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sábado, 12 de outubro de 2019

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Nos 27 anos do massacre do Carandirú



Não esqueceremos. 27 anos do massacre do Carandirú.

Na imagem, um detento segurando a Declaração Universal dos Direitos Humanos, através das grades de uma cela da casa, clamando para que a força policial não invadisse o presídio, em 2 de outubro de 1992.

No fim daquela tarde, após a ação policial dentro do presidio, 111 presos foram mortos. 80% dos presos do Pavilhão 9 eram réus primários ou aguardavam julgamento. O maior número de assassinatos dentro de um presídio. O maior número da história.

Na época, a polícia informou que 8 presos foram mortos. O número oficial foi de 111 presos mortos. Outros 130 detentos foram feridos. Nenhum policial foi morto.

Até hoje ninguém realmente foi responsabilizado. Essa foi uma das mais graves violações de direitos humanos do mundo praticadas contra pessoas sob custódia do Estado.

Fonte: Mídia Ninja

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Chile, 11 de Setembro de 1973



Santiago, Itália (trailer oficial)
Novo filme do aclamado diretor italiano Nanni Moretti, SANTIAGO, ITÁLIA, destaca o papel da embaixada italiana durante o golpe militar que derrubou o presidente Allende e instituiu uma violenta ditadura no Chile. Muitos opositores buscaram abrigo no local e conseguiram com isso asilo na Itália. O filme traz inúmeras cenas de arquivo e entrevistas de diversos dos personagens desta história, de todos os lados.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Porto Rico, um povo e um furacão

Com índices de pobreza que roçam os 50 por cento, Porto Rico é hoje como Cuba era antes da Revolução: um paraíso para os gangsters e um inferno para o povo. A causa é, antes de mais, a dominação colonial dos EUA e, no passado recente, a brutal desumanidade com que ignoraram as consequências devastadoras dos furacões de 2017. Se o gigantesco levantamento popular de agora tem origem imediata no repúdio pelo comportamento do governador colonial, as suas causas profundas são muito mais amplas.

(Photo by José Fuentes)

Porto Rico atravessa um momento histórico: pela primeira vez, amanhã, um governador da colónia demitir-se-á, inaugurando uma crise institucional que compromete a posição imperial dos EUA e ameaça resvalar para uma situação pré-revolucionária.

À superfície, o gatilho visível que despoletou o pedido de demissão de Rosselló foi o escândalo desatado pela divulgação de mensagens de texto em que o bonifrate de Trump revela a sua natureza fascista, machista e violentamente homofóbica. Ao longo de mais de 900 páginas de SMS, o governador escarnece dos seus compatriotas mortos pelo furacão Maria, refere-se ao sindicato de professores como uma organização terrorista, deseja a morte a líderes sindicais e refere-se às mulheres e à comunidade LGBT nos termos mais bárbaros e indecentes. Já as razões que levaram 1/5 da população para as ruas de San Juan, nas maiores manifestações da história da ilha, são feridas muito mais profundas.

A presente crise institucional ilustra a degradação do sistema político colonial: a constituição prevê que, num cenário de demissão do governador seja o secretário de Estado a substituí-lo, mas Luis Rivera Marín, que também surge nos chamados «Rickyleaks», também já se demitiu. Os que se seguem enfrentam também acusações de corrupção.

A corrupção, tradicionalmente explícita, dos governantes de Porto Rico é parte indissipável do funcionamento da ilha como um «território não incorporado dos EUA», ou seja, uma colónia à moda antiga. O estatuto colonial ficou patente, como nunca, na sequência dos furacões que, em 2017, devastaram a ilha: a agência dos EUA para as catástrofes ambientais fez vista grossa para a tragédia, abandonando dezenas de milhares de pessoas à sua sorte e às epidemias de doenças. Inicialmente Rosselló admitiu 64 mortos. Soube-se mais tarde que o número real ascendia a 6000.

Os EUA abandonariam a sua colónia, que ficou completamente às escuras durante longos 11 meses. Mas Obama não se ficou por aí: apenas dois meses após o furacão, ordenou ao seu governador a aplicação da PROMESA, um programa neoliberal de choque económico, gerido directamente pelos especuladores de Wall Street, que levou ao encerramento de centenas de escolas, privatização de serviços, despedimento de funcionários públicos e cortes salariais generalizados. Para milhões de trabalhadores ficou claro que a prioridade do governo porto-riquenho era o pagamento da impagável dívida pública de 70 mil milhões de dólares. Com índices de pobreza que roçam os 50 por cento, Porto Rico é hoje como Cuba era antes da Revolução: um paraíso para os gangsters e um inferno para o povo.

Este caldo de descontentamento, que vinha há anos levantando fervura, transbordou finalmente. Durante dez dias, manifestações de massas em que participou um quinto da população, cercaram La Fortaleza, o palácio do governador. Mas foi a greve geral, do passado dia 22, que obrigou o governador a demitir-se dois dias depois.

Dificilmente poderá a ordem colonial manter-se da mesma forma, mas os donos da ilha estão já a estudar formas de se aproveitarem do vazio programático, do mistifório ideológico e do carácter espontâneo de que se reveste o movimento popular de massas para manter, com outras roupagens, a sua dominação. Exemplo destes esforços é a moratória de 120 dias agora concedida por Washington ao pagamento da dívida porto-riquenha, uma caridade que, vá se lá saber porquê, não ocorreu aos EUA quando a ilha se debatia com furacões, mas que dá muito jeito quando o verdadeiro furacão é um povo levantado.

Artigo de António Santos publicado no “Avante!” de 01.08.2019

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A Nova Guerra Fria e a Venezuela

O que se está a passar na Venezuela é uma tragédia anunciada, e vai provavelmente causar a morte de muita gente inocente. A Venezuela está à beira de uma intervenção militar estrangeira e o banho de sangue que dela resultará pode assumir proporções dramáticas. Quem o diz é o mais conhecido líder da oposição a Nicolas Maduro, Henrique Capriles, ao afirmar que o Presidente-fantoche Juan Guaidó está a fazer dos venezuelanos "carne para canhão". Ele sabe do que está a falar. Sabe, por exemplo, que Hugo Chávez levou muito a sério o destino da experiência socialista democrática de Salvador Allende no Chile. E que, entre outras medidas, armou a população civil, criando as milícias, que obviamente podem ser desarmadas, mas que muito provavelmente tal não ocorrerá sem alguma resistência. Sabe também que, apesar do imenso sofrimento a que o país está a ser submetido pela mistura tóxica de erros políticos internos e pressão externa, nomeadamente por via de um embargo que a ONU considera humanitariamente condenável, continua entranhado no povo venezuelano um sentimento de orgulho nacionalista que rejeita com veemência qualquer intervenção estrangeira.

