quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Sermão do Bom Ladrão

 
 
"Não são ladrões apenas os que cortam as bolsas. Os ladrões que mais merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, pela manha ou pela força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam correndo risco, estes furtam sem temor nem perigo. Os outros, se furtam, são enforcados; mas estes furtam e enforcam."

Padre António Vieira
(1608 - 1697)

Manifestação 2M (5)


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O burlão !

Texto de Manuel Gusmão

Onde pára a democracia? 
Para onde quer que se olhe, os sinais que avançam e nos cercam são os de um país que empobrece e se afunda, enquanto uma caixa negra nos nega as mais nítidas evidências do imenso desastre que para nós preparam.

1. A Dívida, quê?
A dívida, quê? A dívida Soberana é como se chama a uma dívida assumida e garantida por um ser ou uma entidade soberana (um estado ou o seu banco central). Este par (nome + adjectivo) joga, com a gramática, um jogo que te leva à certa. Só compreenderás o que ele significa, se compreenderes que, no fim de qualquer passo de dança, a dívida deixou de ser uma propriedade ou uma qualidade do estado. O que ela exprime é que é ela que é soberana. Quem manda na política sou eu, a dívida. Tal como quem manda nisto tudo são os bancos (privados).

2. Soberania
Que Europa é esta que nos atou ao pescoço o BPN, em cujo buraco o estado enterrou vai para sete mil milhões de euros, e não nos autoriza o investimento de 1300 milhões de euros para o saneamento financeiro da TAP, o maior exportador do país e uma empresa estratégica para o nosso desenvolvimento soberano? É certamente a mesma Europa que fica sentada à espera que o governo português manobre de forma a tornar aceitável o inaceitável, a destruição dos estaleiros de Viana do Castelo.

3. Incomensurável, inaceitável hipocrisia.
As manifestações como aquela a que se assistiu nas instalações do ISCTE, em que um grupo de estudantes calou essa figura inenarrável de licenciado-com-emprego (Miguel Relvas), equiparado a governante, «suscitam necessariamente», disseram eles, os da sua pandilha, «o repúdio da parte de todos quantos prezam e defendem as liberdades individuais, designadamente o direito à livre expressão no respeito pelas regras democráticas». E, coisa espantosa, eis que se lhe juntam alguns outros, de outra pandilha, mas da mesma troika, usando os mesmos argumentos e tiques de quem se prepara para criminalizar o protesto.

4. O desemprego
Em Portugal, 51 % dos jovens licenciados estão no desemprego. É uma violência que lhes é feita, assim como ao país que se vê por essa via impedido de utilizar o seu trabalho qualificado. A dor humana do desemprego jovem é a dor causada por uma amputação social de perspectivas de vida. Entretanto cresce também o desemprego de longa duração. Às suas vítimas cabe agora o sofrimento de verem desqualificada e ofendida a sua experiência de vida. Jogar uns contra os outros é uma jogada miserável contra o trabalho. Torna-se cada vez mais claro que esta ofensiva contra direitos individuais e colectivos é uma révanche do grande capital, que quer arrancar aos trabalhadores assalariados tudo o que foi obrigado a ceder-lhes ao longo do último século e que constitui uma plataforma civilizacional avançada.

5. Saúde pública

Ela entrou na nossa sala, como se fosse uma pequena ventania que se libertasse e disse: «eu e o Óscar, foi já demasiado tarde que nos apercebemos que ela não aviava na farmácia as receitas por inteiro. Agora sei que deitá-los de lá abaixo já não é só um objectivo político, tornou-se uma necessidade urgente de saúde pública».

6. A organização da nossa legítima defesa
Tendo perdido o medo ou a repugnância que lhe provocavam certas palavras e frases que usamos, sobretudo em circunstâncias em que se trata de atribuir intenções a certos gestos ou modos de agir, chegou um dia em que a ouvimos dizer, muito calma e cheia de fúria: «mas eles estão a matar-nos; eles querem matar-nos». A nota de espanto que soava na sua voz indicava que ela já estava preparada para compreender que se tratava de pôr na ordem do dia a organização da nossa legítima defesa.

7. Quem somos nós?
Nós somos «a esperança que não fica à espera».

Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não movem nem o clamor do dia
Nem a cólera dos homens desabitados
Nem o diamante da noite que se estilhaça e voa
Nem a ira, o grito ininterrupto e suspenso
Que golpeia aqueles a quem a voz cegaram
Quem pode ser no mundo tão quieto
Que o não mova o próprio mundo nele.










