sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A URSS comparada aos EUA

Há pouco tempo, quando falava num debate sobre os problemas sociais dos EUA (o país em que vivo), perguntaram-me se achava o sistema soviético melhor que o americano. A ratoeira estava montada: depois das derrotas do socialismo no Leste da Europa, a cultura dominante proibiu a esquerda afiançada de «democrática» de falar da URSS sem primeiro, a título de portagem, a condenar ou renegar. E mesmo assim, nem depois da costumeira demonização em piloto-automático, ouvimos falar dos enormes marcos civilizacionais soviéticos.

É óbvio que os EUA não podem ser, em rigor, comparados à URSS. Quando em 1917 os EUA eram um dos países mais avançados do mundo, a Rússia era um obscuro império feudal. De resto, quando se trata de comparar o socialismo ao mundo capitalista, é este último que define os termos, confrontando a realidade do capitalismo com o seu passado efectivo e a realidade do socialismo com o seu prospectivo futuro.

Mas qual seria o resultado se o critério fossem as conquistas sociais? Aceitemos pois, com esta justíssima condição, a pergunta armadilhada de saber «qual era o melhor sistema» e, sobretudo, «para quem».

O que nunca te disseram sobre a URSS

Em 50 anos, a produção industrial soviética passou de 12 para 85% da alcançada pelos EUA e a pátria de Lenine logrou patamares inéditos de igualdade, segurança, saúde, habitação, emprego, educação e cultura. O socialismo pôs fim à inflação, à discriminação racial e à pobreza extrema. A esperança média de vida duplicou e a mortalidade infantil caiu 90%. Segundo a UNESCO, nunca uma sociedade tinha elevado tanto o nível de vida da população em tão pouco tempo. Ao contrário dos Estados Unidos, perpetuamente assolados por epidemias de desemprego, em apenas 20 anos o país dos sovietes atingiu o pleno emprego.

Os direitos laborais nos EUA continuam hoje 80 anos atrás dos soviéticos: os norte-americanos trabalham em média quase 9 horas diárias. Já os soviéticos trabalhavam 7 horas por dia desde 1936. Os norte-americanos gozam em média 8 dias de férias, amiúde não remunerados. Já os soviéticos tinham direito a um mês de férias inteiramente pagas. Os EUA são o único país da OCDE que não contempla um único dia de licença de maternidade. Na URSS, as mulheres tinham direito a 20 meses de licença paga.

Os EUA não dispõem de um sistema público de saúde, o que condena diariamente 125 trabalhadores à morte. Tal não se passaria na URSS, que oferecia cuidados médicos gratuitos a toda a população. Os jovens norte-americanos contraem uma dívida média de 80 mil dólares durante a licenciatura. Na URSS, todos os graus de ensino, do pré-escolar ao pós-doutoramento, eram gratuitos. Na terra do Tio Sam os trabalhadores gastam metade do seu salário em habitação e serviços básicos. Na URSS, a renda da casa representava 2% do orçamento familiar e os serviços básicos 4%.

A URSS era também uma sociedade mais culta que os EUA. Em 1917, na Quirguízia, menos de 0,2% da população sabia ler e escrever. Em 1970 esse número chegava aos 97%. Nessa década, a URSS foi reconhecida pela UNESCO como o país do mundo onde se liam mais livros e viam mais filmes. As famílias soviéticas assinavam em média quatro publicações periódicas, o número de visitantes de museus representava metade da população e a frequência de teatros ultrapassava o seu total. Nos EUA cerca de 25% da população são tecnicamente «iletrados» (incapaz de compreender textos simples).

Anões aos ombros de gigantes

Como agora a direita europeia reconhece, o próprio Estado Previdência foi uma cedência arrancada a ferros pelos trabalhadores à burguesia, em parte pela necessidade de competir com a URSS em matéria de conquistas sociais.

Bernardo de Chartres, um filósofo do século XII, comparou os feitos da sua geração à figura de «anões aos ombros de gigantes». Também nós devemos reconhecer os benefícios duradouros que colhemos da experiência soviética, afinal, a URSS destruiu sozinha 70% do exército de Hitler e libertou o mundo do genocídio nazi, pagando-o com mais de 24 milhões de vidas e 70 mil cidades e vilas em escombros.
Uma terra sem amos

Com o fim da URSS, o número de pobres aumentou mais de 150 milhões, a economia e os salários encolheram mais de 50%. 75% dos russos caíram na miséria e doenças antes erradicadas atingiram proporções epidémicas. A esperança média de vida caiu para os níveis do século XIX.

