos agitadores de direitos universais: USA-México, Índia-Bangladesh, Índia-Paquistão, Índia-Birmânia, Paquistão-Afeganistão, Marrocos-Sara Ocidental, Botsuana-Zimbábue, Coreia do Sul-Coreia do Norte, China-Coreia do Norte, Uzbequistão-Quirquistão, Irão-Paquistão, Arábia Saudita-Iraque, Israel-Cisjordânia, Israel-Líbano, Egipto-Gaza, Grécia-Turquia, Chipre (divisória greco-turca), Ceuta/Melilla (Espanha), Belfast (Irlanda do Norte), Bagdad (Iraque), La Molina (Peru), Rio de Janeiro (Brasil). Todos se encontram de pé e prometem durar e perdurar. Inadiável era a queda do Muro de Berlim, prenúncio aparatoso e ruidoso do desabamento da URSS e do bloco socialista. Festejável com música rock, tanques de cerveja, pichagens alucinogénias. Vinte anos depois, enquanto os redesenhadores de mapas e as trupes do Wall Show celebravam a efeméride, a população da ex-Alemanha Democrática sentia o ferrete da anexação ou reunificação. [4]

 

IV Reich em acção

Demolido o muro, riscada do planisfério a Alemanha socialista, a Alemanha capitalista e imperialista encetou o desarme das alfândegas continentais, acobertando-se sob as vestes da confraria europeia: instituiu a livre circulação de capitais; fixou taxas de câmbio irrevogáveis; fez entrar o marco em circulação com nome de euro, assim se posicionando como player nos mercados de divisas e condicionando as exportações, especialmente dos países do Sul/Leste; desestruturou as actividades concorrenciais (desmantelamento e deslocalização de indústrias, abate de frotas pesqueiras, subsídios de funeral para as agriculturas). De seguida, a Nova Alemanha, a que carrega 100 milhões de mortos (contabilidade do séc. XX) e uma vasta geografia de ruínas, acelerou a reocupação dos submetidos na II Grande Guerra. Só a Noruega resistiu. Acertaram o passo com o ex-ocupante: Áustria, Bélgica, Bulgária, Checoslováquia (República Checa e Eslováquia), Dinamarca, Estónia, França, Grécia, Hungria, Itália, Jugoslávia (Croácia/ Eslovénia/ Macedónia/ Sérvia/ as duas últimas à espera que o ex-ocupante aceda ao pedido de reocupação), Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Mónaco, Holanda, Polónia, República Checa, San Marino, Ucrânia (a caminho da reocupação). Paralelamente, o IV Reich foi ornando o cinturão de caça com uma série de troféus que no período do III Reich haviam demonstrado comportamento de bons alunos : Espanha, Finlândia, Portugal, Roménia. Há igualmente que inscrever a zona grega do Chipre e a República de Malta na Cartografia da Grande Guerra Financeira. Pelo meio, com a Alemanha Democrática reintegrada, dissolvida e recentrada, a Germânia liderou a desintegração da República Federativa da Jugoslávia, que tinha de levar uma ensinadela por se manter não-alinhada, soberana e socialista. O Curso de PatroNATO durou de 24/03/ a 11/06 de 1999, sem mandato das Nações Unidas, a pretexto de instantes razões humanitárias. O programa NATO School incluiu escombros generalizados e selectivos, doses de urânio empobrecido com certificado de garantia para centenas de milhares de anos, extensas manchas de sangue e lágrimas e a imposição de um estado fantoche e artificial (Kosovo), com uma super-base USA, governado com savoir-faire pelo mundo do crime (local e sem fronteiras).

Wehrmacht do Euro

O Euro é o Marco do Neo-Expansionismo. Na guerra económico-financeira, os Estados do Sul, previamente desarmados, entre a espada da moeda forte e a parede da economia fraca, tentaram o salto em frente, seduzidos pelo crédito de torneira aberta e pela carteira de fundos, contraindo a doença da dívida galopante e do défice excessivo, estimulada pelos credores, apostados em arrastar os esfomeados de barriga dilatada para uma situação de emergência. Sob a bota e a batota da usura, com governos-carpete que vendem a pataco as jóias da economia e tripudiam os princípios da soberania, o capitalismo euroglobal lançou os seus rapazes ou rapaces sobre os activos sociais (salários, reformas, pensões, receitas fiscais, reservas de ouro e divisas, serviços públicos) e os activos empresariais do Estado. A operação de saque amigo foi implacavelmente montada. Nem será preciso recorrer a teóricos de última geração da economia de guerra e do garrote financeiro. Bastará rebuscar fontes da mesma água, validadas pela constância dos factos e a didáctica dos séculos. Neste caso, fontes euro-americanas. Portadoras de credenciais. Insuspeitíssimas. Uma a jorrar da bocarra de um banqueiro, alemão e judeu, e outra da carranca de um fazendeiro, congressista e presidente com direito a efígie monetária e a inscrição In God We Trust/Deus Seja Louvado/Confiamos em Deus.

