sábado, 24 de maio de 2014

Enterro da Europa Connosco

25 de Maio
Participe na Cerimónia !
 
No próximo domingo, a política de confisco vai a votos. Uma política que não merece prova de vida continuada. Jaz morta & arrefecida segundo as leis da razão geral, embora se mantenha ligada à máquina da usura & da vilania. Assim sendo, para os defensores dos interesses electivos-colectivos, a pauta da austeridade soa a música fúnebre. De facto, esta UE é mais um cadáver adiado que procria. [1] Sendo o que é, o corpo presente será velado em milhares de urnas. Os que insistam em celebrar o Roubo do Século & a Ocupação do Exército da Finança têm uma bela ocasião para expressar os seus sentimentos à Famiglia do Arco, a quem os portugueses agradecem, entre outras benesses & bençãos, os Fundos Perdidos, o BPN, o BPP, as PPP, os Swap, os Submarinos, a Corrupção em Grande Escala, o Assalto Fiscal aos Indefesos, o Desemprego Massivo, a Emigração em Massa, a Miséria Máxima Garantida, o Desmantelamento do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social, da Escola Pública. Os programadores de ilusões & emoções apreciam eleitores de lágrima fácil, dados a amores de perdição. Domingo, demasiados farão fila para manifestar a sua fidelidade à troika de residência fixa & confessar a sua eterna saudade à troika da falsa partida.
Por outro lado, nós, tendencialmente mais dos que os do costume, denunciaremos as propostas indecentes da Frau Merkel & do Mister Obama, ela, Mordoma dos Donos da Europa, ele, Porteiro dos Senhores do Mundo. Os mandatários & os paus-mandados do Capitalismo Global afivelarão a máscara da vontade popular, uns com ar de velório (temem funestos desfechos), outros com expectativa nas maçãs do rosto (apostam na inércia rotativista). Olhai-os de frente. São eles. Em pose cívica-cínica. Porventura, amáveis. Se mediaticamente correcto, pesarosos. Milhões de empobrecidos & devorados pelos gangsters em três anos de ajuste-saque? É de lastimar. Ninguém ficaria indiferente. Os crocodilos comovem-se. Se for conveniente dar corda ao coração, imitam as vítimas. Partilham as dores da pátria & da mátria. Fingirão pertencer à comunidade. São predadores de boas famílias & de bons princípios. Alguns frequentaram universidades à bolonhesa. Alguns especializaram-se no mundo do crime. Ei-los. Habitualmente rodeados de câmaras, microfones, toma-notas, guarda-cabeças, guarda-costas. Ei-los. Os Trigémeos da Democracia Cristã na Gaveta, da Social-Democracia na Gaveta, do Socialismo na Gaveta. Da Democracia cada vez mais engavetada. Fixai-os de perfil. São eles. Os da Democracia Cristã da Sopa dos Pobres, os da Social-Democracia dos Barões, os do Socialismo da FaceOculta. 

Entretanto, nós, os do
 dia limpo, [2] pronunciar-nos-emos contra o embuste da Europa connosco, daremos a cara pela Civilização Humana, pelos Valores Constitucionais, pela Inalienável Soberania, pela Indesarmável Resistência, pela Efectiva Ruptura, pela Mudança de Projecto/Trajecto. Não faltaremos, pois, à chamada de domingo, 30 dias após o 25 de Abril, a três dias do 28 de Maio.

Participaremos, consequentemente, com a nossa pazada, no euro-enterro.
(1). Fernando Pessoa, Mensagem, Parceria António Maria Pereira, 1934. 
(2) Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, Moraes Editores, 1977. 
CÉSAR PRÍNCIPE
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

25 verdades sobre os Repórteres Sem Fronteiras


A organização francesa pretende apenas defender a liberdade de imprensa. Na verdade, por trás da nobre fachada, esconde-se uma agenda política muito precisa.