Os EUA venceram a guerra fria, mas são todos os dias derrotados pela pobreza de 50 milhões, pela maior taxa de população prisional do mundo e por dois milhões de crianças sem tecto. Na URSS, as crianças não dormiam na rua e a democracia não ficava à entrada da fábrica. Foi o mais perto que a humanidade chegou de construir uma terra sem amos.

A URSS foi uma flor rara, de beleza extraordinária e difícil cultivo, que já antes tinha sido arrancada, com apenas dois meses de vida, quando a Comuna de Paris foi esmagada. E mesmo assim voltou a crescer, mais viçosa e resiliente num improvável sulco russo. Extinta a União Soviética, sobrevivem sementes que um dia darão flores novas.
 
Texto de António Santos publicado no Avante

NYC 1949

 
NYC on 33rd and 11th Ave, 1949 - Fotografia de Robert Frank

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Ignacio Ramonet, en exclusiva para Cubainformación TV



Cubainformación TV entrevista en exclusiva al Director de Le Monde Diplomatique en español, que habla sobre el presente y futuro de la Revolución cubana, sobre su libro "Biografía a dos voces" (en Cuba conocido como "Cien horas con Fidel") y sobre otros temas. "La dimensión intelectual y de estratega político de Fidel Castro no corresponde con la caricatura que han creado sobre él los grandes medios de comunicación", nos dice.
 
 

Paralelas Convergentes

 
Paralelas Convergentes, fotografia de Vladimir Ronquillo Sardá

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Urbano Tavares Rodrigues (1923 - 2013)

 
Urbano Tavares Rodrigues (1923 - 2013)
 

O escritor, jornalista e militante do PCP Urbano Tavares Rodrigues morreu na manhã desta sexta-feira, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa. Estava a poucos meses de completar 90 anos. Público


terça-feira, 6 de agosto de 2013

Ramonet: "Somos todos vigiados"

Por que Snowden, Manning e Assange assumiram correr tantos riscos pela liberdade de expressão?
 
Nós já temíamos (1). Tanto a literatura (1984, de George Orwell), como o cinema (Minority Report, de Steven Spielberg) haviam avisado: com o progresso da tecnologia da comunicação, todos acabaríamos por ser vigiados. Presumimos que essa violação de nossa privacidade seria exercida por um Estado neototalitário. Aí nos equivocamos. Porque as revelações inéditas do ex-agente Edward Snowden sobre a vigilância orwelliana acusam diretamente os Estados Unidos, país considerado como “pátria da liberdade”. Aparentemente, desde a promulgação, em 2001, da lei Patriot Act (2), isso ficou no passado. O próprio presidente Barack Obama acaba de admitir: “Não se pode ter 100% de segurança e 100% de privacidade”. Bem-vindos, portanto à era do “Grande Irmão”.

O que revelou Snowden? Este antigo assistente técnico da CIA, de 29 anos, que trabalhava para uma empresa privada – a Booz Allen Hamilton (3) – subcontratada pela NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), revelou aos jornais The Guardian e Washington Post a existência de programas secretos que tornam o governo dos Estados Unidos capaz de vigiar a comunicação de milhões de cidadãos.
 
Wikimedia Commons

O ex-agente norte-americano Edward Snowden

Um primeiro programa entrou em operação em 2006. Consiste em espiar todas as chamadas telefônicas feitas pela companhia Verizon, dentro dos Estados Unidos, e as que se fazem de lá para o exterior. Outro programa, chamado PRISM, foi posto em marcha em 2008. Coleta todos os dados enviados pela internet (e-mails, fotos, vídeos, chats, redes sociais, cartões de crédito), por (em princípio...) estrangeiros que moram fora do território norte-americano. Ambos os programas foram aprovados em segredo pelo Congresso norte-americano, que teria sido, segundo Barack Obama, “constantemente informado” sobre o seu desenvolvimento.

Sobre a dimensão da incrível violação dos nossos direitos civis e das nossas comunicações, a imprensa deu detalhes escabrosos. Em 5 de junho, por exemplo, o Guardian publicou a ordem emitida pelo Tribunal de Supervisão de Inteligência Externa que exigia à companhia telefônica Verizon entregar à NSA os registros de milhões de chamada dos seus clientes. O mandato não autoriza, aparentemente, saber o conteúdo das comunicações, nem os titulares dos números de telefone, mas permite o controle da duração e o destino dessas chamadas. No dia seguinte, o Guardian e o Washington Post revelaram a realidade do programa secreto de vigilância PRISM, que autoriza a NSA e o FBI acesso aos servidores das nove principais empresas da internet (com a notável exceção do Twitter): Microsoft, Yahoo, Gogle, Facebook (4), PalTalk, AOL, Skype, YouTube e Apple.