Eis a voz da banca:
Dai-me o controlo da moeda de um país e não me importará quem faz as leis.
[5]

Eis o porta-voz:
Há duas maneiras de submeter e escravizar uma nação: uma é pela espada e outra é pela dívida. A dívida é uma arma contra os povos. Os juros são as munições.
[6]

Guião falangista

De sublinhar que o projecto de domínio regional e intercontinental está a ser assessorado pela extrema-direita. Cada vez mais motivada com chavões anticomunistas, anti-semitas, racistas, xenófobos, homofóbicos, machistas. Está a levedar um microclima século XX, anos 30. O capitalismo volta a dar corda à delinquência falangista, a fim de ensaiar governos de mão dura para acentuar a espoliação e conter a resistência popular. Enraivecer e desnortear as massas, desviando-as dos referenciais democráticos e do sentido de classe, faz parte do caderno de encargos da besta negra. Os operacionais de trabalhos sujos da História aí estão nas ruas e os branqueadores movem-se pelos parlamentos, pelos governos, pelos meios de comunicação, pelas academias. É o caldo de cultura dos bárbaros. Que não estão às portas da Europa: estão dentro. A Ucrânia é o mais recente caso de tomada do poder pelo bandoleirismo nazifascista, redoutrinado, treinado, municiado e subvencionado (com especial zelo pela Alemanha e pelos USA). Em termos eleitorais e sociais, Holande e Valls, garçons de bureau do alto capital e catapultas da assunção aos céus de Nôtre Dame Le Pen, são o cartaz mais patético da França e a caricatura mais servil da social-democracia. Phillipe Pétain, marechal da desonra, primeiro-ministro e presidente da República (1940-1944), condenado à morte por traição e indultado por De Gaulle, sepultado na Île d`Yeu, sorrirá como só as caveiras sabem sorrir.
      
(1). La Repubblica, entrevista de Fiammetta Cucurnia, 09/11/2009, 20º aniversário da queda do muro.
(2). Jornal de Notícias, entrevista de César Príncipe, 17/06/1995, no 4º aniversário da dissolução da URSS.
(3) César Príncipe, Correio Vermelho, Seara de Vento, 2008.
(4) O dia em que se comemoram os 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim, uma sondagem conclui que os alemães de Leste consideram que a reunificação não foi consumada e que a esmagadora maioria sentia-se bem na antiga Alemanha Democrática. O estudo indica que 50 por cento dos cidadãos da antiga Alemanha Democrática lamentam as diferenças reais do nível de vida, lembrando que no Leste o desemprego é maior, os salários são mais baixos e o PIB é de apenas de um terço do registado no lado ocidental do país. Doze por cento dos inquiridos recordam com saudade os tempos da RDA e outros tantos defendem mesmo que o muro devia ser reconstruído. Somente um quinto dos alemães de Leste considera que a reunificação vai no bom sentido e muitos outros dizem que os irmãos do Ocidente os tratam com arrogância. [TSF , 09/11/2009)
(5) Mayer Amschel Rothschild (1744-1821), fundador da dinastia de banqueiros.
(6) John Adams (1735-1826), presidente dos USA.
        
     

Artigo de César Príncipe publicado em http://resistir.info/              

sábado, 26 de abril de 2014

O pesadelo Estado-unidense

O sonho americano – de que o trabalho árduo é recompensado com a oportunidade de prosperidade, sucesso e ascensão social – levou centenas de milhares de emigrantes a escolherem os EUA como destino. Muitos entraram pelo porto de Nova Iorque e foram recebidos pela Estátua da Liberdade, onde estão inscritos os versos de Emma Lazarus: «Venham a mim as multidões exaustas, pobres e confusas ansiosas pela liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade... Eu guio-os com a minha tocha
 
