sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Turismo em Espanha

Como meio mundo já sabe, a Espanha é um dos destinos turísticos preferidos. Apesar de estarmos no Inverno a paisagem de esplanadas com sangria, chouriço, procissões, chouriço, sol, chouriço, uma cloaca mediterrânea, chouriço, gente simpática, chouriço e alegria contagiante ao ritmo de palminhas mantém-se inalterável.

E ainda que segundo os termómetros as temperaturas sejam baixas nesta época do ano, o ambiente está bastante aquecido, talvez para que os chouriços se conservem da maneira ideal. O turista notará de imediato que a Espanha é o primeiro produtor mundial de chouriço e que nesta rubrica produtiva se omite a participação do porco, nobre animal que não merece nenhuma comparação com a matéria-prima de que estão feitos os chouriços espanhóis.

Notória é a variedade "Chorizo Royal" com denominação de origem na Casa Real e cujo grande expoente é o genro do rei, Iñaqui Undargarín, um sujeito sem profissão conhecida, salvo a de chouriço, que ao amparo da monarquia criou, junto com a sua abnegada esposa e Infanta de Espanha, uma organização filantrópica sem fins lucrativos, recebeu vários milhões de euros do erário público e, por essas coisas da vida totalmente alheias à sua vontade, estes apareceram desviados para contas em bancos suíços e empresas inexistentes que, por pura casualidade, apareciam em seu nome e da Infanta.

Estas casualidades ofuscaram bastante os habitantes do simpático e acolhedor país que ostenta os títulos de campeões mundiais de futebol, campeões da Europa do mesmo desporto e campeões olímpicos em cortes sociais, cortes na educação, saúde, investigação científica e paraíso do despedimento livre e gratuito. Quase seis milhões de espanhóis sem trabalho podem hoje dedicar o seu tempo à contemplação das belezas naturais e 52 em cada cem jovens menores de 30 anos dispõem de todo o tempo livre imaginável graças à política laboral de um governo que, dotado de uma maioria absoluta, aumenta a cada dia o monstruoso número de pessoas que descem morro abaixo, da classe média à pobreza e daí à miséria.

Há alguns dias um jornal espanhol publicou uma notícia inquietante: desde há muitos anos os dirigentes do Partido Popular, herdeiro directo do franquismo e hoje no governo, ganhavam uns extras em dinheiro negro, os quais eram repartidos generosamente por um homem de honra a toda prova, um genuíno cavalheiro espanhol chamado Luis Bárcenas, ex tesoureiro do Partido Popular, ex senador, ao qual foi atribuído um possível financiamento ilegal do partido. Uns dias mais tarde, outro jornal publicou várias folhas de um caderno de contabilidade, nas quais aparecem meridianamente pormenorizados os pagamentos extra aos honrados dirigentes, dentre os quais há ex ministros, ex secretários-gerais e o actual presidente do governo, dom Mariano Rajoy. Com estas notícias nasceu outra variedade de chouriço; o Chouriço de Merda.

Dom Mariano Rajoy, perdedor de duas eleições, para ganhar votos propôs que os estrangeiros a viverem em Espanha subscrevessem um contrato pelo qual se comprometessem a respeitar e seguir os costumes espanhóis, mas sem indicar quais. Não estava claro se os marroquinos, equatorianos, japoneses, alemães ou britânicos residentes em Espanha deviam, graças a esse contrato, somar-se com algazarra ao rançoso costume de matar a punhaladas um touro em Tordesilhas, ou lançar cabras vivas de algum campanário antes de se entregarem freneticamente à dança do pasodoble "suspiros de Espanha". O que ficou claro é que dom Mariano Rajoy é um seguidor fiel de algumas tradições taurinas. Entusiasma-o sobretudo a figura de Dom Tancredo , um sujeito que, em alguma corrida, descobriu que permanecendo quieto, muito quieto, em silêncio, muito em silêncio, nenhum touro repararia nele e não sofreria o menor contratempo.

A figura de Dom Tancredo converteu-se no estilo de governo de Rajoy e, para não se arriscar a um percalço nas suas escassas intervenções no parlamento, ou diante da imprensa, decidiu que o eufemismo era, ou devia ser, um dos costumes mais queridos da Espanha.

