quarta-feira, 30 de março de 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

Guð blessi Ísland



O filme "Deus abençoe a Islândia" (Guð blessi Ísland) é um documentário sobre a crise financeira na Islândia. O filme estreou em Outubro de 2009, exactamente um ano depois do pronunciamento dramático do Primeiro Ministro na televisão islandesa, onde informava a nação sobre a situação caótica.

Mantendo aparências

"Os EUA assinalaram que a comunidade internacional deveria "ir além" de uma zona de interdição de voo na Líbia, sugerindo pela primeira vez a intervenção". — "West should 'go beyond' no-fly zone, US says" — The Daily Telegraph, 20 March 2011

Então porque não há uma "zona de interdição de voo" sobre a Costa do Marfim, ou o Iémen ou o Bahrain ou na verdade sobre qualquer país onde o Estado esteja a matar os seus cidadãos? O que é que torna a Líbia diferente? Pode ser que a campanha de propaganda histérica quanto aos abusos de direitos humanos de Kadafi nos media ocidentais esteja relacionada com o que o responsável da NATO Anders Fogh Rasmussen disse aos seus ouvintes polacos: "Quando olho para a Europa central e oriental fico extremamente optimista acerca do futuro que podemos alcançar na África do Norte" — 'NATO: Libya Military Intervention: Model For North Africa' , Reuters, 17 March 2011  Refere-se aos derrubes com êxito dos antigos membros do Bloco do Leste e, naturalmente, à destruição da Jugoslávia. Assim, a Líbia está para ser o primeiro dentro muitos países que, de acordo com Rasmussen, estão em vias de obter "assistência humanitária" estilo NATO. Na realidade, tendo sido apanhada a dormitar na região, a invasão nominalmente apoiada pela ONU é uma tentativa do Império para recuperar o controle não só da resultante da rebelião da Líbia como também para estabelecer o cenário para muito mais — e não para a democracia ou direitos humanos mas sim para assegurar controle sobre os activos petrolíferos vitais (para o Ocidente) da Líbia, os maiores da África, e para assegurar o controle geral do Império sobre a região. Como escrevi anteriormente, criar uma "zona de interdição de voo" é um acto de guerra, ponto de vista que é confirmado pelo embaixador dos EUA na ONU, Rice: "Um diplomata no conselho de segurança disse à Associted Press que Rice afirmara que o objectivo deveria ser expandido para além da criação de uma zona de interdição de voo para proteger civis. Para isto, a comunidade internacional deve dispor de todas as ferramentas necessárias – incluindo autorização para utilizar aviões, tropas ou navios para travar ataques das forças de terra, mar e ar de Kadafi... o Pentágono descreveu [a zona de interdição de voo) como uma medida equivalente à guerra". — 'Authorise Libya air strikes, US urges UN' — The Guardian, 17 March 2011. A "zona de interdição" é de facto um acto de guerra contra a Líbia pois para impô-la é preciso primeiro destruir a capacidade militar do inimigo para actuar, do contrário seriam apenas palavras. Mas pior ainda é a gigantesca mentira que foi impingida pelo Império quanto a acontecimentos na Líbia utilizados para justificar esta acção horrenda, todos os quais tem ocorrido. Já a relatos de mortes civis decorrentes dos ataques de mísseis do Império. Tudo isto é asquerosamente previsível. Enquanto isso, a esquerda ocidental, tal como ela é, e da mesma forma deprimentemente previsível, agora está numa aflição real. Um jornalista "de esquerda", Gilbert Achcar, escrevendo para a ZCommunications disse o seguinte: "Assim, para resumir, acredito que de uma perspectiva anti-imperialista ninguém pode nem deveria opor-se à zona de interdição de voo, uma vez que não há alternativa plausível para proteger a população em perigo. O egípcios segundo dizem estão a proporcionar armas à oposição líbia — e isso é bom — mas em si mesmo isso não poderia ter feito uma diferença que salvasse Bengazi a tempo. Mas, mais uma vez, deve-se manter uma atitude muito crítica em relação ao que as potências ocidentais podem fazer". —'Libyan Developments', March 19, 2011 Será isto a "esquerda" a falar numa bem conhecida plataforma "de esquerda"? Por que neste mundo Achcar pensa que o Egipto, ainda uma ditadura militar, está interessada em direitos humanos na Líbia? Achcar justifica isso utilizando o mesmo argumento do Império, de que isto está a ser feito para impedir que Kadafi cometa atrocidades. Então porque Achcar não advogou uma "zona de interdição de voo" há muito mais tempo se ele acredita que isso teria impedido atrocidades de Kadafi? Por falar nisso, porque o Império não o fez?  Perco a esperança...  Absorto em todas as alegações de um "reino de terror" de Kadafi, armado pelos mesmos que estão agora ocupados a destruí-lo, ao invés de centrar nos motivos porque o Império estava tão preocupado com o regime de Kadafi, na verdade a armar Israel quando este dizimava Gaza, esta "esquerda" é agora apanhada no assalto propagandístico do ocidente acerca da defesa de "direitos humanos"! Recordo a propósito que os media de referência fazem grande estardalhaço quando propagandeiam a favor Império, declarando em numerosas ocasiões que só deveria ser utilizada a força para defender civis.  Mas tal como a infame Resolução da ONU que levou à invasão da Líbia, "defender civis" é uma declaração vazia e totalmente vaga que pode ser interpretada de qualquer modo. O que não entendo é porque a Rússia e a China abstiveram-se de votar excepto pela afirmação feita pelo responsável do Partido Comunista da Rússia, Gennady Zyuganov, de que: "Foram feitas mudanças no documento pouco antes da votação, embora tenham sido acordadas pelas partes. Estas mudanças são de facto alçapões para o lançamento de uma intervenção terrestre em grande escala" — 'Russian Communist leader slams Moscow's passive stance on Libya', RT , 18 March 2011 Contudo, a Rússia tendo já apoiado a ideia de uma "zona de interdição de voo" tinha de saber o que isso realmente implicava. O embaixador da Rússia na ONU justificou a sua abstenção como se segue: "Asseverando que a Rússia não vetou a resolução porque estava "orientada pela necessidade de proteger civis e por valores humanitários gerais", ele permanecia convencido de que "um cessar-fogo imediato é o modo mais rápido para a segurança confiável da população pacífica e para a estabilização a longo prazo na Líbia"".  É vergonhoso por parte da Rússia após todo o ar quente acerca de se opor veementemente a qualquer intervenção estrangeira nos assuntos internos da Líbia. Adiante... "Revolução" da Líbia inspirada e arquitectada pelos EUA? Desde o princípio, a rebelião líbia foi apresentada como uma continuação das rebeliões em outras partes do Médio Oriente/África do Norte e os Estados/media de referência frequentemente utilizam as "revoluções" alhures como justificação para apoiar a "revolução" líbia, deixando de mencionar naturalmente que até agora não tem havido revoluções em qualquer parte do Médio Oriente ou África do Norte. De facto, o oposto é que tem sido o caso, com o Estado a assassinar seus cidadãos no Bahrain, na Arábia Saudita e no Iémen e nenhum sinal de os mísseis do Império choverem sobre o Bahrain, o Iémen ou Arábia Saudita abastecidos com arsenais dos EUA. "Numa iniciativa para impor novas restrições ao governo líbio, o Departamento do Tesouro sancionou o ministro dos Negócios Estrangeiros do país, que foi activo chave da CIA ao longo de anos" — 'US Tightens Screws On Libya, Sanctioning Foreign Minister And 16 Companies' , New York Times, 15 March, 2011  O que sabemos é que a CIA e a National Endowment for Democracy (NED), a trabalharem em conjunto para o governo estado-unidense, estão fortemente envolvidas no apoio à "revolução" líbia e, como ilustra a notícia acima do NYT, os EUA têm agentes dentro do governo Kadafi desde há anos. "A FNSL faz parte da National Conference for the Libyan Opposition estabelecida em Londres em 2005 e estão a ser utilizados recursos britânicos para apoiar a FNSL e outras "oposições" na Líbia. A FNSL foi realmente formada em Outubro de 1981 no Sudão sob o coronel Jaafar Nimieri – o fantoche estado-unidense que era amplamente conhecido como operacional da Central Intelligence Agency e que dominou o Sudão implacavelmente desde 1977 até 1985. A FNSL realizou o seu congresso nacional nos EUA em Julho de 2007. Relatórios de "atrocidades" e mortes civis estão a ser canalizados para imprensa ocidental a partir de operações em Washington DC, e a oposição FNSL está confirmadamente a organizar resistência e ataques militares tanto dentro como fora da Líbia". — 'Petroleum and Empire in North Africa. NATO Invasion of Libya Underway' , By Keith Harmon Snow, 2 March 2011. Um estratagema esperto foi tramado pelo Império e seus cúmplices bem antes da invasão de ontem incluindo, estou certo, envolvimento directo na rebelião. [1]  Primeiro, esperar e ver se os rebeldes podem encenar um golpe com êxito. Se não – e foi o que aconteceu com as forças de Kadafi prontas para recuperarem Bengazi – persuadir aqueles em dúvida de que Kadafi estava prestes a cometer horrores indizíveis (já gerados desde o primeiro dia da rebelião com os rumores não fundamentados das atrocidades de Kadafi e de mercenários africanos) e pressionar por uma resolução ilimitada do Conselho de Segurança que desse ao Império rédea livre para fazer o que quer que quisesse fazer com a Líbia. E para tornar todo o caso sórdido e ilegal mais palatável para um mundo bastante habituado a ser "libertado" pela "generosidade" dos EUA na sua distribuição de democracia, fazer tudo isto através de uma frente anglo-francesa (eles que têm mais a perder na Líbia, juntamente com os italianos, devido às suas concessões petrolíferas) mas com os EUA a puxarem todos os cordões (e a dispararem a maior parte dos mísseis). Um acordo cínico e sórdido digno apenas de piratas que tiveram êxito em transformar um antigo aliado num ogre, como Manuel Noriega, que também passara a data de validade e na verdade era um embaraço potencial para o Império.