 Perante a dimensão do risco de destruição de vidas inocentes, todos os democratas venezuelanos opositores do governo bolivariano fazem algumas perguntas para as quais só muito penosamente vão tendo alguma resposta. Por que é que os EUA, acolitados por alguns países europeus, embarcam numa posição agressiva e maximalista que inutiliza à partida qualquer solução negociada? Por que é que se fazem ultimatos típicos dos tempos imperiais dos quais, aliás, Portugal tem uma experiência amarga? Por que foi recusada a proposta de intermediação feita pelo México e o Uruguai, que tem como ponto de partida a recusa da guerra civil? Porque um jovem desconhecido do povo venezuelano até há algumas semanas, membro de um pequeno partido de extrema-direita, Voluntad Popular, directamente envolvido na violência de rua ocorrida em anos anteriores, se autoproclama Presidente da República depois de receber um telefonema do vice-presidente dos EUA, e vários países se dispõem a reconhecê-lo como Presidente legítimo do país?

As respostas virão com o tempo, mas o que vai sendo conhecido é suficiente para indicar por onde surgirão as respostas. Começa a saber-se que, apesar de pouco conhecido no país, Juan Guaidó e o seu partido de extrema-direita, que tem defendido abertamente uma intervenção militar contra o governo, são há muito os favoritos de Washington para implementar na Venezuela a infame política de "regime change". A isto se liga a história das intervenções dos EUA no continente, uma arma de destruição maciça da democracia sempre que esta significou a defesa da soberania nacional e questionou o acesso livre das empresas norte-americanas aos recursos naturais do país. Não é difícil concluir que não está em causa a defesa da democracia venezuelana. O que está em causa é o petróleo da Venezuela.

A Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do mundo (20% das reservas mundiais; os EUA têm 2%). O acesso ao petróleo do Médio Oriente determinou o pacto de sangue com o país mais ditatorial da região, a Arábia Saudita, e a destruição do Iraque, da Síria, da Líbia, no Norte de África; a próxima vítima pode bem ser o Irão. Acresce que o petróleo do Médio Oriente está mais próximo da China do que dos EUA. Enquanto o petróleo da Venezuela está à porta de casa. O modo de aceder aos recursos varia de país para país, mas o objectivo estratégico tem sido sempre o mesmo. No Chile, envolveu uma ditadura sangrenta. Mais recentemente, no Brasil, o acesso aos imensos recursos minerais, à Amazónia e ao pré-sal envolveu a transformação de um outro favorito de Washington, Sérgio Moro, de ignorado juiz de primeira instância em notoriedade nacional e internacional, mediante o acesso privilegiado a dados que lhe permitissem ser o justiceiro da esquerda brasileira e abrir caminho para eleição de um confesso apologista da ditadura e da tortura que se dispusesse a vender as riquezas do país ao desbarato e formasse um governo de que o favorito pró-norte-americano do futuro do Brasil fizesse parte.

Mas a perplexidade de muitos democratas venezuelanos diz especialmente respeito à Europa, até porque no passado a Europa esteve activa em negociações entre o governo e as oposições. Sabiam que muitas dessas negociações fracassaram por pressão dos EUA. Daí a pergunta: também tu, Europa? Estão conscientes de que, se a Europa estivesse genuinamente preocupada com a democracia, há muito teria cortado relações diplomáticas com a Arábia Saudita. E que, se a Europa estivesse preocupada com a morte em massa de civis inocentes, há muito que teria deixado de vender à Arábia Saudita as armas com que este país está a levar a cabo o genocídio do Iémen. Mas talvez esperassem que as responsabilidades históricas da Europa perante as suas antigas colónias justificassem alguma contenção. Porquê este alinhamento total com uma política que mede o seu êxito pelo nível de destruição de países e vidas?

A pouco e pouco se tornará claro que a razão deste alinhamento reside na nova guerra fria que entretanto estalou entre os EUA e a China, uma guerra fria que tem no continente latino-americano um dos seus centros e que, tal como a anterior, não pode ser travada directamente entre as potências rivais, neste caso, um império declinante e um império ascendente. Tem que ser travada por via de aliados, sejam eles num caso os governos de direita da América Latina e os governos europeus, e, noutro caso, a Rússia. Nenhum império é bom para os países que não têm poder para beneficiar por inteiro da rivalidade. Quando muito, procuram obter vantagens do alinhamento que lhes está mais próximo. E o alinhamento tem de ser total para ser eficaz. Isto é, é preciso sacrificar os anéis para não se irem os dedos. Isto é tão verdade do Canadá como dos países europeus.

Tenho-me reconhecido bem representado pelo Governo do meu país no poder desde 2016. No entanto, a legitimidade concedida a um Presidente-fantoche e a uma estratégia que muito provavelmente terminará em banho de sangue faz-me sentir vergonha do meu Governo. Só espero que a vasta comunidade de portugueses na Venezuela não venha a sofrer com tamanha imprudência diplomática, para não usar um outro termo mais veemente e verdadeiro da política internacional deste Governo neste caso.
 
Artigo de

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Entender a nova ofensiva contra a Venezuela


A investidura de Nicolas Maduro, em 10 de janeiro, provoca turbulências políticas e mediáticas. Eleito em 20 de maio de 2018, o presidente da Venezuela enfrenta uma operação planeada e concertada pelos Estados Unidos e seus aliados. Tomando como pretexto inicial as condições eleitorais que permitiram a vitória de Maduro, um punhado de governos, repintado para a ocasião em "comunidade internacional", através das transnacionais da comunicação, decidiu aumentar a pressão sobre a Venezuela Bolivariana. 

Como se tornou hábito no caso da Venezuela, a maioria da grande comunicação envolve-se com prazer nas falsas notícias e esquece o próprio significado da ética jornalística. 

