segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Dorothea Lange


Paul S. Taylor. Dorothea Lange in Texas on the Plains, ca. 1935
© The Dorothea Lange Collection, the Oakland Museum of California

Dorothea Lange. Drought Refugees, ca. 1935
© The Dorothea Lange Collection, the Oakland Museum of California

Dorothea Lange. Migrant Mother, Nipomo, California, 1936
© The Dorothea Lange Collection, the Oakland Museum of California

Dorothea Lange. Migratory Cotton Picker, Eloy, Arizona, 1940
© The Dorothea Lange Collection, the Oakland Museum of California

Dorothea Lange. Sacramento, California. College students of Japanese ancestry
who have been evacuated from Sacramento to the Assembly Center, 1942.

Dorothea Lange. Manzanar Relocation Center, Manzanar, California. An evacuee
is shown in the lath house sorting seedlings for transplanting.
These plants are year-old seedlings from the Salinas Experiment Station, 1942

Dorothea Lange. White Angel Breadline, San Francisco, 1933.
© The Dorothea Lange Collection, the Oakland Museum of California

Dorothea Lange. Centerville, California. This evacuee stands by her baggage
as she waitsfor evacuation bus. Evacuees of Japanese ancestry will be housed in
War Relocation Authority centers for the duration, 1942



Fonte: Feature Shoot


Dorothea Lange (May 26, 1895 – October 11, 1965) was an American documentary photographer and photojournalist, best known for her Depression-era work for the Farm Security Administration (FSA). Lange's photographs humanized the consequences of the Great Depression and influenced the development of documentary photography (from Wikipedia).


Dorothea Lange - 39 works online in MoMA

Dorothea Lange - works in the Getty Museum


terça-feira, 9 de outubro de 2018

Por que os donos do dinheiro celebram Bolsonaro no 2º turno

O mercado reagiu com otimismo à ida de Jair Bolsonaro (PSL) ao segundo turno da eleição presidencial. O dólar comercial fechou esta segunda(8) em queda de 2,35%, cotado a R$ 3,766 na venda. E a bolsa brasileira registrou o maior volume financeiro da sua história. Os negócios totalizaram R$ 29 bilhões e fizeram o Ibovespa fechar em alta de 4,57%. Por trás da euforia, a expectativa de que, se eleito, Bolsonaro levará adiante uma pauta anti-povo, que interessa aos financistas.

 

 
Após o resultado do primeiro turno ser divulgado, agentes do mercado avaliaram que, não só o militar da reserva pode comandar o país, como terá força no Congresso para aprovar medidas impopulares que a gestão Michel Temer não conseguiu emplacar. Daí vem a reação positiva à contagem dos votos.

As urnas indicaram uma renovação do Congresso, mas com recuo dos partidos progressistas e de forças tradicionais de centro e direita, paralelamente a uma expansão fragmentada de outros partidos da direita, até então nanicos ou pertencentes ao chamado baixo clero. Elegeram representantes da bancada da bala, ativistas conservadores, integrantes de forças de segurança e religiosos.

“A nova composição do Congresso mostra que ele (Bolsonaro) pode ter uma boa governabilidade e conseguir aprovar algumas reformas com maior facilidade. O mercado tende a ir mais para os candidatos com uma visão menos estatista”, avaliou Fabrizio Velloni, chefe da mesa de operações da Frente Corretora, em entrevista a O Globo.

O interesse nas reformas é compreensível, já que elas garantirão ganhos ao mercado financeiro. Assim como a reforma trabalhista beneficiou empresários que podem contratar seus funcionários sem pagar tantos direitos, a reforma previdenciária, por exemplo, beneficiará banqueiros, responsáveis por gerir os planos de previdência privada e fundos de capitalização.

São também os rentistas os donos de títulos da dívida pública, essa mesma que o discurso corrente acusa de estar crescendo vertiginosamente por causa dos PT, embora os números insistam em negar. Fato é que Bolsonaro quer cortar gastos sociais e vender estatais para pagar parte da dívida pública, ou seja, beneficiando ainda mais esses tais rentistas. Mesmo que isso signifique abrir mão do patrimônio público a preço de banana e inviabilizar serviços públicos como saúde e educação para a população que mais precisa. Mesmo que isso não vá resolver o problema da dívida, pelo contrário.

A experiência mostra que as privatizações foram usadas por Fernando Henrique Cardoso para tentar cobrir a dívida, mas ela se multiplicou durante sua gestão. E diversos analistas apontam que a austeridade fiscal atrapalha o crescimento, além de impor um sofrimento horrível à população.

Mas é daí que vem a simpatia do mercado pelo candidato “menos estatista”. Porque menos Estado pode significar mais lucro para essa minoria. Essa máxima pode ser aplicada, por exemplo, na área de segurança. Uma das propostas de Bolsonaro é afrouxar as leis de porte de armas, para que mais cidadãos possam andar armados, exatamente o contrário do que faz o restante do mundo.

"Não se vai resolver o problema (da segurança) distribuindo armas para a população. Ser presidente da República e dizer que a população se apegue à própria sorte e compre uma arma para se defender, então para que serve o presidente? O Estado não pode transferir para a população a responsabilidade de se defender", disse a então candidata Marina Silva, durante uma entrevista antes das eleições.