O turista que visite este encantador país terá que comprar um dicionário da Nova Língua Espanhola, pois só assim poderá entender que o acto de entregar 100 mil milhões de euros à banca privada, com encargo aos orçamentos do Estado, e que se paga reduzindo a mínimos os gastos em saúde, educação, serviços sociais e tudo aquilo que é próprio de um país civilizado, chama-se "recapitalização do sistema financeiro". Ao despedimento quase gratuito e sustentado na perspectiva de redução de benefícios chama-se "reforma laboral ou flexibilidade do trabalho". À privatização dos hospitais públicos chama-se "externalização" e chama-se "reforma da educação" ao regresso dos crucifixos às aulas, à substituição da disciplina de educação para a cidadania por aulas de religião católica. O turista que visite o simpático país verificará que todos os dias, a todas as horas, multidões de espanhóis e espanholas enchem as ruas ostentando cartazes de papelão, letreiros que dizem "não há pão para tanto chouriço", o que evidencia que este é o país da festa e da alegria infinita oferecida nos catálogos de turismo.

E encontrará costumes estranhos, por exemplo, entre os milhares que rebuscam nos contentores de lixo à procura de algo para lançar à boca, verá alguns – poucos por enquanto, mas em aumento – que esmagam eles próprios os dedos com as tampas dos contentores ao mesmo tempo que declamam: eu fui um dos caralhos que deu maioria absoluta a estes chouriços de merda.

Para facilitar a compreensão do turista permito-me indicar que em caso algum o governo quis retirar legitimidade e competitividade ao Chouriço de Merda. As afirmações de dona Maria Dolores de Cospedal, secretária-geral do Partido Popular e presidente de Castilla-la-Mancha, com seus repetidos "não me consta" quando alguém lhe falava da irrupção pública do Chouriço de Merda, lema que foi repetido como uma lenga-lenga por toda a cúpula do Partido Popular, devem ser tomadas como uma simpática frase folclórica. Sabido é que a senhora Cospedal adora vestir-se de lagarterana quando assiste às procissões e costuma dizer "não me consta" com a mesma naturalidade com que diz ¡vivaspaña!, ¡ole la madre que me parió! o ¡guapa! à passagem de uma boneca de gesso com aspecto de mulher sofredora.

Tão pouco o turista se deve sentir confundido ao ler que dom Mariano Rajoy, na Alemanha, ao ser consultado quanto à lista de chouriços de merda que aparecem no livro de contabilidade "b" de Luis Bárcenas, dissesse: "nada é certo, salvo alguma coisa".

Dizem as línguas viperinas que o senhor Rajoy, durante a sua visita ao Chile, foi contagiado pela desconcertante loquacidade de Sebastián Piñera. Pode ser, mas o mais provável é que esse "nada é certo, salvo alguma coisa" obedece antes ao seu afã de dizer algo, senão transcendental pelo menos de certo interesse, alguma vez na sua vida.

E a frase teve êxito. Tanto que até a Conferência Episcopal começa a preocupar-se diante do surgimento de evangelhos apócrifos, que na parte onde deus diz a Caim: "disseram-me que primeiro mataste um pobre burro e que utilizaste uma das suas queixadas para matar o teu irmão Abel", o pérfido Caim responde: nada é certo, salvo alguma coisa.

Hoje, centenas de milhares de estudantes saíram às ruas numa greve maciça que paralisou 92% da actividade escolar, pedindo a revogação da nova lei de educação e a demissão do ministro do ramo. Segundo o governo, somente 12% dos alunos apoiaram a greve. A resposta dos estudantes é: nada é certo, salvo alguma coisa.

Turistas do mundo, bem vindos à Espanha, o país do chouriço, o país dos indultos garantidos aos defraudadores e aos polícias que torturam até frente às câmaras de segurança das esquadras, o país do não me consta, o país enfurecido, tão enfurecido que está a ponto de arder e não haverá bombeiros que apaguem o fogo da mais justa das iras.

Texto de Luis Sepùlveda
 
O original encontra-se em http://www.lemondediplomatique.cl/Turismo-en-Espana.html
Tradução em português via http://resistir.info

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