quinta-feira, 26 de junho de 2014

O enigma de Vivian Maier

Passou mais de um quarto de século a fotografar sem que o mundo soubesse dos negativos que escondia nos quartos que ia ocupando nas muitas casas onde trabalhava como ama. O acaso levou John Maloof a tropeçar em caixotes que continham parte do trabalho de Vivian Maier, e agora detém cerca de 100 mil negativos, que já alimentaram exposições e uma mão-cheia de livros. E está determinado a revelar o mistério da vida de uma das maiores fotógrafas do quotidiano do século XX americano. Texto de KRISTIN HOHENADEL


 
Em 2007, John Maloof comprou uma caixa insuspeita com 40 mil negativos numa leiloeira de Chicago por 380 dólares (cerca de 276 euros). Estava longe de imaginar que tinha acabado de tropeçar nos inéditos de Vivian Maier, a ama americana de ascendência francesa nascida em 1926 e que foi postumamente considerada uma das maiores fotógrafas americanas do quotidiano do século XX. Diz Maloof numa conversa ao telefone: “Ao princípio, nem percebi que isto poderia ser, sequer, aquilo a que chamamos ‘boa fotografia do quotidiano’.” O conjunto de fotografias que Maloof acabou por disponibilizar online e que têm corrido o mundo em exposições e foram já editadas numa mão-cheia de livros “é apenas uma amostra ínfima do trabalho de Vivian Maier”, acrescenta. “Cada fotógrafo tem uma quantidade incrível de trabalho e por isso é preciso estar a vasculhar negativo a negativo. Mesmo quando nos deparamos com um que é de facto muito bom, sabemos que vamos encontrar muitos outros que o não são.” Mas este legado que lhe veio parar ao colo acabou por inspirar Maloof, que começou ele próprio também a fotografar e a querer saber mais sobre fotografia. Entre 2008 e 2009, foi comprando caixas com negativos a pessoas que, por sua vez, também as tinham adquirido na mesma leiloeira, um investimento que rondou os 70 mil dólares e que perfaz perto de 90% do trabalho de Maier — Maloof tem agora cerca de 100 mil negativos. Desde aquele fatídico dia na leiloeira em 2007, Maloof tem tentado desvendar o mistério de vida de Maier, que passou mais de 50 anos a tirar fotografias sem que o mundo soubesse da sua existência. Quando descobriu o nome de Maier numa das caixas, “googlou-a”, mas não encontrou nada — isso até ao seu obituário em 2009. A única coisa que encontrou foi uma morada que lhe poderia dar pistas sobre as pessoas para quem ela tinha trabalhado em Chicago.
 
 
Foi ao encontro delas e deparou-se com um contentor repleto de coisas que tinham de facto pertencido a Maier e que estava destinado a acabar no lixo. Maloof levou tudo — toneladas de jornais, facturas com o nome Maier escrito de mil e uma maneiras, livros, roupa, chapéus, cartas e, além de tudo isto, ainda montes de negativos e centenas de horas de gravações de filmes em Super 8, gravadores de áudio e máquinas fotográficas. “Isto é simplesmente extraordinário. É impossível alguém conseguir inventariar todo este material. Ela guardava tudo, cada livrinho tem uma nota lá dentro ou uma factura. De dentro de cada objecto salta um outro, as cartas têm coisas lá dentro, ela amealhava tudo, mesmo.” Tanto material e tão poucas respostas sobre uma misteriosa ama que passou a vida inteira agarrada aos seus negativos sem nunca os revelar. À medida que Maloof ia falando com pessoas que, de uma maneira ou outra, tinham tido contacto com Maier, foi aguçando a curiosidade. Ao ponto de ter reunido esforços com o cineasta Charlie Siskel para realizarem o documentário Finding Vivian Maier, que se estreou na sexta feira 28 de Março nos cinemas de Nova Iorque e Los Angeles. No documentário, Maloof e Siskel seguiram a peugada de dezenas de pessoas, de Chicago a França, e entrevistaram casais que contrataram os seus serviços como ama, crianças que hoje são adultos e de quem Maier tomou conta, lojistas, operadores de cinema e vizinhos que se lembram dela.


“Eu queria mesmo descortinar quem foi esta mulher, porque tirou tantas fotografias, o que a levou a isso e porque nunca o quis revelar. Nem sabia o que iria encontrar, o que me movia era tentar perceber quem foi ela e, das pessoas com quem falei, cada uma tinha a sua opinião”, comenta Maloof. No documentário, ficamos a saber que esta ama era uma pessoa muitíssimo reservada, afastada de toda a sua família, uma solitária. Até para quem viveu com ela sob o mesmo tecto, Maier não passava de uma mulher excêntrica, que insistia em deixar sempre a porta do seu quarto fechada à chave e guardava as caixas com os seus pertences deste mundo de uma forma quase feroz. Mesmo para essas pessoas, Maier era uma desconhecida. Muitos especulam que Maier nunca teria tido a capacidade para saber lidar com a atenção excessiva que o seu nome tem despertado desde que foi descoberta. Numa cena comovente do filme, Maloof revela uma carta onde Maier dá conta da sua tristeza por não cumprir, afinal, o seu desejo de mostrar ao mundo o que fazia. Ninguém saberá nunca o alcance das suas intenções. Mas a ânsia de deixar para a posteridade, de editar em livro até, as vívidas fotografias que Maier fez da vida no século XX transformou o mundo num sítio melhor. Fonte: PÚBLICO / The Washington Post

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