A metáfora até dava jeito porque a revolução de Outubro foi
a 7 de Novembro, pelo calendário gregoriano, e foi no sábado, 7 de Novembro, o
dia em que António Costa obteve apoio generalizado do PS para o programa de um
governo socialista com o apoio parlamentar do PCP e do Bloco de Esquerda.
Mas basta olhar para
as medidas acordadas entre PS, Bloco e PCP para perceber o longe que estamos do
assalto ao Palácio de Inverno por forças bolcheviques – por muito que os
partidos da direita e alguns militantes do PS passem as noites a sonhar com o
Gulag e se sintam, de repente, vítimas de um Estaline reencarnado em Jerónimo
de Sousa. Oh, como era simpático Jerónimo quando não contava para os programas
de governo!
O comité central do PCP tomou ontem uma decisão histórica.
Pela primeira vez em 40 anos de democracia, aceitou fazer parte do “arco da
governação” e negociar um programa mínimo para apoiar um governo PS durante
quatro anos. O país ganhou: deixou de estar condicionado ao rotativismo PSD/CDS
ou PS/PSD. Agora há uma alternativa que não passa pelo assalto ao Palácio de
Inverno e é conforme a Constituição da República.
O programa do governo de esquerda é um conjunto de medidas
sociais-democratas. Noutros tempos, muitos militantes do PSD até poderiam
rever-se nelas. Aliás, o PCP e o BE conseguiram retirar do programa socialista
algumas medidas liberais, como o despedimento conciliatório ou a redução da TSU
dos patrões e trabalhadores à conta dos cofres da Segurança Social.
Curiosamente, eram as medidas que mais polémica tinham criado dentro do próprio
PS.
Se isto vai ser fácil? Não vai. Nada é fácil numa Europa
capturada pelo “there is no alternative”, um refrão comungado por socialistas e
liberais europeus. Mas a perestroika de Jerónimo de Sousa, a mudança de
paradigma no Bloco e a ousadia de António Costa vão permitir mudar qualquer
coisa em Portugal. E esse qualquer coisa é, só por si, histórico.
Editorial do i, de Ana Sá Lopes