Mas há quem celebre a proposta de Bolsonaro, não por razões cívicas, mas econômicas. As ações da fabricante de armas Forja Taurus abriram o pregão em disparada nesta segunda. Os papéis chegaram a subir 12,50%, sendo negociadas 6,30 reais. No ano, as ações acumulam valorização de 186%. É a perspectiva de ampliação do mercado consumidor, afinal. It’s not personal, it’s just business (Não é nada pessoal, são apenas negócios, como em O Poderoso Chefão).

“Isso (a animação do mercado) diz respeito à governabilidade e à viabilidade de implementação de um programa liberal que o mercado sabe que é necessário para o país, um ajuste fiscal contundente, rápido e eficiente”, defendeu o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni, à Jovem Pan.

Segundo ele, os resultados eleitorais mostraram que há maior possibilidade de o plano de Paulo Guedes (assessor econômico de Bolsonaro) ser implementado. A plataforma a que ele se refere é o aprofundamento da agenda neoliberal de Michel Temer, rejeitado por 82% da população. Prova de que o que o mercado comemora muitas vezes não está em sintonia com o que é melhor para o povo.

Por Joana Rozowykwiat
 

sábado, 6 de outubro de 2018

06.10.1976 - Atentado Terrorista de Barbádos




Quando um povo enérgico e viril chora, a injustiça treme!

Foram as palavras de Fidel perante a multidão que chorava a morte dos compatriotas vítimas do atentado terrorista de Barbados.

E o povo respondeu “Pátria ou Morte”, jurando fidelidade à revolução!

A 6 de Outubro é evocado este atentado terrorista contra a revolução porque em Cuba não são esquecidos aqueles que morreram pela soberania nacional.

Nesse dia, 6 de Outubro de 1976, descolou do Aeroporto Nacional de Barbados um DC8 da Cubana de Aviación que se dirigia à Jamaica.






Às 12.23 verificou-se uma explosão a bordo, o avião incendiou-se e caiu no mar.

Não houve sobreviventes: 73 mortos, dos quais 57 eram cubanos, os restantes eram nacionais da Guiana e da Coreia do Norte.

Entre os mortos estava a equipa de esgrima júnior que acabava de vencer o Campeonato Centro-Americano, em Caracas.

O atentado foi levado a cabo por mercenários a soldo de organizações terroristas instaladas em Miami, financiadas pela CIA e cujos autores intelectuais foram, assumidamente, Luís Pousadas Carriles e Orlando Bosch.

O grupo terrorista Coru assumiu a autoria do atentado em comunicado difundido nos meios de comunicação de Miami.

A senha para confirmar o êxito do atentado foi “o autocarro com os cães caiu”, conforme confessou Carriles em entrevista dada ao New York Times, em 02/07/1998.

Apesar dos reiterados pedidos dos governos cubano e venezuelano, e dos protestos da solidariedade cubana em todo o mundo, para os quais a Associação de Amizade Portugal-Cuba teve voz activa, para que fossem extraditados, para estes países, tal foi sempre negado pelas autoridades norte-americanas.

Ambos os criminosos morreram em liberdade, Carriles no corrente ano.

Cuba perdeu 3478 dos seus filhos, vítimas do terrorismo!




domingo, 30 de setembro de 2018

domingo, 23 de setembro de 2018

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

RSI


Conheço um gajo que chumbou na condução antes mesmo de provar quanto valia. Sentado no lugar do condutor, nariz ufano e sorriso enfatuado, meteu logo a caixa na primeira, pôs o boné em marcha atrás, prendeu forte as mãos ao volante, e atirando à direita um olhar de matador, anunciou grave e avisado ao pasmo examinador ao lado: «Agarre-se que esta merda vai voar».

texto e concepção: António Santos | ilustração: Julitos Koba | voz: André Levy | música: Ciças Beats

Fonte: Manifesto74


segunda-feira, 2 de julho de 2018

Neocolonialismo e « crise dos migrantes »

A « crise dos migrantes » diminui actualmente na Europa, mas deverá ampliar-se de maneira dramática nos próximos anos. As gigantescas deslocações da população que se preparam, são a consequência da exploração económica contemporânea da África.

Dos Estados Unidos à Europa, a “crise dos migrantes” suscita polémicas acesas, internas e internacionais, sobre a política a adoptar a respeito das correntes migratórias. No entanto, essas polémicas são representadas de acordo com um estereótipo que altera a realidade: o dos “países ricos” forçados a sofrer a crescente pressão migratória dos “países pobres”.

Esconde-se a causa de fundo: o sistema económico que, no mundo, permite que uma pequena minoria acumule riqueza à custa da crescente maioria, empobrecendo-a e provocando, assim, a emigração forçada.

A respeito dos fluxos migratórios para os Estados Unidos, o caso do México é exemplificador. A sua produção agrícola desabou quando, com o NAFTA (o acordo norte-americano de comercio “livre”), os EUA e o Canadá inundaram o mercado mexicano com produtos agrícolas baratos graças aos seus subsídios estatais. Milhões de agricultores ficaram sem trabalho, avolumando a força de trabalho recrutada nas ‘maquiladoras’ : milhares de plantações industriais ao longo da fronteira no território mexicano, pertencentes ou controladas principalmente por empresas dos EUA, onde os salários são muito baixos e os direitos sindicais inexistentes. Num país onde cerca de metade da população vive na pobreza, a massa daqueles que procuram entrar nos Estados Unidos aumentou. Daí o Muro ao longo da fronteira com o México, iniciado pelo presidente democrata Clinton quando o NAFTA entrouem vigor em 1994, continuado pelo republicano Bush, fortalecido pelo democrata Obama, o mesmo muro que o republicano Trump completaria agora em todos os 3000 km de fronteira.

