segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Edward Snowden: “O programa de drones cria mais terroristas do que os que mata”

 
Reflexões de um homem que conhece por dentro o sistema de espionagem e de devassa da vida privada não apenas dos cidadãos dos EUA mas dos de qualquer parte do mundo que utilize um sistema de comunicação digital ou analógico. E que teve acesso a documentação não apenas de um infindável rol de crimes de terrorismo de Estado, e da hipócrita linguagem com que tais crimes são descritos.
 
No quarto de um hotel em Moscovo, sob medidas de segurança, Snowden, de 32 anos, passa os seus dias e as suas noites ligado à Internet, proferindo conferencias para estudantes universitários dos EUA ou, na realidade, de qualquer parte do mundo. Ao contrário da ideia de que o exiliado político costuma ser um individuo privado de algumas liberdades, sem ligações possíveis com o seu país de origem, Snowden está a demonstrar que essa estratégia contra os dissidentes políticos começa a falhar. O seu novo propósito é “ajudar os activistas e dissidentes que têm algo que dizer, algo que contribuir para as suas sociedades”, por isso assegura que não importa onde se encontre porque de todas as formas a sua voz será ouvida. Desde que em 29 de Setembro de 2015 enviou o seu primeiro tweet com a mensagem “Can you hear me now?” (“¿Podes ouvir-me agora?”) Edward Snowden alcançou em pouco tempo 1,5 milhões de seguidores. Entretanto ele apenas segue uma conta, a que corresponde à NSA.
 
Este homem, que decidiu abandonar o seu cómodo - embora ilegítimo - trabalho como analista para Booz Allen Hamilton (subcontratado da NSA) para pôr em xeque o regime de Obama com a revelação de informação sobre a espionagem aos cidadãos, está convencido de que os dissidentes como ele são uma força extraordinariamente poderosa que começa a ameaçar os governos. Nem sequer a NSA sabe quantos documentos levou consigo. As estimativas afirmam que Edward Snowden teve acesso total a 1,7 milhões de documentos e que entregou entre 50.000 e 200.000 documentos aos jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, a realizadora do documentário ‘Citizenfour’, sobre a prática de intervenções electrónicas ilegais da Agencia de Segurança Nacional, a perseguição do regime dos EUA a Snowden e a fuga deste. Durante a entrevista à repórter Lena Sundström Snowden não parou de falar sobre a (falta de) ética e a (falta de) moral do jornalismo dos EUA, a política externa contra o terrorismo, a Internet e as redes sociais, e em especial sobre a linguagem dos militares, a continuidade das prisões secretas e os assassínios em massa de civis inocentes em zonas de conflito. Se alguém crê ser capaz de avaliar as tendências totalitárias ou o estado de direito num país baseando-se no nível dos automóveis, restaurantes ou a última colecção de primavera de Stella McCartney engana-se a si mesmo. A pobreza é visível. A falta de democracia não.
 
Centros de tortura
“O facto de estarmos a pedir a países como a Suécia que permitam voos nos quais se trasladam ilegalmente supostos terroristas, ou que outros países como Roménia e Polonia possam alojar prisões secretas, tal como na Tailândia, onde tinham centros de tortura, faz com que estes países comecem a pensar que estarão de acordo com isso (…) porque se os EUA o fazem, deve estar certo.
 