É conveniente para o leitor escrupuloso e desejoso de separar a verdade do falso expor os fatos e voltar às condições da eleição de Maduro, analisando a estratégia de Washington para punir um povo julgado, desde há 20 anos, demasiado rebelde e incómodo. 

Os pretextos falaciosos para uma nova ofensiva política 

Nesse novo cenário de desestabilização da Venezuela, as principais justificações invocadas pelos governos que se opõem a Caracas andam à volta das condições da eleição de Nicolas Maduro em maio passado. 

Para entender esses pretextos falaciosos, precisamos voltar um pouco atrás. Em maio de 2016, alguns meses após a vitória da oposição nas eleições legislativas, iniciou-se um processo de diálogo entre o Chavismo e seus opositores na República Dominicana. Uma série de 150 reuniões, lideradas pelo ex-primeiro-ministro espanhol José Luis Rodriguez Zapatero, o ex-presidente da República Dominicana Leonel Fernandez e o ex-presidente do Panamá, Martin Torrijos, resultou em janeiro de 2018, na elaboração de um acordo sobre a convocação de uma eleição presidencial antecipada e suas garantias eleitorais. 

Como ressaltou Jorge Rodriguez, chefe da comissão de diálogo do governo: "Tudo estava pronto [para a assinatura do acordo] até a mesa onde devíamos fazer nossas declarações oficiais. À tarde, Julio Borges, ex-presidente de direita da Assembleia Nacional, recebeu um telefonema da Colômbia do ex-secretário de Estado norte-americano Rex Tillerson (...). A oposição então anunciou-nos que não assinaria o acordo. De volta a Caracas, José Luis Rodríguez Zapatero enviou uma carta à oposição perguntando-lhe qual era a sua alternativa para se recusar a participar numa eleição que apresentava as garantias sobre as quais ela mesma tinha trabalhado.” [1]

A oposição venezuelana dividiu-se sobre a estratégia a adotar. Enquanto a ala mais radical decidia não participar, parte da oposição que não desistiu de recuperar o poder através do caminho democrático apresentou um candidato, Henri Falcon. Dois outros candidatos participariam nesta eleição [2] . Por conseguinte, é simplesmente falso afirmar que a oposição boicotou este voto ou que Nicolas Maduro se apresentou sozinho [3] . Esta é uma narrativa com intenções políticas não democráticas. 

Um sistema eleitoral transparente e democrático 

Uma das ladainhas de Washington e dos seus satélites da América Latina ou europeus é dizer que as eleições na Venezuela não estão alinhadas com os padrões internacionais. O que é obviamente falso, mas necessário neste processo político-mediático que visa não reconhecer a legalidade da eleição de 20 de maio de 2018 e a legitimidade do seu resultado. 

Para ver a hipocrisia daqueles governos sobre este conflito, vamos deter-nos por um momento sobre as condições eleitorais oferecidas ao povo venezuelano desde a aprovação por referendo da Constituição Bolivariana, em 15 de dezembro de 1999. O leitor pode facilmente ter uma ideia da transparência das eleições na Venezuela, comparando esses mecanismos eleitorais com os postos em prática no seu próprio país. 

Na Venezuela, para evitar fraudes, as eleições não são organizadas pelo executivo através do Ministério do Interior. A Constituição de 1999, que reconhece a existência de cinco poderes independentes – o executivo, o legislativo, o judiciário, o moral e o poder eleitoral – deixa a este a tarefa de organizar os processos eleitorais, de acordo com a lei orgânica dos processos eleitorais. 

Este quadro legal, adotado em 2009, não foi modificado desde então [4] . Em particular, permitiu a eleição de múltiplos representantes da oposição para poderes públicos. Nenhum deles duvidou do sucesso do voto que conquistou e a própria oposição nunca questionou a estrutura legal do processo eleitoral. O que ela poderia no entanto ter feito por meio de um referendo de iniciativa cidadã, previsto para revogar por leis o artigo 74 da Constituição. Sempre se limitou a denunciar os resultados das eleições quando perdeu, ou preventivamente quando sabia que ia perder. 

Relativamente ao voto dos cidadãos [5] , a Venezuela utiliza um sistema eletrónico e manual duplo. Quando alguém entra no gabinete de voto, identifica-se aos assessores com a sua cartão de identidade e ativa a máquina para votar por meio de um reconhecimento biométrico. Portanto, é impossível votar duas vezes. Depois de escolher o candidato de sua escolha, a urna eletrónica emite um bilhete com o nome do candidato, que o eleitor coloca num envelope e deposita numa urna. Finalmente, depois de assinar o registo eleitoral, mergulha o dedo mindinho em tinta indelével para garantir que não repetirá seu voto. 

Nos dias que antecedem a eleição, o Centro Nacional Eleitoral (CNE), órgão que rege o poder eleitoral, convoca todos os partidos políticos participantes nas eleições para uma série de 14 auditorias prévias. Assim são postos à prova, listas de eleitores, o software usado para coletar dados eleitorais, máquinas de votação e seu método de montagem, o sistema biométrico para o reconhecimento do eleitor, tinta indelével, rede de transmissão de dados eleitorais e sistema de totalização de dados [6] . Observadores de cada partido político participam nestas várias auditorias que antecedem o voto dos cidadãos. 

Cada passo deve ser aprovado previamente por todos os participantes para garantir a maior transparência da eleição. E, de fato, eles sempre foram aceites até agora. Acrescente-se que todos os partidos políticos têm o direito de enviar apoiantes como assessores, bem como envolver observadores nacionais e internacionais de sua escolha na monitorização das sessões eleitorais. 

Na noite dos resultados, a CNE procede a uma nova auditoria perante responsáveis dos partidos, onde 54,4% (pelo menos, de acordo com a lei) das assembleias de voto serão sorteadas, em que o resultado eletrónico será verificado. Trata-se então de comparar os resultados obtidos na urna com os resultados eletrónicos. Nunca foi detetado um erro durante os múltiplos processos eleitorais. 

Estas garantias para proteger o resultado levaram o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter a definir o sistema eleitoral venezuelano como "o melhor do mundo" [7] . Foram os mesmos procedimentos que garantiram a transparência de todas as eleições na Venezuela, seja, por exemplo, para as eleições parlamentares de 5 de dezembro de 2015 (vencidas pela oposição) ou para as eleições presidenciais de 20 de maio de 2018 (vencidas pelo Chavismo). 