Por meio dessa violação, o governo dos EUA pode aceder a arquivos, áudios, vídeos, e-mails e fotografias de usuários dessas plataformas. O PRISM converteu-se, desse modo, na ferramenta mais útil da NSA para fornecer relatórios diários ao presidente Obama. Em 7 de junho, os mesmo jornais publicaram uma diretiva da Casa Branca que ordenava às suas agências (NSA, CIA, FBI) estabelecer uma lista de possíveis países suscetíveis de serem “ciberatacados” por Washington. E em 8 de junho, o Guardian revelou a existência de outro programa, que permite à NSA classificar os dados recolhidos na rede. Esta prática, orientada à ciberespionagem no exterior, permitiu compilar – só em março – cerca de 3 bilhões de dados de computador nos Estados Unidos.

Nas últimas semanas, ambos os jornais conseguiram revelar, sempre graças a Edward Snowden, novos programas de ciberespionagem e vigilância da comunicação em países no resto do mundo. Edward Snowden explica que “a NSA construiu uma infraestrutura que lhe permite interceptar praticamente qualquer tipo de comunicação. Com esta técnica, a maioria das comunicações humanas são armazenadas para servir em algum momento a um objetivo determinado”.

A NSA, cujo quartel-general fica em Fort Meade (Maryland), é a mais importante e mais desconhecida agência de informações norte-americana. É tão secreta que a maioria dos norte-americanos ignora a sua existência. Controla a maior parte do orçamento destinado aos serviços de informações e produz mais de cinquenta toneladas de material por dia. É ela – e não a CIA – a proprietária e operadora da maior parte do sistema de coleta de dados dos serviços secretos dos EUA. Desde uma rede mundial de satélites até as dezenas de postos de escuta, milhares de computadores e as florestas de antenas localizadas nas colinas da Virginia do Oeste. Uma das suas especialidades é espiar os espiões — ou seja, os serviços secretos de todas as potências, amigas e inimigas. Durante a guerra das Malvinas (1982), por exemplo, a NSA decifrou o código secreto dos serviços de espionagem argentinos, o que lhe permitiu transmitir aos britânicos informações cruciais sobre as forças argentinas.

O vasto sistema da NSA pode captar discretamente qualquer e-mail, qualquer consulta de internet ou telefonema internacional. O conjunto total da comunicação interceptada e decifrada pela NSA constitui a principal fonte de informação clandestina do governo dos EUA.

A NSA colabora estreitamente com o misterioso sistema Echelon. Criado em segredo, depois da II Guerra Mundial, por cinco potências anglo-saxônicas — Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia (os “cinco olhos”), o Echelon é um sistema orwelliano de vigilância global que se estende por todo o mundo, monitoriza os satélites usados para transmitir a maioria dos telefonemas, comunicação na internet, e-mails, redes sociais etc. O Echelon é capaz de capturar até dois milhões de conversas por minuto. A sua missão clandestina é a espionagem de governos, partidos políticos, organizações e empresas. Seis bases espalhadas pelo mundo recolhem informações e desviam de forma indiscriminada enormes quantidades de comunicação. Em seguida, os super-computadores da NSA classificam este material, por meio da introdução de palavras-chaves em vários idiomas.
  
Em torno do Echelon, os serviços de espionagem dos EUA e do Reino Unido estabeleceram uma larga colaboração secreta. E agora sabemos, graças às novas revelações de Edward Snowden, que a espionagem britânica também intercepta clandestinamente cabos de fibra ótica, o que lhe permitiu espionar as comunicações das delegações presentes na reunião de cúpula do G-20, em Londres, em abril de 2009. Sem distinguir entre amigos e inimigos (5).

Por meio do programa Tempora, os serviços britânicos não hesitam em armazenar enormes quantidades de informação obtidas ilegalmente. Por exemplo, em 2012, manejaram cerca de 600 milhões de “conexões telefônicas” por dia e puseram sob escuta, em perfeita ilegalidade, mais de 200 cabos. Cada cabo transporta 10 gigabites (6) por segundo. Em teoria, poderia processar 21 petabytes (7) por dia; equivalente a toda a informação da Biblioteca Britânica, enviada 192 vezes ao dia.