 
A guerra contra o terrorismo
O regime “legitima-se pela ameaça do terrorismo, dizendo que salvará vidas e que qualquer pessoa que se lhe oponha corre o risco de manchar as mãos de sangue”, supostamente porque se não matas os terroristas eles te matam a ti ou a soldados da tua pátria. “O programa de aviões não tripulados cria mais terroristas do que os que mata. Não existia o Estado Islâmico até começarmos a bombardeá-los. A maior ameaça que enfrentamos na região nasce das nossas próprias políticas”. “Durante o governo de Bush, as pessoas foram sequestradas em todo o mundo e arrojadas nas prisões secretas, onde foram torturadas. Durante o governo de Obama os sequestros, as prisões secretas e as torturas foram substituídas por listas de morte e execuções extrajudiciais de pessoas, levadas a cabo por aviões não tripulados conhecidos como drones”. “Os documentos mostram que nove em cada 10 pessoas assassinadas por drones não eram os objectivos previstos, mas civis que são depois classificados como inimigos mortos em acção, o que tem melhor aspecto estatisticamente”. Também mostram quem decide sobre um objectivo. Como Secretária de Estado, Hillary Clinton foi uma dessas pessoas. Os documentos demonstram igualmente algo de que Edward Snowden falou anteriormente. “A maioria dos ataques com drones não é dirigida contra indivíduos mas contra telefones móveis. E quem dirige el ataque não tem qualquer ideia se a pessoa que transporta o telefone móvel é o objecto da perseguição ou é a sua mãe que ocasionalmente pegou nele. É por isso que há tantos erros nos ataques com drones, e tantas festas de casamento atacadas. A informação que utilizam é perigosa e pouco fiável. Quando vi estes documentos, não tive qualquer dúvida de que esta é história geopolítica mais importante do ano”, diz. “A maior ameaça que enfrentamos na região nasce das nossas próprias políticas”.
 
Serviço de inteligência
“A informação que usam é perigosa e pouco fiável”.
“Não há confirmação mais forte de que o Governo participa em actos ilícitos que os documentos governamentais que detalham as suas próprias malfeitorias”. “Depois do 11 de Setembro de 2001 mais de 1.200 organizações governamentais e quase 2.000 empresas privadas se viram subitamente a trabalhar no controlo do terrorismo. Quase cinco milhões de estado-unidenses tinham algum tipo de autorização de segurança, e cerca de 1,4 milhões tinham acesso a material altamente secreto. Como alguém o descreveu: ‘As autorizações de segurança foram entregues como Kleenex’”. Todas competem entre si, todas querem descobrir e matar mais “terroristas”, e assim mantêm ou aumentam o seu orçamento para o ano seguinte.
 
Linguagem de guerra
“Em linguagem militar tudo é um acrónimo, tudo é um eufemismo. Não se diz assassínios, diz-se neutralizações. Não se diz ‘matar’, mas ‘operação de captura’, embora ninguém vá ser capturado. Eles têm sua própria cultura”.
“Quando utilizam a palavra ’segurança’ não estão a falar disso mas de estabilidade. Tal como quando eles dizem que estão salvando vidas quando bombardeiam pessoas”.
“Os estudos sobre a tortura da CIA demostraram que nunca houve informação de inteligência significativa sobre o tema, apesar de terem torturado muita gente durante muitos anos. O costo disso não inclui apenas a logística das prisões secretas mas também o dinheiro - estamos a falar de milhares de milhões de dinheiro dos contribuintes - que foi gasto para torturar as pessoas.”
 
Sobre o jornalismo
“É decepcionante que a grande imprensa nacional, jornais como o ‘Washington Post’, ‘The New York Times’, evitem informar sobre histórias como esta, por razões de concorrência, inclusivamente quando há interesse público em fazê-lo”.
“Não é suficiente que se possa escrever qualquer coisa. Os jornalistas devem sentir ao menos a obrigação que corresponde à realização de um serviço público. Ajudar as pessoas a entender aquilo que necessitam saber, tanto como o que querem saber”.
Mas dado que as revelações de Snowden mostraram que nem sequer os jornalistas mais próximos do regime se salvavam da espionagem da sua vida privada, as coisas mudaram.
“Hoje em dia muitos jornalistas de investigação nas democracias ocidentais trabalham com notas escritas à mão, passeios ao ar livre, correspondência com código encriptado e telefones celulares colocados em microondas quando se trata de material sensível”.
 
