domingo, 25 de setembro de 2011

Tassili


Na linguagem dos nomadas Tuaregues que durante séculos deambularam pelos lugares mais remotos do sul do Saara, “tinariwen” significa “desertos”. Mas desde que o grupo musical de mesmo nome lançou seu primeiro CD em 2001, seus membros não gravaram em sua terra natal, mas sobretudo da mesma forma como as bandas norte-americanas e europeias fazem: no ambiente artificial de um estúdio de gravação, em cidades como Paris e Bamako, Mali.
Com “Tassili”, lançado a 30 de agosto, os Tinariwen, cuja música é um híbrido hard-rock dos estilos bérbere, árabe, ocidental e africano negro, quis retornar ao seu início. Levando o nome de uma região espetacular de penhascos e arcos de arenito perto da fronteira da Argélia com a Líbia, o CD foi ensaiado e gravado ao ar livre lá, em tendas e em volta de fogueiras parecidas com aquelas em que os fundadores do grupo, exilados políticos que viviam em assentamentos de refugiados, conheceram-se e se reuniram para tocar.
“Queríamos voltar às nossas origens, à experiência de ishumar”, que significa exílio ou estar à deriva, explicou Eyadou ag Leche, baixista da banda, falando em francês durante uma entrevista em Nova York em julho. “Naquela época nós sentávamos em volta de uma fogueira, cantando músicas e passando o violão. Os Tinariwen nasceram nesse movimento, nessa atmosfera, então você o que se ouve em 'Tassili' é esse sentimento de ishumar.”
Os Tinariwen foram fundados por volta de 1979 pelo cantor e guitarrista Ibrahim ag Alhabib, que nasceu em Mali, mas fugiu do país quando era criança depois que seu pai foi sequestrado e assassinado pelas forças do governo que tentavam derrubar uma rebelião Tuareg. Hoje com 51 anos, Alhabib passou pela Argélia, Nigéria e Líbia, onde se juntou a um exército Tuareg apoiado por Gadaffi; lá sua habilidade para escrever músicas sobre as dificuldades dos Tuareg, viajando de um país para outro mas sem pertencer a nenhum, tornaram-no uma das principais vozes pela resistência e autonomia.
Em 1985, “as músicas dos Tinariwen já estavam circulando pelo Saara em cassetes piratas, copiadas e recopiadas”, disse Andy Morgan, ex-empresário do grupo, que está escrevendo um livro sobre a banda. Durante os quatro anos seguintes, ele acrescentou, “Ibrahim e vários outros que já haviam recebido treinamento de infantaria estavam num campo perto de Trípoli, onde seu trabalho era fazer música” simpática ao Movimento Popular pela Libertação de Azawad, que tinha como objetivo estabelecer uma república Tuareg independente no Saara.