Como se pode ver, a Venezuela tem mais garantias eleitorais do que muitos países ocidentais, para não falar dos países do grupo de Lima. A transparência da eleição de Nicolas Maduro foi, além disso, validada por mais de 2 000 observadores internacionais da Comunidade do Caribe (Caricom), da União Africana e do Conselho de Peritos Eleitorais Latino-Americanos (Ceela). 

Perante este sistema, entendemos por que uma parte da oposição se recusou a concorrer a uma eleição que teria perdido. Aceitar participar em eleições significa participar nas auditorias e validar a transparência do sistema eleitoral venezuelano. Essa recusa em participar do processo democrático preparou o caminho para a tentativa desestabilizadora que vemos hoje. 

Na noite da eleição presidencial 

Para além das garantias eleitorais, os países que questionam a legitimidade do presidente venezuelano tentam criticar os resultados da eleição presidencial. Mais uma vez, este é apenas um pretexto para legitimar a desestabilização da Venezuela. Vamo-nos deter por um momento nestes resultados. 

A eleição presidencial na Venezuela é uma eleição por sufrágio universal direto. O presidente é eleito não conforme acordos parlamentares ou pela escolha de "grandes eleitores", mas diretamente pelo povo. 

Em 20 de maio de 2018, 9 389 056 eleitores votaram nas urnas, ou 46.07% dos cidadãos registados nas listas eleitorais. A alta taxa de abstenção ainda é usada hoje por oponentes da Revolução Bolivariana para desqualificar a vitória de Nicolas Maduro. É claro que nenhum desses críticos mencionará as dezenas de penalidades financeiras e retaliações à economia do país desde 2014 [8] . Uma perseguição que desencorajou muitos venezuelanos e aumentou a sua desconfiança numa solução eleitoral para acabar com a crise. Além disso, o pedido de boicote das urnas por vários partidos da oposição também teve consequências sobre a taxa de participação. 

Apesar disso, 30,45% dos eleitores registados votaram em Nicolas Maduro. Este valor é superior ao do presidente chileno Sebastián Piñera (26,5%), do presidente argentino Mauricio Macri (26,8%) e do presidente Donald Trump (27,20%). Sem mencionar as percentagens obtidas na primeira volta pelo presidente colombiano (21%) ou pelo presidente Emmanuel Macron (18,19%). Obviamente, ninguém contesta a legitimidade de suas eleições apesar da baixa proporção de eleitores que os escolheram. 

Uma estratégia coordenada e planificada a partir de Washington 

Após a eleição de Nicolas Maduro, os Estados Unidos fortaleceram a coligação contra a Venezuela na região. Em 27 de junho de 2018, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, anunciou o seu tom no Brasil: "A liberdade e a democracia serão restauradas na Venezuela. Os Estados Unidos pedem ao Brasil que tome uma posição firme contra o regime de Nicolas Maduro" [9] . Fazendo eco, o secretário de Estado Mike Pompeo afirmou em 21 de setembro de 2018, que os Estados Unidos "continuarão a aumentar o nível de pressão" contra o país bolivariano. Este mesmo Pompeo realizou várias reuniões com os chefes dos governos brasileiro, peruano e colombiano para preparar a operação de 10 de janeiro. 

Foi na reunião do Grupo Lima, realizada em 4 de janeiro de 2019, que realmente foi definido o cenário. Durante este cenáculo, os governos membros dessa internacional anticomunista [10] concordaram numa série de ações contra Caracas. Note-se que o governo mexicano, agora chefiado pelo presidente progressista Andrés Manuel López Obrador, não subscreveu este documento e reafirmou a vontade do seu país de não interferir nos assuntos internos de outra nação, cortando com as posições belicistas do governo precedente e do grupo de Lima. 

O documento aprovado em Lima é uma verdadeira declaração de guerra [11] . Na presença do secretário de Estado dos EUA (por videoconferência), os governos que se opunham à Revolução Bolivariana concordaram em aumentar a pressão diplomática contra a Venezuela e perseverar na intenção de abrir uma investigação na Tribunal Penal Internacional contra o Estado venezuelano. Ação apoiada além disso pela França [12]

Os membros do grupo de Lima condenam a crise económica na Venezuela, mas adotam uma resolução para reforçar o bloqueio financeiro contra aquele país. O texto adotado prevê listas de personalidades legais com as quais esses países "não deverão trabalhar, terão que impedir o acesso ao seu sistema financeiro e, se necessário, congelar os seus ativos e recursos económicos". Do mesmo modo, a resolução obriga os países membros do grupo de Lima a pressionar os organismos financeiros internacionais a que pertencem para impedir a concessão de novos créditos à República Bolivariana da Venezuela. 

Mais surpreendente ainda, esta declaração conjunta exige que o governo "de Nicolas Maduro e as Forças Armadas da Venezuela renunciem a todos os tipos de ações que violariam a soberania de seus vizinhos" . Essa acusação é baseada numa recente reação venezuelana a uma exploração de petróleo autorizada pela Guiana numa área territorial exigida pelos dois países vizinhos [13] . Trata-se novamente de um pretexto que faz eco de factos denunciados pelo presidente da Venezuela em 12 de dezembro de 2018. 

Num discurso na televisão, Nicolas Maduro revelou a presença de 734 mercenários nas bases militares de Eglin, na Flórida, e Tolemaida, na Colômbia. O seu objetivo é atacar a Venezuela ou preparar um ataque sob falsa bandeira para justificar uma intervenção militar contra a nação bolivariana. Maduro também revelou que o assessor de segurança nacional dos EUA, John Bolton, pediu ao novo vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, que organize provocações militares na fronteira com a Venezuela [14] . A declaração do Grupo Lima, portanto, parece reforçar as suspeitas de agressão emitidas pelo Estado venezuelano. 

Depois de ter qualificado a eleição de Nicolas Maduro como ilegítima, o grupo de Lima instou o presidente venezuelano a não assumir a presidência e a "transferir provisoriamente o poder executivo para a Assembleia Nacional". Não importa que Nicolas Maduro tenha sido eleito graças ao mesmo sistema eleitoral que permitiu a eleição do poder legislativo. O objetivo procurado por Washington e seus aliados não é democrático, é político: colocar a oposição à frente do país produtor de petróleo. 

