sábado, 26 de abril de 2014

O pesadelo Estado-unidense

O sonho americano – de que o trabalho árduo é recompensado com a oportunidade de prosperidade, sucesso e ascensão social – levou centenas de milhares de emigrantes a escolherem os EUA como destino. Muitos entraram pelo porto de Nova Iorque e foram recebidos pela Estátua da Liberdade, onde estão inscritos os versos de Emma Lazarus: «Venham a mim as multidões exaustas, pobres e confusas ansiosas pela liberdade. Venham a mim os desabrigados, os que estão sob a tempestade... Eu guio-os com a minha tocha
 
 
Hoje os EUA são um país com crescentes desigualdades económicas, alastramento de precariedade e exploração dos trabalhadores, constante erosão de direitos e benefícios sociais, e intensificação da subordinação do poder político às forças económicas. Cada um destas vertentes por si só seriam graves assaltos à democracia. A intensificação de todos eles em conjunto configura uma transformação qualitativa do carácter do regime, que vem sido prosseguido nas últimas décadas. Para tal muito contribuiu o processo de concentração de riqueza, de políticas ao serviço do grande capital, sobretudo a partir da década de 1970, incluindo a desregulamentação, uma política fiscal (nos equivalentes ao IRS e IRC) favorecendo os mais ricos, os ataques à contratação colectiva, o aumento do custo de vida e a perda de salários e benefícios sociais, tudo factores que empobreceram as classes económicas mais pobres e erodiu a chamada classe média, extremando a desigualdade de rendimentos e riqueza. Hoje, são os EUA o país das «multidões exaustas, pobres e confusas».
 
Estes processos não são fruto de decisões conjecturais dos recentes líderes políticos, nem são exclusivos dos EUA. Os leitores reconhecerão certamente a semelhança com processos em Portugal, quer os impostos pela troika estrangeira, quer os implementados pela troika nacional. Infelizmente, poucas lições tirámos da consequências nefastas destas políticas já exibidas nos EUA, que encetou estes processos há mais tempo. Estes processos são sim parte de uma resposta concertada do grande capital internacional impostas aos governos, incluindo o dos EUA, com vista a intensificar a acumulação de lucro e de, mais recentemente, capitalizar com a crise económica por ele mesmo criada.
 
A geração dos «baby boomers» (nascidos entre 1945-54) foi a última a ter melhores condições de vida que a precedente. Apesar dos casos atípicos de rápida ascensão económica, explorados como exemplos da suposta actualidade do sonho, na realidade o nível económico dos progenitores pesa fortemente sobre o nível de educação e rendimentos dos filhos. A mobilidade social nos EUA fica muito abaixo de países como a França, Alemanha, Canadá, Noruega ou Dinamarca (entre os países mais desenvolvidos, apenas o Reino Unido tem níveis semelhantes). Os ricos tendem a ser filhos de ricos. E o fosso entre ricos e pobres aprofunda-se, havendo crescente concentração de riqueza num número cada vez menor de pessoas, e vivendo os mais pobres (e a classe média) em situação de crescente pobreza e endividamento.
 
A desigualdade de rendimentos tem vindo a crescer nas últimas décadas, mas de 2011 para 2012 o 1% de rendimentos mais altos subiu 19.6%, enquanto o dos restantes 99% subiu apenas 1%; em 2012, o 1% da população com maiores rendimentos arrecadou 19.3% do total de rendimentos, um máximo na história do pós-guerra.1 Um presidente de conselho de administração (CEO) ganha, em média, 380 vezes mais que a média dos restantes trabalhadores. A desigualdade em termos de riqueza acumulada é ainda maior que a de rendimentos. O 1% mais rico possui 40% da riqueza, enquanto os 80% mais pobres apenas 7%.2
 
 
Em 2010, a fasquia oficial do índice de pobreza era US$22,314 para uma família de quatro pessoas, classificando mais de 46 milhões de estado-unidenses como pobres (15.1%); em 2007, este valor era de 12.5%. Quase metade destes (44.2%) tinha rendimento inferior a metade do limite de pobreza oficial. Como sucede frequentemente, os números oficiais de pobreza são uma subestimação, pois a fasquia é muito inferior ao nível equivalente à privação material. Se duplicarmos o valor limite oficial, por forma a obter uma definição que reflicta efectiva pobreza, em 2010 esta atingia 40% dos cerca de 318 milhões de habitantes dos EUA.3
 