Mais textos no blog  que se lixe a troika

Manifestação 2M (4)


Manifestação 2M (3)


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Goleada de Correa nas eleições no Equador

 
Os resultados das eleições presidenciais e legislativas no Equador traduziram-se em amplas vitórias do presidente Rafael Correa, reeleito à primeira volta, e do Movimento Alianza País. Têm o significado do esmagador apoio popular a um dos processos progressistas mais consequentes na América Latina. As tarefas e as dificuldades a enfrentar são agora acrescidas. Bastará enunciar três questões: o latifúndio, o controlo monopolista da economia, a corrupção. A vitória de Correa e do movimento progressista de que é o principal rosto constituem um importante sinal positivo para toda a América Latina.

O Presidente Rafael Correa foi reeleito à primeira volta com uma votação superior a 60%, segundo sondagens à boca das urnas realizadas pelas empresas CEDATOS e Opinión Pública Ecuador. Segundo estes dados preliminares não oficiais, Correa ganhou em todas as províncias de Equador, seguido pelo banqueiro Guillermo Lasso, que obteve 21% dos votos. À excepção da denúncia de tentativas de piratagem à página web do Conselho Nacional Eleitoral, a jornada eleitoral decorreu de forma tranquila e normal tanto em nos locais eleitorais do Equador como nos do exterior. O triunfo de Correa significa um triunfo da estabilidade num país que atravessou profundas crises políticas no decurso das quais vários governos corruptos e entreguistas foram derrubados pela mobilização social. É a primeira vez, em mais de três décadas, que um presidente mantém altos niveis de popularidade no final do seu mandato e é reeleito por ampla margem. Neste sentido, a votação em Correa exprime um largo apoio à continuidade das suas políticas e uma oportunidade para que conclua as obras que vem empreendendo no que diz respeito a estradas, hospitais, instalações escolares, centrais hidroeléctricas, etc. Alguns elementos podem explicar o contundente triunfo de Correa: crescimento económico, baixas taxas de inflação e de desemprego e políticas de redistribuição do rendimento que se traduziram num massivo investimento social em educação, saúde, habitação, atenção aos deficientes e melhoria da qualidade dos serviços públicos (correios, segurança social, registo civil, função judicial). Ao imprimir altos níveis de qualidade aos serviços públicos e ao colocá-los à disposição dos
sectores mais pobres da população, estes últimos não apenas passaram e ter-lhes acesso como também se sentem valorizados na sua dignidade, e isso explicaria o elevado apoio a Correa. Estes sectores foram, igualmente, beneficiados pelo abono de desenvolvimento que no mês de Janeiro subiu de 35 para 50 dólares mensais. Um candidato à assembleia pelo Movimento Alianza País, cujo nome omitimos, considera que o voto em Correa é “trans-classista”, querendo dizer que seria composto por todos os sectores sociais. A gestão do governo, de acordo com esta versão, favoreceu certamente sectores empresariais aos quais a vida não tem corrido nada mal e que constituiriam o voto escondido a favor de Correa. O melhoramento das estradas, por exemplo, permite-lhes poupar tempo e dispor de maior facilidade para movimentar os seus produtos. Da mesma forma, as políticas económicas que limitam as importações de têxteis ou de calçado favoreceram o crescimento dos sectores económicos dedicados a esses ramos. Estes sectores empresariais já se teriam “acostumado” a pagar impostos e a cumprir as leis laborais porque isto permite-lhes manter melhores relações com os seus trabalhadores, o que se repercute em maior produtividade. Do ponto de vista internacional, o triunfo de Correa representa a confirmação da tendência de governos progressistas conseguirem ser reeleitos como sucedeu no Brasil, Argentina, Uruguai, Venezuela e Nicarágua, e uma aposta no fortalecimento dos espaços de integração como a ALBA, a UNASUR e a CELAC. O governo de Correa irá enfrentar situações difíceis como o caso de Julian Assange, que se encontra asilado na embaixada de Equador em Londres, a lei dos Estados Unidos que sanciona os países que mantêm relações com o Irão, os processos instaurados pelas transnacionais contra o Estado equatoriano, entre outros. Para a vitória de Correa contribuiu de maneira decisiva a fragmentação e a pobreza do discurso das oposições (de direita, esquerda e populistas) que apresentaram sete candidaturas presidenciais, sem que tenham podido unificar-se em três ou quatro tendências. Centradas todas no ataque ao que denominaram o autoritarismo, a intolerância e a concentração de poderes nas mãos de Correa, foram incapazes, especialmente do lado da direita representada pelo banqueiro Guillermo Lasso, pelo homem mais rico do Equador Álvaro Noboa e pelo ex presidente Lucio Gutiérrez, de propor alternativas credíveis e medianamente estruturadas e coerentes. Guillermo Lasso, que se colocou em el segundo lugar, concentrou o voto anti-correista dos sectores da direita tradicional que compartilham de algumas das suas teses esgrimidas na campanha, como a de revogar os impostos sobre os mais ricos, assinar tratados de comercio livre e abrir el país ao investimento privado estrangeiro. Lasso é membro numerário do Opus Dei e mantém relações com José María Aznar do Partido Popular de Espanha, que actua na América Latina representando a direita internacional e o capital transnacional.
 