 
Hoje os EUA são um país com crescentes desigualdades económicas, alastramento de precariedade e exploração dos trabalhadores, constante erosão de direitos e benefícios sociais, e intensificação da subordinação do poder político às forças económicas. Cada um destas vertentes por si só seriam graves assaltos à democracia. A intensificação de todos eles em conjunto configura uma transformação qualitativa do carácter do regime, que vem sido prosseguido nas últimas décadas. Para tal muito contribuiu o processo de concentração de riqueza, de políticas ao serviço do grande capital, sobretudo a partir da década de 1970, incluindo a desregulamentação, uma política fiscal (nos equivalentes ao IRS e IRC) favorecendo os mais ricos, os ataques à contratação colectiva, o aumento do custo de vida e a perda de salários e benefícios sociais, tudo factores que empobreceram as classes económicas mais pobres e erodiu a chamada classe média, extremando a desigualdade de rendimentos e riqueza. Hoje, são os EUA o país das «multidões exaustas, pobres e confusas».
 
Estes processos não são fruto de decisões conjecturais dos recentes líderes políticos, nem são exclusivos dos EUA. Os leitores reconhecerão certamente a semelhança com processos em Portugal, quer os impostos pela troika estrangeira, quer os implementados pela troika nacional. Infelizmente, poucas lições tirámos da consequências nefastas destas políticas já exibidas nos EUA, que encetou estes processos há mais tempo. Estes processos são sim parte de uma resposta concertada do grande capital internacional impostas aos governos, incluindo o dos EUA, com vista a intensificar a acumulação de lucro e de, mais recentemente, capitalizar com a crise económica por ele mesmo criada.
 
A geração dos «baby boomers» (nascidos entre 1945-54) foi a última a ter melhores condições de vida que a precedente. Apesar dos casos atípicos de rápida ascensão económica, explorados como exemplos da suposta actualidade do sonho, na realidade o nível económico dos progenitores pesa fortemente sobre o nível de educação e rendimentos dos filhos. A mobilidade social nos EUA fica muito abaixo de países como a França, Alemanha, Canadá, Noruega ou Dinamarca (entre os países mais desenvolvidos, apenas o Reino Unido tem níveis semelhantes). Os ricos tendem a ser filhos de ricos. E o fosso entre ricos e pobres aprofunda-se, havendo crescente concentração de riqueza num número cada vez menor de pessoas, e vivendo os mais pobres (e a classe média) em situação de crescente pobreza e endividamento.
 
A desigualdade de rendimentos tem vindo a crescer nas últimas décadas, mas de 2011 para 2012 o 1% de rendimentos mais altos subiu 19.6%, enquanto o dos restantes 99% subiu apenas 1%; em 2012, o 1% da população com maiores rendimentos arrecadou 19.3% do total de rendimentos, um máximo na história do pós-guerra.1 Um presidente de conselho de administração (CEO) ganha, em média, 380 vezes mais que a média dos restantes trabalhadores. A desigualdade em termos de riqueza acumulada é ainda maior que a de rendimentos. O 1% mais rico possui 40% da riqueza, enquanto os 80% mais pobres apenas 7%.2
 
 
Em 2010, a fasquia oficial do índice de pobreza era US$22,314 para uma família de quatro pessoas, classificando mais de 46 milhões de estado-unidenses como pobres (15.1%); em 2007, este valor era de 12.5%. Quase metade destes (44.2%) tinha rendimento inferior a metade do limite de pobreza oficial. Como sucede frequentemente, os números oficiais de pobreza são uma subestimação, pois a fasquia é muito inferior ao nível equivalente à privação material. Se duplicarmos o valor limite oficial, por forma a obter uma definição que reflicta efectiva pobreza, em 2010 esta atingia 40% dos cerca de 318 milhões de habitantes dos EUA.3
 
A pobreza atinge severamente quem trabalha. Em 2012, 39% dos trabalhadores ganhava $15 à hora ou menos4. Muitos são os trabalhadores forçados a terem dois ou mais empregos, por vezes dois empregos a tempo inteiro, para subsistirem: 7 milhões de trabalhadores (5% da força de trabalho), em finais de 2011, números que terão entretanto certamente aumentado, e serão sempre uma subestimativa devido ao trabalho paralelo pago em numerário. Em 2012, 3.7 milhões de trabalhadores ganhavam o salário mínimo ($7.25/hora) ou menos, representando 3% dos trabalhadores, sobretudo jovens. Mas este valor de referência condiciona o salário de muitos mais trabalhadores. O SMN subiu para este valor em 2009. No final de Janeiro deste ano, o presidente Obama subiu o valor do SMN federal para $10/hora. Mas se o aumento tivesse acompanhado os ganhos de produtividade o salário mínimo seria hoje de $18.72/hora; se tivesse acompanhado o aumento de rendimento dos 1% mais ricos seria de $28.34/hora5. Por essa razão, uma das reivindicações dos trabalhadores é um SMN de $15/hora6.
 
