segunda-feira, 23 de março de 2015

Reabrir feridas

Chantageado como se vê por Schäuble e Dijsselbloem, porque haveria Tsipras hesitar em reabrir a questão da dívida alemã?

São muito reveladoras as reações perante a proposta do novo Governo grego do Syriza de avaliar com rigor as reparações a que o Estado e milhares dos seus cidadãos têm direito pelos danos causados por aquela que foi uma das piores experiências de ocupação nazi (e italiana) durante a II Guerra Mundial.

O medo de que a viragem anti-austeritária se contagie tem mobilizado estereótipos rançosos sobre os gregos e um moralismo que mete dó (subscrito pelos mesmos que veem sempre conspirações e “assassinatos de caráter” todas as vezes que se revelam Tecnoformas, Freeports ou dívidas à Segurança Social). Procura-se dizer que os gregos encontraram o enésimo truque para não pagar o que devem ao contribuinte alemão – porque é assim mesmo que, na Alemanha (e em Portugal) a dívida grega é descrita!

Vamos por partes. A Grécia foi atacada em 1940 pela Itália de Mussolini. Rechaçado o ataque, Hitler invadiu o país na Primavera de 1941 e tratou os gregos como tratou jugoslavos, polacos, soviéticos, isto é, com a brutalidade devida aos untermensch, os sub-humanos, fazendo-os sofrer muito mais, por exemplo, do que sofreram franceses, escandinavos, belgas, holandeses – 560 mil gregos morreram na guerra, 7% de toda a população, um número muito superior, por exemplo, ao das vítimas francesas, um país com seis vezes mais habitantes. Entre elas, não mais de 17 mil eram militares. A Grécia, como toda a Europa ocupada pelos nazis, foi dos países onde os civis pagaram o preço mais pesado da guerra, produto da repressão pavorosa dos movimentos de resistência e das represálias contra a população. Calcula-se que 130 mil gregos tenham sido executados. A estes, somem-se-lhes 54 mil judeus, incluída uma das mais antigas e consolidadas comunidades sefarditas do Mediterrâneo, a de Salónica, entre os quais se contavam vários judeus gregos que se haviam acolhido à legislação portuguesa de 1913 que lhes garantia proteção diplomática, e que Salazar abandonou à sua sorte em 1942, quando os nazis os deportaram para os campos de extermínio.

Derrotada a Alemanha em 1945, os aliados acordaram reparações de guerra que a Alemanha deveria pagar aos países que atacou. Enquanto ocuparam a Alemanha, EUA, Grã-Bretanha, França e URSS fizeram-se indemnizar com os bens alemães que tinham ao seu dispor, até 1949, mas rapidamente entraram em conflito sobre a questão e a Guerra Fria, a partir de 1947, congelou durante muito tempo o problema. Os dois Estados alemães (a RFA e a RDA), constituídos em 1949, abordaram de forma contraposta o processo de desnazificação (Adenauer pressionou sempre os aliados para amnistiar condenados nazis, manteve ex-militantes nazis nos seus governos, um deles, Kiesinger, chegou mesmo a chanceler da RFA), mas, resguardados pela lógica da Guerra Fria, beneficiaram durante muito tempo da mesma impunidade face aos seus aliados na NATO e no Pacto de Varsóvia: os EUA e a URSS dissuadiram os parceiros menores dos seus respetivos blocos (como a Grécia dentro da NATO) de exigirem reparações próprias.

Quando, em 1951-53, Israel conseguiu abrir uma brecha na estratégia alemã-ocidental e forçou uma negociação em nome dos sobreviventes do Holocausto que haviam imigrado para o novo Estado, os demais países obrigaram os alemães a confrontar-se com as suas responsabilidades. Entre 1959 e 1964, quinze anos depois do fim da guerra, a RFA assinou acordos com doze países ocidentais, entre os quais a Grécia, governada por uma monarquia autoritária quase tão embaraçada na negociação quanto o Governo de Bona. A repressão nazi na Grécia havia-se abatido principalmente sobre a Resistência comunista, a mesma contra a qual os monárquicos gregos combateram depois, na guerra civil de 1944-49, na qual o apoio de britânicos e americanos foi decisivo. Não admira, portanto, que o Governo grego, aliado da RFA na NATO, não se tivesse empenhado em fazer reconhecer os seus direitos... O fim da Guerra Fria, a reunificação alemã de 1990 e, sobretudo, a aproximação da morte para os poucos sobreviventes que restavam dos milhões que haviam sido deportados para os campos de extermínio e de concentração, ou dos milhões que haviam sido usados como escravos ao serviço da indústria alemã, abriu caminho a novas negociações nos anos 90, envolvendo valores comparativamente simbólicos, de que os gregos, contudo, pouco beneficiaram.

Cinquenta anos depois do mísero acordo de 1960, subjugada a Grécia por uma dívida contraída nas condições duvidosas que conhecemos, que a transformou numa colónia de Bruxelas sob regras económicas impostas por Berlim, é perfeitamente razoável que os gregos, insultados todos os dias de laxistas e corruptos, queiram reabrir um problema que o Estado alemão sabe bem que tão cedo não se fechará. Aliás: é acima de tudo a atitude de Berlim que mais contribui para que se não feche! A iniciativa do Governo grego é até perfeitamente subsidiária: é verdade que Atenas quer voltar a discutir um “empréstimo” que o ocupante alemão subtraiu dos cofres gregos durante a guerra, em 1942, e que nunca foi devolvido, mas é sobretudo uma sentença do Tribunal Supremo grego, de 2000, que irrita os alemães. A justiça reconheceu, então, o direito dos descendentes de vítimas do massacre perpetrado pelas Waffen SS na aldeia de Distomo, em 1944, matando 218 pessoas, a receberem uma indemnização, fixada em 28,6 milhões de euros, a cargo do Estado alemão. Perante a recusa alemã em pagar, o Supremo exigiu ao Governo que expropriasse bens alemães na Grécia. Querendo evitar enfrentar Berlim, o Governo não o fez. Quando um tribunal italiano deu razão aos gregos, a Alemanha levou o processo ao Tribunal Internacional da Haia e, para escândalo das organizações internacionais de direitos humanos, ganhou.

Já em 2013, uma comissão de especialistas nomeada pelo anterior Governo calculara entre 269 e 332 mil milhões de euros o montante de todas as reparações devidas pela Alemanha e que não foram pagas em 1960. Uma quantia que supera toda a dívida grega. Chantageado como se vê por Schäuble e Dijsselbloem, porque haveria Tsipras hesitar em reabrir a questão? Porque a sua atitude não contribui para a construção europeia? Porquê: a dos alemães e dos seus aliados austeritários, contribui?
 
Artigo de Manuel Loff, Público

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