No que concerne os fluxos migratórios para a Europa, o caso da África é típico. Ela é rica em matérias-primas: ouro, platina, diamantes, urânio, coltan, cobre, petróleo, gás natural, madeira preciosa, cacau, café e muitas outras. Estes recursos, explorados pelo antigo colonialismo europeu com métodos de escravidão, são agora explorados pelo neocolonialismo europeu, fomentando elites africanas no poder, mão-de-obra local de baixo custo e controlo dos mercados internos e internacionais. Mais de cem empresas citadas na Bolsa de Valores de Londres, tanto no Reino Unido como noutros lugares, exploram em 37 países da África Subsaariana, recursos minerais num valor superior a 1 bilião de dólares.

A França controla o sistema monetário de 14 antigas colónias africanas através do Franco CFA (originalmente um acrónimo de “Colónias Francesas de África”, reciclado como “Comunidade Financeira Africana”): para manter a paridade com o euro, os 14 países africanos têm de pagar ao Tesouro Francês, metade das suas reservas cambiais. O Estado líbio, que queria criar uma moeda africana autónoma, foi demolido pela guerra, em 2011. Na Costa do Marfim (região CFA), as empresas francesas controlam a maior parte do marketing de cacau, do qual o país é o maior produtor mundial: os pequenos agricultores têm apenas 5% do valor do produto final, tanto que a maioria deles vive na pobreza. Estes são apenas alguns exemplos da exploração neocolonial do continente.

A África, apresentada como dependente de ajuda externa, fornece um pagamento líquido anual de cerca de 58 biliões de dólares ao exterior. As consequências sociais são devastadoras. Na África Subsaariana, cuja população ultrapassa um bilião de habitantes e 60% da mesma é composta por crianças e jovens de 0 aos 24 anos, cerca de dois terços da população, vive na pobreza e, entre estes, cerca de 40% - isto é 400 milhões – vivem em condições de extrema pobreza.

A “crise dos migrantes” é, na realidade, a crise de um sistema económico e social insustentável.
 
Artigo de Manlio Dinucci
Fonte Foicebook

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Num país onde um fiscal de transportes públicos rodeado de gente pode insultar, espancar, rebentar a cara de uma jovem negra, eu não quero viver

Não há nós enquanto acontecer um milésimo do que aconteceu a Nicol. Não há nosso país. Será um país de merda, aquele que continua a chamar “preta de merda” às Nicol. Seremos todos responsáveis. Estaremos todos naquela roda de gente em volta daquele homem que arrancou Nicol de um autocarro, chamando-lhe “preta de merda”, “vai para a tua terra”.


1. Tu que dizes, eu não sou racista, mas. Tu que achas que Portugal “nem” é racista, mas é um país branco, e essa é a “nossa identidade”. Tu que achas que Portugal não é racista mas vês uma hierarquia: primeiro os “como nós”; depois “os de Leste”, que trabalham bem e aprendem logo português; depois os “chinocas”, empreendedores; depois “monhés”, “árabes”, “muçulmanos”; por último “ciganos e pretos”. Enfim, tu que rapidamente transformas “os pretos” em “pretos de merda”. Sabes onde é a tua terra? É na cadeia.
 
2. Tolerância Zero. Depois do que aconteceu na madrugada de São João no Porto, o que devíamos estar a discutir era uma Tolerância Zero. Ao mínimo sinal, expor, confrontar em massa; mal for o caso, apresentar queixa. Desmontar de tal modo tentações racistas que ninguém mais se sinta autorizado a uma boca, um gesto. Envergonhar especialmente todos os que que lidam com público, seja em serviços públicos ou privados, e diariamente fazem da vida de tantos portugueses um inferno. Tolerância Zero para com o racismo em Portugal: disfarçado, maquilhado, negado, relativizado, temperado, encoberto. Tanto patriota à espera de D. Sebastião quando temos esse verdadeiro Encoberto sempre aqui connosco. Aconteceu no Bolhão, no Porto. Podia ter sido no Cais do Sodré, em Lisboa. Ou numa das estações da periferia mais negra do país, aquela que atravesso de comboio para chegar a Lisboa, e tem dezenas (centenas?) de milhares de portugueses negros. Eu disse portugueses negros. Vamos dizer portugueses negros centenas de milhares de vezes. Vamos dizer centenas de milhares de vezes que há centenas de anos negros fazem parte do que é Portugal. Branco “puro” é que é capaz de ser mais difícil de arranjar assim no ADN, desde que Portugal não se chamava Portugal, e isto estava cheio de árabes e judeus.
 