A desigualdade aprofunda-se num contexto de aumento de produtividade. Desde 2000, enquanto a produtividade aumentou cerca de 23%, o salário do trabalhador médio aumentou apenas 0.5%, e a compensação média (salário e benefícios) apenas 4%. Enquanto até aos anos 1970 a produtividade e os salários cresceram aproximadamente a par e passo, desde 1973 a produtividade aumentou 80% enquanto os salários aumentaram apenas 11%, e o número de horas trabalhadas aumentou cerca de 9%. Uma família de classe média enfrenta crescentes dificuldades em manter o seu nível de vida, devido à subida de custos acima do valor da inflação e à ínfima subida dos salários. Os custos na saúde por pessoa duplicaram desde 1988 (para $8,500). Os custos de frequência no ensino superior subiram levando cerca de dois terços dos estudantes a recorrerem a empréstimos (45% há duas décadas) e a terminarem os cursos com dívidas na ordem dos $27,000. Metade dos recém-licenciados, com menos de 25 anos, estão desempregados ou em empregos que não exigem licenciatura.
 
Os níveis de desemprego subiram dramaticamente durante 2008-9, e apesar de ligeiras melhorias a partir de meados de 2011 a taxa de desemprego oficial situa-se de momento nos 7%, acima dos 4% no início do século. Os valores são maiores em alguns estados e grupos (12% entre os negros, 8.3% entre os hispânicos e 20% entre os jovens)7. Se considerarmos a taxa de subemprego, que inclui desempregados e quem tenha trabalho a tempo parcial e procure trabalho a tempo inteiro, este valor ascende aos 17.4% (Janeiro/2014, Gallup). E estes valores não incluem ainda os desempregados que já deixaram de activamente procurar emprego. À semelhança do que sucede em Portugal, encontrado novo emprego este implica uma quebra de salário, na ordem de 10%. A quase totalidade dos novos empregos criados, 96%, foram empregos a tempo parcial.
 
Este desfasamento entre os níveis de produtividade e acumulação de riqueza, por um lado, e mais horas de trabalho e perda de salário, por outro, corresponde a uma significativa intensificação da exploração dos trabalhadores, que em parte foi possível devido aos fortes ataques à contratação colectiva. Durante os anos 1950, cerca de um terço dos trabalhadores estavam sindicalizados. Em 2011, este valor era de apenas 12% (37% no sector público, e 7% no sector privado). Isto muito embora as vantagens da contratação colectiva sejam evidentes: os trabalhadores com contrato colectivo têm salário cerca de 23.3% mais elevado, probabilidade 18.3% superior de ter seguro de saúde, e 22.5% de ter pensão de reforma. Em 2011, apenas 17.8% dos trabalhadores estavam cobertos por contrato colectivo (face a 43% em 1978). Este declínio explica cerca de um terço da desigualdade salarial entre 1973-2007, para os homens trabalhadores, e um quinto entre mulheres.
Os estado-unidenses estão não só a acordar do son(h)o como a despertar para a luta. O movimento Occupy Wall Street em Nova Iorque, depois replicado em dezenas de cidades, embora sendo um movimento desestruturado e sem programa concreto, galvanizou muitas pessoas e colocou a questão da desigualdade económica e ganância capitalista na ordem do dia, condicionando o discurso político de Washington, D.C.
 