A pobreza atinge severamente quem trabalha. Em 2012, 39% dos trabalhadores ganhava $15 à hora ou menos4. Muitos são os trabalhadores forçados a terem dois ou mais empregos, por vezes dois empregos a tempo inteiro, para subsistirem: 7 milhões de trabalhadores (5% da força de trabalho), em finais de 2011, números que terão entretanto certamente aumentado, e serão sempre uma subestimativa devido ao trabalho paralelo pago em numerário. Em 2012, 3.7 milhões de trabalhadores ganhavam o salário mínimo ($7.25/hora) ou menos, representando 3% dos trabalhadores, sobretudo jovens. Mas este valor de referência condiciona o salário de muitos mais trabalhadores. O SMN subiu para este valor em 2009. No final de Janeiro deste ano, o presidente Obama subiu o valor do SMN federal para $10/hora. Mas se o aumento tivesse acompanhado os ganhos de produtividade o salário mínimo seria hoje de $18.72/hora; se tivesse acompanhado o aumento de rendimento dos 1% mais ricos seria de $28.34/hora5. Por essa razão, uma das reivindicações dos trabalhadores é um SMN de $15/hora6.
 
A desigualdade aprofunda-se num contexto de aumento de produtividade. Desde 2000, enquanto a produtividade aumentou cerca de 23%, o salário do trabalhador médio aumentou apenas 0.5%, e a compensação média (salário e benefícios) apenas 4%. Enquanto até aos anos 1970 a produtividade e os salários cresceram aproximadamente a par e passo, desde 1973 a produtividade aumentou 80% enquanto os salários aumentaram apenas 11%, e o número de horas trabalhadas aumentou cerca de 9%. Uma família de classe média enfrenta crescentes dificuldades em manter o seu nível de vida, devido à subida de custos acima do valor da inflação e à ínfima subida dos salários. Os custos na saúde por pessoa duplicaram desde 1988 (para $8,500). Os custos de frequência no ensino superior subiram levando cerca de dois terços dos estudantes a recorrerem a empréstimos (45% há duas décadas) e a terminarem os cursos com dívidas na ordem dos $27,000. Metade dos recém-licenciados, com menos de 25 anos, estão desempregados ou em empregos que não exigem licenciatura.
 
Os níveis de desemprego subiram dramaticamente durante 2008-9, e apesar de ligeiras melhorias a partir de meados de 2011 a taxa de desemprego oficial situa-se de momento nos 7%, acima dos 4% no início do século. Os valores são maiores em alguns estados e grupos (12% entre os negros, 8.3% entre os hispânicos e 20% entre os jovens)7. Se considerarmos a taxa de subemprego, que inclui desempregados e quem tenha trabalho a tempo parcial e procure trabalho a tempo inteiro, este valor ascende aos 17.4% (Janeiro/2014, Gallup). E estes valores não incluem ainda os desempregados que já deixaram de activamente procurar emprego. À semelhança do que sucede em Portugal, encontrado novo emprego este implica uma quebra de salário, na ordem de 10%. A quase totalidade dos novos empregos criados, 96%, foram empregos a tempo parcial.
 
Este desfasamento entre os níveis de produtividade e acumulação de riqueza, por um lado, e mais horas de trabalho e perda de salário, por outro, corresponde a uma significativa intensificação da exploração dos trabalhadores, que em parte foi possível devido aos fortes ataques à contratação colectiva. Durante os anos 1950, cerca de um terço dos trabalhadores estavam sindicalizados. Em 2011, este valor era de apenas 12% (37% no sector público, e 7% no sector privado). Isto muito embora as vantagens da contratação colectiva sejam evidentes: os trabalhadores com contrato colectivo têm salário cerca de 23.3% mais elevado, probabilidade 18.3% superior de ter seguro de saúde, e 22.5% de ter pensão de reforma. Em 2011, apenas 17.8% dos trabalhadores estavam cobertos por contrato colectivo (face a 43% em 1978). Este declínio explica cerca de um terço da desigualdade salarial entre 1973-2007, para os homens trabalhadores, e um quinto entre mulheres.
Os estado-unidenses estão não só a acordar do son(h)o como a despertar para a luta. O movimento Occupy Wall Street em Nova Iorque, depois replicado em dezenas de cidades, embora sendo um movimento desestruturado e sem programa concreto, galvanizou muitas pessoas e colocou a questão da desigualdade económica e ganância capitalista na ordem do dia, condicionando o discurso político de Washington, D.C.
 
