terça-feira, 6 de novembro de 2012

A doutrina Rumsfeld. Alta tecnologia e privatização da guerra

O importante do pensamento de Rumsfeld sobre a condução da guerra não é tanto o conceito estratégico mas a sua aplicação táctica, assente na fusão da alta tecnologia com o pensamento neoliberal de privatização de áreas e recursos que na concepção do Estado-nação tradicional estavam exclusivamente nas mãos do Estado.
Nestes dias temos tomado o pequeno-almoço preocupados com as notícias sobre a utilização civil de veículos aéreos não-tripulados, VANT, no seu acrónimo castelhano.
Os VANT são fruto de desenvolvimento tecnológico militar que pelas suas virtudes, junta o poder de fogo e observação, a mobilidade e a redução de custos, foram-se impondo aos exércitos de todo o mundo. Hoje em dia existem 700 existem, 500 deles exclusivamente militares, presentes em 25 países.
Os líderes da fabricação destes aparelhos são os EUA e Israel e isto não é casual, já que o seu desenho e implantação foram impulsionados de forma decisiva pela chamada «Doutrina Rumsfeld», na realidade um projecto de reorganização das forças armadas estadunidenses, semelhante ao anteriormente desenvolvido por Brzezinsky, inteligência parda do verdadeiro poder estadunidense.
O que diferencia ambas as doutrinas é o aspecto táctico, o qual assenta exclusivamente no poder aéreo, nas forças especiais, na tecnologia, na informação e, como elemento de coesão, na privatização de grandes áreas da área da defesa.
Ao contrário da visão de Collin Powell de recorrer a um poder militar esmagador e decisivo, Rumsfeld propõe baixar os custos de armamento, já que na concepção das novas guerras, e sem ter de enfrentar exércitos possuidores de poder semelhante, é preferível uma força mais pequena apoiada, isso sim, pela mais alta tecnologia e a melhor informação.
Curiosamente, e apesar de ser um republicano neocon, Rumsfeld coincide na sua visão estratégica com o democrata Brzezinsky. Este aponta a China como o verdadeiro inimigo, prevê um cada vez maior isolamento dos EUA, descarta o Atlântico Norte e a Europa Central como os eixos centrais e não dá qualquer importância aos países europeus da NATO, atribuindo uma importância táctica ao Médio Oriente, para onde, aí sim, se enviam forças de intervenção estadunidenses e se dominam zonas estratégicas que possam propiciar como objectivo prioritário o isolamento que leve à neutralização da China.
De início o conceituado «complexo militar industrial» opunha-se frontalmente aos planos de Rumsfeld, mas a realidade demonstra-nos que, por fim, houve uma aceitação dos mesmos, já que o orçamento da Defesa aumentou com uma orientação mais tecnológica e os empórios que se dedicam à construção de material de alta tecnologia saíram reforçados.
Quando se reflecte sobre a doutrina estratégica estadunidense apreciam-se alterações de elementos tácticos, novos teatros de operações, mas o apontar a China como prioritária é anterior à queda da URSS, ainda que depois se tenha consolidado.
Quando observamos estas alterações vemos que Rumsfeld é, desde 2001, o impulsionador do falsamente chamado «Escudo antimíssil», que pretende por fora de jogo a Rússia, ao obrigá-la a empreender uma nova corrida armamentista, deixando o peso desta iniciativa aos países europeus da NATO (mais a Turquia).
A Polónia, a Roménia e a Espanha são actores destacados. Uns põem as bases de mísseis e o nosso país [Espanha] contribui com os melhores e mais modernos meios navais, as fragatas dotadas com o sistema AEGIS.
O importante do pensamento de Rumsfeld não é tanto o conceito estratégico que, como já vimos, bebe no de Brzezinsky, mas a sua aplicação táctica enovelada que dá o tiro de saída à proeminência da alta tecnologia fundida com o pensamento neoliberal de privatização de áreas e recursos, que na concepção do Estado-nação tradicional estavam exclusivamente nas mãos do Estado.
Esta é a ideia que obriga a que, para manter essa pequena força estatal, se tenha de recorrer à iniciativa privada em áreas de segurança e informação vitais. Funções assumidas de imediato por empresas de segurança, conhecidas popularmente como «contratados», forma eufemística de chamar ao que sempre foi o aluguer de soldados de fortuna ou mercenários.
A partir das invasões do Afeganistão e do Iraque assistimos à proliferação desta privatização da guerra e da inteligência, o que levou à criação de grandes empresas com mais poder que alguns países. Os seus benefícios imediatos convencem os governos: são mais baratas de manter que as estruturas castrenses tradicionais, não há responsabilidades para além do tempo de contrato e, em último caso, se adjudica o negócio a sectores ideologicamente afins, que poderão chegar onde as próprias Forças Armadas, algo limitadas pelo Direito Internacional Humanitário, não convém que cheguem.
O mesmo sucede com a segurança e na logística aplica-se o mesmo princípio. As comidas, os transportes, a construção de bases, a sua manutenção…, tudo é posto nas mãos dos privados. Nas mãos dos privados amigos, claro.
Ainda que dando menos nas vistas, a logística é a alma de um exército. Não é em vão que os grandes historiadores militares falam com admiração da logística das legiões romanas ou da dos exércitos de Alexandre Magno, que lhes permitia percorrer centenas de quilómetros tendo assegurada a comida, o descanso, o material… definitivamente, todas as necessidades na vida de milhares de homens em movimento. Imaginemos o formidável negócio que é manter a deslocação de centenas de milhares de soldados em oitocentas bases espalhadas pelo mundo.
Como conclusão devemos ter sempre presente o pensamento de Rumsfeld pois, com as bases estratégicas de Brezinsky, faz uma construção táctica e ideológica da projecção do poder estadunidense que estamos a hoje em dia a viver e se resume: Alta tecnologia e privatização. Puro pensamento neoliberal de âmbito militar imperial.
Tudo está relacionado neste tabuleiro mundial onde se joga a geopolítica, ainda que o emaranhado de acções não nos deixe ver o núcleo do bosque.
Fica claro que esta é a construção ideológica de um futuro em que as grandes corporações vão minando e substituindo o poder dos estados, chegando inclusive a devorar quem lhes permitiu crescer e desenvolver-se: os EUA.
O que pareciam as distopias literárias ou cinematográficas de um mundo dominado por um governo mundial de grandes corporações, tornam-se cada dia mais possíveis com a permissividade e o impulso das de um pensamento que retira as competências do Estado dos cidadãos emanado da Revolução Francesa para as entregar a entidades privadas, com uma visão feudal do mundo.
 
Texto de Javier Couso. Activista anti-guerra, escreve sobre meios de informação e tratamento de notícias e estratégia militar. Desenvolve uma batalha jurídica para sentar no banco dos réus os soldados norte-americanos que acusa de assassinar na guerra do Iraque José Couso, seu irmão, câmara de Telecinco.
 
 
Versão portuguesa ODiario.info

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