1. Fundada em 1985 por Robert Ménard, Jean-Claude Guillebaud e Rony Brauman, a Repórteres sem Fronteiras tem como missão oficial “defender a liberdade de imprensa no mundo, isto é, o direito de informar e ser informado, conforme o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos.”

2. Entretanto, apesar dessa profissão de fé oficial, a RSF tem uma face obscura e uma agenda política muito precisa, ligada à de Washington, e arremete particularmente contra os governos de esquerda da América Latina, preservando, ao mesmo tempo, os países desenvolvidos.

3. Assim, a RSF tem sido financiada pelo governo dos Estados Unidos pela National Endowment for Democracy (Fundação Nacional pela Democracia, a NED, por sua sigla em inglês). A organização o reconhece: “Efetivamente, recebemos dinheiro da NED. E não é nenhum problema para nós.”

Wikicommons
4. A NED foi criada pelo antigo presidente norte-americano Ronald Reagan em 1983, em uma época na qual a violência militar tinha tomado a dianteira da diplomacia tradicional nos assuntos internacionais. Graças à sua poderosa capacidade de penetração financeira, a NED tem como objetivo debilitar os governos que se oporiam à política externa de Washington.
[RSF nunca se pronunciou sobre o caso do jornalista Mumia Abu-Jamal, que cumpre prisão perpétua nos EUA]

5. De acordo com o New York Times (em artigo de março de 1997) a NED “foi criada há 15 anos para realizar publicamente o que a Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência, a CIA) tem feito sub-repticiamente durante décadas. Gasta 30 milhões de dólares anuais para apoiar partidos políticos, sindicatos, movimentos dissidentes e meios de comunicação de dezenas de países.”

6. Em setembro de 1991, Allen Weinstein, pai da legislação que deu luz à NED, expressou o seguinte ao Washington Post: “Muito do que fazemos hoje tem sido feito clandestinamente pela CIA há 25 anos.”

7. Carl Gershman, primeiro presidente da NED, explicou a razão de ser da fundação em junho de 1986: “Seria terrível para os grupos democráticos do mundo inteiro serem vistos como subvencionados pela CIA. Vimos isso nos anos 60 e por isso demos um fim nisso. É porque não poderíamos continuar que a fundação foi criada.”

8. Assim, segundo o The New York Times, Allen Weinstein e Carl Gershman, a RSF é financiada por um escritório de fachada da CIA.

9. A RSF também recebeu financiamento do Center for a Free Cuba (Centro para uma Cuba Livre). O diretor da organização à época, Frank Calzón, foi anteriormente um dos presidentes da Fundação Nacional Cubano-Americana (FNCA), gravemente implicada no terrorismo contra Cuba, como foi revelado por um de seus antigos diretores, José Antonio Llama.

10. A RSF recebeu fundos da Overbrook Foundation, entidade fundada por Frank Altschul, promotor da Radio Free Europe, estação da CIA durante a Guerra Fria, e colaborador próximo de William J. Donovan, chefe dos serviços secretos estadunidenses nos anos 50 e fundador do Office of Strategic Services (Agência de Serviços Estratégicos), predecessora da CIA.

11. No passado, a RSF se manteve em silêncio sobre as exações cometidas pelo Exército dos Estados Unidos contra os jornalistas. Assim, a RSF somente de lembrou tardiamente — cinco anos depois — do caso Sami Al-Haj, jornalista do canal do Qatar Al-Jazeera, preso e torturado no Afeganistão por autoridades norte-americanas e em seguida enviado para Guantánamo. Al-Haj foi libertado no dia 1 de maio de 2008, depois de mais de seis anos de calvário. Ou seja, a RSF precisou de uma investigação de 5 anos para descobrir que Al-Haj foi preso, sequestrado e torturado apenas por ser jornalista.