3. Não há nós enquanto uma Nicol Quinayas puder ser insultada, brutalmente espancada, ficar de cara rebentada. Não há nós enquanto acontecer um milésimo do que lhe aconteceu. Não há nosso país. Será um país de merda, aquele que continua a chamar “preta de merda” às Nicol. Seremos todos responsáveis. Estaremos todos naquela roda de gente em volta daquele homem que arrancou Nicol de um autocarro, chamando-lhe “preta de merda”, “vai para a tua terra”, e lhe torceu o braço, e lhe desfez a cara aos socos, e a deitou no chão com o joelho em cima, e bateu com a cabeça dela no chão. Nicol, 21 anos, um metro e meio de gente, franzina. Com um monte de merda em cima dela. E em volta uma roda de gente. Alguns segundos de vídeo, foi tudo o que vi, o que circula. Alguns segundos que alguém filmou, e onde se vê que aquele homem, com a sua farda de segurança da empresa 2045, fiscal ao serviço da STCP (Sociedade de Transportes Colectivos do Porto), está em cima de Nicol, imobilizada no chão, e em volta há uma roda, e um rapaz de barba tenta debruçar-se e grita: “Gostavas que fosse a tua filha?! Filho da puta!”, e uma mulher indignada grita: “Exactamente!”, mas há alguém que parece conter o rapaz, não se percebe se alguém da “segurança”. Fim. Vazio. Aquilo está a acontecer na madrugada da festa mais linda da segunda cidade do país. E que país será esse? Que país será para uma rapariga de 21 anos, de nacionalidade colombiana, que desde os cinco mora em Portugal, e neste São João ficou com a cara num bolo, sangue pisado, boca deformada, “traumatismo facial”, disse o hospital. Então vieram os agentes da PSP, e o monte de merda parece que estava a fumar um cigarro, e Nicol ainda foi tratada como aquelas mulheres que são violadas, mas quem as mandou sair de mini-saia? Nem uma ambulância a PSP chamou. Tiveram de ser as amigas de Nicol. E Nicol diz que nem a identificaram, só falaram com os “seguranças”. Como, em que país esta rapariga se pode levantar do chão, cheia de sangue, ver aquela roda, e havia gente a chorar, sim, porque a gente tem coração, claro, e Nicol (olhem o tamanho do coração dela) ainda conseguiu pensar que se ninguém impediu o homem de a espancar terá sido por medo, por ele estar fardado. Nicol teve de chamar a ambulância. Nicol teve de ir a uma esquadra apresentar queixa. Só três dias depois da agressão a PSP abriu um auto.
 
4. Medo misturado com não te metas, confusão, perplexidade? Não sei, não estava lá, não achei mais vídeos. Gostava mesmo de saber. É um horror que aquele homem tenha uma farda, tenha aquele poder. Também é um horror que isto se passe no centro da segunda cidade do país no meio de uma roda de gente. Como? Porquê? Alguém segurou as pessoas indignadas, as impediu de intervir? Um país não devia parar quando não se percebe como uma rapariga pode ser agredida, e depois ignorada por fardas ao serviço do colectivo, perante uma roda de gente? De onde vem isto? Os “pretos de merda”, os “vai para a tua terra”, e em volta o medo, ou pelo menos a inércia? E depois o descaso da polícia no local?
 
5. São perguntas retóricas. Isto tem raízes na História, uma longa história mal digerida, de um longo império mal digerido, de um país que não se consegue ver ao espelho, um país que vive na bipolaridade do maior dos pequeninos. E perpetua-se no facto de Portugal não se ensinar a si mesmo por inteiro na escola. Falta a escala de como o grande Portugal dos Pequeninos extinguiu, capturou, deslocou, transferiu, escravizou milhões pelo mundo. Estou tão farta da conversa de que Portugal “nem” é racista. Tão farta da infantilidade, do ufanismo, das distorções, das desculpas, que os ingleses é que eram mesmo maus, ou então os espanhóis, e já os africanos escravizavam, e então os romanos. Farta de a História valer a pena quando é para sermos os bons, mas não valer quando é para sermos os maus. Farta da sem-noção, ou talvez não, com que se desdenham milhões de mortes violentas, descendentes pelo globo, toda uma parte dos portugueses, todos os portugueses negros, incluindo os que legalmente não podem ser portugueses porque a lei continua errada. E continuam os debates sobre os museus dos descobrimentos e outros brinquedos, colónias de férias da nação, ATL. Portugal não cresce, é um caso psicanalítico. Um Peter Pan da Finisterra Europa. Os barões e os padrões sempre assinalados, contra os não-patriotas, marchar, marchar.
 
6. Era preciso massacrar a 2045, e a PSP, e a STCP, e a Câmara do Porto, e o Governo e quem quer que relativize o que aconteceu na madrugada de São João. Tolerância não é para racistas, xenófobos, homófobos, sexistas. Qualquer pessoa que humilhe ou agrida alguém por ser preto, mulher, gay ou transgénero merece Tolerância Zero. Nem todas as opiniões têm direito a ser declaradas em público, não. Opiniões racistas, homofóbicas, xenófobas são crime. Se a sua opinião declarada publicamente é que preto é merda e deve ir para a sua terra, o seu lugar é na cadeia. Ninguém pode ser insultado como merda por ser da cor que é, ou ter o género que tem, ou transitar entre géneros. Mas quem chama a alguém merda por ser preto ou mulher ou gay transforma-se a si mesmo num monte de merda. Tolerância Zero passa por todos cuidarmos que não vai sair mais ódio de uma boca, de um punho. Que mais nenhuma Nicol se levantará sozinha, cheia de sangue, depois de um criminoso ter actuado na frente de toda a gente. E cada criança deste país saber que não há país, não há nós, não há nada, enquanto alguém continuar a ser agredido por ser quem é.
 