 
A luta ganha ascendente entre os trabalhadores, incluindo os trabalhadores portuários e dos aeroportos, os professores, os trabalhadores domésticos, os trabalhadores agrícolas, e os emigrantes. Tem surgido não só nos sectores sindicalizados, mas também, recentemente, de forma mais vigorosa entre os trabalhadores mais precarizados e de mais baixos salários. Exigem-se melhores salários, a subida do SMN para $15/hora, e o direito a sindicato e contrato colectivo. Neste grupo encontram-se os trabalhadores das cadeias de restauração rápida (fast-food), como a McDonalds e outras, que têm protagonizado uma luta intensa e prolongada em todo o país. Em Dezembro, estes trabalhadores coordenaram uma greve em 150 cidades. Contrariamente à visão estereotipada, o trabalhador típico destas cadeias não é adolescente. A idade média é de 29 anos, mais de 26% está a criar um filho, entre um terço e metade tem mais um emprego8, e 43% tem um rendimento duas vezes inferior ao limiar federal de pobreza. Estas companhias dão salários de pobreza aos seus trabalhadores, enquanto arrecadam milhares de milhões em lucros e, aproveitando uma estipulação fiscal, usam os prémios de eficiência dados aos executivos para pagar menos impostos. Entre 2011 e 2012, o CEO da YUM! Brands, que possuiu a Taco Bell, KFC, e Pizza Hut, recebeu $94 milhões limpos em prémio, resultando numa isenção fiscal para a companhia de $33 milhões, devida só a este prémio.9
Os trabalhadores da Walmart, cadeia de lojas de grande superfície, estão também há meses numa luta aguerrida. Em Novembro coordenaram uma greve em mais de 1500 lojas. Se esta empresa transnacional fosse um país estaria entre uma das 30 maiores economias dos mundo, com um PIB de $460 mil milhões, empregando 2.2 milhões de trabalhadores. Cerca de metade das suas acções pertencem a seis membros da família Walton, cuja riqueza ascende aos $150 mil milhões, mais que Bill Gates, Warren Buffet e Michael Blomberg juntos, ou mais que os 40% mais pobres dos EUA. As lutas foram fortemente reprimidas, resultando em mais de 100 prisões. Muitos destes trabalhadores vivem abaixo do limiar da pobreza e dependem de subsídios federais para comprar alimentos (food stamps).
 
Cerca de 14% das famílias, 47 milhões de pessoas, depende deste programa federal de apoio alimentar. Mas o Congresso discute cortes a este programa na ordem dos $5 mil milhões, enquanto em 2013 aprovou $526.8 mil milhões só para o Pentágono e $80 mil milhões para a guerra no Afeganistão. Não será este Congresso nem a Casa Branca a assegurar uma alteração do sistema. Se os trabalhadores dos EUA querem melhores salários e condições de vida e trabalho, se querem um futuro melhor, terão de abandonar a ilusão da ascensão individual, e optar pela organização e luta colectiva.
 
A ideologia do sonho americano alimentou, até há pouco, a aceitação de algum nível de desigualdade. «Se eu trabalhar, eu ainda poderei vir a ser rico.» O carácter individualista do sonho minou a consciência de classe dos trabalhadores, cegando-os à necessidade de se reunirem em organizações de classe. Mas as actuais lutas estão a alterar as perspectivas. Esta deve ser a de não apenas melhorar a condição da sua classe, mas abolir as classes e o sistema de exploração do homem pelo homem.
 
Notas:
(1) Ver http://america.aljazeera.com/articles/2013/9/10/top-1-percent takehomerecordshareof2012usincome.html
(2) Ver http://workingamerica.org/
(3) Estes valores, e outros referidos neste artigo foram extraídos de Mishel, Lawrence, Josh Bivens, Elise Gould, and Heidi Shierholz. The State of Working America, 12th Edition. A forthcoming Economic Policy Institute book. Ithaca, N.Y.: Cornell University Press. Este estudo está disponível em http://stateofworkingamerica.org/
(4) Relatório sobre emprego de 2013, http://thejobgap.org/national-report/
(5) Estimativas do Economic Policy Institute, http://www.epi.org
(6) http://15now.org
(7) Bureau of Labor Statistics, 10 de Janeiro, 2014, http://www.bls.gov/news.release/empsit.nr0.htm
(8) National Employment Law Project http://www.nelp.org
(9) http://www.ips-dc.org/reports/fast-food_ceos_rake_in_taxpayer-subsidized_pay

