quinta-feira, 21 de novembro de 2013

The act of Killing



Um realizador de cinema pede a um assassino que recrie, em filme, as torturas e crimes que cometeu na vida real. Este, encantado com a oferta, dispõe-se a isso com entusiamo e diligência. O resultado da experiência é uma alucinação cinematográfica que adquire proporções épicas quando se descobre que o criminoso é um dos líderes mais sanguinários dos esquadrões da morte na Indonésia, bandos de carniceiros que, em 1965, acabaram com a vida de um milhão de pessoas em menos de um ano. The Act of Killing, de Joshua Oppenheimer, é a consequência desse assustador delírio de fama dos genocidas indonésios que, no entanto, hoje vivem como heróis no seu país. O filme estreou em 30 de Agosto em Espanha.
 
Werner Herzog, um dos realizadores mais talentosos do cinema documental, revelou publicamente o seu assombro perante The Act of Killing. “Não vi um filme tão poderoso, surreal e aterrador em pelo menos uma década”, disse, acertando em cheio nos cinco adjectivos e na ordem com que os empregou. Tão impressionante, tão demente é a história deste filme, que a primeira reacção perante o mesmo é de surpresa. Uma espécie de estupefacção que se transforma em perturbação e confusão, antes de se transformar em espanto e, finalmente, em algo muito parecido com a angústia física.
 
Os Esquadrões da Morte
Anwar Congo, um dos cabecilhas dos Esquadrões da Morte que actuaram na Indonésia depois do golpe militar contra o Presidente Sukarno, é a estrela deste filme. Este verdugo, responsável, de acordo com as suas palavras, pela tortura e assassinato, com as suas próprias mãos, de mais de mil pessoas, encena perante a câmara os crimes que cometeu, explica como perpetrava as suas agressões e vangloria-se de se ter para isso inspirado em filmes de gângsteres que estreavam no cinema. 
 
Assassino do grande ecrã, na sua juventude, ele e os seus amigos controlavam o mercado negro dos bilhetes. O exército recrutou-os depois do golpe para os esquadrões da morte porque sabia que odiavam os comunistas (que eram quem mais boicotava os filmes dos EUA, as mais rentáveis nos cinemas) e já haviam demonstrado que eram capazes de qualquer acto de violência. Hoje, quase cinquenta anos depois, Anwar Congo é uma figura venerada na Indonésia. Fundador de uma poderosíssima organização paramilitar (Juventud de Pancasila), que integra publicamente ministros do Governo, tratada com todas as honras. É a imagem, o símbolo, de um país demente, que aplaude a corrupção e a violência. Um país em que genocidas são convidados de luxo em programas de televisão, onde se alongam sobre os seus projectos cinematográficos e sobre os seus aterradores assassinatos reais. Um país onde boa parte da população continua a viver completamente aterrorizada e que é apoiado pelo resto do planeta.
 
Palavra de genocida
“Matar é proibido, por isso todos os assassinos são castigados, a menos que matem em grandes quantidades e ao som das trombetas”. As palavras, que são de Voltaire, abrem este filme, em que se conjugam cenas de tiroteio pavorosas e em que trabalham os criminosos, com imagens dos mesmos noutras situações e perante a câmara, respondendo às perguntas da equipa de Oppenheimer.

“- Como é que exterminou os comunistas?”
“- Matámo-los todos. Foi isso o que se passou.”
 
“Não importa se acaba no ecrã gigante ou na televisão”, disse Anwar Congo, referindo-se ao filme que estão a filmar e antes de acrescentar: “Temos de demonstrar que é esta a história, que isto é o que somos, para que as pessoas no futuro se lembrem.” Um esforço tardio depois de falar perante as câmaras deste documentário, pois é absolutamente impossível esquecer o que contam, como contam e, pior, como o comemoram.
Anwar Congo dança vestido como um gangster do cinema, depois de mostrar o sítio onde executava as torturas. “No princípio, espancávamo-los até à morte, mas havia mesmo muito sangue (…). Quando limpávamos, o cheiro era terrível. Para evitar o sangue, tínhamos um sistema”. Dito isto, uns passos de chá-chá-chá. Assustador.
 
“Matar pessoas que não queriam morrer”
Testemunhos como este ocorrem ao longo de todo o filme e não são apenas procedentes da memória de Anwar Congo. Um editor de imprensa (“o meu trabalho era fazer com que o público odiasse os comunistas”), um líder paramilitar local que faz perante as câmaras uma ronda de extorsão exigindo dinheiro, o próprio vice-presidente do país, outro verdugo da época, um membro do Parlamento de Sumatra do Norte ou o subsecretário da Juventude e do Desporto trazem os seus contributos pessoais ao documentário, observando uma das coisas mais surpreendentes, a absoluta banalidade com que todos concebem o genocídio e a perfeita impunidade que construíram em seu redor.
 