O serviços de espionagem constatam que a internet já tem mais de dois bilhões de utilizadores no mundo e que quase um bilhão utiliza o Facebook de forma habitual. Por isso, fixaram como objetivo, transgredindo leis e princípios éticos, controlar tudo o que circula na internet. E estão conseguindo: “Estamos começando a dominar a internet”, confessou um espião inglês, “e a nossa capacidade atual é bastante impressionante”. Para melhorar ainda mais esse conhecimento sobre a internet, o Quartel-Geral de Comunicações do Governo [Government Communications Headquarters, ou GCHQ, a agência de espionagem britânica] lançou recentemente novos programas: Mastering The Internet (MTI) sobre como dominar a Internet, e Programa de Modernização da Intercetação [Interception Modernisation Programme] para uma exploração orwelliana das telecomunicações globais. Segundo Edward Snowden, Londres e Washington já acumulam, diariamente, uma quantidade astronômica de dados, interceptados clandestinamente através das redes mundiais de fibra ótica. Ambos países dispõem de um total de 550 especialistas para analisar essa titânica informação.

Com a ajuda da NSA, a GCHQ aproveita-se de que grande parte dos cabos de fibra ótica por onde trafegam as telecomunicações planetárias passam pelo Reino Unido. Este fluxo é interceptado com programas sofisticados de informática. Em síntese, milhões de telefonemas, mensagens eletrônicas e dados sobre visitas na internet são armazenados sem que os cidadãos saibam, a pretexto de reforçar a segurança e combater o terrorismo e o crime organizado.

Washington e Londres colocaram em marcha o plano orwelliano do “Grande Irmão”, com capacidade de saber tudo que fazemos e dizemos nas nossas comunicações. E quando o presidente Obama menciona a suposta “legitimidade” de tais práticas de violação de privacidade, está a defender o injustificável. Além disso, há de se lembrar que, por interceptarem informação sobre perigosos grupos terroristas com base na Flórida – ou seja, uma missão que, segundo a lógica do presidente Obama seria “perfeitamente legitima” — cinco cubanos foram detidos em 1998 e condenados (8) pela Justiça dos EUA a largas e imerecidas penas de prisão (9).

O presidente Barack Obama está a abusar do seu poder e diminuindo a liberdade de todos os cidadãos do mundo. “Não quero viver numa sociedade que permite este tipo de ação”, protestou Edward Snowden, quando decidiu fazer as suas revelações. Divulgou os fatos e, não por acaso, exatamente quando começou o julgamento do soldado Bradley Manning, acusado de promover a fuga de segredos da Wikileaks, organização internacional que divulga informações secretas de fontes anônimas.

Enquanto isso, o ciberativista Julian Assange está refugiado há um ano na Embaixada do Equador em Londres. Snowden, Manning e Assange são defensores da liberdade de expressão, lutam em favor da democracia e dos interesses de todos os cidadãos do planeta. Hoje são assediados e perseguidos pelo “Grande Irmão” norte-americano (10).

Por que os três heróis do nosso tempo assumiram correr semelhante riscos, que podem custar a sua própria vida? Edward Snowden, obrigado a pedir asilo político no Equador e em vinte países, responde: “Quando se dá conta de que o mundo que ajudou a criar será pior para as próximas gerações, e que os poderes desta arquitetura de opressão se estendem, você entende que é preciso aceitar qualquer risco. Sem se preocupar com as consequências”.

Artigo de Ignacio Ramonet (fonte OperaMundi)

Notas:
1) Ver “Vigilância absoluta”, Ignacio Ramonet, na Biblioteca Diplô, agosto de 2003.
2) Proposta pelo presidente George W. Bush e adotada no contexto emocional que se seguiu aos ataques de 11 de setembro de 2001, a lei “Patriot Act” autoriza controles que interferem com a vida privada, suprimem o sigilo da correspondência e liberdade de informação. Não requer a permissão para escutas telefónicas. E os investigadores podem aceder a informações pessoais dos cidadãos sem mandado.
3) Em 2012, a empresa faturou 1,300 bilhão para “missões de assistência de informação.”
4) Recentemente, soube-se que Max Kelly, chefe de segurança no Facebook, encarregado de proteger as informações pessoais dos usuários da rede social contra ataques externos, deixou a empresa em 2010 e foi contratado pela NSA.
5) Espiar diplomatas estrangeiros é legal no Reino Unido: protegido por uma lei aprovada pelos conservadores britânicos, em 1994, que coloca o interesse económico nacional acima da diplomacia.
6) O byte é uma unidade de informação em computação. Um gigabyte é uma unidade de armazenamento cujo símbolo é GB, igual a mil milhões de bytes, o equivalentes a uma van repleta de páginas de texto.
7) Um petabyte (PT) é igual a um quatrilhão de bytes — ou um milhão de gigabyte.
8) A missão dos cinco (Antonio Guerrero, Fernando González, Gerardo Hernández, Ramón Labañino e René González) era infiltrar-se e observar o processo de grupos de exilados cubanos para evitar atos de terrorismo contra Cuba. Porém o juiz condenou eles à prisão perpétua, disse a Amnistia Internacional num comunicado que “durante o julgamento não mostrou qualquer prova de que os acusados tinham informações classificadas realmente tratado ou transmitida.”
9) Ler de Fernando Morais "Os últimos soldados da Guerra Fria", Companhia das Letras.
10) Edward Snowden corre o risco de ser condenado a 30 de prisão após ter sido formalmente acusado pelo governo dos EUA de “espionagem”, “roubo” e “uso ilegal de propriedade do governo”.

domingo, 4 de agosto de 2013

sábado, 3 de agosto de 2013

Comando Sul: Como operam os Estados Unidos na América Latina ?