Durante a última década, entretanto, os Tinariwen ganharam fãs entre músicos pop norte-americanos e europeus e públicos que anseiam por autenticidade e paixão tanto na música quanto na atitude. A guitarra não é um instrumento tradicional para os Tuareg: ag Alhabib lembra-se de fazer uma quando era criança depois de ver o instrumento num filme, mas quando ele e outros membros dos Tinariwen conseguiram voltar para Mali nos anos 90, a banca começou a construir ou adquirir todos os instrumentos de uma moderna banda de rock.
“A música deles parece ao mesmo tempo muito familiar, começando com as guitarras e o elemento de chamado e resposta nos vocais, mas também soa exótica aos ouvidos”, disse o guitarrista Nels Cline do Wilco, que contribuiu com uma guitarra estranhamente espiralada no fundo de “Imidiwan Ma Tennam”, a faixa de abertura do novo CD. “Você está ouvindo coisas que de fato agitam, mas também são bem reduzidas à essência. Há um ar de mistério e falta, e isso cria um humor que é palpável, muito inspirador e atraente para todos os tipos de pessoas. É uma música maravilhosa, e não é apenas para guitarristas.”
A música dos Tinariwen às vezes é chamada de “blues do deserto”, e a queda do grupo por escrever músicas em notas menores certamente cria um som que tem uma sensação de blues. Mas os membros da banda preferem falar em “asuf”, um sentimento de sua própria cultura e da língua Tamashek que descreve tanto uma sensação de dor espiritual, ânsia e nostalgia e o vazio do deserto propriamente dito. Isso, eles reconhecem, cria uma certa afinidade com os bluesmen de Mississippi e Chicago.
“Nós não sabíamos dessas pessoas antes porque estávamos em nosso próprio universo”, explicou ag Leche. “Mas quando começamos a ouvir Hendrix, apenas para citar alguém, sentimos algo imediatamente. Foi quase como se eu tivesse conhecido aquela música desde que nasci. Dizem para mim que muitos dos africanos que foram para a América do Norte vieram do Oeste da Árica, da nossa parte do mundo. Então é tudo a mesma conexão. Acho que qualquer pessoa que viveu alguma coisa muito difícil, que sentiu esse asuf, essa dor, essa falta. É isso que faz com que as músicas delas soem parecidas.”
Para o som mais orgânico e acústico que os Tinariwen queriam em “Tassili”, o grupo procurou Ian Brennan, um produtor norte-americano que trabalhou com outros grupos africanos bem como com artistas norte-americanos como Ramblin' Jack Elliott e Peter Case. Centenas de quilos de equipamentos tiveram que ser transportados para um cânion no meio do deserto e funcionaram com um gerador colocado a 140 metros de distância da tenda principal para eliminar o ruído da gravação e “para evitar que qualquer criatura chegasse perto”, disse Brennan.
“Essa música precisa de espaço, ela precisa ser selvagem e livre”, acrescentou. “Meu interesse está em capturar e transmitir emoção, então eu acredito que o cru e real é quase sempre melhor. Eles sentem da mesma maneira, e por isso esta foi a gravação mais ao vivo, menos regravada, centrada na banda e orientada para as canções que eles já fizeram.”
Para os outros norte-americanos que foram convidados a tocar em “Tassili”, fazer o disco no coração do deserto foi tanto uma aventura quanto um desafio. Como produtor, Brennan esteve lá durante todas as três semanas de sessões em novembro passado, e durante oito dias ele foi acompanhado por dois membros da banda de rock independente do Brooklyn TV on the Radio, o guitarrista Kyp Malone e o vocalista Tunde Adebimpe, que conheceu o Tinariwen há alguns anos quando as duas bandas estavam na mesma noite do festival Coachella na Califórnia.
“Há diferenças culturais a considerar, mas foi uma das experiências musicais mais gratificantes que eu já tive”, disse Malone. “Fazer o disco pareceu quase secundário em relação à experiência total das pessoas que chegaram para se reunir e fazer um tributo, trazendo animais para comer e sentando em volta do fogo com amigos da banda que tocavam em volta de mim, cantando músicas argelinas e Tuareg. Senti que foi um privilégio estar lá.”
Mas com uma turnê marcada para este outono para divulgar “Tassili”, logo será novamente o tempo para o Tinariwen – que funciona como um coletivo, com cerca de cinco a nove membros, dependendo de fatores como quem tem rebanho para cuidar ou da mulher de quem está grávida – sair de seu espaço cultural e entrar no nosso. E com isso, a sensação de asuf retornará, alimentando a falta do deserto mesmo enquanto ela move sua música.
“Você pensa diferente quando há paredes ao seu redor”, disse ag Leche. “Num estúdio ou numa cidade você precisa comer num determinado horário e seguir uma agenda. No deserto a liberdade é total. Você faz o que quer quando quer. Quando estamos no palco, você pode nos ver, nós estamos lá. Mas nossas cabeças estão num lugar diferente. Nós estamos em casa.”

Fonte: UOL

1 comentário: