“Eles são a maior ameaça para a segurança
interna do país”, sentenciou John Edgar Hoover, o lendário chefe do FBI,
durante reunião na qual declarou guerra aberta ao partido de jovens
afro-americanos que, no final dos anos 1960, ousava promover motins e enfrentar
a polícia.
Os Panteras
Negras brotavam como cogumelos nas principais cidades norte-americanas.
Rapidamente viravam o símbolo e a direção de quem não aceitava mais oferecer a
outra face perante a agressividade das forças racistas. As leis
segregacionistas já estavam abolidas desde 1964, mas a brutalidade repressiva contra
os bairros negros e a situação de pobreza não se alteravam. Os grandes centros urbanos do norte e da costa oeste, para onde migravam os que
fugiam do apartheid sulista, tinham se transformado em panelas de pressão.
Levantes frequentes agitavam as cidades e a imaginação. Quando
moradores de Watts, distrito na periferia de Los Angeles, se sublevaram contra
a prisão arbitrária de um vizinho, em agosto de 1965, abria-se um novo ciclo
histórico. Entre os dias 11 e 15, o chão ficou tingido pelo sangue de 34 mortes
e mais de mil feridos. Quase 3,5 mil presos e mais de 40 milhões de dólares em
danos materiais foram contabilizados. Nos três
anos seguintes, a cena se repetiu em muitas outras localidades. Os Estados
Unidos pareciam caminhar rumo a uma insurreição. Os encarregados em manter a lei e a ordem perdiam o sono. Estava aparentemente
em perigo o sistema que juraram defender. Ao lado das
multidões que marchavam contra a Guerra do Vietname, a mobilização dos guetos
negros sacudia um mundo marcado por regras e hábitos construídos no encontro
entre imperialismo e escravidão. Era esse o
clima, em outubro de 1966, no dia 15, quando dois estudantes do Merritt
College, em Oakland, cidade vizinha a São Francisco, na ensolarada Califórnia,
fundaram o Partido Pantera Negra para a Autodefesa.
Huey P.
Newton e Bobby Seale recrutaram mais quatro colaboradores e formaram o núcleo
inicial da organização. Também decidiram instituir um uniforme: camisas azuis,
calças e boinas pretas, casacos de couro. Tinham mais
simpatia pelas ideias de Malcolm X, assassinado em maio do ano anterior, do que
pelo pensamento de Martin Luther King, mortalmente baleado dali a dois anos. Sentiam-se
atraídos por objetivos nacionalistas e de autodeterminação, a compreensão de
que o povo negro estava sob jugo colonial desde que escravos africanos foram
capturados e transportados contra a vontade. Flertavam
com possibilidades separatistas, entortando o nariz para a narrativa
integracionista que predominava nos grupos dominantes da campanha contra a
segregação.
Acima de
tudo, consideravam inaceitável a estratégia de resistência passiva, não
violenta, apregoada por Luther King, com quem costuravam acordos pontuais, mas
tendendo a enxergá-lo como um anexo do sistema que sonhavam demolir. Partiam do
pressuposto que a falta de reação, cedo ou tarde, afetaria o ânimo e a
capacidade de mobilização. A resistência ativa, por outro lado, poderia elevar
a autoestima e intimidar os inimigos de sua causa. Viam-se, em
certa medida, como herdeiros de Malcolm X, ainda que não partilhassem seus
pendores islâmicos. O que definitivamente os entusiasmava era o propósito de
ser a ponta de lança das comunidades negras. Seus organizadores e protetores
armados frente aos atropelos do Estado e de agremiações racistas como a Ku Klux
Klan. Contavam, a
seu favor, com uma lei californiana que permitia a todos os cidadãos carregarem
suas próprias armas. De rifles no ombro e revólveres em punho, funcionavam como
tropa de choque contra a ação policial, protegendo manifestações e protestos.
Crescimento
após ação audaciosa
Estado versus Panteras Negras
Fim do grupo nos anos 80
O Senado norte-americano, em 1975, reconheceria oficialmente as ilegalidades cometidas. Nenhuma reparação, no entanto, foi determinada. Os que haviam sobrevivido, muitos apodrecendo atrás das grades, não foram contemplados por qualquer lei de amnistia ou indulto. Os policiais responsáveis jamais seriam punidos. A esta altura, além do mais, o fardo de prisões, mortes e divisões já era insuportável. O partido praticamente deixara de existir, apesar dos empenhos de sobrevida até 1982.