12. Em um relatório de 15 de janeiro de 2004, a RSF exonerou de qualquer envolvimento os militares norte-americanos responsáveis pelo assassinato do jornalista espanhol José Couso e de seu colega ucraniano Taras Protsyuk no hotel Palestina, em Bagdá. De acordo com a família de Couso, “as conclusões desse relatório isentam de culpa os autores materiais e reconhecidos do disparo contra o hotel Palestina baseando-se na duvidosa imparcialidade dos envolvidos e do próprio testemunho dos autores e responsáveis pelo disparo, deslocando essa responsabilidade para pessoas não identificadas. A realização desse relatório foi assinada por um jornalista, Jean-Paul Mari, que tem conhecidas relações com o coronel Philip de Camp, militar que reconheceu seu envolvimento no ataque e nas mortes dos jornalistas do hotel Palestina e, além disso, seu relatório se apoia no testemunho de três jornalistas das forças dos Estados Unidos, todos eles norte-americanos, tendo alguns deles feito parte — Chris Tomlinson — dos serviços de inteligência do Exército dos Estados Unidos durante mais de sete anos. Nenhum dos jornalistas espanhóis que estavam no hotel foram consultados para a elaboração desse documento”. No dia 16 de janeiro de 2007, o juiz madrilenho Santiago Pedraz emitiu uma ordem de prisão internacional contra o sargento Shawn Gibson, o capitão Philip Wolford e o tenente-coronel Philip de Camp, responsáveis pelos assassinatos de Couso e Protsyuk e absolvidos pela RSF.

Sami Al-Haj, jornalista do canal do Qatar Al-Jazeera, preso e torturado no Afeganistão:


 13. A RSF fez apologia à invasão do Iraque em 2003 ao afirmar que “a derrubada da ditadura de Saddam Hussein pôs fim a 30 anos de propaganda oficial e abriu uma era de nova liberdade, cheia de esperanças e de incertezas, para os jornalistas iraquianos. Para os meios de comunicação iraquianos, décadas de privação total de liberdade de imprensa chegaram a seu fim com o bombardeio do ministério de Comunicação, no dia 9 de abril em Bagdá.”

14. No dia 16 de agosto de 2007, durante o programa de rádio “Contre-expertise”, Robert Ménard, então secretário-geral da RSF, legitimou o uso da tortura.

RSF
15.  A RSF apoiou o golpe de Estado contra o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, que foi organizado pela França e pelos Estados Unidos, com o matéria “A liberdade de imprensa recuperada: uma esperança a ser mantida.”
[Campanha contra Cuba organizada pelos RSF]

16. Durante o golpe de Estado contra Hugo Chávez em abril de 2002, organizado por Washington, a RSF publicou um artigo, no dia 12 de abril de 2002, que retomava sem reserva alguma a versão dos golpistas e tentava convencer a opinião pública internacional de que Chávez tinha renunciado. “Recluso no palácio presidencial, Hugo Chávez assinou sua renúncia durante a noite, sob pressão do Exército. Depois foi levado para Fuerte Tiuna, a principal base militar de Caracas, onde está detido. Imediatamente depois, Pedro Carmona, o presidente da Fedecámaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio da Venezuela), anunciou que dirigiria um novo governo de transição. Afirmou que seu nome era fruto de um ‘consenso’ da sociedade civil venezuelana e dos comandantes das forças armadas.”

17. A RSF sempre negou tomar nota do caso de Mumia Abu-Jamal, jornalista negro preso nos Estados Unidos há 30 anos por denunciar em suas reportagens a violência policial contra as minorias.

18. A RSF organiza regularmente campanhas contra Cuba, país onde nenhum jornalista foi assassinado desde 1959. A organização está em estreita colaboração com Washington a esse respeito. Dessa forma, em 1996, a RSF teve um encontro em Paris com Stuart Eizenstat, embaixador especial da administração Clinton para assuntos cubanos.

19. No dia 16 de janeiro de 2004, a RSF se reuniu com os representantes da extrema-direita cubana da Flórida para estabelecer uma estratégia de luta midiática contra o governo cubano.

