segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Não, isto não é a revolução de Outubro. Tenham calma...

A metáfora até dava jeito porque a revolução de Outubro foi a 7 de Novembro, pelo calendário gregoriano, e foi no sábado, 7 de Novembro, o dia em que António Costa obteve apoio generalizado do PS para o programa de um governo socialista com o apoio parlamentar do PCP e do Bloco de Esquerda.
 Mas basta olhar para as medidas acordadas entre PS, Bloco e PCP para perceber o longe que estamos do assalto ao Palácio de Inverno por forças bolcheviques – por muito que os partidos da direita e alguns militantes do PS passem as noites a sonhar com o Gulag e se sintam, de repente, vítimas de um Estaline reencarnado em Jerónimo de Sousa. Oh, como era simpático Jerónimo quando não contava para os programas de governo!
O comité central do PCP tomou ontem uma decisão histórica. Pela primeira vez em 40 anos de democracia, aceitou fazer parte do “arco da governação” e negociar um programa mínimo para apoiar um governo PS durante quatro anos. O país ganhou: deixou de estar condicionado ao rotativismo PSD/CDS ou PS/PSD. Agora há uma alternativa que não passa pelo assalto ao Palácio de Inverno e é conforme a Constituição da República.
O programa do governo de esquerda é um conjunto de medidas sociais-democratas. Noutros tempos, muitos militantes do PSD até poderiam rever-se nelas. Aliás, o PCP e o BE conseguiram retirar do programa socialista algumas medidas liberais, como o despedimento conciliatório ou a redução da TSU dos patrões e trabalhadores à conta dos cofres da Segurança Social. Curiosamente, eram as medidas que mais polémica tinham criado dentro do próprio PS.
Se isto vai ser fácil? Não vai. Nada é fácil numa Europa capturada pelo “there is no alternative”, um refrão comungado por socialistas e liberais europeus. Mas a perestroika de Jerónimo de Sousa, a mudança de paradigma no Bloco e a ousadia de António Costa vão permitir mudar qualquer coisa em Portugal. E esse qualquer coisa é, só por si, histórico.

Editorial do i, de Ana Sá Lopes

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