[1] Ver 'Obama's Bay of Pigs in Libya: Imperialist Aggression Shreds UN Charter' do Dr. Webster G. Tarpley, para mais informação acerca do envolvimento do Império na "rebelião".

 Artigo de William Bowles publicado no resistir.info

domingo, 27 de março de 2011

Funeral em Gaza

Funeral em Gaza. Um jovem despede-se de uma vítima de um ataque israelita.
Fotografia de MOHAMED SALEM (REUTERS).

A crise portuguesa e a política de austeridade, por Paul Krugman

Cortar no défice com desemprego alto é um erro. Mas se os investidores desconfiam que estão perante uma república das bananas em que os políticos não enfrentam os problemas estruturais, deixam de comprar dívida e o défice dispara com os juros. O governo de Portugal caiu a pretexto de uma disputa relacionada com o programa de austeridade. Os juros da dívida pública irlandesa acabam de ultrapassar os 10% pela primeira vez. Já o governo do Reino Unido reviu em baixa as perspectivas económicas e em alta as previsões do défice. Que têm em comum todos estes acontecimentos? Todos são provas de que a redução da despesa em períodos de desemprego elevado é um erro. Os defensores da austeridade prevêem que esta produza dividendos rápidos sob a forma de aumento da confiança económica, com poucos ou nenhuns efeitos negativos sobre o crescimento e o emprego; o problema é que não têm razão. Em Washington um político que queira ser levado a sério tem de jurar lealdade a esta doutrina que está a falhar com consequências sinistras na Europa.