 
A luta ganha ascendente entre os trabalhadores, incluindo os trabalhadores portuários e dos aeroportos, os professores, os trabalhadores domésticos, os trabalhadores agrícolas, e os emigrantes. Tem surgido não só nos sectores sindicalizados, mas também, recentemente, de forma mais vigorosa entre os trabalhadores mais precarizados e de mais baixos salários. Exigem-se melhores salários, a subida do SMN para $15/hora, e o direito a sindicato e contrato colectivo. Neste grupo encontram-se os trabalhadores das cadeias de restauração rápida (fast-food), como a McDonalds e outras, que têm protagonizado uma luta intensa e prolongada em todo o país. Em Dezembro, estes trabalhadores coordenaram uma greve em 150 cidades. Contrariamente à visão estereotipada, o trabalhador típico destas cadeias não é adolescente. A idade média é de 29 anos, mais de 26% está a criar um filho, entre um terço e metade tem mais um emprego8, e 43% tem um rendimento duas vezes inferior ao limiar federal de pobreza. Estas companhias dão salários de pobreza aos seus trabalhadores, enquanto arrecadam milhares de milhões em lucros e, aproveitando uma estipulação fiscal, usam os prémios de eficiência dados aos executivos para pagar menos impostos. Entre 2011 e 2012, o CEO da YUM! Brands, que possuiu a Taco Bell, KFC, e Pizza Hut, recebeu $94 milhões limpos em prémio, resultando numa isenção fiscal para a companhia de $33 milhões, devida só a este prémio.9
Os trabalhadores da Walmart, cadeia de lojas de grande superfície, estão também há meses numa luta aguerrida. Em Novembro coordenaram uma greve em mais de 1500 lojas. Se esta empresa transnacional fosse um país estaria entre uma das 30 maiores economias dos mundo, com um PIB de $460 mil milhões, empregando 2.2 milhões de trabalhadores. Cerca de metade das suas acções pertencem a seis membros da família Walton, cuja riqueza ascende aos $150 mil milhões, mais que Bill Gates, Warren Buffet e Michael Blomberg juntos, ou mais que os 40% mais pobres dos EUA. As lutas foram fortemente reprimidas, resultando em mais de 100 prisões. Muitos destes trabalhadores vivem abaixo do limiar da pobreza e dependem de subsídios federais para comprar alimentos (food stamps).
 
Cerca de 14% das famílias, 47 milhões de pessoas, depende deste programa federal de apoio alimentar. Mas o Congresso discute cortes a este programa na ordem dos $5 mil milhões, enquanto em 2013 aprovou $526.8 mil milhões só para o Pentágono e $80 mil milhões para a guerra no Afeganistão. Não será este Congresso nem a Casa Branca a assegurar uma alteração do sistema. Se os trabalhadores dos EUA querem melhores salários e condições de vida e trabalho, se querem um futuro melhor, terão de abandonar a ilusão da ascensão individual, e optar pela organização e luta colectiva.
 
A ideologia do sonho americano alimentou, até há pouco, a aceitação de algum nível de desigualdade. «Se eu trabalhar, eu ainda poderei vir a ser rico.» O carácter individualista do sonho minou a consciência de classe dos trabalhadores, cegando-os à necessidade de se reunirem em organizações de classe. Mas as actuais lutas estão a alterar as perspectivas. Esta deve ser a de não apenas melhorar a condição da sua classe, mas abolir as classes e o sistema de exploração do homem pelo homem.
 
Notas:
(1) Ver http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/10/top-1-percent takehomerecordshareof2012usincome.html
(2) Ver http://workingamerica.org/
(3) Estes valores, e outros referidos neste artigo foram extraídos de Mishel, Lawrence, Josh Bivens, Elise Gould, and Heidi Shierholz. The State of Working America, 12th Edition. A forthcoming Economic Policy Institute book. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press. Este estudo está disponível em http://stateofworkingamerica.org/
(4) Relatório sobre emprego de 2013, http://thejobgap.org/national-report/
(5) Estimativas do Economic Policy Institute, http://www.epi.org
(6) http://15now.org
(7) Bureau of Labor Statistics, 10 de Janeiro, 2014, http://www.bls.gov/news.release/empsit.nr0.htm
(8) National Employment Law Project http://www.nelp.org
(9) http://www.ips-dc.org/reports/fast-food_ceos_rake_in_taxpayer-subsidized_pay

Artigo de André Levy publicado na revista O Militante.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Valls, como Blair, como Sócrates…

Em cima de queda, coice! Foi a Manuel Valls, o Sarkozy do PS francês, que François Hollande se lembrou de chamar para chefiar o governo, de que o próprio já fazia parte como ministro das polícias (Sarkozy bem sabia o jeito que dá essa pasta nestes anos de pós-11 de setembro!), depois da forte derrota eleitoral face à direita causada por uma deserção de uma parte muito importante do eleitorado popular que votara socialista em eleições anteriores.
 