Artigo de Alexandra Lucas Coelho, Sapo24

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O sonho americano não rebentou esta semana

Os EUA secaram a vida a sul da fronteira. Plantaram golpes, patrocinaram ditaduras, gastaram os pobres, mantendo-os pobres. O lado de baixo da fronteira foi o bordel, o bar, a droga, o trabalho escravo. Em baixo o pesadelo, em cima o sonho. Um paga o outro, e não é de agora.
 
1. A voz das crianças enjauladas corta a direito qualquer humano. São crianças de quatro, cinco, seis anos a soluçarem “mami”, “papá” dentro de uma gaiola, na fronteira dos Estados Unidos da América. Não há filtro, ideologia ou cartilha, a empatia ocupa tudo: choro, choramos com elas, no terror do que o humano é capaz. Somos milhões a chorar, incluindo pivots de TV, Laura Bush, talvez mesmo Ivanka Trump. Então, como até a filha pede, Trump muda alguma coisa para tudo ficar entre antes e agora, sabe-se lá até quando, sabe-se lá como. Mas não foi esta semana que o sonho americano rebentou. Não é agora que a América está a rejeitar os seus valores. Não é o one-man-show-Trump que detona o império americano de repente.
 
2. Há oito anos, por esta altura, pleno Mundial de Futebol, eu estava no México. E tanto no extremo sul como no extremo norte do México vi o pesadelo que fica por baixo do sonho americano. No extremo sul, vi-o em Ixtipec, de onde partem comboios para a Norte, e onde portanto se amontoam homens, mulheres e crianças sem livre-trânsito oficial, fugidos de toda a América Central, de El Salvador, das Honduras, da Guatemala, países no topo das maiores violências do mundo, onde os EUA enfiaram uma ou várias mãos. E no extremo norte do México — onde já só chegam os centro-americanos que pelo caminho não foram violados, escravizados, mortos por gangues — vi esse pesadelo em Ciudad Juárez, cidade mesmo na fronteira, literalmente a alguns passos de El Paso, EUA. Juárez é uma cobaia do capitalismo global, um lugar onde as empresas dos EUA (sobretudo, mas também europeias, japonesas, chinesas) foram abrindo fábricas para montar muitas das coisas que o mundo usa, mesmo o mundo pobre, como telemóveis e televisões. Se é possível ter um vislumbre do que será um mundo de fantasmas, desempregados, quase-escravos, Juárez era esse lugar. Operários que só tomando drogas aguentavam dois turnos em fábricas onde recebiam 36 euros por semana. Era esse o salário de Eva, que trabalhava para uma empresa californiana a montar televisores, exposta a envenamento por chumbo, violências e violações em série para trás. Nestas fábricas (as “maquilas”) não há sindicatos. São as fábricas que resultaram dos acordos de facilidades aduaneiras. Juárez viveu primeiro do turismo gringo (desde álcool na lei seca a sexo barato), depois das fábricas gringas, e finalmente da droga para os gringos. Por toda a parte havia “passaderos” e “picaderos”. “Aqui, onde ponhas o dedo, sai sangue”, disse-me o meu anfitrião, fotógrafo bravíssimo, Julián Cardona. O pequeno comércio estava refém dos gangues. Crianças de sete anos já trabalhavam para os gangues. Pais atrás do sonho americano, mexicanos ou centro-americanos, entregavam a vida a “coiotes”, passadores de gente no deserto, para lá morrerem todos os dias. E, nesse ano de 2010, o recorde mundial de homicídios era mesmo ali, todos os dias apareciam cabeças.
 
3. Há 22 anos atravessei os Estados Unidos da América em diagonal, de Leste para Oeste, em Greyhound Buses. E nesses autocarros, onde só viajavam os sem-tecto, sem-carro, sem cartão-de-crédito, nessas paragens, nesses desvios, nessa jornada ao lado, em volta, por baixo do sonho americano, lá estava o pesadelo. Os lugares onde o resto do planeta não era real, e a Terra talvez fosse plana, e muita gente tinha alguma arma, e muita gente tinha raiva. Gente arrastando sacos de lixo com tudo o que tinha. Gente morando em carros com tudo o que tinha. Gente morando no assento de mais um Greyhound. Gente pregando com e sem bíblias. Gente obesa, esquelética, delirante, humilhada. Nova Iorque era tão longe quanto Marte. Muitas semanas depois, em Nova Iorque, o sonho americano estava tão longe de muitos quanto Marte. O sonho americano existia, tinha parques, museus, bibliotecas esplêndidas, cultura e contra-cultura, guerras pelos direitos civis. E ao lado, em volta, sobretudo por baixo ficava o pesadelo. Aquilo a que os competidores chamam oportunidade. Enquanto isso, os EUA continuavam a secar a vida a sul da fronteira. Um histórico de plantar golpes, patrocinar ditaduras, gastar os pobres, mantendo-os pobres. O lado de baixo da fronteira foi o bordel, o bar, a droga, o trabalho escravo. Em baixo o pesadelo, em cima o sonho. Um servindo o outro.
 