As revelações resultantes dos documentos que Edward Snowden divulgou acerca do sistema de espionagem global montado pelos EUA são mais uma peça para a compreensão do colossal sistema de ingerência na vida interna de países soberanos que o imperialismo organizou. Na América Latina, e no chamado Terceiro Mundo em geral, a USAID é outra peça fundamental dessa engrenagem.
 
Um ex funcionário da CIA revelou um perigoso programa de espionagem e intervenção política na região. Quem são e como trabalham para desestabilizar os governos populares da Unasur. Edward Snowden não é um herói, mas a humanidade deve-lhe um enorme favor. Os documentos que o ex funcionário da CIA filtrou para o mundo demonstram o que até agora a política global sabia mas não se atrevia a denunciar: que os Estados Unidos não pouparão crimes para continuarem sendo o que são. Um império voraz.
 
Nós, habitantes de América latina, poderíamos presumir que não necessitávamos de Snowden para o saber. Nesta região, os Estados Unidos promoveram golpes, ditaduras genocidas, políticas económicas predatórias e elites financeiras mafiosas com o evidente objectivo de rapinar os seus recursos naturais, materiais e humanos. A intervenção foi tão vasta e letal que na diplomacia regional ainda se troca uma velha piada: “¿Sabe por que é que nos Estados Unidos não há golpes de Estado? Porque ali os Estados Unidos não têm embaixada”.
 
Apesar das evidências históricas em vários países de Latinoamérica como a Argentina, abunda quem acredite que a intervenção estado-unidense em assuntos domésticos é pura ficção. O equívoco foi alimentado por formadores de opinião aliados ou cooptados pela diplomacia estado-unidense, como revelaram os telegramas difundidos por Wikileaks, onde abundam referências aos vínculos entre A Embaixada e o sistema tradicional de media que no nosso país é dirigido pelo grupo multimédias Clarín. Um detalhe: referir-se à sede diplomática estado-unidense como “A Embaixada” explicita até que ponto se naturalizou os EUA como farol político. Mas não são as sedes diplomáticas as únicas que perpetram as actividades intervencionistas dos EUA na região. O país do Norte conta com uma complexa rede de organismos que, com fachadas várias, foram e são utilizados para tarefas sujas que vão desde a espionagem e a formação de quadros dirigentes dependentes até à desestabilização de governos e economias com o seu consequente custo político e social.
 
Uma das organizações mais activas é a United States Agency International Development (USAID), um organismo que os EUA criaram com a proclamada intenção de desenvolver tarefas humanitárias nos países do Terceiro Mundo. A sua origem remonta à Aliança para o Progresso, criada em 13 de Março de 1961 pelos mesmos funcionários que vários anos antes tinham dado à luz o Plano Marshall com a intenção de colocar o seu país à cabeça da reconstrução da Europa do pós-guerra. A Aliança fracassou pouco depois de nascer uma vez que os países da região rejeitaram as condições da “revolução pacífica e democrática” que os EUA pretendiam impor em troca dos 20.000 milhões que prometiam investir. Mas antes de ser cancelada, em Novembro de 1961, foi fundada a USAID, uma de sus agencias que, formalmente, devia veicular parte dos investimentos em programas de desenvolvimento humanitário, fachada que se mantém até hoje.
 
A fantasia filantrópica permitiu-lhe forjar, através de generosos contributos financeiros, uma rede de fundações e ONGs destinadas a difundir os benefícios do alinhamento com os EUA e a sua “american way of life” mediante propaganda e programas de formação. Mas essa é apenas a face amável da sua tarefa. Ligeiramente maquilhado, o verdadeiro rosto da agencia é mais hostil: intervir nos processos políticos da região com o pretexto de proteger a segurança nacional do seu país.
 