Hollande e o PS francês caminham para o suicídio político: depois de dececionar todos quantos dele esperavam a proteção dos direitos sociais adquiridos e o confronto com o austeritarismo liberalão que Merkel e Sarkozy impuseram ao resto da Eurozona em favor da economia alemã e das troikas, os socialistas querem copiar a direita que derrotaram há menos de dois anos arranjando um homem que imita Sarkozy. Como Blair imitou Thatcher, como Renzi imita Berlusconi (e este, por mais pateticamente original que pareça, copiara já tiques caceteiros doutro socialista, Craxi), como Sócrates imitou o Cavaco dos dez anos à frente do governo em Portugal. Em todos os casos, plana um estranho raciocínio marketeiro de que com eles é que se ganham eleições – e que é isso que importa. O próprio Valls assumiu-o numa conversa informal com os jornalistas há meses: “O importante [para um dirigente político] é ganhar estatura, ser capaz de responder a uma procura de autoridade, de clareza, de visibilidade e de força!” (Libération, 1.4.2014) Eu sei que os socialistas gostam de falar de bem-estar, de desenvolvimento sustentado, de justiça social, mas afinal é isto que preocupa quem eles põem à frente dos governos.
 
O que têm em comum todos estes líderes da socialdemocracia europeia dos últimos 20 anos, os da treta do Fim da História? O buraco que cavaram dentro si próprios ao decretar o fim das ideologias (Valls acha que o adjetivo socialista “é datado, já não significa nada”, e por isso publicou em 2008 o livro Pour en finir avec le vieux socialisme... et être enfin de gauche!) é habitualmente coberto por uma ambição pessoal desmedida, que, curiosamente, é tida pelos seus apoiantes como uma garantia de determinação e empenho. Passaram pelos movimentos estudantis (umas vezes vindos da extrema-esquerda, outras, como Blair e Sócrates, da própria direita), dali foram diretamente para cargos partidários, deputados, assessores. Nos países do Sul, viraram maçons. Apostaram na comunicação. Seduzir jornalistas está-lhes no sangue. Quando não conseguem, movem cordelinhos para os reduzir a pó. Nunca vêm, isso não, do mundo do trabalho, ao contrário de muitos dos seus antecessores até aos anos 70, sobretudo na Europa do Norte. Os sindicatos associados aos socialistas (e que deram origem a estes partidos no séc. XIX), apesar de reformistas e moderados desde há um século, pesam-lhes. Fizeram de tudo para os minar. Só lhes parecem bons para, fazendo-os assinar um acordo qualquer, procurarem legitimar as suas traições eleitorais: prometeram defender/repor os direitos sociais, mas, com pena deles, não podem deixar de prosseguir as políticas de competitividade.
 
Estes homens são puros produtos do aburguesamento das sociedades europeias nos anos 1950-80, e, desligados do ramerrame do salário, não admira que não acreditem, como Valls, em “utopias do séc. XIX”. Parecem julgar que à sua volta tudo é classe média como eles, mas sabem bem que não é assim. Imaginam cada vez mais uma Europa da mesma forma como os americanos imaginam os EUA: a mobilidade social está ao alcance de todos! – e não aprenderam nada com as Ciências Sociais que, em geral, não estudaram ou lhes parecem tomadas por velhos marxistas ou utópicos ingénuos. Preferem o convívio e as lições aprendidas com grandes empresários que, na boca deles, são sempre modernizadores e criativos – sobretudo se lhes pagarem as campanhas e se colocarem as suas televisões e jornais ao serviço deles (enquanto convier aos empresários, claro). Admitem publicamente que não partilham quase nada da cultura histórica da esquerda: as revoluções – francesa, russa, portuguesa – parecem-lhes totalitárias, eram jovens de mais para terem feito alguma coisa em 1968 (ou em 1974), e quando olham para a guerra do Vietname, Che Guevara e a descolonização só vêem o que chamam geopolítica e desprezam a emoção emancipadora que atravessou o mundo. Podem hoje papaguear umas coisas sobre Mandela, às vezes Gandhi, mas sabem tanto deles quanto sabem da vida de uma operária têxtil que perde o emprego. Todos aqueles que à sua esquerda querem discutir o direito ao trabalho digno, ao descanso, à justa remuneração, ou a propriedade e a gestão democrática dos serviços públicos, parecem-lhes “esquerda conservadora”, como dizia Sócrates. Os que querem discutir os direitos dos migrantes, o racismo, o respeito pela diferença, a discriminação positiva daqueles grupos que o preconceito esmagou durante séculos, parecem-lhes “esquerda compassiva”, “misericordiosa”, como lhes chamou, com infinito desprezo, Valls, o ministro do Interior que expulsou mais imigrantes que Sarkozy e que reabriu a caça ao cigano. Sabendo bem que é assim que se conquista popularidade numa Europa cada vez mais racista.
 