Artigo de André Levy publicado na revista O Militante.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Ovo



Manel Cruz, André Tentugal, Olive Tree Dance, Grupo de percussão Retimbrar e Sopa de Pedra são os músicos que constituem o projeto Ovo que chegou há poucos dias ao YouTube, apresentando vários músicos mascarados, interpretando uma música cuja letra inclui passagens como:

"Vê se me deitas ouvidos enquanto o lume está brando
(...)
o nosso povo aguenta mas eu não sei até quando
(...)
Ninguém tem a cara lavada, todos brincámos na merda
Mas eu estou disposto a mudá-lo, não estou disposto a comê-la"

"Grândola, Vila Morena"



quarta-feira, 23 de abril de 2014

Militão Ribeiro


Militão Ribeiro foi um destacado dirigente do Partido Comunista Português nos difíceis anos 40 do século passado. Foi assassinado pelo fascismo na Penitenciária de Lisboa, a 2 de Janeiro de 1950 - só nesse ano, seriam assassinados mais cinco membros do PCP.
 
Foi sujeito a um regime prisional brutal, um regime de exceção, de arbitrariedade e violência, mesmo para os padrões fascistas: incomunicabilidade rigorosa durante meses, proibição de receber livros e material de escrita, visitas e assistência médica especializada e de sua confiança, bem como a proibição de recreios, de utilizar papel higiénico, de poder tomar banho e mudar de roupa semanas a fio, vigilância de 24 sobre 24 horas e a luz da cela permanentemente acesa.
 
Conheceu praticamente todas as cadeias fascistas: Aljube, Peniche, Angra do Heroísmo, Tarrafal, cadeia da PIDE no Porto e Penitenciária de Lisboa, cadeias nas quais passou 10 anos da sua curta vida. "Mesmo quase já um cadáver ainda fui esbofeteado por um agente. Dores, insónias, fome, agonias, tudo tenho sofrido nestes sete meses."- escreveu ele numa carta que conseguiu fazer sair da cadeia, escrita com o seu próprio sangue.
 
Nesta foto, brutal, o cadáver de Militão Ribeiro.

Mais informação aqui e aqui.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Gabriel García Márquez (1927 - 2014)


Gabriel García Márquez, com um exemplar da primeira edição de "Cem anos de Solidão" na cabeça. ©Colita

O escritor colombiano e prémio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez morreu nesta quinta-feira na Cidade do México aos 87 anos, noticiou o .jornal El País. Estava na sua casa, com a mulher Mercedes e os seus dois filhos (Público)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Venezuelan president Nicolás Maduro video interview (The Guardian)



The Guardian travels to Caracas to meet Nicolás Maduro, the late Hugo Chávez's successor as president of Venezuela. Two months of civil conflict has left dozens dead, but with the protests appearing to ebb, Maduro is in defiant mood, convinced he knows who is behind the unrest – and what their ultimate goal might be. Maduro speaks candidly on subjects ranging from Edward Snowden to John Lennon.

http://www.theguardian.com/world/video/2014/apr/08/venezuelan-president-nicolas-maduro-video-interview

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Retrato gigante de criança no Paquistão lembra mortos por drones dos EUA

Com o objetivo de chamar a atenção para a enorme quantidade de ataques com drones realizados pelos EUA no Paquistão, um pôster gigante com o rosto de uma criança foi instalado por um grupo de artistas na região noroeste do país, uma das mais atingidas.

A ideia dos criadores da instalação é fazer com que os operadores de drones tenham, da tela digital da qual disparam seus mísseis, a real dimensão do que estão executando: "não é um pontinho anônimo na paisagem, mas o rosto de uma criança vítima e inocente".

Reprodução/notabugsplat.com

Vista aérea do rosto da criança, instalação de artistas no Paquistão para protestar contra os ataques de drones dos EUA

O projeto foi batizado de "Not a Bug Splat", em referência ao termo usado pelos próprios militares norte-americanos ao se referirem aos civis mortos em ataques. Conforme relatado pela revista Rolling Stone, o Exército descreve as "casualidades" como "bug splat" (algo como "inseto esmagado", em tradução livre) já que "ver um corpo no monitor verde acinzentado dá a impressão de um inseto sendo amassado". O nome da criança que estampa o poster é desconhecido, mas, de acordo com a entidade que promove a campanha, o pai, a mãe e dois irmãos pequenos da menina foram mortos em ataques com drones em Khyber Pukhtoonkhwa, região em que mais de 200 crianças já morreram vítimas de bombardeios, segundo estimativas.