As coisas nem sempre foram assim. Há dois anos, perante graves problemas orçamentais e elevadas taxas de desemprego - consequência da grave crise financeira -, a maior parte dos líderes dos países desenvolvidos parecia perceber que os problemas teriam de ser enfrentados sequencialmente, primeiro com um esforço de criação de emprego e depois com uma estratégia a longo prazo de redução do défice. E porque não começar pela redução do défice? Porque os aumentos de impostos e os cortes da despesa contribuiriam para desacelerar ainda mais a economia, agravando o desemprego. Além disso, cortar na despesa numa economia em recessão acaba por ser contraproducente nem que seja em termos fiscais: quaisquer poupanças na frente da despesa são anuladas pela redução da receita fiscal resultante da contracção da economia. É por isso que a estratégia correcta é emprego primeiro défice depois. Infelizmente, foi abandonada em resultado de ameaças imaginárias e esperanças ilusórias. Por um lado, dizem-nos que se não reduzirmos já os gastos acabamos como a Grécia, que só consegue financiar-se a custos exorbitantes. Por outro, explicam-nos que não vale a pena preocuparmo-nos com o impacto da redução da despesa sobre o emprego porque a austeridade fiscal vai estimular a confiança, o que vai criar emprego. Até agora, como é que isto tem funcionado? Os que se apresentam como falcões do défice, desde que a crise financeira começou a abrandar que andam a gritar que as taxas de juros não tardarão a subir e tomam cada estremecimento em sentido ascendente como um sinal de que os mercados estão a atacar a América. Só que na verdade o que fez flutuar as taxas de juro não foram os receios quanto ao défice, mas as oscilações da confiança na retoma. Com o fim da recessão ainda muito longe, as taxas de juros estão actualmente mais baixas que há dois anos. Mesmo assim, podemos estar seguros que os EUA não vão acabar como a Grécia? Claro que não. Se os investidores acharem que somos uma república das bananas em que os políticos não conseguem ou não estão para enfrentar os problemas estruturais do país, vão deixar de comprar a nossa dívida. Só que essa possibilidade não tem nada a ver com a maneira como punimos a nossa economia com cortes de curto prazo da despesa. De resto, pergunte-se aos irlandeses. O governo - depois de ter assumido um fardo insustentável para salvar bancos falidos - tentou acalmar os mercados impondo medidas de austeridade ferozes aos cidadãos comuns. Aqueles que nos EUA defendem a redução da despesa aplaudiram. "A Irlanda dá-nos uma lição admirável de responsabilidade fiscal", declarou Alan Reynolds, do Cato Institute, que assegurou que as medidas diluíam os receios relativos à solvência do país e faziam prever uma recuperação económica rápida.

 Isto foi em Junho de 2009. Desde então as taxas de juros sobre a dívida irlandesa duplicaram e o desemprego no país saltou para 13,5%. Depois ainda há a experiência britânica. Tal como os Estados Unidos, os mercados financeiros continuam a ter a percepção de que o Reino Unido é um país solvente, dando-lhe margem para uma política que comece por enfrentar o desemprego antes de se preocupar com o défice. Só que o governo do primeiro-ministro David Cameron, em vez disso, achou melhor impor uma austeridade imediata, a que não era obrigado, na convicção de que o consumo privado compensaria largamente o recuo nos gastos governamentais. A ideia de Cameron era que a fada da confiança ia resolver tudo. Não resolveu. A economia do país estagnou, e o resultado disso até agora já foi a revisão em alta das projecções para o défice. Isto recorda-me aquilo que ultimamente em Washington passa por discussão orçamental. Um programa fiscal sério para os Estados Unidos teria de prever acima de tudo as despesas com tendência para aumentar de forma constante, acima de tudo os custos com a saúde, e não poderia deixar de incluir um aumento fiscal de um ou outro tipo. Só que a discussão não tem sido séria. Cada vez que se fala de usar com eficácia os fundos do Medicare os republicanos começam com a gritaria histérica - que os democratas quase não põem em causa - de que ninguém devia ter de pagar taxas mais elevadas. Tudo o que os preocupa são os cortes de curto prazo. Em resumo, o clima político nos Estados Unidos é favorável a punir os desempregados e ao mesmo tempo a evitar qualquer esforço de redução do défice a longo prazo. Acerca disto, a experiência da Europa diz que a fada da confiança não nos vai poupar às consequências da nossa estupidez.

Paul Krugman foi Prémio Nobel de Economia em 2008, este artigo foi publicado no jornal i em 26.03.2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

Jalozai

Mulheres paquistanesas de Bajur inscrevem-se no campo de refugiados de Jalozai.
Fotografia de AP Photo/Emilio Morenatti

terça-feira, 22 de março de 2011

Fotografias agora reveladas, mostram soldados dos EUA no Afeganistão a posar junto a cadáveres civis mortos.

Uma das 3 fotografias publicadas pela revista alemã Der Spiguel onde um soldado norte-americano posa junto a cadáver de um jovem afegão. A morte como trofeu desportivo.
Mais no artigo do Guardian.

Holi the Hindu festival of colour - in pictures

The spring festival of colours is celebrated by Hindus around the world in an explosion of
paints and dyes to mark the end of the winter. Photograph: Majid Saeedi/Getty Images
 Slideshow no Guardian

domingo, 20 de março de 2011

Japão, 1 semana depois...