Esta tentativa de golpe institucional, já implementada noutros países da região [15] , faz parte da estratégia de substituição de poderes políticos legítimos. Em julho de 2017, a oposição criou ilegalmente um Supremo Tribunal de Justiça "no exílio", com sede no Panamá, e um cargo de Procurador-Geral da Nação "no exílio" em Bogotá. Essas autoridades fantoches tentam, desde então, substituir-se aos legítimos poderes venezuelanos. 

Em ligação com uma Assembleia Nacional, declarada em atentado judicial em março de 2017 [16] , essas paródias de poderes públicos realizaram um julgamento simulado na sede do Parlamento colombiano (sic) e condenaram o presidente venezuelano Nicolas Maduro a uma pena de 18 anos e 3 meses de prisão. [17]

Para ilustrar esta situação absurda, imagine-se por um momento que um grupo de "coletes amarelos" franceses designava um ministro da Justiça e um Procurador Geral "no exílio" e que eles organizavam na Duma russa um julgamento simulado para condenar Emmanuel Macron a 18 anos de prisão. Isto faria sorrir, mas o que aconteceria se vários Estados em todo o mundo reconhecessem como legítimos esses poderes judiciais "no exílio"? Ouviríamos certamente um grande número de vozes gritando, e com razão, contra a interferência estrangeira ou mesmo uma tentativa de golpe. O exemplo que acabamos de mencionar pode parecer ridículo, mas é o que está a acontecer na Venezuela. 

Estas manobras não são feitas de ânimo leve. O ataque fracassado por meio de um drone carregado de explosivos C4, que ocorreu em 4 de agosto de 2018, não visava apenas eliminar Nicolas Maduro, mas todas as autoridades públicas da nação, com o objetivo de os substituir pelos seus fantoches ilegais [18] . A constituição de poderes paralelos não é um circo político-mediático, mas parte integrante de um golpe institucional em preparação. 

Da mesma forma, declarar Nicolas Maduro ilegítimo é uma mensagem virulenta para os principais parceiros económicos de Caracas (China, Rússia ou Turquia), notificando-os que os acordos assinados com o governo bolivariano não serão reconhecidos quando Nicolas Maduro for derrubado. Um conflito com o país poderia ter repercussões muito além de suas fronteiras. Sergei Riabkov, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, advertiu "os entusiastas de Washington a não cair na tentação da intervenção militar" na Venezuela [19]

Por outro lado, é também uma mensagem para as forças armadas nacionais porque, se o presidente Maduro é ilegítimo, isso equivale a decapitar o poder militar do seu comandante em chefe. 

É nesta perspetiva que o cenário desenvolvido pelos Estados Unidos e seus aliados deve ser decifrado. De acordo com a resolução do Grupo de Lima, a Assembleia Nacional da Venezuela, em desacato ao tribunal e cujas decisões são nulas e sem efeito [20] , declarou que a tomada de posse de Nicolas Maduro é uma "usurpação de poder" . Como resultado, está a prepara-se para ilegalmente assumir o poder executivo durante um "período de transição". Em 8 de janeiro, uma lei sobre a transição foi discutida no hemiciclo venezuelano com o objetivo de tomar o poder executivo a partir de 10 de janeiro. 

Durante as discussões, Américo de Grazia apelou a todos os setores para se alinharem com as autoridades paralelas criadas pela oposição e tomarem as ruas "em coordenação com as ações internacionais, nacionais e institucionais" [21]

Quanto ao novo presidente do órgão legislativo, Juan Guaidó, apelou aos militares venezuelanos para derrubarem o governo a partir de 10 de janeiro [22]

O cenário está montado. A prova de força iminente. Resta saber que personalidades políticas e dos media justificarão a violação da soberania da Venezuela e a falta de respeito por suas instituições.


[1] Cathy Dos Santos, "Venezuela. «Il faut diversifier notre économie sans toucher au social»", L´Humanité, 03/04/2018, www.humanite.fr/...
[2] Bertucci, pastor evangélico envolvido no escândalo dos Panama Papers, foi candidato independente, assim como Reynaldo Quijada, apoiado por uma fração do trotskismo venezuelano. Eles receberam respetivamente 10,82% e 0,39% dos votos. Notemos que a percentagem de Bertucci é explicada mais pela novidade dessa oferta eleitoral num clima de desconfiança em relação aos partidos políticos do que por um avanço do evangelismo político na Venezuela. De facto, o voto dos evangelistas está dividido. O Partido Evangelista Organización Renovadora Auténtica (ORA) apoiou Nicolas Maduro.
[3] Sobre as notícias falsas de proibição de partidos políticos na Venezuela, ler Thierry Deronne, "L'interdiction d'un parti qui n'existe pas", Venezuela Infos, 29/01/2018,  venezuelainfos.wordpress.com/...
[4] Esta lei complementa a Lei Orgânica do Poder Eleitoral aprovada em 2002
[5] O autor dessas linhas já participou nas eleições municipais e regionais de 2013
[6] Ler a lista de auditorias no site do National Electo Center   www.cne.gov.ve/web/sistema_electoral/tecnologia_electoral_auditorias.php
Convidamos os leitores corajosos a aprofundar os sistemas de auditoria lendo os longos relatórios técnicos da CNE (em espanhol) www.cne.gov.ve/...
[7] "Jimmy Carter: "El sistema electoral venezolano es el mejor del mundo", RT, 20/09/2012, actualidad.rt.com/...
[8] Romain Migus, "Chronologie des sanctions économiques contre le Venezuela", Venezuela en Vivo, atualizado em 07/01/2019, www.romainmigus.info/2019/01/chronologie-des-sanctions-economiques.html
[9] "Mike Pence : La libertad será restaurada en Venezuela", El Nacional, 27/06/2018, www.el-nacional.com/...
[10] Os governos membros do grupo Lima são os da Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia. Assim como o México, que se recusou a assinar a última declaração.
[11] Documento disponivel em www.gob.pe/institucion/rree/noticias/24270-declaracion-del-grupo-de-lima
[12] Palais de l'Elysée, "Communiqué relatif à la situation au Venezuela", 30/09/2018, disponível em www.elysee.fr/...
[13] Manuel Palma, "Los buques de la discordia: Venezuela y Guyana reavivan la disputa por su diferendo territorial", RT, 28/12/2018, actualidad.rt.com/...
[14] Luigino Bracci, "Maduro denuncia: Más de 700 paramilitares entrenan en Colombia para ejecutar golpe de Estado en su contra", AlbaCiudad,12/12/2018, albaciudad.org/2018/12/maduro-golpe-de-estado-john-bolton/
[15] Designadamente nas Honduras (2009), no Paraguay (2012), no Brésil (2016) ou no Equateur (2017).
[16] Após a eleição dos deputados em dezembro de 2015, uma denúncia foi apresentada pelos candidatos de PSUV no Estado da Amazónia pela compra de votos pelos seus opositores eleitos. O tribunal de justiça tendo sancionado esta fraude, o tribunal do poder eleitoral exigiu que a eleição destes três cargos de deputados fosse feita novamente. Como a presidência da Assembleia Nacional recusou submeter-se aos poderes judiciais e eleitorais, a Assembleia Nacional foi declarada em ultraje ao tribunal. As decisões e votos que emanam do poder legislativo são, portanto, nulos e sem efeito, desde que a presidência da Assembleia Nacional não autorize o retorno às urnas. Deve-se notar que a oposição tem uma maioria absoluta de 122 deputados em 167 lugares.
[17] "TSJ en el exilio condenó a Maduro a 18 años y 3 meses de prisión", El Nacional, 15/08/2018, www.el-nacional.com/...
[18] Romain Migus, "Le drone médiatique explose en plein vol", Venezuela en Vivo, 08/08/2018, www.romainmigus.info/...
[19] "El Gobierno ruso advirtió a Estados Unidos contra una posible intervención militar en Venezuela", SputnikNews, 09/01/2019, mundo.sputniknews.com/
[20] Ver explicação no ponto 16.
[21] Maritza Villaroel, "Asamblea Nacional arranca proceso para Ley de Transición", Site de l'Assemblée Nationale du Venezuela, 08/01/2019, www.asambleanacional.gob.ve/...
[22] "El golpismo venezolano no descansa", Pagina12, 05/01/2019, www.pagina12.com.ar/... (tradução francesa disponivel em venesol.org/... )


