segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Roma 2013


Confrontos entre manifestantes e a Guardia di Finanza durante um protesto em frente do Ministério das Finanças no centro de Roma a 19 de outubro de 2013. Fotografia de Stefano Rellandini/Reuters

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Mapping Europe’s war on immigration

Europe has built a fortress around itself to protect itself from ‘illegal’ immigration from the South, from peoples fleeing civil war, conflict and devastating poverty. The story is best understood through maps.
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The forbidden world

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It is a strange thing, this paranoid fear of invasion, this determination to protect themselves at all costs from these human beings who every year exile themselves from their homelands to head for an imagined promised land in the rich countries. But the rich have decided that these tides of humanity are unwanted. They fortify their frontiers, erect barriers, build the walls higher and higher. A veritable military strategy put into effect to keep out the “invaders.” In an act of mimicry, other important countries like Brazil, China and Russia are joining in, putting in place their own “fortifications” to limit economic migration from poorer areas to their own regions of rapid growth. Such physical obstacles are efficient tools for criminalizing immigration, for making it possible to pronounce concepts that should be unthinkable: “Illegal immigrant.” They make people think they are breaking the law. With the help of these new obstacles, juridical and physical, we have created a new category of criminal: the migrant. Thus do we confound both international law and universal values.
 

Europe’s three frontiers

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This map was drawn for the first time in 2003, thanks to the meticulous work of Olivier Clochard of the Migrinter Institute at the University of Poitiers. We update it regularly, and alas, every time we have to add more black dots and draw the red circles even bigger. On Jan. 1, 1993, Gerry Johnson is discovered dead. A citizen of Liberia - a country at the time being destroyed by a bloody civil war - Johnson had suffocated in a train freight car in Feldkirch, Austria. On Oct. 3, 2013, a boat sinks near the shore of Lampedusa Island, with 500 immigrants on board, most of them from East Africa. Between these two dates and these two places, more than 17,300 other immigrants - and that is the low estimate for this unknown hecatomb - lost their lives while trying to get to Europe, the continent of liberty and human rights. They die while trying to leave, too, like Marcu Omofuma, a Nigerian murdered on May 1, 1999 by three sadistic Austrian policemen aboard a Balkan Air plane during his forced repatriation.
 

The geography of an unwanted humanity

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To the West are our pals, who are welcome to come over; they are the ones with the fat wallets. To the East, the unwanted, the unwashed, the little guys from a world too poor to ’deserve’ us. A near perfect symmetry: clusters of the poor persist in the West, and clusters of the rich in the East. Manichean? Hardly. The political geography of European visas shows with a certain cruelty Europe’s vision of the world, an ungenerous thing. Someone must explain to me the logic of the EU requirement that the citizens of Kosovo — one of the poorest countries in Europe - purchase overpriced visas to be able to move around in the Schengen zone. There are many methods of dividing the world, its territories, its regions. Whether it be according to the principle of the nation state, or of groups of nations, or by socioeconomic or political indicators, they all remind us cynically of what we would prefer not to see in ourselves: our selfishness, our violence. We pretend to aid in development of poor countries, while in reality we export economic models that cannot work. And then we impose on their people our unattainable visas. And yet, impoverished Africa like elsewhere, has culture, music, theater. Diplomats, teachers. Students, workers. writers. All are the human beings that Europe sends back tied up like sausages on airplanes - when it does not send them back wrapped in burial shrouds — for failing to obtain a visa or a residency card.
 

terça-feira, 15 de outubro de 2013

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Noam Chomsky e o labirinto americano


Entrevista a Harrison Samphir, no Znet | Tradução: Vinícius Gomes | Imagem de HikingArtist
Noam Chomsky é, aos 84 anos, um dos maiores intelectuais no mundo. Seu trabalho e suas realizações são bem conhecidos – ele é linguista norte-americano, professor emérito no Massachussets Institute of Technology (MIT) há mais de 60 anos, analista e ativista político constante, crítico original do capitalismo e da ordem mundial que tem como centro os Estados Unidos. Nesse entrevista, Chomsky debate a paralisação do governo norte-americano, por disputas incessantes no sistema político e, em especial, chantagem das forças de direita mais primitivas. Também aborda os sinais de perda de influência de Washington na Síria e da emegência, na América do Sul, de um conjunto de governos que afasta-se dos EUA, pela primeira vez em dois séculos.
 