A campanha
Outra coisa que influiu nos resultados eleitorais foi a concepção da campanha de Correa. Mesmo tendo em conta a grande popularidade do Presidente, o movimento Alianza País partiu do critério de actuar como se não tivesse assegurado um só voto e privilegiou a campanha de rua, a proximidade com as pessoas, as concentrações em povoações e cidades, complementando-a com a utilização de meios e redes sociais. Este movimento já acumulou a experiencia de oito vitórias eleitorais consecutivas. Embora fosse previsível o triunfo de Correa, não estava assegurada a maioria na Assembleia Nacional composta por 137 membros, pelo que a estratégia do presidente se focou na Assembleia. “Não me deixem só”, dizia Correa aos seus seguidores nas concentrações enquanto fazia apelo ao voto em bloco na sua lista de candidatos à Assembleia. Embora alguns candidatos à Assembleia tenham sido contestados, como inclusivamente o foi também o candidato à Vice-presidência, isto não parece ter tido repercussão nos resultados finais que dariam uma folgada maioria a Alianza País na legislatura. A influência do carisma de Correa sobrepôs-se a essas reservas.
 
Ampliação da democracia
O direito de voto das mulheres foi reconhecido em princípios do século XX. Em 1979, quando o Equador regressou ao regime democrático, foi reconhecido este direito aos analfabetos. Em 2013, e graças à nova Constituição, avançou-se muito mais na inclusão política. Agora puderam votar os jovens de 16 a 18 anos, os militares e polícias, os emigrantes, os presos sem sentença transitada em julgado, os estrangeiros residentes. De acordo com esta política, foram tomadas medidas para que os polícias e os trabalhadores dos transportes ajudassem as pessoas com deficiência e pessoas de terceira idade a deslocar-se aos locais eleitorais. Este novo triunfo de Correa coloca grandes desafios no que diz respeito ao cumprimento das propostas contidas no programa de Alianza País de governo 2013-2017, e responder às expectativas de uma cidadania que assume cada vez mais o seu próprio poder. No horizonte das contas pendentes está o ataque à escandalosa concentração da terra, a redistribuição da água, a lei de comunicação, o travão aos grupos monopolistas que concentram a economia, a abertura do diálogo político com os povos indígenas, o combate a fundo à corrupção, entre outros.

Texto de Eduardo Tamayo
Fonte: ODiario.info

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

La surconsommation


 
La surconsommation désigne un niveau de consommation situé au-dessus de celui des besoins normaux ou d'une consommation moyenne.

Image provenant du film Samsara : Samsara est un mot tibétain qui signifie la roue de la vie, un concept à la fois intime et vaste, qui définit l'âme de chacun.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

World Press Photo 2013


1º prémio do World Press Photo 2013
Duas crianças mortas na Faixa de Gaza.
Fotografia de Paul Hansen
 
Suhaib Hijazi tinha apenas dois anos quando a sua casa foi destruída por mísseis israelitas. Muhammad, o irmão mais velho (três anos), e o pai, Fouad, também morreram. A mãe sobreviveu, mas foi internada nos cuidados intensivos. 20 de Novembro, mais um dia de bombardeio israelita sobre Gaza. Na fotografia que valeu ao sueco Paul Hansen o prémio principal da World Press Photo de 2012, anunciado nesta sexta-feira, vêem-se em primeiro plano os corpos das duas crianças, numa rua estreita da Faixa de Gaza. São os tios, irmãos de Fouad, que os levam ao colo. Os rostos serenos de Suhaib e Muhammad contrastam com o desespero, a raiva e a tristeza que marcam os adultos. O pai vem atrás, envolto numa mortalha branca como manda a tradição, numa maca. Só há homens neste cortejo que parece encenado. A mesquita onde farão a cerimónia fúnebre não fica longe. Fonte Público.
 