A militarização dos objectivos da USAID culminou em 2010 quando o presidente Barack Obama incluiu o general Jeam Smith – um estratega militar que esteve na OTAN – no Conselho de Segurança, apenas com a função de acompanhar os programas de “assistência social” que a agencia tinha em andamento. E como director adjunto foi nomeado Mark Feierstein, cuja folha de serviços encaixava nos desafios que os EUA antevêm na região: perito em guerras de quarta geração – ou campanhas de desinformação –, e proprietário de Greenbarg Quinlan Rosler, uma empresa que proporciona orientação estratégica sobre campanhas eleitorais, debates, programação e investigação.
Alérgico aos governos populares que se estendem pela América latina, Feierstein comprovou a eficácia do seu método como assessor de Gonzalo Sánchez de Lozada durante a campanha que o depositou na presidência de Bolívia. Goñi, como o chamavam na sua pátria, foi o paroxismo da colonização política que os EUA derramaram sobre os países do Sul nos anos noventa. Criado, educado e formado em solo estado-unidense, Sánchez de Lozada voltou à sua terra de nascimento para ser presidente pela mão de Feierstein. Durou no cargo pouco mais de um ano: o chamado “Massacre do Gás”, em 2003, onde morreram mais de sessenta pessoas, ejectou-o do poder e devolveu-o aos EUA, onde vive como fugitivo da Justiça boliviana amparado pelo governo que colocou o seu amigo Feierstein à frente da USAID.
 
As correrias do seu director não são a única coisa que liga a agencia à Bolívia. No passado 1 de Maio, o presidente Evo Morales não sabia que o escândalo Snowden o levaria a protagonizar uma vergonhosa detenção na Europa (ver nota aparte). Mas sabia aquilo de que a USAID era capaz. Por isso, nessa jornada emblemática onde os trabalhadores celebram o seu dia, o presidente anunciou que expulsava a agencia de solo boliviano por “ingerência política” e “conspiração”. Dias depois, o ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, detalhou: “Não se trata de uma inocente agencia de cooperação filantrópica dos Estados Unidos para com a Bolívia e o mundo. A agencia estado-unidense serviu para legitimar as ditaduras entre 1964 e 1982, para promover o neoliberalismo entre 1985 e 2005, e para além disso é um factor externo que alimenta a instabilidade no país desde 2006”.
 
Um dos factos que chamou a atenção do governo boliviano foi a materialização, em 2007, de um convénio entre o prefeito de Pando Leopoldo Fernández e a USAID para levar por diante “programas sociais” em Bolpedra, Cobija e El Porvenir. O apoio logístico esteve a cargo do Comando Sul e a cobertura institucional da Iniciativa de Conservação da Bacia Amazónica. Outro episodio que motivou a expulsão foi a activa participação da agencia estado-unidense, via Wildlife Conservation Society (Sociedade de Conservação da Vida Selvagem), na disputa violenta entre os povoadores de Caranavi e Palos Blancos pela localização de uma fábrica processadora de frutas em Janeiro de 2010, a poucos dias de Evo Morales assumir o seu primeiro mandato no Estado Plurinacional.
 
A utilização de fundações e ONGs para terceirizar operações é uma prática habitual da USAID. Na Argentina, por exemplo, há uma dezena de fundações que operam por conta e ordem da agencia estado-unidense. Que os movimentos sejam mais sigilosos não implica que sejam menos potentes. Um exemplo: entre el 8 e 12 de Abril deste ano, a USAID financiou uma cimeira da direita internacional. Organizada pela Fundación Libertad – o tentáculo predilecto da agencia no nosso país –, acorreram ao encontro o Nobel Mario Vargas Llosa e o seu filho Álvaro – adversários dos governos populares que habitam a região –; José María Aznar – ex-presidente espanhol que apoiou a invasão do Iraque –; o pinochetista Joaquín Lavín; Marcel Granier, presidente da emissora venezuelana RCTV que apoiou e impulsionou o golpe contra Hugo Chávez em 2002, e a cubana anticastrista Yoani Sánchez, que à última hora desistiu da visita.
 
O seminário abundou em críticas contra os processos emancipadores da região. E os intervenientes, sem subtilezas, pediram para acabar com os governos populares em curso para os substituir por outros mais “modernos”, de acordo com os conceitos de “democracia” que os EUA impuseram como doutrina global. Não foi, é certo, uma posição original. Cinco anos atrás, no mesmo cenário embebido em prosperidade sojeira, tinha-se realizado um seminário semelhante, com o próprio Vargas Llosa como animador principal.
Aquele seminário contou com vários “peritos” alinhados com as políticas do Consenso de Washington como o jornalista de La Nación Carlos Pagni, o ex candidato presidencial Ricardo López Murphy, e Mauricio Macri, regente do Pro e da Fundación Pensar, co-organizadora do evento.
 