Anwar Congo reconhece que torturou e matou cerca de mil pessoas com as suas próprias mãos.
 
“Quantas pessoas matou?”, pergunta a Anwar Congo, com um sorriso deslumbrante, uma apresentadora da TVRI, televisão pública da Indonésia. “Umas mil”, responde ele, também sorridente. Assustador e, ao mesmo tempo, lógico. No fundo, Anwar Congo e os seus colegas torturadores estão aqui a fazer publicidade, promovendo o filme que rodaram descrevendo os seus assassinatos. 
 
A aberração chegou aqui ao seu ponto culminante. Passaram quase duas horas desde que começou o filme e o espectador assistiu ao grotesco espectáculo da fanfarronice de uns assassinos em massa. Durante todo esse tempo, ter-se-á interrogado, seguramente várias vezes, “como é possível viver com isto e nem sequer se arrepender?” A resposta é que provavelmente não é possível.
 
“Sei que os meus pesadelos são causados pelo que fiz, matar gente que não queria morrer”, disse num momento do documentário Anwar Congo, cada vez mais afectado pelo processo de filmagem e a quem a câmara de Oppenheimer também grava enquanto interpreta o papel de vítima numa das suas recriações. É um momento chave para o genocida e para o filme, este em que o assassino se põe no lugar das suas vítimas. É uma sequência que leva ao final deste documento. E aqui as turbulências emocionais por que passou o espectador são tantas e tão profundas que é muito difícil dizer se esse homem (em que agora algo mudou) está arrependido ou se o que sente é asco perante o mar de sangue provocado, ou se realmente não queria entender e agora, por fim, entendeu o que significa o acto de matar.
 
“Uma técnica de rodagem para tentar compreender”
Vencedor de muitos prémios, este filme foi concebido depois de três anos em que o realizador Joshua Oppenheimer se dedicou a filmar os sobreviventes dos massacres de 1965 e 1966. Durante esse tempo, a equipa de filmagem foi ameaçada, perseguida e avisada para que deixasse o país. No entanto, “os assassinos estavam mais que dispostos a ajudar-nos e, quando os filmámos gabando-se dos seus crimes contra a humanidade, não encontrámos nenhuma oposição. Abriram-nos todas as portas”. E então, no que Oppenheimer chamava essa estranha situação”, teve início um novo começo do filme.
 
Propuseram aos gângsteres filmarem o seu próprio filme, fazendo de si mesmos e de vítimas. “Os protagonistas sentiam-se seguros explorando as suas memórias e sentimentos mais profundos, e o seu humor mais negro. Eu sentia-me seguro interrogando-os continuamente sobre o que fizeram, sem temer que me prendessem ou batessem”.
 
“Desenvolvi uma técnica de filmagem através da qual tentei compreender por que razão a extrema violência, que muitos consideramos impensável, é não apenas possível, como se exerce como uma rotina. Tentei compreender o vazio ético que torna possível que os responsáveis pelo genocídio sejam homenageados na televisão pública com aplausos e sorrisos”, diz o realizador. “É assim que tentamos trazer luz sobre um dos capítulos mais escuros da história da humanidade, tanto local como global, e mostrar os custos reais da cegueira, do oportunismo e da incapacidade de controlar a ganância e a ânsia de poder numa sociedade mundial cada vez mais unificada. Em última análise, esta não é uma história sobre a Indonésia, é uma história sobre todos nós.”
 
O Golpe Militar de 1965
Em 1965, o Governo Indonésio foi derrubado pelos militares. Sukarno, o primeiro presidente da Indonésia, fundador do movimento não alinhado e líder da revolução nacional contra o colonialismo holandês, foi destituído e substituído pelo General Suharto. O Partido Comunista Indonésio (PKI), que havia apoiado firmemente o Presidente o Presidente Sukarno, que não era comunista, foi proibido de imediato. Na véspera do golpe, o PKI era o maior partido comunista do mundo fora de um país comunista.
 
Depois do golpe militar de 1965, qualquer pessoa poderia ser acusada de ser comunista: sindicalistas, agricultores sem terras, intelectuais, chineses… “Em menos de um ano e com a ajuda directa de certos governos ocidentais, mais de um milhão destes comunistas foram assassinados”, assegura a equipa de The Act of Killing.
 
Os EUA aplaudiram o massacre, que consideraram “uma grandiosa vitória sobre o comunismo”. A revista Time informava que era uma das melhores notícias para o Ocidente em anos, na Ásia”, enquanto o The New York Times escrevia: “Um raio de luz na Ásia”.
 