Gostaria de começar com a paralisação recente do governo dos EUA. Por que ela é diferente dessa vez, se já aconteceu no passado?

Noam Chomsky: Paul Krugman fez há dias, no New York Times, um ótimo comentário a respeito. Lembra que o partido republicano é minoritário entre a opinião pública e controla a Câmara [House of Representatives, que junto do Senado representa o Legislativo nos EUA]. Está levando o governo à paralisação e talvez ao calote de suas dívidas. Conseguiu a maioria por conta de inúmeras artimanhas. Obteve uma minoria de votos, mas a maioria das cadeiras. Está se utilizando disso para impor uma agenda extremamente nociva para a sociedade. Foca particularmente a questão do sistema de saúde público.
 
Os EUA são o único, entre os países ricos e desenvolvidos, que não possue um sistema nacional de saúde pública. O sistema norte-americano é escandaloso. Gasta o dobro de recursos de países comparáveis, para obter um dos piores resultados. E a razão para isso é ser altamente privatizado e não-regulado, tornando-se extremamente ineficiente e caro. Aquilo que alguns chamam de “Obamacare” é uma tentativa de mudar esse sistema de forma suave – não tão radicalmente como seria desejável – para torná-lo um pouco melhor e mais acessível.
 
O Partido Republicano escolheu o sistema de saúde como alavanca para conquistar alguma força política. Quer destruir o Obamacare. Essa posição não é unânime entre os republicanos, é de uma ala do partido – chamada de “conservadora”, de fato, profundamente reacionária. Norman Orstein, um dos principais comentaristas conservadores, descreve o movimento, corretamente, como uma “insurgência radical”.
 
Então, há uma insurgência radical, que implica grande parte da base republicana, disposta a tudo – destruir o país, ou qualquer coisa, com o intuito de acabar com a Lei de Assistência Acessível (o Obamacare). É a única coisa a que foram capazes de se agarrar. Se falharem nisso, terão de dizer a sua base que mentiram para ela, ao longo dos últimos cinco anos. Por isso, estão dispostos a ir até onde for necessário. É um fato incomum – penso que único – na história dos sistemas parlamentaristas modernos. É muito perigoso para o país e para o mundo.
 
Como a paralisação poderia terminar?
Bem, a paralisação por si só é ruim – mas não devastadora. O perigo real surgirá nas próximas semanas. Há, nos Estados Unidos, uma legislação rotineira – aprovada todo ano – que permite ao governo tomar dinheiro emprestado. Do contrário, ele não funciona. Se o Congresso não autorizar a continuação da tomada de empréstimos, talvez o governo peça moratória. Isso nunca aconteceu e um calote do governo norte-americano não seria muito prejudicial apenas aos EUA. Ele provavelmente afundaria o país, de novo, numa profunda recessão – mas talvez também quebre o sistema financeiro internacional. É possível que encontrem maneiras para contornar a situação, mas o sistema financeiro mundial depende muito da credibilidade do Departamento do Tesouro dos EUA. A credibilidade dos títulos de dívida emitidos pelos EUA é vista como “tão boa quanto ouro”: esses papéis são a base das finanças internacionais. Se o governo não conseguir honrá-los, eles não possuirão mais valor, e o efeito no sistema financeiro internacional poderá ser muito severo. Mas para destruir uma lei de saúde limitada, a extrema direita republicana, os reacionários, estão dispostos a fazer isso.
 