Um homem verifica uma lista de evacuados em Rikuzentakata.
Fotografia de Kim Kyung-Hoon/Reuters.

sábado, 19 de março de 2011

Como os chamados guardiões da liberdade de expressão estão a silenciar o mensageiro

Quando os Estados Unidos e a Grã-Bretanha procuram uma desculpa para invadir mais um país árabe rico em petróleo, a hipocrisia torna-se habitual. O coronel Kadafi é "enganoso" e "banhado em sangue" ao passo que os autores de uma invasão que matou um milhão de iraquianos, que sequestra e tortura em nosso nome, são inteiramente sãos, nunca se banharam em sangue e foram sempre os árbitros da "estabilidade". Mas algo mudou. A realidade já não é mais aquilo que os poderosos dizem que ela é. De todas as revoltas espectaculares em todo o mundo, a mais estimulante é a insurreição do conhecimento ateada pelo WikiLeaks. Não se trata de uma ideia nova. Em 1792, o revolucionário Tom Paine advertiu seus leitores na Inglaterra que o seu governo considerava que "o povo deve ser ludibriado e mantido na ignorância supersticiosa por um bicho papão ou outro". A obra "Os direitos do homem" ("The Rights of Man") de Paine foi considerada tamanha ameaça para a elite controladora que foi ordenado a um grande júri secreto para acusá-lo de "conspiração perigosa e traiçoeira". Sensatamente, ele procurou refúgio em França. O suplício e a coragem de Tom Paine são mencionados pela Sydney Peace Foundation ao conceder o prémio de direitos humanos da Austrália, a Medalha de Ouro, a Julian Assange. Tal como Paine, Assange é uma pessoa independente que não está ao serviço de qualquer sistema e é ameaçada por um grande júri secreto, uma dispositivo malicioso abandonado há muito na Inglaterra mas não nos Estados Unidos. Se for extraditado para os EUA, é provável que desapareça no mundo kafkiano que produziu o pesadelo da Baía de Guantanamo e agora acusa Bradley Manning, alegado informante do WikiLeaks, de um crime capital. Se fracassar o presente recurso de Assange contra a sua extradição da Grã-Bretanha para a Suécia, uma vez acusado provavelmente negar-lhe-ão fiança e será mantido incomunicável até o seu julgamento secreto. O caso contra ele já foi retirado de um promotor sénior em Estocolmo e só foi ressuscitado quando um político de extrema-direita, Claes Borgstrom, interveio e fez declarações públicas acerca da "culpa" de Assange. Borgstrom, um advogado, agora representa as duas mulheres envolvidas. Seu sócio é Thomas Bodstrom, o qual, como ministro da Justiça da Suécia em 2001, esteve implicado na entrega de dois refugiados egípcios inocentes a um esquadrão de sequestro da CIA no aeroporto de Estocolmo. A Suécia posteriormente indemnizou-os pelas suas torturas. Estes factos foram documentados em 2 de Março numa reunião do parlamento australiano, em Canberra. Perspectivando o enorme abuso legal que ameaça Assange, o inquérito ouviu evidências de um perito de que, sob padrões internacionais de justiça, o comportamento de certos responsáveis na Suécia seria considerado "altamente impróprio e repreensível [e] impeditivo de um julgamento justo". Um antigo diplomata sénior australiano, Tony Kevin, descreveu os laços estreitos entre o primeiro-ministro sueco Frederic Reinheldt e a direita republicana nos EUA. "Reinfeldt e [George W.] Bush são amigos", disse ele. Reinhaldt atacou Assange publicamente e contratou Karl Rove, o antigo parceiro de Bush, para aconselhá-lo. As implicações da extradição de Assange da Suécia para os EUA são terríveis. O inquérito australiano foi ignorado no Reino Unido, onde actualmente se prefere a farsa negra. Em 3 de Março, o Guardian anunciou que a Dream Works de Stephen Spielberg estava para produzir "um filme de investigação nos moldes de "All the President's Men" a partir do seu livro "WikiLeaks: Inside Julian Assange's War on Secrecy". Perguntei a David Leigh quem escreveu o livro com Luke Harding, quanto Spielberg havia pago ao Guardian pelos direitos de filmagem e o que ele pessoalmente esperava fazer. "Não tenho ideia", foi a resposta enigmática do "editor de investigações" do Guardian. O Guardian nada pagou à WikiLeaks pelo seu valioso tesouro de fugas de informação. Assange e a WikiLeaks – e não Leigh ou Harding – são responsáveis pelo que o editor do Guardian, Alan Rusbridger, chama "um dos maiores furos jornalísticos dos últimos 30 anos". O Guardian deixou claro que não pretende mais utilizar Assange. Considera que ele é um irresponsável que não se ajusta ao mundo Guardian, que se demonstrou um negociador duro e não adequado para membro do clube. E corajoso. No livro do Guardian sobre si próprio, a coragem extraordinária de Assange é eliminada. Ele ali torna-se uma pequena figura de estupefacção, um "australiano raro" com uma mãe de "cabelo frisado", é gratuitamente insultado como "insensível" e com uma "personalidade estragada" que estava "no espectro autístico". Como Spielberg tratará deste pueril assassinato de carácter? No Panorama da BBC, Leigh permitiu-se propalar boatos acerca de Assange sem se preocupar com as vidas dos mencionados nas fugas. Quanto à afirmação de que Assange se havia queixado de uma "conspiração judia", ao que se seguiu uma enxurrada de asneiras na Internet como sendo um nocivo agente da Mossad, Assange rejeitou tudo como "completamente falso, no espírito e na letra".

É difícil descrever, quem dirá imaginar, a sensação de isolamento e de cerco de Julian Assange, o qual de um modo ou de outro está a pagar por arranhar a fachada da potência rapinante. O cancro aqui não é a extrema-direita mas o liberalismo fino como papel daqueles que guardam os limites da liberdade de palavra. O New York Times distinguiu-se fiando e censurando o material WikiLeaks. "Estamos a levar todos os telegramas à administração", disse Bill Keller, o editor. "Eles convenceram-nos de que editar alguma informação seria sensato". Num artigo de Keller, Assange é insultado pessoalmente. Em 3 de Fevereiro, na Columbia School of Journalism, Keller disse, com efeito, que não se podia confiar no público para a divulgação de novos telegramas. Isto pode provocar uma "cacofonia". Falou o guarda do portão. O heróico Bradley Manning é mantido nu sob luzes e câmaras 24 horas por dia. Greg Barns, director da Aliança Australiana de Advogados, afirma que os temores de que Julian Assange "acabará por ser torturado numa prisão de alta segurança americana" são justificados. Quem assumirá a responsabilidade por tal crime?