Estas fundações, como outras similares que operam na região, contam com o aval financeiro do National Endowment for Democracy (NED, Fundação Nacional para a Democracia), financiada oficialmente pelo Congresso norte-americano. Mas a vinculação não se esgota nas contribuições. Nos anos oitenta, muito antes de ser director da USAID, o inefável Feierstein trabalhou para a NED em Nicarágua. O seu objectivo: evitar o triunfo do sandinista Daniel Ortega. Conseguiu-o patrocinando a candidatura de Violeta Chamorro.
 
As operações da dupla USAID-NED na América latina foram reveladas por Wikileaks, o sitio que difundiu milhões de telegramas internos do Departamento de Estado. Num deles, o ex embaixador estado-unidense em Venezuela, William Brownfield, revelou como o seu país alimentou a oposição a Hugo Chávez com ideias e milhões. O telegrama, enviado da embaixada dos EUA em Caracas em Novembro de 2006, detalhava como dezenas de organizações não-governamentais recebiam financiamento do governo norte-americano por intermédio da USAID e do Escritório de Iniciativas de Transição (Office of Transition Initiatives – OTI –). Este operacional incluiu “mais de 300 organizações da sociedade civil venezuelana”, que iam desde defensores dos deficientes até programas educativos.
 
Na aparência, esses programas tinham objectivos humanitários, mas foi o próprio embaixador Brownfield quem detalhou os objectivos reais desses investimentos: “A infiltração na base política de Chávez… a divisão do chavismo… a protecção dos interesses vitais dos EUA… e o isolamento internacional de Chávez”.
 
Brownfield escreveu que o “objectivo estratégico” de desenvolver “organizações da sociedade civil alinhadas com a oposição representa a maior parte do trabalho da USAID/OTI na Venezuela”. A confissão dos próprios….
Numa excepção ao seu modus operandi, no Paraguai a agencia realizou o trabalho sujo sem intermediários. Investiu 65 milhões de dólares no projecto “Umbral”, um programa que incluiu a elaboração de um Manual Policial, o que le permitiu ganhar posições numa instituição que viria a ser chave no devir político do país. Foi a policia, com uma brutal e injustificada repressão rural, quem serviu de bandeja a justificação para derrubar o presidente Fernando Lugo. Já o tinha predito o ministro da Corte argentina Raúl Zaffaroni: sepultado o partido militar, são as forças de segurança quem exercerá o papel de força de choque dos poderes fácticos da região interessados em interromper processos políticos que contrariem os seus interesses.
 
As operações da agencia revelam que a verdadeira ameaça para a consolidação do processo político da região não é a espionagem, mas as decisões que os EUA tomem a partir dessa informação. Como ficou demonstrado no Iraque – onde o Pentágono utilizou informação falsa para justificar a invasão –, nem sequer é necessário que os dados sejam fiáveis. Basta que a CIA ou algum organismo similar avalie que algum país de América latina representa uma ameaça para a segurança nacional estado-unidense para que se avance com ataques preventivos contra essa nação. A ofensiva pode ser brutal, como no Iraque, ou mais sofisticada, executando tarefas que desestabilizem um governo popular. Uma conspiração que nunca descansa.
 
Todos sob a lupa
A partir das revelações de Edward Snowden, o ex empregado da Agencia Central de Inteligência (CIA) e da Agencia de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos, foi levantado um véu que confirma a rede de espionagem do governo de Barack Obama. Tudo começou quando ofereceu a The Guardian e The Washington Post a publicação de documentos e informação confidencial. Prosseguiu com o episodio do sequestro do presidente Evo Morales quando da sua visita à Rússia, onde se supunha que estava Snowden, quando não lhe foi permitido usar o espaço aéreo de Espanha, Itália, Portugal e França por se suspeitar que Snowden estava escondido no seu avião. O facto mereceu o repudio de todos os mandatários da Unasur que se reuniram de forma urgente em Bolívia, para brindar o seu apoio a Evo. Enquanto Snowden procurava asilo político e com os Estados Unidos procurando caçá-lo por todo o planeta, voltou há poucos dias a revelar novos documentos, que desta vez foram publicados no diário brasileiro O Globo. Ficou a conhecer-se que a rede de espionagem dos Estados Unidos se expandiu por toda América latina, operando fortemente no Brasil, México e Colômbia, mas com uma rigorosa vigilância em países como a Argentina, Venezuela, Equador, Chile, Peru e Panamá. Os dados confirmam a espionagem via satélite de comunicações telefónicas, correios electrónicos e conversações online, até pelo menos Março de este ano. A monitorização realizava-se através de programas de software: o Prism (Prisma) que permite o acesso a e-mails, conversações online e chamadas de voz de utilizadores de Google, Microsoft e Facebook e o Boundless Informant (Informante Sem Limites), que permitiam violar todo o género de comunicações internacionais, faxes, e-mails, entre outros. Os temas mais controlados pelos espias foram o petróleo e acções militares em Venezuela, energia e drogas em México, a cartografia dos movimentos das FARC em Colômbia, para além da agonia e morte de Hugo Chávez.
 