No momento, os EUA estão divididos sobre como o tema será resolvido. O ponto principal a observar é a divisão no Partido Republicano. O establishment republicano, junto com Wall Street, os banqueiros, os executivos de corporações não querem isso – de maneira nenhuma. É parte da base que deseja, e tem sido muito difícil controlá-la. Há uma razão para terem um grande grupo de delirantes em sua base. Nos últimos 30 ou 40 anos, ambos os partidos que comandam a política institucional dos EUA inclinaram-se para a direita. Os democratas de hoje são, basicamente, aquilo que se costumava chamar, há tempos, de republicanos moderados. E os republicanos foram tanto para a direita que simplesmente não conseguem votos, na forma tradicional.
 
Tornaram-se um partido dedicado aos muito ricos e ao setor corporativo – e você simplesmente não consegue votos dessa maneira. Por isso, têm sido compelidos a mobilizar eleitores que sempre estiveram presentes no sistema político, mas eram marginais. Por exemplo, os extremistas religiosos. Os EUA são um dos expoentes no que se refere ao extremismo religioso no mundo. Mais ou menos metade da população acredita que o mundo foi criado há alguns milhares de anos; dois terços da população está aguardando a segunda vinda de Cristo. A direita também teve de recorrer aos nativistas. A cultura das armas, que está fora de controle, é incentivada pelos republicanos. Tenta-se convencer as pessoas de que devem se armar, para nos proteger. Nos proteger de quem? Das Nações Unidas? Do governo? Dos alienígenas?
 
Uma enorme parcela da sociedade é extremamente irracional e agora foi mobilizada politicamente pelo establishment republicano. Os líderes presumem que podem controlar este setor, mas a tarefa está se mostrando difícil. Foi possível perceber isso nas primárias republicanas para a presidência, em 2012. O candidato do establishment era Romney, um advogado e investidor em Wall Street – mas a base não o queria. Toda vez que a base surgia com um possível candidato, o establishment fazia de tudo para destruí-lo, recorrendo, por exemplo, a ataques maciços de propaganda. Foram muitos, um mais louco que o outro. O establishment republicano não os quer, tem medo deles, conseguiu nomear seu candidato. Mas agora está perdendo controle sobre a base.
Sinto dizer que isso tem algumas analogias históricas. É mais ou menos parecido com o que aconteceu na Alemanha, nos últimos anos da República de Weimar. Os industriais alemães queriam usar os nazistas, que eram um grupo relativamente pequeno, como um animal de combate contra o movimento trabalhista e a esquerda. Acharam que podiam controlá-los, mas descobriram que estavam errados. Não estou dizendo que o fenômeno vai se repetir aqui, é um cenário bem diferente, mas algo similar está ocorrendo. O establishment republicano, o bastião corporativo e financeiro dos ricos, está chegando em um ponto em que não consegue mais controlar a base que mobilizou.
 
Na política externa, as notícias sobre a Síria sumiram da mídia convencional, desde a aprovação do acordo para confiscar as armas químicas do arsenal de Assad. Você pode comentar esse silêncio?
Nos EUA, há pouco interesse sobre o que acontece fora das fronteiras. A sociedade é bem insular. A maioria das pessoas sabe bem pouco sobre o que acontece no mundo e não liga tanto para isso. Está preocupada com seus próprios problemas, não têm o conhecimento ou o compreensão sobre o mundo ou sobre História. Quando algo, no exterior, não é constantemente martelado pela mídia, esta maioria simplesmente não sabe nada a respeito.
 
A Síria vive uma situação muito ruim, atrocidades realmente terríveis, mas há lugares muito piores no mundo. As maiores atrocidades das últimas décadas têm ocorrido no Congo – na região oriental –, onde mais ou menos 5 milhões de pessoas foram mortas. Nós – os EUA – estamos envolvidos, indiretamente. O principal mineral em seu celular é o coltan, que vem daquela região. Corporações internacionais estão lá, explorando os ricos recursos naturais Muitas delas bancam milícias, que estão lutando umas contra as outras pelo controle dos recursos, ou de parte deles. O governo de Ruanda, que é um cliente dos EUA, está intervindo maciçamente, assim como Uganda. É praticamente uma guerra mundial na África. Bem, quantas pessoas sabem disso? Mal chega à mídia e as pessoas simplesmente não sabem nada a respeito.
 
Na Síria, o presidente Obama fez um discurso sobre o que chamou de sua “linha vermelha”: não se pode usar armas químicas; pode-se fazer de tudo, exceto utilizar armas químicas. Surgiram relatórios credíveis, afirmando que a Síria utilizou essas armas. Se é verdade, ainda está em aberto, mas muito provavelmente é. Nesse ponto, o que estava em jogo é o que se chama de credibilidade. A liderança política e os comentaristas de política externa indicavam, corretamente, que a credibilidade norte-americana estava em jogo. Algo precisava ser feito para mostrar que nossas ordens não podem ser violadas. Planejou-se um bombardeio, que provavelmente tornaria a situação ainda pior, mas manteria a credibilidade dos EUA.
 
O que é “credibilidade”? É uma noção bem familiar – basicamente, a noção principal para organizações como a Máfia. Suponha que o Poderoso Chefão decida que você terá que pagá-lo, para ter proteção. Ele tem de “bancar” essa afirmação. Não importa se precisa ou não do dinheiro. Se algum pequeno lojista, em algum lugar, decidir que não irá pagá-lo, o Poderoso Chefão não deixa a ousadia impune. Manda seus capangas espancá-lo sem piedade, ainda que o dinheiro não signifique nada para ele. É preciso estabelecer credibilidade: do contrário, o cumprimento de suas ordens tenderá a erodir. As relações exteriores funcionam quase da mesma maneira. Os EUA representam o Poderoso Chefão, quando dão essas ordens. Os outros que cumpram, ou sofram as consequências. Era isso que o bombardeio na Síria demonstraria.
 
Obama estava chegando a um ponto do qual, possivelmente, não seria capaz de escapar. Não havia quase apoio internacional nenhum – sequer da Inglaterra, algo incrível. A Casa Branca estava perdendo apoio internamente e foi compelida a colocar o tema em votação no Congresso. Parecia que seria derrotada, num terrível golpe para a presidência de Obama e sua autoridade. Para a sorte do presidente, os russos apareceram e o resgataram com a proposta de confiscar as armas químicas, que ele prontamente aceitou. Foi uma saída para a humilhação de encarar uma provável derrota.
Faço comentário adicional. Você perceberá que este é um ótimo momento para impor a Convenção sobre Proibição de Armas Químicas no Oriente Médio. A verdadeira convenção, não a versão que Obama apresentou em seu discurso, e que os comentaristas repetiram. Ele disse o básico, mas poderia ter feito melhor, assim como os comentaristas. A Convenção sobre Proibição de Armas Químicas exige que sejam banidas a produção, estocagem e uso delas – não apenas o uso. Por que omitir produção e estocagem? Razão: Israel produz e estoca armas químicas. Consequentemente, os EUA irão evitar que tal convenção seja imposta no Oriente Médio. É um assunto importante: na realidade, as armas químicas da Síria foram desenvolvidas para se contrapor às armas nucleares de Israel, o que também não foi mencionado.
 