A fama
nacional veio com uma ação espetacular, em maio de 1967. A Assembleia
Estadual da Califórnia, sediada em Sacramento, tinha agendado a discussão de
projeto que proibia o porte de armas. Sob comando de Bobby Seale, trinta
militantes ocuparam, armados, as instalações do organismo legislativo, em
protesto contra medida que enfraqueceria os Panteras Negras diante da polícia.
Imagens de
tamanha audácia percorreram o país. Seu
prestígio cresceu aceleradamente, atraindo jovens militantes por toda a parte,
que abriam escritórios do partido, aderiam a seu programa e se paramentavam
para a guerra. As ambições
eram vigorosas: emprego, educação, habitação, fim da brutalidade policial,
julgamento de negros apenas por juízes e júris negros, revogação do serviço
militar obrigatório, liberdade para os afro-americanos decidirem se queriam continuar
incorporados aos Estados Unidos ou fundar sua própria nação. Também
manifestavam seu repúdio à intervenção norte-americana no Vietname. Não queriam
apenas a paz e a retirada das tropas. Batalhavam pela vitória dos comunistas de Ho Chi Minh, o líder da independência
do país asiático, contra os exércitos chefiados pela Casa Branca.
Foi nessa batida que logo se transformaram na corrente mais relevante do chamado Poder Negro. Sob esse guarda-chuva se abrigava, entre os anos 60 e 70, uma constelação de movimentos e grupos dispostos à insurgência contra um modelo que, aos seus olhos, estava marcado pelo cruzamento entre supremacia branca, domínio dos ricos e neocolonialismo. “Nascemos como uma organização comunitária, mas logo nos reivindicamos como partido revolucionário”, relembra Kathleen Neal Cleaver, primeira mulher a integrar o comitê central dos Panteras Negras. “Sob a influência da Revolução Cubana e da guerra de libertação dos vietnamitas, além do impacto das ideias de Mao Tse Tung, assumimos identidade marxista, mas nas condições específicas da luta anticolonial dos negros norte-americanos.” Aos 71 anos, Kathleen é atualmente professora na Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas do planeta. Formada em Direito, dedica-se ao estudo de questões afro-americanas. Casada por vinte anos com um dos chefes históricos dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver, o terceiro homem da troika que também incluía Newton e Seale, ela foi secretária de Comunicação do partido entre 1967 e 1969, antes de se exilar na Argélia, com o marido, então condenado por tentativa de homicídio, durante tiroteio contra policiais de Oakland.
Foi nessa batida que logo se transformaram na corrente mais relevante do chamado Poder Negro. Sob esse guarda-chuva se abrigava, entre os anos 60 e 70, uma constelação de movimentos e grupos dispostos à insurgência contra um modelo que, aos seus olhos, estava marcado pelo cruzamento entre supremacia branca, domínio dos ricos e neocolonialismo. “Nascemos como uma organização comunitária, mas logo nos reivindicamos como partido revolucionário”, relembra Kathleen Neal Cleaver, primeira mulher a integrar o comitê central dos Panteras Negras. “Sob a influência da Revolução Cubana e da guerra de libertação dos vietnamitas, além do impacto das ideias de Mao Tse Tung, assumimos identidade marxista, mas nas condições específicas da luta anticolonial dos negros norte-americanos.” Aos 71 anos, Kathleen é atualmente professora na Universidade de Yale, uma das mais prestigiadas do planeta. Formada em Direito, dedica-se ao estudo de questões afro-americanas. Casada por vinte anos com um dos chefes históricos dos Panteras Negras, Eldridge Cleaver, o terceiro homem da troika que também incluía Newton e Seale, ela foi secretária de Comunicação do partido entre 1967 e 1969, antes de se exilar na Argélia, com o marido, então condenado por tentativa de homicídio, durante tiroteio contra policiais de Oakland.
“Os Estados
Unidos são diferentes de outros países capitalistas”, afirma, resumindo análise
que embasava sua organização. “A estrutura econômica e social tem um componente
de dominação colonial dentro do próprio território, para o qual outros povos
foram trazidos à força. Não se trata apenas de preconceito racial, mas de
supremacia como forma de Estado e sociedade.” Essa lógica
levou os Panteras Negras a aceitarem filiação apenas de afro-americanos.