4. Trump não é uma erupção do nada. A grande sanduíche de sonho e pesadelo gerou Trump, e gerou os eleitores que puseram Trump na Casa Branca. No seu perpétuo balanço entre quem paga e quem lucra, quem corre e quem fica para trás, a América pendeu mais do que nunca para a escória e gerou Trump. Trump é a escória do lucro sendo a escória do lucro: ignorante, vaidosa, megalómana, surda. Um dia havia de chegar ao poder para o mundo ver o fundo da América, um dos seus próprios fundos. Crianças, bebés em jaulas, são o fundo do humano. Esse horror precisa de todo o combate, toda a acção. Muita indignação junta faz tremer, e se o planeta não se tivesse indignado era porque estávamos todos mortos. Mas o combate passa por ver, também, que não é aqui que o império americano cai, ao contrário do que críticos de Trump como Paul Krugman disseram esta semana. Porque o pesadelo americano não surgiu com Trump, nem o sonho voltará a brilhar quando Trump partir. Trump é consequência antes de ser causa, uma consequência distópica, um alerta para que a América, e o mundo, olhem para dentro, para trás. Este horror na fronteira tem história, tem raízes, os Estados Unidos da América são tanto um farol dos direitos humanos como a sua escuridão. Nos EUA, tortura é assunto de estado. Fazer guerras, destruir terras, é mato. Milhões vivem pior em muitos lugares do mundo porque os EUA lá meteram o bedelho, ou porque sustentam a violência (pensem em Gaza). Milhões vivem mal no sonho americano: pagam-no. O horror é o horror é o horror, e normalmente tem uma longa cauda.
 
Texto de Alexandra Lucas Coelho

terça-feira, 19 de junho de 2018

Estados Unidos da América, Século XXI


Estados Unidos da América, 12 de junho de 2018.
Criança Hondurenha de 2 anos chora enquanto a mãe é revistada e detida pela polícia na fronteira do Texas com o México. Fotografia John Moore / Getty Images

quinta-feira, 24 de maio de 2018

«Golpe de Mestre»: o roteiro oficial da guerra contra a Venezuela

Os EUA estão a atacar a Venezuela cumprindo um plano «top secret» elaborado pelo SouthCom do Pentágono, que só será dado como concluído «quando a ditadura corrupta de Nicolás Maduro tiver sido derrotada».



Elaborado para ser aplicado em várias fases, o «Plano para Derrubar a Ditadura Venezuelana – Golpe de Mestre», assim foi baptizado o documento assinado pelo almirante Kurt Walter Tidd, comandante do SouthCom (Comando Sul), prevê uma agressão militar multinacional integrando tropas de combate norte-americanas e de países da região, incluindo o Brasil, sob comando directo do Pentágono. Como se percebe pela leitura integral do texto, esta guerra será um primeiro passo para o «renascimento da democracia» à «escala continental».

Elaborado no início deste ano, embora só recentemente tenha escapado às malhas do secretismo do aparelho de expansão imperial, o plano manteve-se, até agora, nas fases de desestabilização social e política, prevendo a hipótese de o «chavismo», como se escreve amiúde no documento, cair antes das eleições presidenciais de domingo último – nas quais Nicolás Maduro foi reeleito com mais de dois terços dos votos expressos, numa consulta onde a legitimidade e a transparência não foram postas em causa.

Depois desta manifestação democrática e esmagadora da vontade autêntica do povo venezuelano, parece ser hora da passagem a nova fase do «Golpe de Mestre».

«Chegou o momento de os Estados Unidos mostrarem que estão implicados neste processo, no qual a queda da ditadura venezuelana marcará uma viragem à escala continental», adverte o almirante Kurt W. Tidd. Trata-se de agir «em defesa da democracia», e não apenas na Venezuela, onde se assiste «a uma acção criminosa sem precedentes na América Latina»; será um passo «para que a democracia se propague na América, um continente onde o populismo radical está destinado a perder o controlo». Este «renascimento democrático», lê-se no documento, «baseia-se em escolhas corajosas» para as quais «as condições regionais são favoráveis».


A guerra assim traçada contra a Venezuela, e para a qual o Pentágono mobilizou o Brasil, a Argentina, a Colômbia, o Panamá e a Guiana como agressores directos, «é a primeira ocasião para a Administração Trump pôr em andamento a sua visão de democracia e segurança, demonstrando como é crucial para o continente e o mundo inteiro», escreveu o comandante do SouthCom. «Chegou o momento de agir», insiste.

O já veterano, mas avulso, processo norte-americano de conspiração contra a Venezuela soberana – marcado por golpes, tentativas de golpe e sucessivos episódios terroristas intimidando a população do país – foi actualizado em 23 de Fevereiro deste ano sob a forma de plano estratégico, na altura em que Washington obrigou a oposição de extrema-direita, que patrocina, a rejeitar o «acordo de convivência» nacional no qual a mediação do ex-primeiro-ministro espanhol Rodríguez Zapatero fora bem-sucedida. Quando a assinatura estava prestes a acontecer, nesse mês de Fevereiro, o então secretário de Estado de Trump, Rex Tillerson, telefonou ao chefe da delegação Movimento de Unidade Democrática (MUD – de inspiração fascista), Júlio Borges, proibindo-o de assinar o documento.

A ordem assim emanada equivaleu a uma desautorização, a uma secundarização dos dirigentes arruaceiros patrocinados pelos Estados Unidos, forçados agora a uma ausência eleitoral que se virou novamente contra os próprios devido ao desacreditado e desastrado boicote das eleições presidenciais de domingo.