Reconheço, Valls tem razão: chamarem-se socialistas já não significa nada. Nada.
 
Texto de Manuel Loff no Público
 

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

«Wall Street é o equivalente moderno da mafia»

Falando sobre o seu filme mais recente, Scorcese explica a equivalência que identifica entre os métodos do capital financeiro e os da mafia: ambos acumulam riqueza sem olhar a meios. Mas enquanto os gangsters são socialmente proscritos, os banqueiros são vistos como exemplo do estofo que é necessário “para vencer”.
Nouvel Observateur – Então, Wall Street é o equivalente moderno da mafia?
Martin Scorsese – Exactamente. O herói de «O lobo de Wall Street», Jordan Belfort, é irmão de Henry Hill, o personagem de «Um dos nossos» [Goodfellas]. Este último chegava a ter tudo, dinheiro, mulheres, cocaína, enquanto ia ascendendo na hierarquia da mafia. Em Wall Street muda a decoração e, aparentemente, a moralidade é mais refinada, mas é a mesma coisa. Socialmente não é aceitável ser um gangster. Pelo contrário, é correcto fazer dinheiro graças ao sistema, sejam quais forem os meios.
 
Onde está a linha divisória?
Interrogo-me sobre isso. Quando era pequeno, observava as pessoas do meu bairro italiano: era uma coisa cheia de contrastes. Estavam ali os que tinham uma aura de responsabilidade e estavam os que a não tinham. Eu sabia que entre os excluídos havia pessoas boas, mas que eram tratadas como rufiões. Era tudo uma questão de imagem.
 
Na sua opinião, o que é que fez cristalizar esta visão da sociedade?
Na minha adolescência vi a «Ópera dos três vinténs” que me abalou. A obra foi levada à cena em Greenwich Village e nunca me esqueceu o final. Quando vêm prender Mackie o Navalha, pede a palavra. Conta o que fez e é exactamente o mesmo que Chaplin em «O senhor Verdoux»: volta as suas próprias acusações contra os seus acusadores: «O que é roubar um banco? Fundar um banco não é a mesma coisa?», pergunta. Para ele as duas morais são iguais.
 
O seu herói comporta-se como um lobo, como diz no título do filme…
Sim, o mundo da finança tornou-se mais brutal e lá reina a violência. Entre a «Ópera dos três vinténs» e «O lobo de Wall Street» há uma distância galáctica, mas para pior. Tentei mostrar esse extraordinário desbocamento. Quando mais nos afundamos neste sistema, mais aumenta o perigo à nossa volta.
 
Normalmente, os seus personagens vivem uma ascensão, um paraíso momentâneo, uma queda e depois uma redenção. Mas aqui não há redenção. Já não acredita nela?
Tenho muito medo que não haja redenção possível para os lobos. Proceder a vendas, fechar compras, ganhar, que prazer! Isso não se pode esquecer nem apagar. Portanto, não redenção possível.
 
Falta-lhe então a sua fé católica?
Desespera-me o que vejo à minha volta.
 
Onde está o Scorcese do «Touro Selvagem»?
Desapareceu com os valores da época, que já mudaram. Hoje em dia, tudo o que se ensina aos jovens é que há que tornar-se rico.
 
É pessimista?
Sou um pessimista… com esperança.
 
Então converteu-se em Woody Allen? Ah, ah, ah! (ri ás gargalhadas) … Não uma questão de conversão, há que continuar a lutar. Sinto-me sempre decepcionado, mas volto a começar do zero. Volto a amiúde um homem que considero um velho amigo, Albert Camus. Acabo de reler «A peste», e é uma filosofia que me agrada: estamos no absurdo, mas continuamos a acreditar no homem.
 
Teriam que o excomungar.
É o quer me diz por vezes o meu director espiritual, o padre Francis Princípe. Tem 86 anos e levava-me pela mão quando ei tinha 11 anos. Celebrámos há umas semanas os 60 anos da sua ordenação. Fez-me ler Graham Greene e Camus! Foi ele quem me fez pensar que talvez não houvesse o pecado original…
 
Heresia! Para a fogueira!
(ri às gargalhadas) … Sou um católico falhado, isso é verdade, o que me permite fazer filmes, trabalhar na indústria do espectáculo. Caso contrário não faria concessão alguma. Rezaria constantemente. Fazer filmes significa ter uma ligação com o mundo exterior, confrontar-se com ele.
 