Autor: Romain Migus


O original encontra-se em RT France e em www.romainmigus.info/2019/01/tout-comprendre-sur-la-nouvelle.html

Fonte: Resistir.info
       

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O ano de 2018 visto pelas objectivas da agência Reuters (12)


Um migrante da caravana de milhares de pessoas da América Central sobe a cerca da fronteira entre o México e os EUA, em Tijuana, a 18 de novembro. Foto Hannah Mckay/Reuters



Migrante da América Central, parte da caravana com destino aos Estados Unidos, captado junto a agentes da Polícia, no México, em novembro. Foto Carlos Garcia Rawlins/Reuters



O agente de patrulha de fronteira Jacob Stukenberg vê o cadáver do migrante da Guatemala Misael Paiz, 25 anos, que morreu no deserto de Sonora depois de viajar mais de 3000 quilómetros para cruzar a fronteira entre os EUA e o México, no Refúgio Nacional de Vida Silvestre de Buenos Aires, Arizona, em setembro. Foto Lucy Nicholson/Reuters



Um menino de quatro anos de idade chora nos braços de um membro da família quando ele e outros foram detidos por agentes de patrulha após atravessarem a fronteira dos EUA a partir do México, perto de McAllen, no Texas, em maio. Foto Adrees Latif/Reuters

sábado, 22 de dezembro de 2018

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Chile, 1999

 
Familiares com retratos de desaparecidos. Calama, Chile, 1999.
Fotografia Gervasio Sánchez

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Por que os donos do dinheiro celebram Bolsonaro no 2º turno

O mercado reagiu com otimismo à ida de Jair Bolsonaro (PSL) ao segundo turno da eleição presidencial. O dólar comercial fechou esta segunda(8) em queda de 2,35%, cotado a R$ 3,766 na venda. E a bolsa brasileira registrou o maior volume financeiro da sua história. Os negócios totalizaram R$ 29 bilhões e fizeram o Ibovespa fechar em alta de 4,57%. Por trás da euforia, a expectativa de que, se eleito, Bolsonaro levará adiante uma pauta anti-povo, que interessa aos financistas.

 

 
Após o resultado do primeiro turno ser divulgado, agentes do mercado avaliaram que, não só o militar da reserva pode comandar o país, como terá força no Congresso para aprovar medidas impopulares que a gestão Michel Temer não conseguiu emplacar. Daí vem a reação positiva à contagem dos votos.

As urnas indicaram uma renovação do Congresso, mas com recuo dos partidos progressistas e de forças tradicionais de centro e direita, paralelamente a uma expansão fragmentada de outros partidos da direita, até então nanicos ou pertencentes ao chamado baixo clero. Elegeram representantes da bancada da bala, ativistas conservadores, integrantes de forças de segurança e religiosos.

“A nova composição do Congresso mostra que ele (Bolsonaro) pode ter uma boa governabilidade e conseguir aprovar algumas reformas com maior facilidade. O mercado tende a ir mais para os candidatos com uma visão menos estatista”, avaliou Fabrizio Velloni, chefe da mesa de operações da Frente Corretora, em entrevista a O Globo.

O interesse nas reformas é compreensível, já que elas garantirão ganhos ao mercado financeiro. Assim como a reforma trabalhista beneficiou empresários que podem contratar seus funcionários sem pagar tantos direitos, a reforma previdenciária, por exemplo, beneficiará banqueiros, responsáveis por gerir os planos de previdência privada e fundos de capitalização.

São também os rentistas os donos de títulos da dívida pública, essa mesma que o discurso corrente acusa de estar crescendo vertiginosamente por causa dos PT, embora os números insistam em negar. Fato é que Bolsonaro quer cortar gastos sociais e vender estatais para pagar parte da dívida pública, ou seja, beneficiando ainda mais esses tais rentistas. Mesmo que isso signifique abrir mão do patrimônio público a preço de banana e inviabilizar serviços públicos como saúde e educação para a população que mais precisa. Mesmo que isso não vá resolver o problema da dívida, pelo contrário.