Uma situação agravada com o seu apagamento operacional do plano conspirativo, de cuja aplicação os Estados Unidos assumem agora plenamente as rédeas. «O governo corrupto de Maduro ruirá, mas infelizmente as forças de oposição que defendem a democracia e o nível de vida da população não têm a capacidade necessária para pôr fim ao pesadelo venezuelano», testemunhou o almirante Kurt W. Tidd. Esses sectores são vítimas de «disputas internas», acrescenta, e de «uma corrupção semelhante à dos rivais, partilhando a mesma falta de raízes», o que «não lhes permite tirar o melhor partido da situação e tomar as decisões necessárias para ultrapassar o estado de penúria e de precariedade no qual o grupo de pressão que exerce a ditadura de esquerda mergulhou o país».

Muitas das medidas incluídas no plano de guerra norte-americano contra a Venezuela são já nossas conhecidas do dia-a-dia dos últimos 20 anos. Porém, é fundamental revivê-las à luz da redacção nua e crua que o almirante Tidd lhes deu, escudado na eficácia do «top secret», para que todos entendamos como a informação internacional dominante obedece às ordens dos donos – com especial meticulosidade neste caso venezuelano.

Para alcançar «a erradicação definitiva do chavismo e a expulsão do seu representante», o comandante do SouthCom do Pentágono recomenda que se «intensifique a insatisfação popular, favorecendo mais instabilidade e penúria, de modo a tornar irreversível o descrédito do ditador». Nesse sentido, aconselha a «atacar repetidamente o presidente Maduro, ridicularizá-lo e apresentá-lo como um exemplo de incompetência, um fantoche às ordens de Cuba».

Trata-se ainda, acrescenta este modelar roteiro de agressão imperial, «de aumentar a instabilidade até níveis críticos, intensificando a descapitalização do país, a fuga de capitais estrangeiros e a deriva da moeda nacional através da aplicação de novas medidas inflacionistas».

Recorrendo a um estratagema sempre muito eficaz em relação aos objectivos pretendidos, o almirante recomenda ainda que «se ligue o governo ao narcotráfico, de modo a degradar a sua imagem aos níveis interno e externo».Percorrendo abertamente a estrada da sabotagem e do terrorismo, o almirante Kurt W. Tidd recomenda «fazer obstrução a todas as importações e desmotivar, ao mesmo tempo, os eventuais investidores estrangeiros», de modo a «tornar mais crítica a situação da população»; «apelar aos aliados internos e a outras pessoas bem inseridas no panorama nacional para que promovam manifestações, distúrbios e insegurança, pilhagens, roubos e atentados, sequestros de barcos e de outros meios de transporte para perturbar a segurança nacional nos países limítrofes»; e também «fazer vítimas», responsabilizando por isso o governo, assim «aumentando a dimensão da crise humanitária aos olhos do mundo inteiro».

Estende-se por 11 páginas, este «Golpe de Mestre», exemplo acabado de um roteiro de terrorismo de Estado e de estados que culmina com o planeamento de uma guerra regional e internacional contra um país independente, democrático e soberano com mais de 35 milhões de habitantes, por sinal o maior produtor mundial de petróleo; uma realidade frequentemente escamoteada para esconder a incontida gula internacional, diluída pelos efeitos da manipulação ostensiva dos conceitos de ditadura e democracia.

O essencial do golpe montado com a assinatura do comandante do SouthCom do Pentágono é «fazer a unidade do Brasil, da Argentina, da Colômbia e do Panamá, de modo a contribuírem para o reforço de tropas, usarem a proximidade geográfica e a sua experiência de operações em regiões arborizadas e de selva». Essa «frente internacional contará também com a presença de unidades de combate dos Estados Unidos e das nações mencionadas», ficando «o todo sob o Comando Geral do Estado Maior Conjunto, dirigido pelos Estados Unidos».

Prevê-se também «o estacionamento de aviões de combate, helicópteros, veículos blindados, a instalação de postos de espionagem e unidades militares especiais de logística (polícias, quadros operacionais e prisões)».

O almirante Kurt W. Tidd especifica que «devem utilizar-se as facilidades do território do Panamá como retaguarda»; «as capacidades da Argentina para garantir a segurança dos portos e posições marítimas»; a experiência do Brasil e da Guiana em termos de serviços e controlo de migrações para «coordenar o apoio à Colômbia, ao Brasil, Aruba, Curaçao, Trindade e Tobago e outros estados perante o afluxo de migrantes venezuelanos provocado pelo avanço da crise».

Considera-se importante «favorecer a participação internacional neste esforço, como parte da operação multilateral, através da contribuição de estados, ONG e corpos internacionais», sobretudo em matéria de logística, informações e capacidade de antecipar situações.

Depois de apelos à revolta no interior das Forças Armadas venezuelanas e de incentivos ao «envolvimento das forças aliadas no apoio» aos eventuais sediciosos, o «Golpe de Mestre» passa ao «nó da questão» para garantir o triunfo na guerra: «obter o apoio e cooperação das autoridades aliadas de países amigos (Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá e Guiana); organizar o acantonamento de tropas, apoio logístico e médico a partir do Panamá; fazer uso adequado de tudo o que permita a vigilância electrónica e os sinais inteligentes, meios hospitalares e os fundos enviados para Darién (na selva do Panamá); tirar partido do equipamento do Plano Colômbia em drones, bem como dos territórios das antigas bases militares de Howard e Albrook, e do aeroporto de Rio Hato (Panamá); e também do Centro Regional Humanitário da ONU, concebido para situações de catástrofe e emergência humanitária, que integra uma pista de aterragem e as próprias instalações de apoio.»