Fonte: O Diário.info

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

"A fome de uns é a fome de todos"

«Passei o mês de Agosto a ir ao hospital todos os dias. E em cada um desses dias veio um enfermeiro ou auxiliar ter comigo à porta do refeitório para lembrar-me que eu não podia entrar ali. Eu ia de braço dado com o meu pai e só queria garantir que ele chegava inteiro à cadeira, e preparar-lhe a comida, como se faz com as crianças, tirar as espinhas do peixe, descascar-lhe a laranja. Com bons modos, mas sem deixar margem para protestos ou pedidos especiais, apareceu sempre alguém para mandar-me sair porque só os doentes podem entrar no refeitório, as visitas estão proibidas de fazê-lo. A proibição justifica-se por razões de organização interna, espaço, ruído, etc. A razão principal só se sabe ao fim de alguns dias a passear pelos corredores: enquanto puderam entrar no refeitório, era frequente as visitas comerem as refeições destinadas aos doentes. Sentavam-se ao lado dos pais, avós, irmãos, maridos ou mulheres e iam debicando do seu prato, ou ficando com a parte de leão.
À minha ingénua indignação inicial, seguiram-se muitas histórias de miséria que ajudam a explicar como se pode chegar aí. Só quem, como eu, nunca a passou, demora a entender que a fome pode roubar tudo a um ser humano. Rouba-lhe a solidariedade até com os do seu sangue, a dignidade, o respeito, tudo aquilo que o faz ser gente. E pelo retrato que vi nesse hospital público do Porto, há fome nos nossos hospitais. Doentes que pedem ao companheiro do lado o pão que lhe sobrou, a laranja que não lhe apeteceu comer, a sopa que deixou a meio. Há quem diga que prefere comer um pão simples, ao lanche, para esconder na fímbria do lençol o pacote da manteiga ou da compota para mandar para os catraios lá de casa. Há quem não anseie pelo dia da alta porque, pelo menos ali, come as refeições todas. Há quem vá de mansinho à copa perguntar se dos outros tabuleiros sobrou alguma coisa que lhe possam dispensar.
Fica-se com um nó na garganta com tudo o que se vê e vira-se a cara para o lado com vergonha. Vergonha por ser parte disto, por não ter gritado o suficiente, por não ter sido parte da mudança que se reclama há tanto.
 
Foto: Carla Olas
 
E depois estão os caixotes de lixo remexidos pela noite fora, as filas para as carrinhas de distribuição de alimentos, o passeio do albergue cheio de gente, gente que vagueia como sonâmbula, que discute por uma moeda de vinte cêntimos ou por um portal onde dormir. E estão – a nossa maior vergonha – as cantinas escolares que têm de abrir nas férias para garantir a única refeição diária de tantas crianças, as mesmas cantinas que sabemos que estarão encerradas à hora do jantar.
A fome reduz-nos à biologia, despoja-nos de qualquer ideal, impede-nos de dizer não ou de levantar um dedo acusatório, e será pela fome que, como num passado não tão remoto assim, procurarão dominar-nos.
Quando se fazem campanhas eleitorais distribuindo benesses sob a forma de electrodomésticos, medicamentos que a miserável reforma de um velho não pode comprar, ou mandando matar porcos para apaziguar a fome nos bairros sociais, o que aparece mascarado de acção solidária não é mais do que a manipulação despudorada da necessidade alheia, necessidade a que, aliás, estas pessoas foram sendo condenadas, por décadas de injustiça social, corrupção, gestão ruinosa, e todos os etcs. que conhecemos demasiado bem mas a que nem por isso somos capazes de pôr fim.
E se nos distrairmos ainda acabamos a apontar o dedo aos excluídos, a fazer contas ao rendimento mínimo do vizinho, a aplaudir o corte no salário, na pensão, no subsídio, como se a igualdade se fizesse rebaixando, como se a solução fosse difundir a miséria em vez de democratizar as condições para uma vida digna.
Confesso que sinto o imperativo moral de pagar uma refeição a quem ma pede, mas tenho dificuldades em lidar com essa pessoa. Porque quero que fique claro que a relação entre nós, se se pode chamar relação, apenas deve ser de respeito mútuo e, sendo certo que em qualquer momento futuro as nossas imposições podem inverter-se, temos, um para com o outro, a mesma obrigação. Mas sinto-me sempre desconfortável com a mendicidade do outro, com a sua posição de aparente debilidade, com a minha ilusória superioridade.  A fome de uns é a fome de todos e já é hora de a sentirmos assim, mesmo que não nos aperte o estômago, mesmo que não nos roube a nossa dignidade.»  
Texto de Carla Romualdo