O senhor faz um filme de dois em dois anos. Porquê esse ritmo?
Tenho consciência de que o tempo passa: Não tenho muito à minha frente. E há ainda tantos filmes para fazer! Tenho pânico. Desbaratei um período da minha vida.
 
Nos anos 70, quando estava agarrado à cocaína…
Sim. Eu era como o Leonardo DiCaprio em «O lobo de Wall Street»: queria ir até ao limite. Estive a ponto de morrer. O dia em pude olhar para mim-próprio, vi um homem que era uma fraude. Confesso que há certos elementos na personagem de Leonardo DiCaprio que são autobiográficos. Vivi uma temporada chalado. Acabara de rodar The Last Waltz, que tinha sido o tope da loucura e tinha começado a trabalhar no «Touro Selvagem». Tudo mudou. Eu não sou como o Mackie o Navalha, que não fabrica nada, não produz nada. Eu acredito! E isso pressupõe uma diferença do caraças!
 
O cinema salvou-o?
Precisamente. Eu queria fazer coisas, contar histórias, dirigir filmes. Estava raivoso. Com a coca era impossível. Era um beco sem saída.´
 
O que é que o guia no seu amor pelo cinema?
O coração. Quando faço um filme quero encontrar o coração que bate na história que conto. ´Foi uma coisa que tive de perder em «A cor do dinheiro»: não lamento ter feito este filme, mas realizei-o como uma forma de terapia. Fazia-me falta voltar a levantar-me. Paul Newman ofereceu-me essa oportunidade como um verdadeiro cavalheiro. Mas o meu objectivo último, no fundo, era «A última tentação de Cristo»: quando rodei este filme soube que tinha sobrevivido. Peguei no exemplo de John Cassavetes, de quem admiro o seu entusiasmo. Adoro «Faces»…
 
Filmou uma boa parte de «O lobo de Wall Street» em digital…
Sim…Tinha feito tentativas com «Hugo», mas já não é possível fazê-lo de outra maneira. Prefiro a película química, mas é uma coisa acabada, é uma batalha perdida. O que sinto falta é do negativo. Há qualquer coisa na qualidade de um rosto no celulóide que não se encontra no digital. O grão, a respiração, não sei…O digital muda totalmente a nossa forma de ver.
 
Como?
Quando vejo uma película antiga, «Casablanca», por exemplo, restaurada digitalmente, percebo coisas que antes não via. Afecta todo a película. Há obras que não posso voltar a ver em celulóide, são demasiado imperfeitas. O digital dá-nos uma precisão cirúrgica. Não há lugar para a imprecisão, a dúvida. Já não se suporta. De repente, pode ser que mude toda a história do cinema. Pelo menos a visão que temos dela. Talvez nós atribuamos a qualidade da película de nitrato de prata da época do cinema mudo.
 
De repente também se redescobrem certos filmes.
Sim. Na minha adolescência vi pela primeira vez o «Cidadão Kane» e o «Terceiro Homem», no écran televisivo. Quando voltei a vê-los no grande écran fiquei desanimado. Volto a vê-las no digital e fico desalentado. Até num tablet são geniais! A alma destes filmes sobreviveu, seja qual for o suporte.
 
O que é que orienta as suas escolhas na hora de rodar?
Os personagens. Não a história. Fascina-me o comportamento dos personagens. Hoje em dia vivemos na ditadura do «storytelling»: faz falta que haja peripécias, aventuras, sucessos. Quando Fellini fazia «La dolce vita» não contava uma história de A a Z: deixava avançar os personagens em situações que não eram necessárias, seguia-os, observava-os e o filme construía-se assim. Os actos dos personagens davam-lhes profundidade, uma existência de verdade. Com Leonardo DiCaprio estamos completamente de acordo nisto. Perguntam-me amiúde por que razão trabalho com ele: já são cinco as vezes que colaborámos. E eu respondo: por que não? Partilhamos a mesma ambição. Revelar…
 
E é?
Qualquer coisa da natureza humana. Não há outra coisa que interesse. A arte é isso., nada mais do que isso!
 
http://www.lahaine.org/index.php?p=74654
 
Tradução para português ODiario.info