domingo, 30 de setembro de 2012

A manifestação de 29 Setembro de 2012 em imagens




 
Manifestação contra as medidas de austeridade impostas pelo governo de direita e pela Troika (FMI/BCE/CE) aos portugueses. Terreiro do Paço, Lisboa, 29 Setembro de 2012.
 
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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Contra as Troikas - Manifestação de 29 Setembro de 2012 (1)

4 PROPOSTAS PARA EVITAR SACRIFÍCIOS E A DESTRUIÇÃO DA ECONOMIA


CGTP-IN APRESENTA PROPOSTAS PARA EVITAR SACRIFÍCIOS E A DESTRUIÇÃO DA ECONOMIA
Receita fiscal adicional (milhões de euros)
Criação de uma taxa de 0,25 sobre as transacções financeiras
2.038,9
Criação de um novo escalão na taxa de IRC
1.099,0
Tributação adicional dos dividendos
1.665,7
Combate à Fraude e Evasão Fiscal
1.162,9
Total
5.966,5
 
1 - Criação de uma taxa sobre as transacções financeiras
A criação de um novo imposto, com uma taxa de 0,25%, a incidir sobre todas as transacções de valores mobiliários independentemente do local onde são efectuadas (mercados regulamentados, não regulamentados ou fora de mercado), excepcionando o mercado primário de dívida pública. Esta medida permitirá arrecadar uma receita adicional de 2.038,9 milhões de euros.
 
2 - Introdução de progressividade no IRC
A criação de mais um escalão de 33,33% no IRC para empresas com volume de negócios superior a 12,5 milhões de euros, de forma a introduzir o critério de progressividade no imposto. A incidência deste aumento é inferior a 1% do total das empresas. Esta medida permitirá arrecadar uma receita adicional de 1.099 milhões de euros
 
3 - Sobretaxa de 10% sobre os dividendos distribuídos
A criação de uma sobretaxa média de 10% sobre os dividendos distribuídos, incidindo sobre os grandes accionistas (de forma a garantir um encaixe adicional de 10% sobre o total de dividendos distribuídos), com a suspensão da norma que permite a dedução constante sobre os lucros distribuídos (art. 51º do CIRC), o que permite às empresas que distribuem dividendos deduzir na base tributável esses rendimentos desde que a entidade beneficiária tenha uma participação na sociedade que distribui pelo menos 10% do capital. Esta medida permitirá arrecadar uma receita adicional de 1.665,7 milhões de euros.
 
4 – Combate à Fraude e à Evasão Fiscal
A fixação de metas anuais para a redução da economia não registada, com objectivos bem definidos e a adopção de políticas concretas para a sua concretização. Esta medida permitirá arrecadar uma receita adicional de 1.162 milhões de euros.
 

THE WHOLE GRITTY CITY



sábado, 22 de setembro de 2012

"Acordai" na manifestação de 21 de Setembro de 2012 em frente ao Palácio de Belém




Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz
 
Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações
 
Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!
 
Música: Fernando Lopes Graça
Poema: José Gomes Ferreira

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Manipulação, jornalistas e outros demónios...



Durante 14 anos, cinco cubanos foram mantidos presos em prisões norte-americanas por informar o seu país, Cuba, de atentados terroristas que estavam a ser planeados em território dos Estados Unidos contra a ilha.

Durante o processo judicial que levou à sua condenação a pesadas penas, jornalistas pagos pelo governo dos EUA criaram uma atmosfera de histeria e ódio irracional que pressionou o júri e o levou a uma condenação, que a própria acusação reconheceu não ter provas.

A operação de propaganda e intoxicação mediática montado em Miami pela acusação, além de violar a Constituição dos próprios EUA e as regras de qualquer processo judicial, também foi um insulto a uma profissão que merece respeito: o jornalismo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Portugal: Ainda mais sacrifícios ?

O Governo português acaba de anunciar que no próximo ano, a carga das contribuições para a Segurança Social vai aumentar de 11 para 18 por cento, portanto uma subida de sete por cento, além dos outros impostos altíssimos e preços de utilidades públicas insuportáveis. Na equação da política portuguesa, um Governo PSD é sinónimo com ruptura social.