20. A RSF lançou várias campanhas midiáticas difundindo mensagens publicitárias nos meios de comunicação escritos, de rádio e de televisão, destinadas a dissuadir os turistas de viajar para Cuba. É o que preconiza o primeiro relatório da Comissão de Assistência para uma Cuba Livre, publicado pelo presidente George W. Bush em maio de 2004 e que recrudesce as sanções contra Cuba. Assim, esse relatório cita a RSF na página 20 como exemplo a ser seguido.

21.  A RSF afirma abertamente que somente lhe interessam os países do Terceiro Mundo: “Decidimos denunciar os atentados contra a liberdade de imprensa na Bósnia e no Gabão e as ambiguidades dos meios argelinos ou tunisianos... mas não tomamos nota dos excessos franceses”. Por quê? “Porque se o fazemos, corremos o risco de incomodar alguns jornalistas, suscitar a inimizade dos grandes donos de imprensa e irritar o poder econômico. Agora veja, para nos tornamos midiáticos, precisamos de cumplicidades dos jornalistas, do apoio dos donos de imprensa e do dinheiro do poder econômico.”

22. Jean-Claude Guillebaud, co-fundador da RSF e primeiro presidente da associação, abandonou a organização em 1993. Explicou as razões: “Eu pensava que uma organização desse tipo poderia ser legítima se incluísse um trabalho de crítica do funcionamento dos meios de comunicação ocidentais. Seja sobre os desvios do trabalho jornalístico (falsas entrevistas etc.) ou fazendo um trabalho profundo de reflexão sobra e evolução dessa profissão, suas práticas e os possíveis ataques às liberdades nas democracias. Caso contrário, nos veriam como neocolonialistas, como arrogantes que pretendem dar lições. Quando se chama a atenção dos líderes dos países do Terceiro Mundo sobre os ataques à liberdade de imprensa em seus países, a questão que se levanta automaticamente contra nós é saber que uso nós damos à nossa liberdade. Ainda que os objetivos não sejam os mesmos, é uma questão essencial e eu achava que tínhamos de dedicar a ela 50% do nosso tempo e de nossa energia (...). À medida que a associação se desenvolvia, as operações se tornavam mais e mais espetaculares. Foram levantadas duas questões: não havia uma contradição em denunciar certos desvios do sistema midiático e usar os mesmos métodos nas nossas ações de denúncia? Por sua vez, Robert Ménard achava que tinha de passar por cima de toda a atividade crítica aos meios de comunicação para conseguir o apoio da grande imprensa e das grandes cadeias de televisão (...). Para mim, pareciam próximos demais da imprensa anti-Chávez na Venezuela. Não há dúvida de que era necessário ser mais prudente. Eu acho que eles ouvem muito pouco sobre os Estados Unidos.”

23.  O diário francês Libération, fiel patrocinador da organização, aponta que a RSF permanece em silêncio sobre os abusos dos meios de comunicação ocidentais: “No futuro, a liberdade de imprensa será exótica ou não será. Muitos “reprovam sua ira contra Cuba e contra a Venezuela e sua indulgência em relação aos Estados Unidos, o que não é falso.”

24. A RSF nunca dissimulou suas relações com o mundo do poder. “Um dia tivemos um problema de dinheiro. Eu liguei para o empresário François Pinault pedindo que nos ajudasse (...). Ele respondeu meu pedido em seguida. E isso é a única coisa que importa” porque “a lei da gravidade existe, queridos amigos. E também a lei do dinheiro.”

25. Assim, apesar das reinvindicações de imparcialidade e de defesa da liberdade de imprensa, a RSF tem efetivamente uma agenda política e arremete regularmente contra os países da nova América Latina.

Artigo de Salim Lamrani.
Versão em português via OperaMundi

terça-feira, 6 de maio de 2014

A voz do dono

 
No conflito ucraniano, as grandes vítimas são a população daquele país, mas a primeira foi a verdade jornalística. Há muito que os media não fazem mais que propaganda.
 