Texto de  John Pilger, o original encontra-se em www.johnpilger.com

Este artigo encontra-se em resistir.info

quinta-feira, 17 de março de 2011

Islândia: a chantagem odiosa

O Presidente da República da Islândia, Ólafur Ragnar Grimsson, acaba de recusar, pela segunda vez, promulgar a lei dita "Icesave" que autoriza o Estado a reembolsar aos Países Baixos e ao Reino Unidos os 3,9 mil milhões de euros ligados à falência de um banco on line. E consequentemente, pela segunda vez, em virtude do artigo 26 da Constituição, a população será chamada a pronunciar-se por referendo acerca desta lei. Para grande desgosto do governo e dos mestres das finanças mundiais. Num artigo anterior , havíamos enfatizado o avanço democrático que representa o estabelecimento de uma assembleia constituinte na Islândia formada por 25 cidadãos eleitos pelos seus pares. O artigo teve um êxito inesperado e, reverso da medalha, foi muito seguidamente deformado por diversos sítios web e blogs que falaram erradamente de uma "revolução islandesa". Ponhamos as coisas no seu lugar: certamente, uma série de "caçaroladas" levou em 2009 à queda do governo de direita e a sua substituição por um governo de esquerda, mas este último é dirigido maioritariamente por sociais-democratas bastante semelhantes aos nossos, cujo principal desejo é aderir à União Europeia. Nada de muito revolucionário aí. Em plena crise, nacionalizaram-se os três principais bancos do país. Desde então, dois deles já foram reprivatizados. Quanto à assembleia constituinte, ela não pôde começar os seus trabalhos 15 de Fevereiro como estava previsto, o Tribunal Supremo anulou a eleição dos seus membros com o pretexto de que o escrutínio não teria respeitado suficientemente as regras de confidencialidade. Entretanto, ainda não se acabou de falar da Islândia por causa do caso Icesave ou devido a ele. Recordemos que, quando o banco Landsbanki foi nacionalizado, o Estado islandês não indemnizou os clientes estrangeiros, britânicos ou holandeses na maior parte, da sua filial on line Icesave. O Reino Unidos e os Países Baixos fizeram-se em seu lugar e, desde então, os dois Estados pedem à Islândia para pagar a factura, estimada em 5 mil milhões de dólares, ou seja, 3,9 mil milhões de euros. Um primeiro acordo foi arrancado a forceps, votado por uma curta maioria pelo parlamento islandês, mas, apoiando-se numa petição assinada por 25% do corpo eleitoral, o Presidente da República recusou-se a promulgar a lei, o que implicou num primeiro referendo em Março de 2010. Resultado: 93% de "não", a Islândia não pagaria. Mas as negociações retomaram nos bastidores, desembocando no princípio de 2011 num acordo muito menos constrangedor para a Islândia: o reembolso poderia estender ao longo de trinta anos (de 2016 a 2046) e não mais oito anos. Quanto à taxa de juro, inicialmente fixada em 5,5%, não será mais que 3% para o crédito holandês e de 3,3% para o britânico. É um bom negócio, declarou o governo que, depois de o Parlamento ter votado a nova lei Icesave, diz-se persuadido de que o presidente desta vez ratificará o acordo. Mas uma nova petição contra o reembolso recolhe 42 mil assinaturas, ou seja, cerca de 20% do corpo eleitoral. E a 20 de Fevereiro, Ólafur Ragnar Grímsson recusa-se a assinar a lei. É a consternação no pequeno mundo político islandês. Será preciso portanto passar novamente pela cabine do referendo, fixado para 9 de Abril. A partir daí, e de modo muito mais virulento que no ano passado, multiplicam-se as pressões para forçar o povo islandês a inverter o seu voto. Todas as ameaças valem: bloqueio das exportações islandesas, nomeadamente dos produtos da pesca; travagem da ajuda financeira do FMI; bloqueio das negociações de adesão à União Europeia (quando se vê como a Grécia e a Irlanda são ali tratadas, isto é ao invés um coisa boa!), etc. E depois, diz-se aos islandeses, vocês devem compreender que o Reino Unido e os Países Baixos fizeram um importante gesto de generosidades para convosco. Estes dois países não irão mais longe e, se vocês disserem não, o caso prosseguirá diante dos tribunais, onde a factura certamente será mais salgada. E, como se tudo isso não bastasse, eis que as agências de classificação imiscuem-se no voto islandês. Num comunicado datado de 23 de Fevereiro, a agência Moody's não é nada suave: "Se o acordo for rejeitado, sem dúvida desclassificaremos a nota da Islândia a Ba1 ou mais abaixo, tendo em conta repercussões negativas que se seguiriam para a normalização económica e financeira do país". E a agência acrescenta que, em caso de voto positivo, elevaria sem dúvida a perspectiva da nota actual (Baa3) para "estável" contra "negativa". Tudo isso sem recordar a imposição que em 2009 levou os irlandeses a adoptar por cansaço de guerra o Tratado de Lisboa. Sem retomar um por um os argumentos evocados acima, há um que merece ser retido: o Reino Unido e os Países Baixos processariam a Islândia perante tribunais e ganhariam. Uma tal afirmação, contestada por numerosos juristas, supõe que estes dois países estivessem no direito de exigir que a Islândia transformasse uma dívida privada em dívida pública. Nada é menos certo. E mesmo se se chegasse a "provar" isso triturando os textos europeus, será que é moralmente aceitável que os contribuintes islandeses fossem constrangidos a quitar uma tal dívida? É inegável que o acordo proposto aos islandeses é mais favorável que o anterior, sob a reserva contudo de que a taxa proposta seja uma taxa fixa. Mas a verdadeira questão não está aí: mesmo com condições de reembolso aliviadas, uma dívida ilegítima permanece ilegítima e não deve ser paga. Se o povo islandês emitir um novo voto negativo, este será um sinal forte para outros países europeus estrangulados pela dívida. Sem dúvida é isto que mais temem os mestres das finanças [1] , daí o encarniçamento em exigir o reembolso de uma soma que acaba por ser bastante modesta, se se comparar com as fortunas que o governo britânico gastou para salvar os seus próprios bancos.