 
Nunca na história da política apareceu um homem tão mal preparado para governar um país em crise, nunca apareceu uma equipa tão inepta ou políticas tão cegas como é o caso do (des)Governo PSD do Primeiro Ministro Pedro Coelho e seus ilustres ministros. Já nos anos noventa, o mesmo partido tinha lá um Ministro de Finanças que foi rotulado de "adiantado mental"; ora bem, esse que está ali agora, faltam rótulos, faltam palavras e falta a paciência para com ele, com o Primeiro Ministro e aquele bando que secou o país até ao ponto de ruptura.
 
De facto, quem pensar em votar no PSD, CDS/PP ou PS deveria fazer uma Ressonância Magnética ao seu cérebro, porque foram estes três partidos que governaram Portugal desde a Revolução dos Cravos em 1974. Portanto, não têm qualquer desculpa contra a acusação que eles levaram o país para a situação em que está, ora colectiva, ora individualmente, ao longo de quase quatro décadas.
Se fossem dirigentes de qualquer empresa, teriam sido despedidos por incompetência, mas porque são da classe que manda em Portugal, o pior que lhes acontece é que voltam para o lugar de onde vieram, atrás das grades de uma Universidade, ou então num instituto qualquer fazendo sabe-se lá o quê...organizando festas de 150.000 Euros, talvez.
 
Há situações em que as verdades têm de ser ditas, por muito que magoem e há em Portugal uma tendência de deixar as coisas estarem, fingir que está tudo bem, ou que há-de ficar e talvez algum dia virá um Dom Sebastião para colocar tudo em ordem. Desculpem-me, mas isso não vai acontecer. O laissez-laire morreu agora em Setembro de 2012. Virem a página, nova mentalidade, novo país.
 
 
O Pai desta situação foi o próprio Presidente, Aníbal Silva, que gosta de cultivar um ar de enorme sabedoria, protegendo-se, escondendo-se atrás de frases crípticas, fontes de sabedoria do tipo "Tenho uma certa visão para Portugal", ou "O Progresso do Povo Português no Espaço Económico Europeu". Infelizmente a fonte virou poço.
 
Aníbal Silva foi Primeiro-Ministro entre 1985 e 1995, precisamente nos anos após a adesão de Portugal à Comunidade Europeia (depois União Europeia). Preparou o país para o desafio? Não, andou dez anos a viajar masturbando-se virtualmente pelas ruas e estradas do país em limusinas com polícias em motos a acompanhar, fazendo discursos e brincando à política. Nestes precisos anos, rios de dinheiro jorraram pelas fronteiras dentro, supostamente para ser bem investido criando as condições para Portugal se cingir no clube Europa.
 
Se bem que o país estava totalmente despreparado na altura e a adesão na minha opinião deveu mais à amizade de Mário Soares com "son ami" Miterrand e se bem que Aníbal Silva em termos de honestidade e integridade se classifica entre os intocáveis na política portuguesa, ser honesto e parecer "sério" não chega. E a década do Cavaquismo foi um aborto fedorento que contaminou cada sector da governação portuguesa durante 30 anos.
 
O dinheiro foi pessimamente mal empregue, as negociações com a União viram desaparecer a indústria, a agricultura e as pescas portuguesas. Perdendo estas indústrias, como é que Portugal poderia estar preparado para o desafio? O que segue, desde meados dos anos noventa, é uma consequência disto, é a cauda do Cavaquismo, uma espécie de uma lama mal-cheirosa que encobre tudo, escondendo buracos e enganando todos.
 
Desde meados dos anos noventa, assistimos a um deslise constante, assistimos a uma desgovernação por incompetentes que esbanjaram o dinheiro dos contribuintes, que deixaram Portugal com os piores salários, com preços de comida e de utilidades públicas a aumentar ano após ano, não protegeram o povo quando o país entrou no Euro (sem perguntar a ninguém se queria deixar o Escudo), quando os preços duplicaram ou triplicaram e deixaram os portugueses com uma das mais altas taxas tributárias na Europa (os pobres, claro, não os ricos).
 
Chegamos agora a 2012, com um Governo que mais facilmente encontrar-se-ia num hospício em qualquer outro país, o de Pedro Coelho, que implementa medidas sem saber se passam no Tribunal Constitucional, quando até um idiota sabe que não, e que acha que tem o direito de saquear o país e roubar o povo, aumentando a constituição de Segurança Social em sete pontos percentuais.
 