 
Galeria de fotografias premiadas do World Press Photo

La batalla de las ideas: manipulación informativa

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Carreirismo



“Carreirismo”, de Mário Henrique Leiria, dito por Mário Viegas

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofer fardado.
Era diretor Geral das Polícias. Seu pai teve um enfarte.

Mário-Henrique Leiria, in
"Contos do Gin-Tonic", Ed. Estampa, 1973

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Turismo em Espanha

Como meio mundo já sabe, a Espanha é um dos destinos turísticos preferidos. Apesar de estarmos no Inverno a paisagem de esplanadas com sangria, chouriço, procissões, chouriço, sol, chouriço, uma cloaca mediterrânea, chouriço, gente simpática, chouriço e alegria contagiante ao ritmo de palminhas mantém-se inalterável.

E ainda que segundo os termómetros as temperaturas sejam baixas nesta época do ano, o ambiente está bastante aquecido, talvez para que os chouriços se conservem da maneira ideal. O turista notará de imediato que a Espanha é o primeiro produtor mundial de chouriço e que nesta rubrica produtiva se omite a participação do porco, nobre animal que não merece nenhuma comparação com a matéria-prima de que estão feitos os chouriços espanhóis.

Notória é a variedade "Chorizo Royal" com denominação de origem na Casa Real e cujo grande expoente é o genro do rei, Iñaqui Undargarín, um sujeito sem profissão conhecida, salvo a de chouriço, que ao amparo da monarquia criou, junto com a sua abnegada esposa e Infanta de Espanha, uma organização filantrópica sem fins lucrativos, recebeu vários milhões de euros do erário público e, por essas coisas da vida totalmente alheias à sua vontade, estes apareceram desviados para contas em bancos suíços e empresas inexistentes que, por pura casualidade, apareciam em seu nome e da Infanta.

Estas casualidades ofuscaram bastante os habitantes do simpático e acolhedor país que ostenta os títulos de campeões mundiais de futebol, campeões da Europa do mesmo desporto e campeões olímpicos em cortes sociais, cortes na educação, saúde, investigação científica e paraíso do despedimento livre e gratuito. Quase seis milhões de espanhóis sem trabalho podem hoje dedicar o seu tempo à contemplação das belezas naturais e 52 em cada cem jovens menores de 30 anos dispõem de todo o tempo livre imaginável graças à política laboral de um governo que, dotado de uma maioria absoluta, aumenta a cada dia o monstruoso número de pessoas que descem morro abaixo, da classe média à pobreza e daí à miséria.

Há alguns dias um jornal espanhol publicou uma notícia inquietante: desde há muitos anos os dirigentes do Partido Popular, herdeiro directo do franquismo e hoje no governo, ganhavam uns extras em dinheiro negro, os quais eram repartidos generosamente por um homem de honra a toda prova, um genuíno cavalheiro espanhol chamado Luis Bárcenas, ex tesoureiro do Partido Popular, ex senador, ao qual foi atribuído um possível financiamento ilegal do partido. Uns dias mais tarde, outro jornal publicou várias folhas de um caderno de contabilidade, nas quais aparecem meridianamente pormenorizados os pagamentos extra aos honrados dirigentes, dentre os quais há ex ministros, ex secretários-gerais e o actual presidente do governo, dom Mariano Rajoy. Com estas notícias nasceu outra variedade de chouriço; o Chouriço de Merda.

Dom Mariano Rajoy, perdedor de duas eleições, para ganhar votos propôs que os estrangeiros a viverem em Espanha subscrevessem um contrato pelo qual se comprometessem a respeitar e seguir os costumes espanhóis, mas sem indicar quais. Não estava claro se os marroquinos, equatorianos, japoneses, alemães ou britânicos residentes em Espanha deviam, graças a esse contrato, somar-se com algazarra ao rançoso costume de matar a punhaladas um touro em Tordesilhas, ou lançar cabras vivas de algum campanário antes de se entregarem freneticamente à dança do pasodoble "suspiros de Espanha". O que ficou claro é que dom Mariano Rajoy é um seguidor fiel de algumas tradições taurinas. Entusiasma-o sobretudo a figura de Dom Tancredo , um sujeito que, em alguma corrida, descobriu que permanecendo quieto, muito quieto, em silêncio, muito em silêncio, nenhum touro repararia nele e não sofreria o menor contratempo.

A figura de Dom Tancredo converteu-se no estilo de governo de Rajoy e, para não se arriscar a um percalço nas suas escassas intervenções no parlamento, ou diante da imprensa, decidiu que o eufemismo era, ou devia ser, um dos costumes mais queridos da Espanha.