Notas:
[1] Já em Janeiro de 2010, Dominique Strauss-Kahn, director geral do FMI, considerava que há obrigações internacionais a respeitar pelo país e que a Islândia "não pode ser imunizada contra o que foi feito pelo seu sector financeiro". www.news-banques.com/...

 

Este artigo encontra-se em resistir.info

segunda-feira, 14 de março de 2011

sábado, 12 de março de 2011

Gerações à Rasca em imagens




Lisboa, 12 de Março 2011. Fotografias Sarrabulho
(clicar nas fotografias para ampliar)
Mais imagens da manifestação de Lisboa no photoblog.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Tamacun



                                                      Rodrigo e Gabriela

quarta-feira, 9 de março de 2011

Bahrein

Uma mulher segura uma flor durante uma manifestação em Manama, a capital do Bahrein. Duas mil mulheres participaram ontem na marcha, pelo Día da Mulher. Fotografia de HASAN JAMALI (AP)

Iémen

Manifestantes durante uma concentração contra o presidente de Iémen, Abdullah Saleh, em frente
 à Universidade de Saná. Fotografia de KHALED ABDULLAH (REUTERS)

terça-feira, 8 de março de 2011

segunda-feira, 7 de março de 2011

Região de Lisboa fotografada por astronauta italiano



As luzes da região da grande Lisboa pintada de amarelo dourado no escuro da noite. Entre as duas manchas principais de luzes, surge o recorte do imponente estuário do Tejo. Esta é uma vista da região de Lisboa a partir do espaço, mais concretamente da Estação Espacial Internacional, que o astronauta Paolo Nespoli decidiu captar e partilhar com o mundo. Há dois meses a bordo da estação, o astronauta italiano, que participa numa missão da Agência Espacial Europeia, aproveitou os poucos momentos livres, entre uma agenda diária sobrecarregada de experiências científicas e tarefas de manutenção, para se escapar até ao módulo europeu Cupola. Das suas sete janelas, tem-se deleitado com a Terra vista bem lá de cima. "Identificar o que se está a ver do espaço não é fácil. Mas é emocionante. Cada vez que tenho cinco minutos, escapo-me até ao Cupola para observar", diz. "Encontro sempre coisas novas. Como a estação se move muito rapidamente, a vista está sempre a mudar e nunca ocorrem as mesmas condições de iluminação, de época do ano ou posição do Sol." Mas não quis guardar só para si essa beleza tranquila, ainda que só na aparência, e tem enviado as imagens cá para baixo.

Carnaval nos Aliados

Domingo de Carnaval na Avenida dos Aliados, Porto.
Fotografia LISA SOARES/GLOBAL IMAGENS

Gerações à rasca


Dizem-nos que a geração que agora tem à volta de 30 anos está à rasca. Porque, por exemplo, há jovens de 30 anos, com licenciaturas e eventualmente mestrados, que não conseguem melhor do que um contrato precário a recibo verde e um salário entre 500 e 1000 euros. Outros não conseguem sequer um primeiro e precário emprego. É uma tragédia? Será. Mas então que dizer de um menos jovem, de 40, que trabalhe oito horas por dia numa fábrica têxtil qualquer, a troco de 475 euros? Ou um de 45, desempregado, sem direito a subsídio, com dois filhos, que é preciso alimentar, vestir e educar? O que será isto? Quem está mais à rasca, a geração dos que agora têm 30 anos, ou a geração dos que agora têm 40 anos? E que dizer dos idosos que, aos 70 ou 80 anos, sem retaguarda familiar, sobrevivem em casas velhas e destelhadas com 300 euros de pensão? Estes também estarão à rasca, ou não contam, porque quem conta, agora, são apenas os que têm um curso superior, banda larga em casa e conta no Facebook? Que me perdoem os que estão verdadeiramente à rasca [muitos deles da geração que ronda agora os 30 anos], mas esta manifestação que se anuncia e sobretudo a discussão que vai gerando, demasiadas vezes se parece com uma birra de quem substituiu o aborrecimento e as dificuldades da vida real pela excitação e rebelião de uma vida virtual. Escreve-se no manifesto que deu origem a este protesto, e repete-se até à exaustão, que a geração dos 30 anos é, entre todas as gerações, a que tem mais habilitações. Escasso e pobre argumento para um país que há muito anda cheio de doutores e engenheiros, pelos menos nos títulos que mandavam inscrever nos livros de cheques e cartões-de-visita. Habilitações nunca faltaram, o que falta é qualificação e competência. E ao contrário da primeira, a duas últimas não aparecem automaticamente com o canudo de fim de curso. Aos que apareçam na luta do próximo dia 12, fica um último alerta: não é a geração dos que agora andam na casa dos 30 anos que está à rasca; são as várias gerações de portugueses, todas elas, que estão à rasca. E não há soluções para sair do buraco que contemplem apenas os jovens de 30 anos. Ou se encontra um caminho comum, ou vamos todos juntos para o abismo. Tenham em conta que não é um abismo virtual. É o da pobreza. Onde já mergulharam dois milhões de portugueses. A esmagadora maioria não tem curso superior, muito menos mestrado. E estes, sim, estão verdadeiramente à rasca.