Quando a planta está doente, poda-se e rega-se. O que este Governo fez foi cortar a água, tirar todas as folhas, partir o caule e arrancar as raízes. Agora que a planta teima em não crescer, acham bem pisar com botas pesadas e se não morrer à primeira, hão-de continuar até que ela não resiste mais.
 
Com uma teimosia e idiotice destas, não surpreende que os jovens vão-se embora. Desta vez, não voltam mais. Quando se tira dinheiro de uma economia, seca-a. A resposta não é mais impostos - qualquer estudante de finanças públicas sabe que este tipo de política produz resultados ao contrário. A resposta é...
 
Tenho as minhas ideias, mas não cabe a mim ditar aqui neste jornal russo o que os economistas e estudiosos portugueses são pagos a fazer: encontrar uma solução. Basta dizer que esta não reside nos três partidos acima referidos, como é mais que evidente.
Timothy Bancroft-Hinchey

Chullage: Que se lixe a troika



Que se lixe a Troica. Mobilização para dia 15 de Setembro às 17h nas ruas de Portugal e Espanha.
letra: chullage_Sr Preto Projecto AKapella47

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Foi a 11 de Setembro de 1973 o último discurso de Salvador Allende



Foi a 11 de Setembro de 1973 o último discurso de Salvador Allende, o dia do golpe de estado organizdo pela CIA que derrubou o governo da Unidade Popular democraticamente eleito e que deu lugar à criminosa ditadura militar de Pinochet. Segue a transcrição do discurso:

"Seguramente, esta será a última oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes. Minhas palavras não têm amargura, mas decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu seu juramento: soldados do Chile, comandantes-em-chefe titulares, o almirante Merino, que se autodesignou comandante da Armada, e o senhor Mendoza, general rastejante que ainda ontem manifestara sua fidelidade e lealdade ao Governo, e que também se autodenominou diretor geral dos carabineros.

Diante destes fatos só me cabe dizer aos trabalhadores: Não vou renunciar! Colocado numa encruzilhada histórica, pagarei com minha vida a lealdade ao povo. E lhes digo que tenho a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares e milhares de chilenos, não poderá ser ceifada definitivamente. [Eles] têm a força, poderão nos avassalar, mas não se detém os processos sociais nem com o crime nem com a força. A história é nossa e a fazem os povos.

Trabalhadores de minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram em um homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou sua palavra em que respeitaria a Constituição e a lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que eu poderei dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reação criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem sua tradição, que lhes ensinara o general Schneider e reafirmara o comandante Araya, vítimas do mesmo setor social que hoje estará esperando com as mãos livres, reconquistar o poder para seguir defendendo seus lucros e seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher simples de nossa terra, à camponesa que nos acreditou, à mãe que soube de nossa preocupação com as crianças. Dirijo-me aos profissionais da Pátria, aos profissionais patriotas que continuaram trabalhando contra a sedição auspiciada pelas associações profissionais, associações classistas que também defenderam os lucros de uma sociedade capitalista. Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e deram sua alegria e seu espírito de luta.

Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, porque em nosso país o fascismo está há tempos presente; nos atentados terroristas, explodindo as pontes, cortando as vias férreas, destruindo os oleodutos e os gasodutos, frente ao silêncio daqueles que tinham a obrigação de agir. Estavam comprometidos. A historia os julgará.

Seguramente a Rádio Magallanes será calada e o metal tranqüilo de minha voz não chegará mais a vocês. Não importa. Vocês continuarão a ouvi-la. Sempre estarei junto a vocês. Pelo menos minha lembrança será a de um homem digno que foi leal à Pátria. O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não deve se deixar arrasar nem tranqüilizar, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e seu destino. Superarão outros homens este momento cinzento e amargo em que a traição pretende impor-se. Saibam que, antes do que se pensa, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o povo! Viva os trabalhadores! Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a perfídia, a covardia e a traição."

terça-feira, 4 de setembro de 2012

The Cigar Shop



In 1974, Dominican immigrant Don Antonio Martinez started a small shop in New York City selling hand rolled cigars. Thirty-eight years later his son, Jesus, carries on the tradition. The shop combines craftsmanship with community, mixing equal parts work and play.
 

Denegação Por Anáfora Merencória


Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.