sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Histórico diálogo entre Fidel Castro y Salvador Allende



Histórico diálogo entre Fidel Castro y Salvador Allende
Por estos días la televisión pública argentina difundió El Diálogo de América, charla en noviembre de 1971 entre el líder de la Revolución cubana, Fidel Castro, y el extinto presidente Salvador Allende, durante la visita de tres semanas realizada por el primero a Chile. 

Una información de Prensa Latina señala que filmado por el cineasta Álvaro Covacevich y con la participación, como entrevistador, del destacado periodista chileno y asesor personal de Allende, Augusto Olivares, El Diálogo de América fue estrenado mundialmente en París en abril de 1972 como testimonio de la lucha por el proceso chileno. Hace referencia a que el diario argentino Página 12 recuerda que sus presentadores entonces fueron el fallecido escritor y poeta chileno Pablo Neruda y el actor Marcel Marceau. 

La distendida conversación tuvo lugar en los jardines de la casa presidencial, en la cual temas como la llamada Vía chilena, emprendida por la Unidad Popular (UP) para encaminar las transformaciones en el país, o la decisiva participación de la clase obrera en los procesos de cambio en una y otra sociedad, fueron analizados por ambos estadistas. Este documental, restaurado por la televisión pública argentina fue difundido por primera vez en el país, tras ser recuperado recientemente entre el patrimonio de Covacevich, quien luego del golpe militar de 1973 se exilió en México. También se refirieron a los principales obstáculos enfrentados por la UP para llevar adelante su programa, y por la Revolución cubana para lograr su supervivencia y avanzar. 

En el caso de Cuba, Fidel Castro indicó que el principal obstáculo era de orden exterior, y mencionó al imperialismo norteamericano, que ejerce, dijo, una formidable oposición, utilizando para ello armas políticas, económicas y militares, pese a lo cual no tiene -aseguró- la más remota posibilidad de aplastar a la Revolución. 

Estos obstáculos, precisó Allende en aquel entonces, nacen de una oligarquía con bastante experiencia que defiende muy bien sus intereses y tiene el respaldo del imperialismo.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Não há raças humanas

Não há raças humanas. Só há “raças” humanas nas cabeças dos racistas, pois permite-lhes fazer classificações e distinções, uma longa história que permanece na actualidade. Há racismo, há desigualdade e há pobreza. Estas três realidades são o caldo ideal para a opressão e a exploração. A desigualdade coloca uns acima e outros abaixo. Ser pobre é um sofrimento permanente. Ser pobre e ter a pele suficientemente pigmentada como sinal distintivo é somar razões para o sofrimento. E para a revolta também. Como se dizia em um dos últimos planos dum filme de Spielberg, “ser mulher, ser pobre e ser negra é uma das piores condições para um ser humano”.

A verdade é que não há raças humanas. Esse é um conceito do século XIX, que percorreu todo o século XX e que ainda hoje está aí. Havia livrinhos com esse mesmo título, Raças Humanas, onde se representavam pessoas com a sua localização geográfica e uns trajos entendidos como regionais, com penas, palhas e umas lanças nas mãos. Este mesmo conceito de raças inspirou as exposições pela Europa fora a que se chama os Zoos humanos, onde as pessoas trazidas de África e da América do Sul eram expostas em recintos cercados dentro das cidades europeias, vestidas com os seus “trajos regionais”, em parte despidas, porque na terra delas faz mais calor, colocadas num cenário apropriado. À volta os europeus contemplavam e comentavam estes seres, que para eles olhavam espantados. E humilhados, com certeza.

Estamos a falar do século XX, muito depois da abolição da escravatura. Portugal representou esse papel com gáudio na Exposição do Mundo Português e ficou registada a indignação de senhoras portuguesas por os respectivos maridos irem ver repetidamente a africana Rosinha, exibida tal como entendiam que vivia em África. Felizmente que houve bastantes fotografias, filmes e reportagens de jornais, senão corria-se o risco de dizerem que se estava a inventar. Se pensarmos que as comunidades africanas não têm esta memória colectiva, estamos enganados. Foram protagonistas os pais, os avós, as avós, os bisavôs. À distância de uma a três gerações. Como muitos brasileiros actuais se lembram da avó índia que foi “pega-no-laço” (isso mesmo, caçada a laço) ou do bisavô que já foi “ventre livre”, ou seja, que ainda estava no ventre da mãe, quando esta foi libertada pela “Lei de Ouro”. Ora, raças só existem de facto para animais que os criadores obrigaram a cruzarem-se selectivamente. Também houve tentativas com os humanos, mas não resultou...

