segunda-feira, 9 de março de 2015

Videirinhos


Todos nós vamos formando opiniões sobre as pessoas que desempenham cargos políticos, para além das apreciações políticas que fazemos das suas atuações. Sendo que, se é verdade que na maior parte dos casos essas apreciações vão no mesmo sentido, ou seja, a opinião negativa ou positiva que temos das políticas que defendem influenciam a apreciação pessoal que fazemos da pessoa que as executa, também acontece estes dois níveis de apreciação estarem nos antípodas.

Por exemplo, as profundas discordâncias que tenho sobre o percurso político e as ideias de Adriano Moreira não me impedem de o ouvir sempre com atenção e de ficar com a ideia de que aprendo sempre alguma coisa com o que ouço.

Várias pessoas, mesmo discordando completamente de Passos Coelho e considerando que as suas políticas são desastrosas para o país e para os portugueses, tinham alguma consideração pela pessoa. Pela sua aparente honestidade, pela origem "modesta" (vivia em Massamá e passava férias no Algarve, fora dos luxos) e mesmo pelo que parecia ser a convicção com que coerentemente defendia as suas políticas. Naturalmente que esta apreciação está influenciada pelas personagens com quem Pedro Passos Coelho mais facilmente se comparava: o seu antecessor, José Sócrates, e o seu parceiro de coligação, Paulo Portas.

A sucessão de episódios em que José Sócrates se envolveu, desde a licenciatura à troca de assinaturas em projetos de concelhos onde a lei o impedia de assinar, passando pelo aterro da Cova da Beira e pelo caso Freeport, permitiram consolidar uma opinião extremamente negativa sobre o homem que está por detrás do político.

Portas, embora não esteja isento de diversos casos pouco abonatórios (a Moderna e o Jaguar em que se passeava, os financiamentos ao CDS pelo "Jacinto Leite Capelo Rego", os casos em que estiveram envolvidos diversos ministros do CDS, como o dos sobreiros e principalmente os submarinos - caso que, ou me engano muito, ou só terminará quando Portas deixar o Governo), define-se pessoalmente pelo seu modo de fazer política. O homem que, enquanto jornalista, dizia que nunca queria ir para a política; o homem que privilegia o folclore das feiras, das samarras e dos bonés para esconder as suas ideias (que raramente se concretizam, depois, no Governo, não é reformados, agricultores, pescadores e ex-combatentes?); o homem que fez o que fez a Ribeiro e Castro; o homem que tomou a decisão irrevogável de sair do Governo, mas que afinal ficou; o homem que nos tempos difíceis deste Governo desaparece, mas que se põe em bicos de pés para dar as boas notícias.

Estes homens só muito dificilmente não beneficiam quem lhes sucede ou está ao seu lado, como é o caso de Passos Coelho. Mas esta "vantagem" ruiu por efeito da erosão dos factos. A sua umbilical ligação a Relvas que levou o "chico-espertismo" ao extremo de uma "licenciatura". A sua associação com o mesmo Relvas à Tecnoforma que promovia cursos pagos por dinheiros públicos para aeródromos, nalguns casos inativos. O processo das ajudas de custo que recebia da Tecnoforma (e seriam cerca de 5 mil euros por mês!) para fugir aos impostos e contornar as incompatibilidades do cargo de deputado. Agora o não pagamento da Segurança Social e as desculpas esfarrapadas que deu para esse facto, bem como para os incumprimentos fiscais (onde reconheceu, "com humildade", que por vezes não pagava porque não tinha dinheiro, ou seja, que, objetivamente, "vivia acima das suas posses"!...).

Constatamos, assim, que também neste caso não há diferenças substanciais entre o político e as políticas que defende. Perante isto, ou fazemos como o inefável Cavaco, que, esquecendo que é presidente da República, atribui o caso à "luta político-partidária", ou damos o murro na mesa e dizemos Basta! Porque a ascensão de videirinhos aos mais altos cargos políticos não destrói, apenas, a sua credibilidade pessoal: mina, isso sim, o regime democrático.

Artigo de Rui Sá no JN

Sem comentários:

Enviar um comentário