Você afirmou recentemente que o poder norte-americano no mundo está em declínio. Para citar sua frase em Velhas e Novas Ordens Mundiais, de 1994, isso limitará a capacidade dos EUA para “suprimir o desenvolvimento independente” de nações estrangeiras? A Doutrina Monroe está completamente extinta?
Bem, isso não é uma previsão, isso já aconteceu. E aconteceu nas Américas, muito dramaticamente. O que a Doutrina Monroe dizia, de fato, é que os EUA deviam dominar o continente. No último século isso de fato foi verdade, mas está declinando – o que é muito significativo. A América do Sul praticamente se libertou, na última década. Isso é um evento de relevância histórica. A América do Sul simplesmente não segue mais as ordens dos EUA. Não restou uma única base militar norte-americana no continente. A América do Sul caminha por si só, nas relações exteriores. Ocorreu uma conferência regional, cerca de dois anos atrás, na Colômbia. Não se chegou a um consenso, nenhuma declaração oficial foi feita. Mas nos assuntos cruciais, Canadá e EUA isolaram-se totalmente. Os demais países americanos votaram num sentido e os dois foram contra – por isso, não houve consenso. Os dois temas eram admitir Cuba no sistema americano e caminhar na direção da descriminalização das drogas. Todos os países eram a favor; EUA e Canadá, não.
 
O mesmo se dá em outros tópicos. Lembre-se de que, algumas semanas atrás, vários países na Europa, incluindo França e Itália, negaram permissão para sobrevoo do avião presidencial do boliviano Evo Morales. Os países sul-americanos condenaram veementemente isso. A Organização dos Estados Americanos, que costumava ser controlada pelos EUA, redigiu uma condenação ácida, mas com um rodapé: os EUA e o Canadá recusaram-se a subscrever. Estão agora cada vez mais isolados e, mais cedo ou mais tarde, penso que os dois serão, simplesmente, excluídos do continente. É uma brusca mudança em relação ao que ocorria há pouco tempo.
 
A América Latina é o atual centro da reforma capitalista. Esse movimento poderá ganhar força no Ocidente?
Você está certo. A América Latina foi quem seguiu com maior obediência as políticas neoliberais instituídas pelos EUA, seus aliados e as instituições financeiras internacionais. Quase todos os países que se orientaram por aquelas regras, incluindo nações ocidentais, sofreram – mas a América Latina padeceu particularmente. Seus países viveram décadas perdidas, marcadas por inúmeras dificuldades.
Parte do levante da América Latina, particularmente nos últimos dez a quinze anos, é uma reação a isso. Reverteram muitas daquelas medidas e se moveram para outra direção. Em outra época, os EUA teriam deposto os governos ou, de uma maneira ou de outra, interrompido seu movimento. Agora, não podem fazer isso.
 
Recentemente, os EUA testemunharam o surgimento de seus primeiros refugiados climáticos – os esquimós Yup’ ik – na costa sul na ponta do Alaska. Isso coloca em mórbida perspectiva o impacto humano no meio ambiente. Qual é sua posição acerca dos impostos sobre emissões carbono e quão popular pode ser tal medida nos EUA ou em outro país?
Acho que é basicamente uma boa ideia. Medidas muito urgentes têm de ser tomadas, para frear a contínua destruição do meio ambiente. Um imposto sobre carbono é uma maneira de fazer isso. Se isso se tornasse uma proposta séria nos EUA, haveria uma imensa propaganda contrária, desencadeada pelas corporações – as empresas de energia e muitas outras –, para tentar aterrorizar a população. Diriam que, em caso de criação do tributo, todo tipo de coisa terrível aconteceria. Por exemplo, “você não será mais capaz de aquecer sua casa”… Se isso terá sucesso ou não, dependerá da capacidade de organização dos movimentos populares.
 

sábado, 12 de outubro de 2013

O Zé Francisco partiu

Carta de “Chalana” sobre Francisco José Martinho dos Santos, um dos protagonistas da reportagem “SOS na zona pobre”, que morreu à espera de uma casa.
 
 
Francisco José Martinho dos Santos tinha 30 anos. Vivia em condições miseráveis com a mulher, de 21, e o filho, de quatro, na “ilha” de Campanhã que o PÚBLICO retratou na reportagem “SOS na zona pobre”. Francisco José, feito “homem fantasma” numa rixa que o deixou impossibilitado de trabalhar, esperava que a Câmara do Porto lhe atribuísse uma casa. Esteve perto de o conseguir, mas um engano deixou a família a viver entre as mesmas paredes podres.
 