Texto de Rafael Barbosa no Jornal de Notícias

domingo, 6 de março de 2011

Cuba Vs EUA - Os Peões do Império




Documentário da TV cubana, onde se denuncia a forma como a chamada "dissidência" funciona. Os meios, os principais interpretes da farsa são denunciados, por um agente infiltrado de la seguridad del estado que durante vários anos foi "dissidente" e se desmultiplicou como jornalista independente ou como activista dos direitos humanos ao serviço da guerra suja de Washington contra a ilha. Aqui se explica como supotas noticias sobre violações de direitos humanos ou de atentados contra a falta de expressão são encomendadas, pagas, transmitidas para o exterior em Miami e depois difundidas como verdades.

sábado, 5 de março de 2011

O amor ao povo Líbio

A nova bandeira. Fotografia de BERNARDO PÉREZ

No quadro de uma grave situação interna na Líbia marcada pela repressão e pelo enfrentamento entre opositores e apoiantes do regime de Khadafi, a NATO e as suas principais potências parecem querer lançar-se numa nova aventura militar contra o país que detém as maiores reservas de petróleo de África. Os sinais são muitos. Os EUA concentram forças militares navais nas costas líbias e as grandes potências da NATO anunciam o envio de poderosos meios militares com o argumento do resgate. A NATO reúne e deixa no ar a possibilidade da intervenção militar. Sarkozy e David Cameron lançam o mote da «urgência de uma acção europeia» e EUA e Grã-Bretanha avançam com a ameaça de instauração de uma área de exclusão aérea na Líbia. O Washington Post anuncia que a Administração Obama está a analisar medidas militares para intervir. Hillary Clinton afirma que os EUA «estão em contacto com numerosos líbios que tentam organizar-se no Leste [da Líbia]» e anuncia que a sua Administração está disposta a facultar «qualquer tipo de ajuda» aos opositores de Kadhafi. O imperialismo prepara-se para 'salvar' o povo Líbio do 'ditador louco' e entretanto ocultam-se notícias como a que dá conta que «opositores e partidários de Kadhafi opõem-se à intervenção estrangeira». O discurso da 'intervenção humanitária' volta às parangonas e é proclamado por aqueles que ordenaram à força aérea da NATO o bombardeamento de civis no Afeganistão causando 65 mortes. É 'vendido' por aqueles que venderam a Kadhafi os programas de ajuste do FMI e que estão na origem da deterioração da situação social no país; por aqueles que são cúmplices dos sucessivos bombardeamentos a civis na Faixa de Gaza pela força aérea israelita; por aqueles que fingem não saber das mortes dos manifestantes no Bahrein e no Iémen e ordenam a violenta repressão de manifestações no Iraque ou anunciam que afinal Guantanamo não vai fechar. Kadhafi está enganado quando diz que o seu povo o ama, e uma das razões reside no facto de ao abraçar a «guerra contra o terrorismo» ter voltado as costas ao seu próprio povo. O verdadeiro amor ao povo Líbio passa neste momento por impedir mais um crime 'humanitário' do imperialismo e afirmar sem tibiezas que lhe caberá decidir do seu próprio destino.

Texto de Ângelo Alves no Avante.

Afrocubism no Bataclan


Afrocubism apresentado ao vivo no Bataclan (Paris) em Dezembro de 2010.

Ventos de guerra

Queimando o "Livro Verde". Fotografia de BERNARDO PÉREZ
As revoltas no mundo árabe reflectem, e por sua vez agravam, a grande crise do capitalismo global. Um dos pilares do imperialismo norte-americano – o seu controlo dos recursos energéticos do Médio Oriente – está a ser abalado em profundidade. O imperialismo investe todo o seu arsenal para travar os acontecimentos, ou canalizá-los em direcções «aceitáveis». E procura retomar a iniciativa.

É também nesta óptica que se deve analisar a acção do imperialismo relativamente à Líbia. As reacções oficiais e mediáticas são claramente diferentes das registadas nos casos da Tunísia ou Egipto. Não há análises cautelosas sobre «transições ordeiras». Não há a «ameaça do fundamentalismo islâmico». Entrou em cena a máquina de propaganda e desinformação que antecede as intervenções políticas e militares imperialistas. Numa só semana revivemos as patranhas dos «3 mil mortos em Timisoara», dos «bebés arrancados das incubadores no Kuwait pelos soldados de Saddam», do «genocídio dos albano-kosovares», das «armas de destruição em massa». O MNE inglês entrou nos anais da diplomacia (e da provocação) declarando ter informações de que Kadafi estava a caminho da Venezuela. O imperialismo, responsável por centenas de milhares de mortos só nas guerras dos últimos anos, derrama lágrimas de crocodilo pelos mortos da repressão do regime líbio, para abrir caminho a um novo crime.

Longe vai o tempo em que o regime líbio se caracterizava pelo anti-imperialismo. Há anos que predomina a colaboração económica, mas também política e entre serviços secretos, com as potências imperialistas. Hoje Kadafi colecciona inimigos entre as forças progressistas do mundo árabe e Médio Oriente. Mas a sua colaboração com o imperialismo não impede que este o sacrifique. A intervenção imperialista – já em curso – não resulta apenas dos enormes recursos energéticos da Líbia, que detém as maiores reservas petrolíferas em África. São também a tentativa do imperialismo retomar a iniciativa, instalando-se militarmente num país que faz fronteira com o Egipto e a Tunísia, lançando um aviso a outros levantamentos populares em curso no mundo árabe (do Iémene ao Bahrain, sede da V Esquadra Naval dos EUA), aliviando a pressão sobre os seus aliados em perigo (daí o entusiasmo da Al Jazeera e da Al Arabiya pela Líbia), a começar pela Arábia Saudita, uma das mais bárbaras ditaduras pró-EUA e peça central da dominação imperialista da região, centro promotor do fundamentalismo mais retrógrado e reaccionário, mas sempre poupada pelos «comentadores» de serviço. E, quem sabe, encontrar finalmente uma sede em África para o AFRICOM... A comunicação social fez grande alarido da viagem do primeiro-ministro inglês ao Cairo, «a primeira após a queda de Mubarak». Mas foi um acerto de última hora numa viagem «a estados do Golfo não democráticos, acompanhado de oito dos principais produtores de armas britânicos». Em simultâneo, «o Ministro da Defesa britânico está na maior feira de armamentos da região, no Abu Dhabi, onde 93 outras empresas britânicas promovem os seus produtos» (Guardian, 21.2.11). Os lucros de mão dada com o apoio aos seus serventuários.