Quanto a nós, seres humanos, usando palavras de taxonomia, somos do género homo, da espécie homo sapiens e da subespécie sapiens sapiens. Todos. E depois disto não há mais subdivisão nenhuma e o estudo do genoma humano assim tem provado. Tem provado também que ao longo de milhares de anos nos fomos cruzando, de sul para norte, de norte para sul, de leste para oeste, de oeste para leste, porque as populações humanas não assentavam arraiais, iam à descoberta. É há pouco tempo que nos sedentarizámos. Que todos viemos de África já sabemos. E a pigmentação da pele foi-se perdendo por selecção e adaptação à medida que as pessoas saíam das zonas com maior incidência do sol para caminharem lentamente no sentido dos pólos. A maior ou menor pigmentação da pele vai seguindo a latitude. Em África, as populações são mais pigmentadas quanto mais próximas do Equador. E bem claros no norte da Europa aqueles que só têm luz solar durante poucas horas do dia durante muitos meses. Mais pigmentados defendidos do sol, mais despigmentados maior síntese de vitamina D na pele. E entre uns e outros fica uma escala de pigmentação. Que nós reavivamos ao sol, na praia, porque muitos e sobretudo muitas gostamos mesmo do tom bronzeado. Todavia, na longa história da humanidade, sobretudo antes de nos sedentarizarmos, misturámo-nos bastante e ainda bem. Foi o que salvou a espécie. Misturando-nos, embora não o soubéssemos, evitámos a concentração de genes “maus” que podia ter sido fatal. É o caso de populações ainda existentes, que os geneticistas classificam em “gargalo de garrafa”, com pronunciado isolamento e endogamia, que são mais vulneráveis e mais propensas a certas doenças. Mas nós, a generalidade dos humanos, somos todos mestiços. Felizmente. Misturámo-nos ao longo de milhares de anos. 


Todavia, apesar das evidências crescentes da ciência, a palavra e o conceito de “raça” mantém-se nos comentadores da comunicação social, escrita e falada, para não falar dos comentários que circulam nas redes digitais. E o mais grave é que se mantém no meio científico. Não é raro que médicos, alguns jovens colegas meus, ao descreverem a história clínica, coloquem à cabeça do texto as expressões “raça caucasiana” (supostamente nós, os europeus) ou “raça negra”, quando a pele é mais pigmentada. Nós, caucasianos? A classificação já é um pouco mais discreta do que “arianos”, mas podemos perguntar-nos se viemos mesmo directamente lá do Cáucaso. O estudo do património genético da população portuguesa mostra que viemos de muito sítio e uma boa parte de populações africanas sub-saharianas, não no tempo longínquo do Out of Africa, mas no tempo histórico bem mais próximo. E o mais interessante é que a “raça negra” para os jovens que inconscientemente o escrevem e para a generalidade das pessoas é assim descrita mesmo que a pessoa tenha três quartos europeus e um quarto africano. Algo nos lembra o “white” e “not-white”, não é? Tal como a expressão “pessoas de cor” usada mesmo por cientistas sociais em tradução de color people. Porque nós, os europeus, somos transparentes, não é? Não temos cor? Este racismo implícito na linguagem na maior parte das vezes nem é consciente nem intencional, mas traduz muitos séculos em que uns dominaram e outros foram dominados. E os dominados tinham uma pigmentação da pele que os distinguia. Alguém se lembra, ao falar de um escandinavo, com características bem diferentes das nossas, de dizer “indivíduo de raça nórdica”? Pois é, há diferentes e diferentes...

E também percebo que os denominados “negros” assumam orgulho em o ser, mesmo que no seu corpo estejam muitos ascendentes “caucasianos”. Eu também o faria. O domínio e a exploração de outros povos são ainda muito recentes e fazem parte da nossa história contemporânea. Os escritos do general Kaúlza de Arriaga sobre as populações africanas têm apenas umas dezenas de anos. Os filhos mestiços de alguns militares das tropas coloniais que por lá ficaram nas ex-colónias são agora homens e mulheres maduros. Há esquecimento colectivo? Não há.