Um assassinato é um assassinato, aqui ou na China. O que é uma verdade cristalina parece escapar a grande parte do chamado jornalismo de referência. Em muitos media reina a ideia orweliana de que as pessoas são todas iguais mas há umas muito mais iguais que outras.

No dia 2 de Maio realizou-se uma manifestação pela unidade da Ucrânia na cidade de Odessa. Integraram essa marcha milhares de pessoas, entre as quais 1500 ultras de claques de futebol, armados, muitos vindos da parte ocidental do país. Durante a manifestação verificaram-se confrontos violentos com grupos que são contra o governo de Kiev, que atacaram a marcha. Na sequência desses incidentes, milhares de manifestantes independentistas ucranianos queimaram um acampamento de activistas contra o governo de Kiev, vulgarmente designados "pró-russos", perto da sede da união dos sindicatos locais. As pessoas que estavam no acampamento refugiaram-se na sede do sindicato, que foi atacada com cocktails-molotov lançados pelos independentistas. Foram queimadas vivas mais de 40 pessoas, fala-se de 42 a 46 vítimas, perante a passividade da polícia e a inacção dos bombeiros. A polícia, actuando às ordens das autoridades de Kiev, prendeu activistas pró-russos que escaparam à fornalha. Dias depois, milhares de manifestantes libertaram os sobreviventes do massacre. O jornal "Público" reza a esse respeito: "Cerca de 30 militantes separatistas que estavam detidos no quartel-general da polícia de Odessa, sob suspeita de envolvimento nos violentos confrontos de sexta-feira que fizeram mais de 40 mortos, foram libertados na sequência de ataque surpresa de activistas pró-russos." Neste texto, igual ao da maior parte dos jornais e televisões, escamoteia-se o essencial: quem matou e quem foi morto. Em nenhum local dessas notícias é dito o óbvio: foram assassinados mais de 40 opositores ao governo de Kiev por manifestantes armados, afectos às forças que apoiam o governo ucraniano, nomeadamente os sectores nazis ligados ao Svoboda e ao Sector das Direitas. Apesar de os factos serem indesmentíveis, a comunicação social ocidental relatou o acontecido com a seguinte grelha de leitura : "No decorrer de incidentes entre pró-russos e independentistas ucranianos morreram mais de 40 pessoas. As autoridades de Kiev acusam Moscovo de infiltrar elementos nos activistas pró-russos e orquestrar uma provocação." Estamos perante um crime, aqui, na Ucrânia ou no deserto do Sara, mas os jornalistas de turno ignoram-no.

Artigo de Nuno Ramos de Almeida no i

O Negócio dos Submarinos Alemães



Uma reportagem recente do jornalista António Cascais realizada para a Televisão Pública Alemã, sobre a história dos submarinos comprados à Alemanha na altura que Paulo Portas era Ministro da Defesa. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Europa reocupada