Francisco José morreu à espera. José António Pinto, técnico assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã, conhecido como “Chalana”, deu a notícia ao autor da reportagem, o jornalista Paulo Moura, nesta quinta-feira, através de uma carta que publicamos na íntegra:
 
"Olá Paulo Moura,
 
O Zé Fran­cisco par­tiu. Fale­ceu ontem no Hospital de S. João. Quando a grande reportagem do jor­nal PÚBLICO foi edi­tada, já se encon­trava inter­nado.
 
Mesmo sendo sev­era­mente pobre e cas­ti­gado por estas políti­cas soci­ais, o Zé son­hava ver o Ivo crescer, a Sara sor­rir com dentes novos e pas­sar já o próximo Natal numa casa digna e decente cedida pela Câmara Munic­i­pal do Porto.
 
Soube hoje desta triste notí­cia pela boca do seu filho, que me procurou com a avó no posto de atendi­mento do Bairro do Lagarteiro para me dizer “Ó dr. Pinto, o meu pai já saiu do hos­pi­tal, mas agora não podes falar mais com ele. Foi para o Céu. Quando eu for grande e se me por­tar bem, ele volta.”
 
Peguei neste menino de óculos novos e fomos passear de carro. Ouvir música, lan­char, desen­har, jogar com­puta­dor. Devolvi-o à mãe de olhos enchar­ca­dos às 19h30. Já era noite, tudo estava escuro e triste naquele portão da ilha.
 
O Zé era muito novo. Mere­cia ter vida e vida em abundân­cia. O sis­tema esmagou-o, não lhe deu opor­tu­nidades nem recursos, não per­mi­tiu que ele real­izasse os seus son­hos, não lhe pro­por­cio­nou as mín­i­mas condições dig­nas de sobre­vivência, não foi justo com as suas reivin­di­cações.
 
O Zé chorou no hos­pi­tal quando perce­beu que estava a chegar ao fim, sem­anas antes tinha-se revoltado no Gabi­nete do Inquilino Munic­i­pal quando a téc­nica gestora do seu pedido de casa o infor­mou que a chave do novo tecto ainda estava demor­ada. Nesse dia chorou de raiva.
 
A sua dig­nidade e os seus dire­itos foram ao longo destes anos sendo enter­ra­dos, hoje o seu corpo tam­bém foi para debaixo da terra.
Aquele abraço fraterno,

José António Pinto (Chalana)"
 
Fonte: Público

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Caso de tortura

Os acontecimentos dos últimos dois anos demonstraram que o governo da República Portuguesa, tutelado pelo conluio de credores formado pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o FMI, vulgo troika, é capaz de tudo para obrigar o povo a pagar a ganância dos agiotas internacionais.

As últimas notícias confirmam que quando se escreve “capaz de tudo” não é, neste caso, uma frase feita, uma muleta de retórica. É mesmo tudo, incluindo torturar o povo.

Torturar o povo? Não será exagero do escriba? Não é. Encontram outra interpretação para a intenção manifestada de cortar nas pensões de sobrevivência dos viúvos com a finalidade de financiar bancos, bolsas e especuladores que se alimentam da dívida portuguesa, jogando com ela a juros cruéis?

A expressão “pensão de sobrevivência” é eloquente: sobrevivência, um montículo de migalhas para acudir à montanha de custos e encargos que todos os dias se ergue no horizonte dos mais desfavorecidos. Pensões de sobrevivência são os rendimentos das viúvas e viúvos de Portugal, a quantia, na maior parte dos casos em formato de esmola, de que dispõe o cidadão que ao perder o cônjuge perde igualmente grande parte do rendimento familiar. A pensão é o resíduo que o sobrevivente recebe do que o companheiro descontou durante a sua vida de trabalho.