A esta memória histórica, a maior parte das vezes subjectiva, mas presente, soma-se a desigualdade e a pobreza, que muitas vezes coincidem com estas características da pigmentação da pele. Os 20,7% de crianças e jovens e os 18,3% do total da população portuguesa que em 2016 viviam em pobreza não são todos de pele mais escura. É uma vergonha que percorre bairros de várias cores. Mas se fizermos a análise a fracções da população, ver-se-á que para aqueles que são classificados de “negros” a percentagem é incrivelmente maior. Tal como a desigualdade.

Segundo os especialistas, nos últimos 30 anos e nos países da OCDE o rácio entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres subiu de 7,1 para 9,5 vezes e há uma forte associação entre a desigualdade e a pobreza. Em Portugal, durante a troika este último índice subiu para 10,6. Quem o diz não são radicais de esquerda mas estudiosos da pobreza publicados em respeitáveis edições como a da Fundação Francisco Manuel dos Santos (Carlos Farinha Rodrigues e colaboradores). Mais uma vez, se aplicarmos o estudo que foi feito para toda a população portuguesa a fracções de portugueses com pele mais escura, este número sobe muito. Os bairros “problemáticos” como o da Jamaica acumulam tudo – serem olhados com racismo, conterem pobreza e sofrimento e sentirem gravemente desigualdade. Isto gera revolta e a revolta é desordenada, às vezes ela própria injusta.

Queríamos uma revolta “organizadinha”? Não costuma haver. Organizada e pacífica foi a manifestação convocada pelos jovens para o Terreiro do Paço e sabemos como acabou. Problemática é a nossa sociedade. E o nome de Jamaica é bem lembrado. Foi nessa ilha das Caraíbas que os ingleses escravocratas, nem melhores nem piores que os portugueses, desenvolveram a cultura do açúcar à custa de remessas sucessivas de escravos trazidos de África. Até que estes se revoltaram, estabeleceram comunidades livres nas montanhas e deram que fazer aos ingleses. Mas gente “caucasiana” é outra coisa...

Artigo de Isabel do Carmo, Público

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A Nova Guerra Fria e a Venezuela

O que se está a passar na Venezuela é uma tragédia anunciada, e vai provavelmente causar a morte de muita gente inocente. A Venezuela está à beira de uma intervenção militar estrangeira e o banho de sangue que dela resultará pode assumir proporções dramáticas. Quem o diz é o mais conhecido líder da oposição a Nicolas Maduro, Henrique Capriles, ao afirmar que o Presidente-fantoche Juan Guaidó está a fazer dos venezuelanos "carne para canhão". Ele sabe do que está a falar. Sabe, por exemplo, que Hugo Chávez levou muito a sério o destino da experiência socialista democrática de Salvador Allende no Chile. E que, entre outras medidas, armou a população civil, criando as milícias, que obviamente podem ser desarmadas, mas que muito provavelmente tal não ocorrerá sem alguma resistência. Sabe também que, apesar do imenso sofrimento a que o país está a ser submetido pela mistura tóxica de erros políticos internos e pressão externa, nomeadamente por via de um embargo que a ONU considera humanitariamente condenável, continua entranhado no povo venezuelano um sentimento de orgulho nacionalista que rejeita com veemência qualquer intervenção estrangeira.

 Perante a dimensão do risco de destruição de vidas inocentes, todos os democratas venezuelanos opositores do governo bolivariano fazem algumas perguntas para as quais só muito penosamente vão tendo alguma resposta. Por que é que os EUA, acolitados por alguns países europeus, embarcam numa posição agressiva e maximalista que inutiliza à partida qualquer solução negociada? Por que é que se fazem ultimatos típicos dos tempos imperiais dos quais, aliás, Portugal tem uma experiência amarga? Por que foi recusada a proposta de intermediação feita pelo México e o Uruguai, que tem como ponto de partida a recusa da guerra civil? Porque um jovem desconhecido do povo venezuelano até há algumas semanas, membro de um pequeno partido de extrema-direita, Voluntad Popular, directamente envolvido na violência de rua ocorrida em anos anteriores, se autoproclama Presidente da República depois de receber um telefonema do vice-presidente dos EUA, e vários países se dispõem a reconhecê-lo como Presidente legítimo do país?