É sinal dos tempos que o principal comentador político do jornal conservador inglês Daily Telegraph escreva (24.2.11): «Os impérios podem colapsar no decurso duma geração […] Hoje, é razoável perguntar se os Estados Unidos, aparentemente invencíveis há uma década, não seguirão essa trajectória. A América sofreu dois golpes profundos nos últimos três anos. O primeiro foi a crise financeira de 2008, cujas consequências ainda não se fizeram realmente sentir [!]. […] agora parece que 2011 irá assinalar a queda de muitos dos regimes ao serviço da América no mundo árabe. É pouco provável que os acontecimentos venham a seguir o rumo asseado que a Casa Branca gostaria de ver. […] A grande questão está em saber se a América irá aceitar a redução do seu estatuto com graciosidade, ou se irá responder com violência, como os impérios em apuros têm tendência histórica a fazer». Os acontecimentos destes dias estão a dar resposta à interrogação. Cabe aos povos impedir que o imperialismo norte-americano e europeu, no seu declínio historicamente inevitável, afundem a Humanidade na catástrofe.

Texto de Jorge Cadima, no Avante

terça-feira, 1 de março de 2011

Líbia: O que os media escondem

Transcorridas duas semanas das primeiras manifestações em Benghazi e Tripoli, a campanha de desinformação sobre a Líbia semeia a confusão no mundo. Antes de mais uma certeza: as analogias com os acontecimentos da Tunísia e do Egipto são descabidas. Essas rebeliões contribuíram, obviamente, para despoletar os protestos nas ruas do país vizinho de ambos, mas o processo líbio apresenta características peculiares, inseparáveis da estratégia conspirativa do imperialismo e daquilo que se pode definir como a metamorfose do líder. Muamar Kadhafi, ao contrário de Ben Ali e de Hosni Mubarak, assumiu uma posição anti-imperialista quando tomou o poder em 1969. Aboliu uma monarquia fantoche e praticou durante décadas uma politica de independência iniciada com a nacionalização do petróleo. As suas excentricidades e o fanatismo religioso não impediram uma estratégia que promoveu o desenvolvimento económico e reduziu desigualdades sociais chocantes. A Líbia aliou-se a países e movimentos que combatiam o imperialismo e o sionismo. Kadhafi fundou universidades e industrias, uma agricultura florescente surgiu das areias do deserto, centenas de milhares de cidadãos tiveram pela primeira vez direito a alojamentos dignos. O bombardeamento de Tripoli e Benghazi em l986 pela USAF demonstrou que Regan, na Casa Branca identificava no líder líbio um inimigo a abater. Ao país foram aplicadas sanções pesadas. A partir da II Guerra do Golfo, Kadhafi deu uma guinada de 180 graus. Submeteu-se a exigências do FMI, privatizou dezenas de empresas e abriu o país às grandes petrolíferas internacionais. A corrupção e o nepotismo criaram raízes na Líbia. Washington passou a ver em Kadhafi um dirigente dialogante. Foi recebido na Europa com honras especiais; assinou contratos fabulosos com os governos de Sarkozy, Berlusconi e Brown. Mas quando o aumento de preços nas grandes cidades líbias provocou uma vaga de descontentamento, o imperialismo aproveitou a oportunidade. Concluiu que chegara o momento de se livrar de Kadhafi, um líder sempre incómodo. As rebeliões da Tunísia e do Egipto, os protestos no Bahrein e no Iémen criaram condições muito favoráveis às primeiras manifestações na Líbia. Não foi por acaso que Benghasi surgiu como o pólo da rebelião. É na Cirenaica que operam as principais transnacionais petrolíferas; ali se localizam os terminais dos oleodutos e dos gasodutos. A brutal repressão desencadeada por Kadhafi após os primeiros protestos populares contribuiu para que estes se ampliassem, sobretudo em Benghazi. Sabe-se hoje que nessas manifestações desempenhou um papel importante a chamada Frente Nacional para a Salvação da Líbia, organização financiada pela CIA. É esclarecedor que naquela cidade tenham surgido rapidamente nas ruas a antiga bandeira da monarquia e retratos do falecido rei Idris, o chefe tribal Senussi coroado pela Inglaterra após a expulsão dos italianos. Apareceu até um «príncipe» Senussi a dar entrevistas.


Um residente de Zawiya, armado contra Kadhafi. Fotografia de BEN CURTIS (AP)
A solidariedade dos grandes media dos EUA e da União Europeia com a rebelião do povo da Líbia é, porem, obviamente hipócrita. O Wall Street Journal, porta-voz da grande Finança mundial, não hesitou em sugerir em editorial (23 de Fevereiro) que os EUA e a Europa deveriam ajudar os líbios a derrubar o regime de Kadhafi.» Obama, na expectativa, manteve silêncio sobre a Líbia durante seis dias; no sétimo condenou a violência, pediu sanções. Seguiu-se a reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e o esperado pacote de sanções. Alguns dirigentes progressistas latino americanos admitiram como iminente uma intervenção militar da NATO. Tal iniciativa, perigosa e estúpida , produziria efeito negativo no mundo árabe, reforçando o sentimento anti-imperialista latente nas massas. E seria militarmente desnecessária porque o regime líbio aparentemente agoniza. Kadhafi, ao promover uma repressão violenta, recorrendo inclusive a mercenários tchadianos (estrangeiros que nem sequer falam árabe), contribuiu para ampliar a campanha dos grandes media internacionais que projecta como heróis os organizadores da rebelião enquanto ele é apresentado como um assassino e um paranóico. Os últimos discursos do líder líbio, irresponsáveis e agressivos, foram alias habilmente utilizados pelos media para o desacreditar e estimular a renúncia de ministros e diplomatas, distanciando Kadhafi cada vez mais do povo que durante décadas o respeitou e admirou.

Nestes dias é imprevisível o amanhã da Líbia, o terceiro produtor de petróleo da África, um país cujas riquezas são já amplamente controladas pelo imperialismo.

Texto de Miguel Urbano Rodrigues publicado no Diario.info