 
Ferramenta da Guerra ao Terror
Os bombardeios com aviões não-tripulados são uma das principais ferramentas norte-americanas na chamada Guerra ao Terror, empreendida após os atentados de 11 de Setembro de 2001. O programa de drones começou em 2004 sob o governo George W. Bush, mas ganhou força com a chegada de Obama à Casa Branca.

Reprodução/notabugslapt.com

"Não é um 'inseto esmagado'": projeto quer fazer com que operadores de drones pensem duas vezes antes de disparar

A região noroeste do Paquistão é o alvo majoritário dos ataques. Na área, próxima à fronteira com o Afeganistão, predominam forças tribais acusadas de colobarar com o talibã e organizações terroristas. O assunto causa polêmica no país. Oficialmente, o governo paquistanês mantém um acordo tácito com os EUA permitindo que os ataques (ou, pelo menos, alguns deles) sejam realizados. No entanto, Islamabad tem vindo a público para condenar a prática norte-americana e a constante quebra de soberania. Embora os EUA digam repetidas vezes que os bombardeios com drones sejam a mais eficaz das armas usadas no combate à Al Qaeda, há estudos que mostram o contrário.

Reprodução/notabugslapt.com

Crianças paquistanesas ao lado da instalação artística; estima-se que mais de 200 já tenham morrido na região

Um levantamento que pode ser visto no gráfico interativo "Out of Sight, Out of Mind" mostra que dos mais de 3 mil mortos contabilizados pelo projeto desde 2004, apenas em 1,5% dos casos houve confirmação de ligações com atividades terroristas.

Fonte: OperaMundi

sexta-feira, 4 de abril de 2014

EUA Vs. Cuba - O bloqueio económico explicado (5)

Descobriu-se agora que a rede social ZunZuneo, existente em Cuba há dois anos, foi criada pelo Governo norte-americano para incentivar à revolta naquele país, recolhendo dados dos milhares de utilizadores, conta a imprensa internacional. A rede social ZunZuneo surgiu em Cuba há dois anos e conquistou dezenas de milhares de utilizadores, que estavam longe de imaginar que se tratava de uma vingança dos Estados Unidos da América. De acordo com a imprensa internacional, o plano do Governo americano foi criar uma espécie de Twitter, que atraia jovens, cujos dados eram espiados, com o objetivo de mais tarde provocar dissonância e revolta. O esquema foi descoberto após um norte-americano da Agência Nacional de Segurança ter sido preso naquele país depois de ter levado a cabo uma missão clandestina. A empresa fictícia ficava sediada em Espanha, com contas bancárias nas Ilhas Caimão. A descoberta foi divulgada pela Associated Press, que teve acesso mais de mil páginas de documentos sobre o projeto. (Noticias ao Minuto)

Escándalo millonario en ciberguerra de Estados Unidos contra Cuba (+Gráficos)

Estados Unidos gastó más de un millón y medio de dólares ilegalmente en una red social llamada ZunZuneo para el "cambio de régimen" en Cuba, financiada por la Agencia de Estados Unidos para la Ayuda al Desarrollo (USAID)...
Fonte: Cubahora

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Valls, como Blair, como Sócrates…

Em cima de queda, coice! Foi a Manuel Valls, o Sarkozy do PS francês, que François Hollande se lembrou de chamar para chefiar o governo, de que o próprio já fazia parte como ministro das polícias (Sarkozy bem sabia o jeito que dá essa pasta nestes anos de pós-11 de setembro!), depois da forte derrota eleitoral face à direita causada por uma deserção de uma parte muito importante do eleitorado popular que votara socialista em eleições anteriores.
 
Hollande e o PS francês caminham para o suicídio político: depois de dececionar todos quantos dele esperavam a proteção dos direitos sociais adquiridos e o confronto com o austeritarismo liberalão que Merkel e Sarkozy impuseram ao resto da Eurozona em favor da economia alemã e das troikas, os socialistas querem copiar a direita que derrotaram há menos de dois anos arranjando um homem que imita Sarkozy. Como Blair imitou Thatcher, como Renzi imita Berlusconi (e este, por mais pateticamente original que pareça, copiara já tiques caceteiros doutro socialista, Craxi), como Sócrates imitou o Cavaco dos dez anos à frente do governo em Portugal. Em todos os casos, plana um estranho raciocínio marketeiro de que com eles é que se ganham eleições – e que é isso que importa. O próprio Valls assumiu-o numa conversa informal com os jornalistas há meses: “O importante [para um dirigente político] é ganhar estatura, ser capaz de responder a uma procura de autoridade, de clareza, de visibilidade e de força!” (Libération, 1.4.2014) Eu sei que os socialistas gostam de falar de bem-estar, de desenvolvimento sustentado, de justiça social, mas afinal é isto que preocupa quem eles põem à frente dos governos.
 