A presidente Cristina Fernández de Kirchner manifestou a sua preocupação no acto de 9 de Julho em Tucumán e sublinhou: “Causa calafrios quando nos damos conta de que nos estão espiando a todos através dos seus serviços de informações. Mais do que revelações, são confirmações do que tínhamos acerca do que estava a acontecer”. De caminho, aproveitou para lançar um alerta: “Os governantes dos povos da América do Sul, que temos combatido nesta década acompanhados por milhões de compatriotas, temos o dever de reparar no que se está a passar e de unir as nossas forças”. Na sexta-feira reúnem-se os representantes do Mercosur e a Presidente espera “um forte pronunciamento e pedido de explicações” ao governo de Obama.
 
© 2011 Veintitres - Adrián Murano
Fonte: odiario.info

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

CIA torturou cubanos desaparecidos durante ditadura militar na Argentina

Corpos de dois diplomatas cubanos foram identificados pela Escola Argentina de Antropologia Forense e repatriados
 
Os diplomatas cubanos Jesús Cejas Arias e Crescencio Nicomedes Galañena Hernández foram torturados por agentes da CIA em território argentino durante a última ditadura militar do país vizinho (1976-1983). Segundo investigação divulgada nesta segunda-feira (29/07) pela agência de notícias estatal Infojus, a CIA enviou à Argentina os agentes Guillermo Novo Sampol, um cubano-americano que saiu de Miami rumo a Buenos Aires, e Michael Townley, que atuava no Chile junto à DINA (Direção de Inteligência Nacional) de Augusto Pinochet.
Reprodução / Cubasi

Ceja Arias e Galañena Hernández foram torturados pela CIA

Em declaração à juíza argentina María Romilda Servini de Cubría, Michael Townley admitiu ter participado como autor material do assassinato do ex-chefe do Exército chileno Carlos Prats em 1974, em Buenos Aires. Servíni de Cubría viajou aos Estados Unidos em 1999 para interrogar o agente da CIA durante a investigação sobre o assassinado do general chileno.

Townley também foi acusado pelo assassinato de Orlando Letelier, Ministro de Defesa de Salvador Allende, em setembro de 1976 durante seu exílio em Washington. O agente foi condenado por sua participação no atentado que matou Letelier, mas fez um acordo com a justiça norte-americana e recebe proteção como testemunha de crimes contra a humanidade cometidos no Chile durante o regime pinochetista.

Restos repatriados
Cejas Arias e Galañena Hernández foram sequestrados por agentes do regime militar argentino em 9 de agosto de 1976 nas imediações da Embaixada cubana em Buenos Aires. Ambos foram levados ao centro clandestino de detenção “Automotores Orletti”, no bairro portenho de Floresta, onde foram vistos pela última vez com vida.

O corpo de Galañena Hernández foi encontrado em junho de 2012 dentro de um barril enferrujado, cheio de cimento, às margens do Rio de la Plata, no município de Virreyes, no norte da Grande Buenos Aires. Os restos mortais de Cejas Arias foram descobertos junto ao de dois argentinos nas mesmas condições, um ano depois, no mesmo local.
Os restos mortais dos diplomatas foram repatriados após a identificação pela EAAF (Equipe Argentina de Antropologia Forense).
 
Automotores Orletti
O centro clandestino de detenção Automotores Orletti, onde os diplomatas cubanos foram torturados com a participação dos agentes da CIA, era a sede argentina da Operação Condor , uma aliança político-militar entre os regimes ditatoriais da América do Sul para colaboração na repressão, interrogatório, tortura e desaparecimento de presos políticos na região.

Em março de 2011, a justiça argentina condenou quatro repressores por sua atuação em Automotores Orletti. Eduardo Rodolfo Cabanillas, ex-general de divisão do Exército, foi condenado à prisão perpétua; os ex-agentes da SIDE (Secretaria de Intelegência de Estado) Honorio Martínez Ruiz e Eduardo Alfredo Ruffo receberam sentença de 25 anos de prisão; e Raúl Guglielminetti, ex-agente civil de inteligencia del Exército, foi condenado a 20 años de prisão.

Atualmente, Michael Townley e Guillermo Novo Sampol moram nos Estados Unidos.
 
Fonte: OperaMundi