A experiência mostra que as privatizações foram usadas por Fernando Henrique Cardoso para tentar cobrir a dívida, mas ela se multiplicou durante sua gestão. E diversos analistas apontam que a austeridade fiscal atrapalha o crescimento, além de impor um sofrimento horrível à população.

Mas é daí que vem a simpatia do mercado pelo candidato “menos estatista”. Porque menos Estado pode significar mais lucro para essa minoria. Essa máxima pode ser aplicada, por exemplo, na área de segurança. Uma das propostas de Bolsonaro é afrouxar as leis de porte de armas, para que mais cidadãos possam andar armados, exatamente o contrário do que faz o restante do mundo.

"Não se vai resolver o problema (da segurança) distribuindo armas para a população. Ser presidente da República e dizer que a população se apegue à própria sorte e compre uma arma para se defender, então para que serve o presidente? O Estado não pode transferir para a população a responsabilidade de se defender", disse a então candidata Marina Silva, durante uma entrevista antes das eleições.

Mas há quem celebre a proposta de Bolsonaro, não por razões cívicas, mas econômicas. As ações da fabricante de armas Forja Taurus abriram o pregão em disparada nesta segunda. Os papéis chegaram a subir 12,50%, sendo negociadas 6,30 reais. No ano, as ações acumulam valorização de 186%. É a perspectiva de ampliação do mercado consumidor, afinal. It’s not personal, it’s just business (Não é nada pessoal, são apenas negócios, como em O Poderoso Chefão).

“Isso (a animação do mercado) diz respeito à governabilidade e à viabilidade de implementação de um programa liberal que o mercado sabe que é necessário para o país, um ajuste fiscal contundente, rápido e eficiente”, defendeu o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni, à Jovem Pan.

Segundo ele, os resultados eleitorais mostraram que há maior possibilidade de o plano de Paulo Guedes (assessor econômico de Bolsonaro) ser implementado. A plataforma a que ele se refere é o aprofundamento da agenda neoliberal de Michel Temer, rejeitado por 82% da população. Prova de que o que o mercado comemora muitas vezes não está em sintonia com o que é melhor para o povo.

Por Joana Rozowykwiat
 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Neocolonialismo e « crise dos migrantes »

A « crise dos migrantes » diminui actualmente na Europa, mas deverá ampliar-se de maneira dramática nos próximos anos. As gigantescas deslocações da população que se preparam, são a consequência da exploração económica contemporânea da África.

Dos Estados Unidos à Europa, a “crise dos migrantes” suscita polémicas acesas, internas e internacionais, sobre a política a adoptar a respeito das correntes migratórias. No entanto, essas polémicas são representadas de acordo com um estereótipo que altera a realidade: o dos “países ricos” forçados a sofrer a crescente pressão migratória dos “países pobres”.

Esconde-se a causa de fundo: o sistema económico que, no mundo, permite que uma pequena minoria acumule riqueza à custa da crescente maioria, empobrecendo-a e provocando, assim, a emigração forçada.

A respeito dos fluxos migratórios para os Estados Unidos, o caso do México é exemplificador. A sua produção agrícola desabou quando, com o NAFTA (o acordo norte-americano de comercio “livre”), os EUA e o Canadá inundaram o mercado mexicano com produtos agrícolas baratos graças aos seus subsídios estatais. Milhões de agricultores ficaram sem trabalho, avolumando a força de trabalho recrutada nas ‘maquiladoras’ : milhares de plantações industriais ao longo da fronteira no território mexicano, pertencentes ou controladas principalmente por empresas dos EUA, onde os salários são muito baixos e os direitos sindicais inexistentes. Num país onde cerca de metade da população vive na pobreza, a massa daqueles que procuram entrar nos Estados Unidos aumentou. Daí o Muro ao longo da fronteira com o México, iniciado pelo presidente democrata Clinton quando o NAFTA entrouem vigor em 1994, continuado pelo republicano Bush, fortalecido pelo democrata Obama, o mesmo muro que o republicano Trump completaria agora em todos os 3000 km de fronteira.

No que concerne os fluxos migratórios para a Europa, o caso da África é típico. Ela é rica em matérias-primas: ouro, platina, diamantes, urânio, coltan, cobre, petróleo, gás natural, madeira preciosa, cacau, café e muitas outras. Estes recursos, explorados pelo antigo colonialismo europeu com métodos de escravidão, são agora explorados pelo neocolonialismo europeu, fomentando elites africanas no poder, mão-de-obra local de baixo custo e controlo dos mercados internos e internacionais. Mais de cem empresas citadas na Bolsa de Valores de Londres, tanto no Reino Unido como noutros lugares, exploram em 37 países da África Subsaariana, recursos minerais num valor superior a 1 bilião de dólares.

A França controla o sistema monetário de 14 antigas colónias africanas através do Franco CFA (originalmente um acrónimo de “Colónias Francesas de África”, reciclado como “Comunidade Financeira Africana”): para manter a paridade com o euro, os 14 países africanos têm de pagar ao Tesouro Francês, metade das suas reservas cambiais. O Estado líbio, que queria criar uma moeda africana autónoma, foi demolido pela guerra, em 2011. Na Costa do Marfim (região CFA), as empresas francesas controlam a maior parte do marketing de cacau, do qual o país é o maior produtor mundial: os pequenos agricultores têm apenas 5% do valor do produto final, tanto que a maioria deles vive na pobreza. Estes são apenas alguns exemplos da exploração neocolonial do continente.

A África, apresentada como dependente de ajuda externa, fornece um pagamento líquido anual de cerca de 58 biliões de dólares ao exterior. As consequências sociais são devastadoras. Na África Subsaariana, cuja população ultrapassa um bilião de habitantes e 60% da mesma é composta por crianças e jovens de 0 aos 24 anos, cerca de dois terços da população, vive na pobreza e, entre estes, cerca de 40% - isto é 400 milhões – vivem em condições de extrema pobreza.

A “crise dos migrantes” é, na realidade, a crise de um sistema económico e social insustentável.
 
Artigo de Manlio Dinucci
Fonte Foicebook

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O sonho americano não rebentou esta semana

Os EUA secaram a vida a sul da fronteira. Plantaram golpes, patrocinaram ditaduras, gastaram os pobres, mantendo-os pobres. O lado de baixo da fronteira foi o bordel, o bar, a droga, o trabalho escravo. Em baixo o pesadelo, em cima o sonho. Um paga o outro, e não é de agora.
 