O que têm em comum todos estes líderes da socialdemocracia europeia dos últimos 20 anos, os da treta do Fim da História? O buraco que cavaram dentro si próprios ao decretar o fim das ideologias (Valls acha que o adjetivo socialista “é datado, já não significa nada”, e por isso publicou em 2008 o livro Pour en finir avec le vieux socialisme... et être enfin de gauche!) é habitualmente coberto por uma ambição pessoal desmedida, que, curiosamente, é tida pelos seus apoiantes como uma garantia de determinação e empenho. Passaram pelos movimentos estudantis (umas vezes vindos da extrema-esquerda, outras, como Blair e Sócrates, da própria direita), dali foram diretamente para cargos partidários, deputados, assessores. Nos países do Sul, viraram maçons. Apostaram na comunicação. Seduzir jornalistas está-lhes no sangue. Quando não conseguem, movem cordelinhos para os reduzir a pó. Nunca vêm, isso não, do mundo do trabalho, ao contrário de muitos dos seus antecessores até aos anos 70, sobretudo na Europa do Norte. Os sindicatos associados aos socialistas (e que deram origem a estes partidos no séc. XIX), apesar de reformistas e moderados desde há um século, pesam-lhes. Fizeram de tudo para os minar. Só lhes parecem bons para, fazendo-os assinar um acordo qualquer, procurarem legitimar as suas traições eleitorais: prometeram defender/repor os direitos sociais, mas, com pena deles, não podem deixar de prosseguir as políticas de competitividade.
 
Estes homens são puros produtos do aburguesamento das sociedades europeias nos anos 1950-80, e, desligados do ramerrame do salário, não admira que não acreditem, como Valls, em “utopias do séc. XIX”. Parecem julgar que à sua volta tudo é classe média como eles, mas sabem bem que não é assim. Imaginam cada vez mais uma Europa da mesma forma como os americanos imaginam os EUA: a mobilidade social está ao alcance de todos! – e não aprenderam nada com as Ciências Sociais que, em geral, não estudaram ou lhes parecem tomadas por velhos marxistas ou utópicos ingénuos. Preferem o convívio e as lições aprendidas com grandes empresários que, na boca deles, são sempre modernizadores e criativos – sobretudo se lhes pagarem as campanhas e se colocarem as suas televisões e jornais ao serviço deles (enquanto convier aos empresários, claro). Admitem publicamente que não partilham quase nada da cultura histórica da esquerda: as revoluções – francesa, russa, portuguesa – parecem-lhes totalitárias, eram jovens de mais para terem feito alguma coisa em 1968 (ou em 1974), e quando olham para a guerra do Vietname, Che Guevara e a descolonização só vêem o que chamam geopolítica e desprezam a emoção emancipadora que atravessou o mundo. Podem hoje papaguear umas coisas sobre Mandela, às vezes Gandhi, mas sabem tanto deles quanto sabem da vida de uma operária têxtil que perde o emprego. Todos aqueles que à sua esquerda querem discutir o direito ao trabalho digno, ao descanso, à justa remuneração, ou a propriedade e a gestão democrática dos serviços públicos, parecem-lhes “esquerda conservadora”, como dizia Sócrates. Os que querem discutir os direitos dos migrantes, o racismo, o respeito pela diferença, a discriminação positiva daqueles grupos que o preconceito esmagou durante séculos, parecem-lhes “esquerda compassiva”, “misericordiosa”, como lhes chamou, com infinito desprezo, Valls, o ministro do Interior que expulsou mais imigrantes que Sarkozy e que reabriu a caça ao cigano. Sabendo bem que é assim que se conquista popularidade numa Europa cada vez mais racista.
 
Reconheço, Valls tem razão: chamarem-se socialistas já não significa nada. Nada.
 
Texto de Manuel Loff no Público
 

The Expert

quarta-feira, 2 de abril de 2014

2CELLOS - Thunderstruck



                                                      2CELLOS - Thunderstruck