O almirante Tidd realça a importância do recurso aos grupos paramilitares, vulgo «esquadrões da morte», sugerindo o reforço do recrutamento sobretudo em campos de refugiados como os de Cúcuta, La Guajira (Colômbia), tirando inclusivamente proveito, para tornar mais eficaz o seu desempenho, do «espaço vital» deixado pelas FARC na sequência do processo colombiano de paz. Um dos objectivos desta frente será o de «alimentar continuamente a tensão na fronteira (entre a Colômbia e a Venezuela), fomentar o tráfico de combustíveis e outros bens, as incursões dos paramilitares e o tráfico de droga para provocar incidentes armados com as forças de segurança fronteiriças».

Em suma, recomenda o comandante do SouthCom, é importante fazer o que for necessário para «tornar insustentável o governo Maduro, obrigá-lo a negociar, a hesitar, a fugir».

O plano de guerra contra a Venezuela aborda ainda o capítulo da propaganda, onde não acrescenta muito ao que tem sido a prática generalizada na comunicação social ao serviço da mundialização anglo-saxónica.

Isso passa, recorda, por «intensificar o descontentamento contra o regime de Maduro», designadamente «assinalando o fracasso dos mecanismos de integração montados pelo regime de Cuba, entre eles a ALBA e a Petrocaribe».O almirante Tidd sublinha, por exemplo, que os conteúdos «informativos» devem obedecer ao princípio essencial de «abafar a simbologia chavista baseada na sua representatividade e no apoio popular», invertendo-a de modo a apresentar «os ditadores como únicos responsáveis pela crise em que a nação mergulhou».

O recurso a «mensagens fabricadas» com base em supostos testemunhos e documentos oriundos do interior do país, a difundir pelos media nacionais e internacionais e pelas redes sociais é outro dos caminhos recomendados. A finalidade: «veicular por todos os meios a necessidade de pôr fim à situação, porque esta se tornou essencialmente insustentável.»

A panóplia de instrumentos de mistificação inclui «assegurar ou montar o uso de meios violentos por parte da ditadura para obter o apoio internacional», utilizando «todas as capacidades de guerra psicológica do exército dos Estados Unidos».

Ao longo do documento são várias as alusões às Nações Unidas, seus órgãos, instalações e meios, integrados como partes activas neste processo de guerra ilegal. Sobre a invocação abusiva – ou não – da disponibilidade e participação da ONU na agressão organizada contra a Venezuela, feita pelo SouthCom do Pentágono, seria interessante conhecer a posição do secretário-geral da organização.

De registar, por outro lado, que nenhum dos países citados como fazendo parte da coligação militar anti-venezuelana – designadamente Brasil, Argentina, Colômbia, Panamá, Guiana – tem qualquer contencioso com a Venezuela por resolver, muito menos que justifique uma opção extrema de guerra.

No entanto, embora conste que falta ainda a assinatura de Donald Trump para desencadear a fase declaradamente bélica, as operações militares já começaram. Têm decorrido exercícios de guerra na fronteira entre o Brasil e a Venezuela com o envolvimento de tropas norte-americanas, brasileiras, peruanas e colombianas; e nas águas do Atlântico Sul, com a participação de forças navais dos Estados Unidos, Chile, Reino Unido e Argentina. Operações das quais emerge, por exemplo, a coligação absurda entre forças argentinas e britânicas, tecnicamente inimigas por causa do contencioso sobre as Maldivas/Falkland, agora juntas contra a soberana e pacífica Venezuela.

Este cenário reflecte, de facto, o objectivo norte-americano de fomentar uma guerra continental contra o regime democrático venezuelano. O almirante Kurt W. Tidd sublinha que será necessário «colocar a operação militar sob bandeira internacional, com o aval da Conferência dos Exércitos latino-americanos, sob a protecção da Organização dos Estados Americanos (OEA) e a supervisão, no contexto legal e mediático, do respectivo secretário-geral, Luis Almagro».

Atingindo o zénite do cinismo terrorista, o comandante do SouthCom recomenda a conveniência de «declarar a necessidade de reforçar a acção do Comando Continental, servindo-se dos instrumentos da democracia interamericana com o objectivo de evitar a ruptura democrática».

Há um aspecto em que este prospecto criminoso, ofensivo das mais elementares normas de convívio universal, dos direitos humanos e dos princípios democráticos, tem uma utilidade indesmentível: vamos assistindo a sucessivas guerras de agressão e aos efeitos das mais apuradas mistificações com que nos são relatadas e comentadas; a partir de agora, porém, sabemos como se criam estes episódios sangrentos, através dos quais se vai formatando o mundo «na era da globalização».

Devemos agradecer ao almirante Kurt W. Tidd a sua franqueza, ainda que involuntária, valendo-nos também a clareza luminosa de mais um leak entre os vários que, de tempos-a-tempos, nos permitem transformar fundamentadas suspeitas no conhecimento de inegáveis realidades.

Sabemos agora um pouco mais sobre os «golpes de mestre» que inspiram os comportamentos dos mais poderosos entre aqueles que garantem governar-nos em nome da democracia e, frequentemente, «com a bênção de Deus».

POR JOSÉ GOULÃO, in AbrilAbril

terça-feira, 15 de maio de 2018

Fadi Abu Salah (1989 - 2018)


Fadi Abu Salah tinha 29 anos. Primeiro eles roubaram-lhe a terra, depois tiraram-lhe as pernas em 2008, ontem tiraram-lhe a vida...

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