A República Federal da Alemanha absorveu a República Democrática Alemã. Aumentou a massa corporal e muscular. A reincorporação não ocorreu por magia, não obstante a Conversão da Rússia constar dos apostolados. O milagre teve os seus agentes e artífices: na sombra, operou a inteligência germano-americana; à luz do dia, actuou o complexo mediático; e como seguro contra todos os riscos da blitzkrieg 89, a camarilha da Perestroika desguarneceu as muralhas do Kremlin. Até acreditou ou simulou acreditar na promessa de que a NATO jamais integraria estados e regiões da área de influência e segurança da URSS. O ataque-relâmpago do Novo Eixo mereceu tratamento de visita guiada. Gorbachev confessou (sem pingo de rubor) que, no Ocidente, à excepção dos USA, todos estavam contra a queda do muro e a reunificação, desde Thatcher a Andreotti, a Mitterrand: Todos vieram até mim, um após o outro, pedindo isso. Mitterrand era ferozmente contrário. Mais esperto do que os outros, dizia: “Amo a Alemanha de tal forma que prefiro ter duas” Só depois, quando tudo se precipitou, todos assinaram. [1] Os amigos ocidentais (ingleses, italianos, franceses, etc.) chegaram a implorar que o Exército Vermelho esmagasse o levantamento. Contudo, o Actor Principal da Glasnost , capitulacionista de salão e padecente da doença infantil do capitalismo, deu ouvidos ao interlocutor de facto. Genuflectiu como se uma superpotência real não tivesse argumentário. O valentaço Gorby foi o mesmo que, anos antes, noutra entrevista, declarou, visando a marioneta Ieltsin: Temos uma Rússia fraca e um presidente fraco. [2] Quanto à Europa NATO/UE, resmunga e amua mas não passa de pátio dianteiro dos USA, recomendável para acampamentos do Pentágono, estações e prisões da CIA, mobilizações predatórias, vendas de armas e pacotes de propaganda, jogos bolsistas e fundistas, colocação de apples, googles, cineprodutos, transgénicos, fármacos, heroína do Afeganistão e cocaína da Colômbia (demarcações da Esfera político-militar USA). O narcomercado é um dos super-negócios do planeta. Os USA são o guardião- dealer. Na definição dos interesses vitais e dispositivos da sua manutenção, não admira, pois, que a chamada Europa não tenha nem esteja autorizada a ter política de defesa nem política externa fora dos varais e canais dos USA, embora a sede da NATO e a sede da UE, irmãs gémeas, se encontrem na mesma cidade (Bruxelas), com moradas autónomas para fingir independência ou disfarçar que não são geridas desde Washington. Dominique Villepin, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo primeiro-ministro de França, desabafou (cito de memória), num momento de franqueza e finura de guilhotina: Não há NATO. Há generais americanos. A própria Alemanha está sob tutela do patrono atlântico: os USA mantêm em solo alemão cerca de 60 mil efectivos e 227 bases, algumas dotadas de bombas nucleares. As instalações norte-americanas funcionam ainda como parabólicas de espionagem, constituindo a nação-hospedeira um dos alvos. A Alemanha é um ocupante-ocupado, como Portugal foi um colonizador-colonizado. De resto, na linha de reactualização e reconfiguração do Eixo (também o Japão se acha ocupado pelos USA), que aí dispõem de 50 mil efectivos em 135 bases, algumas equipadas com cargas atómicas. A Alemanha e o Japão jazem sob o dicktat dos USA, que lhes distribui guiões e fixa taxas de empenhamento no tarefário geo-estratégico, particularmente no cerco à Rússia e à China. O Império norte-americano não levanta ferro. Nem sequer entreabre a cortina.
Muro na Palestina.
Muro da vergonha
Caiu em Berlim
Vergonha só lá
Muros há sem fim [3]

O mundo estava cortado e recortado por altos e grossos muros e continuou a levantar vedações de betão, arame farpado, cabos eléctricos e torres de metralhadoras, mas só um foi apodado de vergonhoso. Todavia, convém destapar outras barreiras, as credoras de aplauso, de compreensão, tolerância ou esquecimento da comunidade internacional, tão proficientemente facetada e discricionariamente representada pelos USA e pelos seus carros de guerra psicológica, as televisões, as rádios, os jornais. Eis uma lista de muros deixados em paz pelas chancelarias e pelos agitadores de direitos universais: USA-México, Índia-Bangladesh, Índia-Paquistão, Índia-Birmânia, Paquistão-Afeganistão, Marrocos-Sara Ocidental, Botsuana-Zimbábue, Coreia do Sul-Coreia do Norte, China-Coreia do Norte, Uzbequistão-Quirquistão, Irão-Paquistão, Arábia Saudita-Iraque, Israel-Cisjordânia, Israel-Líbano, Egipto-Gaza, Grécia-Turquia, Chipre (divisória greco-turca), Ceuta/Melilla (Espanha), Belfast (Irlanda do Norte), Bagdad (Iraque), La Molina (Peru), Rio de Janeiro (Brasil). Todos se encontram de pé e prometem durar e perdurar. Inadiável era a queda do Muro de Berlim, prenúncio aparatoso e ruidoso do desabamento da URSS e do bloco socialista. Festejável com música rock, tanques de cerveja, pichagens alucinogénias. Vinte anos depois, enquanto os redesenhadores de mapas e as trupes do Wall Show celebravam a efeméride, a população da ex-Alemanha Democrática sentia o ferrete da anexação ou reunificação. [4]

 

IV Reich em acção

Demolido o muro, riscada do planisfério a Alemanha socialista, a Alemanha capitalista e imperialista encetou o desarme das alfândegas continentais, acobertando-se sob as vestes da confraria europeia: instituiu a livre circulação de capitais; fixou taxas de câmbio irrevogáveis; fez entrar o marco em circulação com nome de euro, assim se posicionando como player nos mercados de divisas e condicionando as exportações, especialmente dos países do Sul/Leste; desestruturou as actividades concorrenciais (desmantelamento e deslocalização de indústrias, abate de frotas pesqueiras, subsídios de funeral para as agriculturas). De seguida, a Nova Alemanha, a que carrega 100 milhões de mortos (contabilidade do séc. XX) e uma vasta geografia de ruínas, acelerou a reocupação dos submetidos na II Grande Guerra. Só a Noruega resistiu. Acertaram o passo com o ex-ocupante: Áustria, Bélgica, Bulgária, Checoslováquia (República Checa e Eslováquia), Dinamarca, Estónia, França, Grécia, Hungria, Itália, Jugoslávia (Croácia/ Eslovénia/ Macedónia/ Sérvia/ as duas últimas à espera que o ex-ocupante aceda ao pedido de reocupação), Letónia, Lituânia, Luxemburgo, Mónaco, Holanda, Polónia, República Checa, San Marino, Ucrânia (a caminho da reocupação). Paralelamente, o IV Reich foi ornando o cinturão de caça com uma série de troféus que no período do III Reich haviam demonstrado comportamento de bons alunos : Espanha, Finlândia, Portugal, Roménia. Há igualmente que inscrever a zona grega do Chipre e a República de Malta na Cartografia da Grande Guerra Financeira. Pelo meio, com a Alemanha Democrática reintegrada, dissolvida e recentrada, a Germânia liderou a desintegração da República Federativa da Jugoslávia, que tinha de levar uma ensinadela por se manter não-alinhada, soberana e socialista. O Curso de PatroNATO durou de 24/03/ a 11/06 de 1999, sem mandato das Nações Unidas, a pretexto de instantes razões humanitárias. O programa NATO School incluiu escombros generalizados e selectivos, doses de urânio empobrecido com certificado de garantia para centenas de milhares de anos, extensas manchas de sangue e lágrimas e a imposição de um estado fantoche e artificial (Kosovo), com uma super-base USA, governado com savoir-faire pelo mundo do crime (local e sem fronteiras).

Wehrmacht do Euro

O Euro é o Marco do Neo-Expansionismo. Na guerra económico-financeira, os Estados do Sul, previamente desarmados, entre a espada da moeda forte e a parede da economia fraca, tentaram o salto em frente, seduzidos pelo crédito de torneira aberta e pela carteira de fundos, contraindo a doença da dívida galopante e do défice excessivo, estimulada pelos credores, apostados em arrastar os esfomeados de barriga dilatada para uma situação de emergência. Sob a bota e a batota da usura, com governos-carpete que vendem a pataco as jóias da economia e tripudiam os princípios da soberania, o capitalismo euroglobal lançou os seus rapazes ou rapaces sobre os activos sociais (salários, reformas, pensões, receitas fiscais, reservas de ouro e divisas, serviços públicos) e os activos empresariais do Estado. A operação de saque amigo foi implacavelmente montada. Nem será preciso recorrer a teóricos de última geração da economia de guerra e do garrote financeiro. Bastará rebuscar fontes da mesma água, validadas pela constância dos factos e a didáctica dos séculos. Neste caso, fontes euro-americanas. Portadoras de credenciais. Insuspeitíssimas. Uma a jorrar da bocarra de um banqueiro, alemão e judeu, e outra da carranca de um fazendeiro, congressista e presidente com direito a efígie monetária e a inscrição In God We Trust/Deus Seja Louvado/Confiamos em Deus.

Eis a voz da banca:
Dai-me o controlo da moeda de um país e não me importará quem faz as leis.
[5]

Eis o porta-voz:
Há duas maneiras de submeter e escravizar uma nação: uma é pela espada e outra é pela dívida. A dívida é uma arma contra os povos. Os juros são as munições.
[6]

Guião falangista

De sublinhar que o projecto de domínio regional e intercontinental está a ser assessorado pela extrema-direita. Cada vez mais motivada com chavões anticomunistas, anti-semitas, racistas, xenófobos, homofóbicos, machistas. Está a levedar um microclima século XX, anos 30. O capitalismo volta a dar corda à delinquência falangista, a fim de ensaiar governos de mão dura para acentuar a espoliação e conter a resistência popular. Enraivecer e desnortear as massas, desviando-as dos referenciais democráticos e do sentido de classe, faz parte do caderno de encargos da besta negra. Os operacionais de trabalhos sujos da História aí estão nas ruas e os branqueadores movem-se pelos parlamentos, pelos governos, pelos meios de comunicação, pelas academias. É o caldo de cultura dos bárbaros. Que não estão às portas da Europa: estão dentro. A Ucrânia é o mais recente caso de tomada do poder pelo bandoleirismo nazifascista, redoutrinado, treinado, municiado e subvencionado (com especial zelo pela Alemanha e pelos USA). Em termos eleitorais e sociais, Holande e Valls, garçons de bureau do alto capital e catapultas da assunção aos céus de Nôtre Dame Le Pen, são o cartaz mais patético da França e a caricatura mais servil da social-democracia. Phillipe Pétain, marechal da desonra, primeiro-ministro e presidente da República (1940-1944), condenado à morte por traição e indultado por De Gaulle, sepultado na Île d`Yeu, sorrirá como só as caveiras sabem sorrir.
      
(1). La Repubblica, entrevista de Fiammetta Cucurnia, 09/11/2009, 20º aniversário da queda do muro.
(2). Jornal de Notícias, entrevista de César Príncipe, 17/06/1995, no 4º aniversário da dissolução da URSS.
(3) César Príncipe, Correio Vermelho, Seara de Vento, 2008.
(4) O dia em que se comemoram os 20 anos sobre a queda do Muro de Berlim, uma sondagem conclui que os alemães de Leste consideram que a reunificação não foi consumada e que a esmagadora maioria sentia-se bem na antiga Alemanha Democrática. O estudo indica que 50 por cento dos cidadãos da antiga Alemanha Democrática lamentam as diferenças reais do nível de vida, lembrando que no Leste o desemprego é maior, os salários são mais baixos e o PIB é de apenas de um terço do registado no lado ocidental do país. Doze por cento dos inquiridos recordam com saudade os tempos da RDA e outros tantos defendem mesmo que o muro devia ser reconstruído. Somente um quinto dos alemães de Leste considera que a reunificação vai no bom sentido e muitos outros dizem que os irmãos do Ocidente os tratam com arrogância. [TSF , 09/11/2009)
(5) Mayer Amschel Rothschild (1744-1821), fundador da dinastia de banqueiros.
(6) John Adams (1735-1826), presidente dos USA.
        
     

Artigo de César Príncipe publicado em http://resistir.info/