O turista que visite este encantador país terá que comprar um dicionário da Nova Língua Espanhola, pois só assim poderá entender que o acto de entregar 100 mil milhões de euros à banca privada, com encargo aos orçamentos do Estado, e que se paga reduzindo a mínimos os gastos em saúde, educação, serviços sociais e tudo aquilo que é próprio de um país civilizado, chama-se "recapitalização do sistema financeiro". Ao despedimento quase gratuito e sustentado na perspectiva de redução de benefícios chama-se "reforma laboral ou flexibilidade do trabalho". À privatização dos hospitais públicos chama-se "externalização" e chama-se "reforma da educação" ao regresso dos crucifixos às aulas, à substituição da disciplina de educação para a cidadania por aulas de religião católica. O turista que visite o simpático país verificará que todos os dias, a todas as horas, multidões de espanhóis e espanholas enchem as ruas ostentando cartazes de papelão, letreiros que dizem "não há pão para tanto chouriço", o que evidencia que este é o país da festa e da alegria infinita oferecida nos catálogos de turismo.

E encontrará costumes estranhos, por exemplo, entre os milhares que rebuscam nos contentores de lixo à procura de algo para lançar à boca, verá alguns – poucos por enquanto, mas em aumento – que esmagam eles próprios os dedos com as tampas dos contentores ao mesmo tempo que declamam: eu fui um dos caralhos que deu maioria absoluta a estes chouriços de merda.

Para facilitar a compreensão do turista permito-me indicar que em caso algum o governo quis retirar legitimidade e competitividade ao Chouriço de Merda. As afirmações de dona Maria Dolores de Cospedal, secretária-geral do Partido Popular e presidente de Castilla-la-Mancha, com seus repetidos "não me consta" quando alguém lhe falava da irrupção pública do Chouriço de Merda, lema que foi repetido como uma lenga-lenga por toda a cúpula do Partido Popular, devem ser tomadas como uma simpática frase folclórica. Sabido é que a senhora Cospedal adora vestir-se de lagarterana quando assiste às procissões e costuma dizer "não me consta" com a mesma naturalidade com que diz ¡vivaspaña!, ¡ole la madre que me parió! o ¡guapa! à passagem de uma boneca de gesso com aspecto de mulher sofredora.

Tão pouco o turista se deve sentir confundido ao ler que dom Mariano Rajoy, na Alemanha, ao ser consultado quanto à lista de chouriços de merda que aparecem no livro de contabilidade "b" de Luis Bárcenas, dissesse: "nada é certo, salvo alguma coisa".

Dizem as línguas viperinas que o senhor Rajoy, durante a sua visita ao Chile, foi contagiado pela desconcertante loquacidade de Sebastián Piñera. Pode ser, mas o mais provável é que esse "nada é certo, salvo alguma coisa" obedece antes ao seu afã de dizer algo, senão transcendental pelo menos de certo interesse, alguma vez na sua vida.

E a frase teve êxito. Tanto que até a Conferência Episcopal começa a preocupar-se diante do surgimento de evangelhos apócrifos, que na parte onde deus diz a Caim: "disseram-me que primeiro mataste um pobre burro e que utilizaste uma das suas queixadas para matar o teu irmão Abel", o pérfido Caim responde: nada é certo, salvo alguma coisa.

Hoje, centenas de milhares de estudantes saíram às ruas numa greve maciça que paralisou 92% da actividade escolar, pedindo a revogação da nova lei de educação e a demissão do ministro do ramo. Segundo o governo, somente 12% dos alunos apoiaram a greve. A resposta dos estudantes é: nada é certo, salvo alguma coisa.

Turistas do mundo, bem vindos à Espanha, o país do chouriço, o país dos indultos garantidos aos defraudadores e aos polícias que torturam até frente às câmaras de segurança das esquadras, o país do não me consta, o país enfurecido, tão enfurecido que está a ponto de arder e não haverá bombeiros que apaguem o fogo da mais justa das iras.

Texto de Luis Sepùlveda
 
O original encontra-se em http://www.lemondediplomatique.cl/Turismo-en-Espana.html
Tradução em português via http://resistir.info

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Native American confronts 'anti-illegal immigration' protesters

 
A Native American man criticized protesters at an Arizona rally against illegal immigration, calling them the real “illegals” for invading his country and killing Native Americans when Europeans first settled on US soil.

“You’re all f*cking illegal. You’re all illegal,” the Native American man yelled at the protesters, who had gathered in Tucson, Arizona to demonstrate their opposition to illegal immigration by Central and South Americans. “We didn’t invite none of you here. We’re the only native Americans here.”

Font: RT