 
Política
Obama disse que a publicação das revelações de Snowden “prejudicou os EUA e as nossas capacidades de inteligência, havia uma forma de acompanhar estas conversas sem causar tal dano.” A candidata presidencial Hillary Clinton opinou o mesmo, agregando que os EUA têm uma tradição de protecção aos que alertam (whistleblowers). “A tradição estado-unidense com respeito aos que alertam é enterrá-los”, diz Edward Snowden. A imprensa tão-pouco esteve nisso de acordo com Hillary Clinton. Escreveram que estava completamente equivocada tanto legal como histórica e retoricamente, uma vez que é óbvio que não é assim que tem sucedido. Gente que alertou, como Edward Snowden, Daniel Ellsberg e Chelsea Manning - que proporcionou documentos secretos a WikiLeaks - podem dar testemunho disso. Mas há muitos mais. Desde 2007 o FBI vem provocando a queda em desgraça, o suicídio ou a fuga de altos responsáveis da NSA.
 
Terminologia militar
“Na linguajem militar tudo se converte em siglas, tudo se reescreve para que soe melhor. Não se diz execuções, diz-se homicídios selectivos. Diz-se que alguém deve ser “dado como baixa / capturado” mesmo que se saiba que um drone não vai capturar ninguém. É uma cultura. Há uma grande quantidade de abstracção nisso. Não querem pensar no facto de que na realidade estão a matar pessoas, que essas pessoas podem ter família. Querem pensar neles como coisas, objectivos, como peças de um quebra-cabeças. Da mesma forma, não querem pensar que estão a entrar no coração da infra-estrutura mais importante para a comunicação no mundo - Google. Que, literalmente, te permite entrar na vida privada de cada um. Querem pensar nisso como parte de uma infra-estrutura que pode ser uma valiosa fonte de informação de inteligência.”
 
Artigo de Lena Sundström, via ODiario.info 
 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Cuba despede-se de Fidel (3)

População aguarda na estrada nos arredores de Jatibonico (Fotografia Agência Efe)
 
Moradores acompanham cortejo com cinzas de Fidel em Ciego de Ávila (Fotografia Agência Efe)

Multidão em Ciego de Avila acompanha cortejo fúnebre de Fidel (Fotografia Agência Efe)

População acompanha passagem do cortejo por Jatibonico (Fotografia Agência Efe)

Cuba despede-se de Fidel (2)

 
Fotografia de Kaloian (OnCuba)

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Discurso de Fidel Castro na ONU em 1979




"Basta ya de la ilusión de que los problemas del mundo se pueden resolver con armas nucleares. 
Las bombas podrán matar a los hambrientos, a los enfermos, a los ignorantes, pero no pueden matar el hambre, las enfermedades, la ignorancia. 
No pueden tampoco matar la justa rebeldía de los pueblos. Y, en el holocausto, morirán también los ricos, que son los que más tienen que perder en este mundo."

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Leonard Cohen (1934 - 2016)



                                                        Bird on the Wire, Leonard Cohen (1934 - 2016)

Like a bird on the wire,
Like a drunk in some old midnight choir
I have tried in my way to be free.

Like a worm on a hook,
Like a monk bending over the book
It was the shape, the shape of our love twisted me

If I, if I have been unkind,
I hope that you can just let it all go right on by
If I, if I have been untrue
It's just that I thought a lover had to be some kind of liar too

If I, if I have been unkind,
I hope that you can just let it all go right on by
If I, if I have been untrue
I hope that you know by now it was never to you

Like a little baby stillborn
Like a beast with his horn
I have torn everyone who reached out for me

But I swear, I swear by this song
I swear by all that I have done wrong
I will make it all up to thee

I saw a beggar he was leaning on his wooden crutch,
he said to me, "You must not ask for so much."
And a pretty woman leaning in her darkened door,
She cried to me, "Hey, why not ask a little bit more?"

Oh like a bird on the wire,
like a drunk in some old midnight choir
I have tried in my way to be free

Leonard Cohen - Bird on the Wire (1979)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

"Todo Guantánamo es nuestro"



El documental “Todo Guantánamo es nuestro”, del realizador colombiano Hernando Calvo Ospina, muestra el sentir del pueblo cubano sobre ese territorio ocupado por Estados Unidos. La película está producida por Resumen Latinoamericano y el Comité Internacional Cubano.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Havana, 1963 (IV)

Jeune femme de garde dans le quartier de Vedado, La Havane, 1963.
 
