segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Irão: O que está por detrás do embargo Europeu

Os caminhos da agressão à Síria passam através do Líbano. Os caminhos que estrategicamente agridem o Irão passam através da Síria. Os caminhos que agridem ou afectam estrategicamente a Rússia e a China passam através da Síria e do Irão.

Não são só as vastas reservas de energia e recursos naturais do Irão que atiçam a cobiça dos dirigentes dos países economicamente impotentes da União Europeia assim como do líder deles todos, os Estados Unidos. Sabemos que foi sempre essa cobiça, de mãos dadas com a debilidade económica, que esteve por detrás das guerras ilegais dos últimos vinte anos, a mais recente das quais a da Líbia.
Agora temos que os caminhos que levam a Moscovo e a Pequim passam por Teerão, capitais localizadas respectivamente na Rússia, China e Irão. O que se tem passado em relação às atitudes agressivas ocidentais dos últimos anos em relação à Síria e ao Irão insere-se também num quadro de considerações políticas geo-estratégicas mais amplas. [1]
No estudo apresentado em [1] considera-se que os caminhos que levam a Moscovo e a Pequim passam por Teerão do mesmo modo que os caminhos que levam à Teerão passam por Damasco na Síria, Bagdad no Iraque e Beirute no Líbano.
Destaca-se que os Estados Unidos querem controlar o Irão por razões políticas e económicas bem como para satisfazer as suas próprias necessidades de energia. E querem também poder controlar a forma de pagamento das exportações do petróleo do país. Querem que o pagamento das exportações de petróleo do Irão seja feito em dólares.
E isso para que o uso global e permanente do dólar nas transações internacionais seja mantido e não posto em causa, como tem sido nos últimos tempos. Deve lembrar-se que o uso do dólar como moeda de pagamento internacional é uma das duas pernas em que o controlo americano sobre o mundo se sustenta, apesar de tudo. Digo apesar de tudo porque o dólar não tem valor nenhum por si mesmo. Poderia e deveria ser trocado por sistemas de pagamento mais condizentes com a realidade de 2012 e não condizentes com a realidade de 1945, como é o caso. A outra perna em que se sustenta o poder americano sobre o mundo é a força militar.
Controlando o Irão através de um regime de fantoches posto no poder através de uma guerra dirigida pelos Estados Unidos e executada pelos seus aliados (como foi o caso na Líbia e como estão ameaçando fazer na Síria) Washington também estaria a pôr uma corda no pescoço da China.
Essa corda iria ser apertada ou afrouxada de acordo com os interesses norte americanos, dando-lhes o controle da segurança energética da China. Se a China não se comportasse de acordo com os interesses americanos lá estariam eles a asfixiá-la através do estrangulamento do fornecimento do petróleo. Estrangulamento esse que seria garantido pelos fantoches estabelecidos no Irão à custa do sangue de muitos milhares e milhares de inocentes no Irão e no Oriente Médio, assim como à custa de uma desestabilização económica no mundo inteiro, se não de uma catástrofe global.
É um facto do conhecimento geral que a ameaça de guerra aberta hoje visível é uma continuação dos acontecimentos desencadeados por acções encobertas há já uns anos. Essas acções encobertas incluem serviços de informação específica, ataques e vírus cibernéticos, grupos militares secretos, espiões, assassinos, agentes de provocação e sabotadores agindo contra o Irão em favor dos interesses ocidentais.
O sequestro e assassínio de cientistas iranianos e de comandantes militares é do conhecimento público. Sabe-se de diplomatas iranianos sequestrados no Iraque e de iranianos visitando a Arábia Saudita e a Turquia que foram detidos e sequestrados. Sabe-se de oficiais sírios, assim como de vários palestinos e representantes do Hezbollah que também foram assassinados. Destaque-se que foram assassinados e não detidos e colocados perante um tribunal de justiça.
Pressupõe-se que Israel tenha atacado o Líbano não só para exterminar ou pelo menos enfraquecer o Hezbollah, mas também para atingir estrategicamente a Síria. Como já foi dito anteriormente, os caminhos que agridem a Síria passam através do Líbano. Os caminhos que estrategicamente atingem o Irão passam através da Síria. Os caminhos que agridem ou afectam estrategicamente a Rússia e a China passam através da Síria e do Irão.
A Síria é o apoio e o eixo do bloco da resistência contra os abusos ocidentais na região. Essa resistência é apoiada pelo Irão. Há já cinco ou seis anos que os Estados Unidos, acompanhados pelos seus “irmãos de armas” locais tentam desligar a Síria do Irão. Essa tentativa vinha sido feita através de esforços para seduzir a Síria. Uma vez que a Síria não se deixou seduzir pelas ofertas ocidentais, as tentativas de sedução transformaram-se em ameaças e em preparativos para a guerra.
Combater a Síria é combater o Irão. Esse é um ponto central a ser tido em conta no contexto actual. A balança do poder e da influência política hoje na região pende a favor do Irão, mas nada enfraqueceria mais o Irão do que a perda da Síria.
Há aqui cenários potencialmente devastadores. Iria o Irã manter-se passivo frente a um ataque à Síria, ataque esse liderado pelos interesses ocidentais? Podemos pressupor que não. Os Estados Unidos não desejam que esse potencial cenário se concretize. O que eles querem é atacar a Síria e depois atacar o Irão, não atacar os dois juntos. Seria demasiado até mesmo para os EUA-UE-OTAN. Isto já para não se mencionar a cadeia de acontecimentos imprevisíveis que uma tal acção desencadearia.
A marcha para uma guerra total e devastadora prossegue enquanto os Estados Unidos intensificam a guerra política e económica, da qual a decisão de embargo da União Europeia é apenas um passo mais. É uma marcha fúnebre dirigida por loucos falidos e letalmente armados.

REFERÊNCIAS E NOTAS:

[1] Mahdi Darius Nazemroaya é sociólogo e autor consagrado especializado em questões do Oriente Médio e da Ásia Central. Tendo estudado e analisado extensamente a situação actual, argumentou no sentido núcleo das ideias que aqui retransmitimos. Originalmente o núcleo sequencial de ideias e conclusões aqui apresentadas foi publicado em “News”- “Obama´s Secret Letter to Tehran: Is the war against Iran on hold?”, em www.strategic-culture.org - Strategic Culture Foundation, Moscovo.

Artigo de Anna Malm, via o diario.info

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