O governo de Portugal, no rescaldo de uma visita dos esbirros da troika, parece então disposto a assaltar as pensões de sobrevivência dos portugueses na sua estratégia de procurar “aqui e ali”, como ameaçou o vice-primeiro ministro Paulo Portas, os milhares de milhões necessários para pagar uma dívida impossível de pagar e que não se deve, por certo, a desmandos cometidos pela maioria dos portugueses, mas sim pela elite que os assalta.

O que se poupa atacando as pensões de sobrevivência? Uns trocos inúteis (100 milhões de euros, só os juros do primeiro resgate são 38 mil milhões...) perante a imensidão de uma dívida que chega aos 130 por cento do PIB e que, por alturas do início da intervenção da troika, precisamente para pagar essa dívida, estava à beira dos 90 por cento do PIB. Nesse tempo, dizia o presidente da República, tal dívida era “insustentável”. Hoje, 40 pontos percentuais acima desse nível, tornou-se “sustentável”, segundo o presidente da República, que por sinal é o mesmo – Aníbal Cavaco Silva.

Uns trocos retirados a rendimentos reduzidos, em muitos casos insultuosamente miseráveis, que são inúteis contra a dívida mas que, para muitas e muitas vítimas, representam a fronteira entre a sobrevivência e a morte lenta, entre a saúde e a doença, entre um mínimo de dignidade e a humilhação. Trocos que, além disso, simbolizam a infâmia do comportamento que é confiscar os legados que os cidadãos mortos deixaram às famílias e ao país.

Diz o já citado presidente da República que os portugueses, esmagados pelo regime de austeridade, são “masoquistas” por insistirem em dizer que não é possível pagar a dívida. Ora o assalto às pensões das viúvas e viúvos de Portugal, que não resolve problema algum na situação actual do país, é por isso um caso de punição gratuita e vingativa, com o requinte de ser uma tortura de aplicação lenta. Pelo que as elites que hoje governam a República Portuguesa atingiram o patamar supremo da desumanização, o da crueldade sádica.

Texto de José Goulão

domingo, 6 de outubro de 2013

Võ Nguyên Giáp (25 de Agosto de 1911 - 4 de Outubro de 2013)



Võ Nguyên Giáp (25 de Agosto de 1911 - 4 de Outubro de 2013)
 
 

Vo Nguyen Giap, o maior gênio militar da história moderna

Líder vietnamita foi fundamental para país expulsar franceses e norte-americanos de seu território.
O general vietnamita Vo Nguyen Giap, estrategista militar e o comandante das históricas vitórias bélicas contra o colonialismo francês e o imperialismo dos Estados Unidos, morreu nesta sexta-feira, 4 de outubro de 2013, aos 102 anos.
Pai fundador do Exército Popular do Vietnã, cujas táticas guerrilheiras inspiraram combatentes no mundo inteiro, publicou dezenas de trabalhos e ensaios sobre estratégia militar.
O general Giap era, ao lado do venerado Ho Chi Minh, fundador do Partido Comunista do Vietnã, sendo ambos as personalidades mais admiradas pela juventude vietnamita. Em verdade, a admiração por Giap era universal, mesmo entre aqueles que o combateram.


Wikicommons

Imagem do líder vietnamita em 2008


Considerado um dos maiores gênios militares da história da humanidade, Giap foi o organizador da luta dos guerrilheiros nacionalistas vietnamitas contra a colonização francesa que culminou com a derrota das tropas vitória em Dien Bien Phu (1954). Torna-se então o dirigente militar do Vietnã do Norte, conduzindo a estratégia militar que levou à maior derrota da história dos Estados Unidos, depois de uma terrível guerra que dizimou boa parte do povo vietnamita. Giap era ainda considerado um gênio da logística e um político mobilizador de massas.
           Para ler a biografia completa: Opera Mundi