As respostas virão com o tempo, mas o que vai sendo conhecido é suficiente para indicar por onde surgirão as respostas. Começa a saber-se que, apesar de pouco conhecido no país, Juan Guaidó e o seu partido de extrema-direita, que tem defendido abertamente uma intervenção militar contra o governo, são há muito os favoritos de Washington para implementar na Venezuela a infame política de "regime change". A isto se liga a história das intervenções dos EUA no continente, uma arma de destruição maciça da democracia sempre que esta significou a defesa da soberania nacional e questionou o acesso livre das empresas norte-americanas aos recursos naturais do país. Não é difícil concluir que não está em causa a defesa da democracia venezuelana. O que está em causa é o petróleo da Venezuela.

A Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do mundo (20% das reservas mundiais; os EUA têm 2%). O acesso ao petróleo do Médio Oriente determinou o pacto de sangue com o país mais ditatorial da região, a Arábia Saudita, e a destruição do Iraque, da Síria, da Líbia, no Norte de África; a próxima vítima pode bem ser o Irão. Acresce que o petróleo do Médio Oriente está mais próximo da China do que dos EUA. Enquanto o petróleo da Venezuela está à porta de casa. O modo de aceder aos recursos varia de país para país, mas o objectivo estratégico tem sido sempre o mesmo. No Chile, envolveu uma ditadura sangrenta. Mais recentemente, no Brasil, o acesso aos imensos recursos minerais, à Amazónia e ao pré-sal envolveu a transformação de um outro favorito de Washington, Sérgio Moro, de ignorado juiz de primeira instância em notoriedade nacional e internacional, mediante o acesso privilegiado a dados que lhe permitissem ser o justiceiro da esquerda brasileira e abrir caminho para eleição de um confesso apologista da ditadura e da tortura que se dispusesse a vender as riquezas do país ao desbarato e formasse um governo de que o favorito pró-norte-americano do futuro do Brasil fizesse parte.

Mas a perplexidade de muitos democratas venezuelanos diz especialmente respeito à Europa, até porque no passado a Europa esteve activa em negociações entre o governo e as oposições. Sabiam que muitas dessas negociações fracassaram por pressão dos EUA. Daí a pergunta: também tu, Europa? Estão conscientes de que, se a Europa estivesse genuinamente preocupada com a democracia, há muito teria cortado relações diplomáticas com a Arábia Saudita. E que, se a Europa estivesse preocupada com a morte em massa de civis inocentes, há muito que teria deixado de vender à Arábia Saudita as armas com que este país está a levar a cabo o genocídio do Iémen. Mas talvez esperassem que as responsabilidades históricas da Europa perante as suas antigas colónias justificassem alguma contenção. Porquê este alinhamento total com uma política que mede o seu êxito pelo nível de destruição de países e vidas?

A pouco e pouco se tornará claro que a razão deste alinhamento reside na nova guerra fria que entretanto estalou entre os EUA e a China, uma guerra fria que tem no continente latino-americano um dos seus centros e que, tal como a anterior, não pode ser travada directamente entre as potências rivais, neste caso, um império declinante e um império ascendente. Tem que ser travada por via de aliados, sejam eles num caso os governos de direita da América Latina e os governos europeus, e, noutro caso, a Rússia. Nenhum império é bom para os países que não têm poder para beneficiar por inteiro da rivalidade. Quando muito, procuram obter vantagens do alinhamento que lhes está mais próximo. E o alinhamento tem de ser total para ser eficaz. Isto é, é preciso sacrificar os anéis para não se irem os dedos. Isto é tão verdade do Canadá como dos países europeus.

Tenho-me reconhecido bem representado pelo Governo do meu país no poder desde 2016. No entanto, a legitimidade concedida a um Presidente-fantoche e a uma estratégia que muito provavelmente terminará em banho de sangue faz-me sentir vergonha do meu Governo. Só espero que a vasta comunidade de portugueses na Venezuela não venha a sofrer com tamanha imprudência diplomática, para não usar um outro termo mais veemente e verdadeiro da política internacional deste Governo neste caso.
 
Artigo de