1. A voz das crianças enjauladas corta a direito qualquer humano. São crianças de quatro, cinco, seis anos a soluçarem “mami”, “papá” dentro de uma gaiola, na fronteira dos Estados Unidos da América. Não há filtro, ideologia ou cartilha, a empatia ocupa tudo: choro, choramos com elas, no terror do que o humano é capaz. Somos milhões a chorar, incluindo pivots de TV, Laura Bush, talvez mesmo Ivanka Trump. Então, como até a filha pede, Trump muda alguma coisa para tudo ficar entre antes e agora, sabe-se lá até quando, sabe-se lá como. Mas não foi esta semana que o sonho americano rebentou. Não é agora que a América está a rejeitar os seus valores. Não é o one-man-show-Trump que detona o império americano de repente.
 
2. Há oito anos, por esta altura, pleno Mundial de Futebol, eu estava no México. E tanto no extremo sul como no extremo norte do México vi o pesadelo que fica por baixo do sonho americano. No extremo sul, vi-o em Ixtipec, de onde partem comboios para a Norte, e onde portanto se amontoam homens, mulheres e crianças sem livre-trânsito oficial, fugidos de toda a América Central, de El Salvador, das Honduras, da Guatemala, países no topo das maiores violências do mundo, onde os EUA enfiaram uma ou várias mãos. E no extremo norte do México — onde já só chegam os centro-americanos que pelo caminho não foram violados, escravizados, mortos por gangues — vi esse pesadelo em Ciudad Juárez, cidade mesmo na fronteira, literalmente a alguns passos de El Paso, EUA. Juárez é uma cobaia do capitalismo global, um lugar onde as empresas dos EUA (sobretudo, mas também europeias, japonesas, chinesas) foram abrindo fábricas para montar muitas das coisas que o mundo usa, mesmo o mundo pobre, como telemóveis e televisões. Se é possível ter um vislumbre do que será um mundo de fantasmas, desempregados, quase-escravos, Juárez era esse lugar. Operários que só tomando drogas aguentavam dois turnos em fábricas onde recebiam 36 euros por semana. Era esse o salário de Eva, que trabalhava para uma empresa californiana a montar televisores, exposta a envenamento por chumbo, violências e violações em série para trás. Nestas fábricas (as “maquilas”) não há sindicatos. São as fábricas que resultaram dos acordos de facilidades aduaneiras. Juárez viveu primeiro do turismo gringo (desde álcool na lei seca a sexo barato), depois das fábricas gringas, e finalmente da droga para os gringos. Por toda a parte havia “passaderos” e “picaderos”. “Aqui, onde ponhas o dedo, sai sangue”, disse-me o meu anfitrião, fotógrafo bravíssimo, Julián Cardona. O pequeno comércio estava refém dos gangues. Crianças de sete anos já trabalhavam para os gangues. Pais atrás do sonho americano, mexicanos ou centro-americanos, entregavam a vida a “coiotes”, passadores de gente no deserto, para lá morrerem todos os dias. E, nesse ano de 2010, o recorde mundial de homicídios era mesmo ali, todos os dias apareciam cabeças.
 
3. Há 22 anos atravessei os Estados Unidos da América em diagonal, de Leste para Oeste, em Greyhound Buses. E nesses autocarros, onde só viajavam os sem-tecto, sem-carro, sem cartão-de-crédito, nessas paragens, nesses desvios, nessa jornada ao lado, em volta, por baixo do sonho americano, lá estava o pesadelo. Os lugares onde o resto do planeta não era real, e a Terra talvez fosse plana, e muita gente tinha alguma arma, e muita gente tinha raiva. Gente arrastando sacos de lixo com tudo o que tinha. Gente morando em carros com tudo o que tinha. Gente morando no assento de mais um Greyhound. Gente pregando com e sem bíblias. Gente obesa, esquelética, delirante, humilhada. Nova Iorque era tão longe quanto Marte. Muitas semanas depois, em Nova Iorque, o sonho americano estava tão longe de muitos quanto Marte. O sonho americano existia, tinha parques, museus, bibliotecas esplêndidas, cultura e contra-cultura, guerras pelos direitos civis. E ao lado, em volta, sobretudo por baixo ficava o pesadelo. Aquilo a que os competidores chamam oportunidade. Enquanto isso, os EUA continuavam a secar a vida a sul da fronteira. Um histórico de plantar golpes, patrocinar ditaduras, gastar os pobres, mantendo-os pobres. O lado de baixo da fronteira foi o bordel, o bar, a droga, o trabalho escravo. Em baixo o pesadelo, em cima o sonho. Um servindo o outro.
 
4. Trump não é uma erupção do nada. A grande sanduíche de sonho e pesadelo gerou Trump, e gerou os eleitores que puseram Trump na Casa Branca. No seu perpétuo balanço entre quem paga e quem lucra, quem corre e quem fica para trás, a América pendeu mais do que nunca para a escória e gerou Trump. Trump é a escória do lucro sendo a escória do lucro: ignorante, vaidosa, megalómana, surda. Um dia havia de chegar ao poder para o mundo ver o fundo da América, um dos seus próprios fundos. Crianças, bebés em jaulas, são o fundo do humano. Esse horror precisa de todo o combate, toda a acção. Muita indignação junta faz tremer, e se o planeta não se tivesse indignado era porque estávamos todos mortos. Mas o combate passa por ver, também, que não é aqui que o império americano cai, ao contrário do que críticos de Trump como Paul Krugman disseram esta semana. Porque o pesadelo americano não surgiu com Trump, nem o sonho voltará a brilhar quando Trump partir. Trump é consequência antes de ser causa, uma consequência distópica, um alerta para que a América, e o mundo, olhem para dentro, para trás. Este horror na fronteira tem história, tem raízes, os Estados Unidos da América são tanto um farol dos direitos humanos como a sua escuridão. Nos EUA, tortura é assunto de estado. Fazer guerras, destruir terras, é mato. Milhões vivem pior em muitos lugares do mundo porque os EUA lá meteram o bedelho, ou porque sustentam a violência (pensem em Gaza). Milhões vivem mal no sonho americano: pagam-no. O horror é o horror é o horror, e normalmente tem uma longa cauda.
 
Texto de Alexandra Lucas Coelho