Apostavam que interesses comuns seriam defendidos por coalizões entre distintas
agremiações, cada qual com sua própria identidade nacional ou étnica.
Estado versus Panteras Negras
Parte da
imprensa aproveitou este critério para enquadrar o agrupamento como racista,
defensor de alguma espécie de supremacia negra. A outra perna da campanha de
desconstrução era pintá-lo como adepto da violência e do terror.
“Nós
estávamos em guerra e tínhamos o direito de nos defender”, declara Elaine
Brown, a última presidente do partido antes de sua dissolução. “Mas recorríamos
à violência apenas quando atacados. Nosso trabalho principal era educacional e
de organização social.” Nascida em
um gueto de Filadélfia, atualmente com 73 anos, a ativista também se fez
cantora e escritora. Quando os Panteras Negras estavam já em seu ocaso, divididos
e sob severa repressão, Elaine foi nomeada por Newton, foragido em Cuba, a nova
comandante do movimento, cargo que ocuparia entre 1974 e 1977. “Ninguém
tinha a receita para enfrentar o padrão repressivo que foi sendo adotado pelo
governo”, relembra Elaine. “Tentamos aplicar uma das máximas de Mao, de que a
guerrilha deve se mover entre as pessoas como um peixe nadando no mar. Mas o
cerco se fechava.” Além da
autodefesa, a legenda fez-se conhecida por implantar programas de assistência
nos bairros mais pobres, dos quais o mais famoso talvez tenha sido o café da
manhã para crianças de famílias paupérrimas. Provou-se estratégia inteligente
para ampliar influência e atrair novos militantes, além de permitir a
construção de expressiva rede financeira entre artistas, intelectuais e até
empresários.
Os Panteras
Negras também conseguiram manter um semanário de circulação nacional e
construir escolas de formação política, nas quais milhares de homens e mulheres
foram educados. Participaram
igualmente de processos eleitorais, na fórmula do Partido Paz e Liberdade, uma
casa de esquerda até hoje em atividade, pela qual Eldridge Cleaver disputou as
eleições presidenciais de 1968. Conquistou menos de 50 mil sufrágios: poucos
eram os afro-americanos inscritos para votar. Não alcançaram, em seu auge, mais que 10 mil militantes, segundo cálculos de
vários dirigentes. O potencial de crescimento social, político e até militar,
contudo, despertou a atenção e a ira dos organismos de segurança.
Hoover
ordenou ao FBI que praticasse toda sorte de operação para desmoralizar, dividir
e destruir os Panteras Negras. A caixa de ferramentas contra a organização
rebelde era completa: infiltrações, denúncias forjadas, assassinatos, prisões
em massa, provas plantadas. A polícia de
Los Angeles, seguida pela de outras cidades, deu contribuição cinematográfica à
caçada anunciada, com a criação da SWAT, tropa especial forjada para o combate
ao partido de Newton, Seale e Cleaver. Seu batismo de fogo foi uma batalha para
tomar de assalto a sede da agremiação na cidade dos anjos.
Fim do grupo nos anos 80
O Senado norte-americano, em 1975, reconheceria oficialmente as ilegalidades cometidas. Nenhuma reparação, no entanto, foi determinada. Os que haviam sobrevivido, muitos apodrecendo atrás das grades, não foram contemplados por qualquer lei de amnistia ou indulto. Os policiais responsáveis jamais seriam punidos. A esta altura, além do mais, o fardo de prisões, mortes e divisões já era insuportável. O partido praticamente deixara de existir, apesar dos empenhos de sobrevida até 1982.
Muitos de
seus militantes iriam se incorporar a outros agrupamentos, especialmente ao
Exército Negro de Libertação, atuante até meados dos anos 80. O poder de
mobilização e representação dos Panteras Negras, no entanto, tinha sido
esmagado pelo Estado mais poderoso do mundo.
O chefe da polícia federal norte-americana cumprira a ameaça contida em um documento oficial do FBI: “Jovens negros e ativistas moderados precisam entender que, caso resolvam se transformar em revolucionários, serão revolucionários mortos.”
O chefe da polícia federal norte-americana cumprira a ameaça contida em um documento oficial do FBI: “Jovens negros e ativistas moderados precisam entender que, caso resolvam se transformar em revolucionários, serão revolucionários mortos.”
Artigo de Breno
Altmann publicado no Opera Mundi.
Fonte: odiario.info




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