Dans un supermarché du quartier de Vedado, La Havane, 1963.
 
Dans un supermarché du quartier de Vedado, à La Havane, les achats se font avec des tickets de rationnement, 1963.
 
Havana, Vedado, 1963
Fotografia de Marc Riboud

domingo, 16 de outubro de 2016

Pink Floyd - Childhood's End (1972)



Childhood’s End, from Obscured By Clouds, released June 1972 (2016 Remix)

Childhood's End, from Pink Floyd's seventh album Obscured By Clouds, has been remixed from the original master tapes in 2016 by Andy Jackson and Damon Iddins.
In February 1972, the band were already playing The Dark Side Of The Moon live and starting to record its songs, but production was briefly halted when they accepted their second commission for filmmaker Barbet Schroeder, to create the soundtrack for his feature film La Vallée.
In the last week of February 1972, Pink Floyd started work, at Strawberry Studios in Herouville, France, and as David Gilmour later described: “We sat in a room, wrote, recorded, like a production line.” The result was 10 pieces of music: six songs and four instrumentals, which Melody Maker described as “some of the most aggressive instrumentals the Floyd have recorded.”
David Gilmour’s Childhood's End was one of the few songs from the soundtrack to be included in Pink Floyd's live shows and was featured on European dates, starting on December 1, 1972, and at the start of the band's March 1973 tour of North America, usually with an extended instrumental passage.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Assinado o acordo de paz na Colómbia, depois de 52 anos de guerra

Juan Manuel Santos. Presidente da República, e o líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Timochenko, cumprimentam-se durante a cerimónia de assinatura do acordo de paz Luis ACOSTA/AFP.
 
Acordo abrangente de paz entre o Governo de Bogotá e as FARC foi assinado numa cerimónia histórica em Cartagena. Documento de 297 páginas estabelece os critérios para o fim da luta armada e a reconversão da guerrilha marxista numa organização política legítima. Foi com uma caneta produzida a partir de um antigo projéctil que o Presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), Rodrigo Londoño (aliás, Timochenko), firmaram o pacto de paz que definitivamente encerra o mais longo conflito da América Latina, responsável por mais de 260 mil mortos e seis milhões de desalojados durante os últimos 50 anos. Numa histórica cerimónia, na cidade colonial de Cartagena, e perante dezenas de chefes de Estado e de Governo e milhares de convidados, a quem foi pedido que vestissem de branco, a assinatura do acordo de paz representa a esperança de uma nova era livre de ódio e violência. (Público)
 

Timochenko: Tratado aspira a sellar para siempre la vía de las armas
 
El comandante de las FARC-EP, Rodrigo Londoño, conocido como Timoleón Jiménez Timochenko, aseguró que con la firma del acuerdo final "abrimos un espacio para que las nuevas generaciones vivan en paz". Aseguró que "el tratado de paz aspira a sellar para siempre la vía de las armas". En nombre de las FARC-EP, Timoléon Jiménez ofreció perdón "a todas las víctimas del conflicto por todo el dolor que hayamos podido causar en esta guerra". (teleSUR)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A queda de Dilma teve ordem dos EUA

O famoso professor universitário e economista canadiano Michel Chossudovsky explica por que razão a queda de Dilma Rousseff foi ordenada por “Wall Street” e tenta desmascarar “os actores por trás do golpe”, num extenso artigo publicado pela primeira vez em Junho, mas reeditado na passada quinta-feira, 1 de Setembro, um dia após a consumação do “impeachment” no Brasil, a 31 de Agosto último.

“O controlo sobre a política monetária e a reforma macroeconómica eram os objectivos últimos do golpe de Estado. As nomeações principais do ponto de vista de Wall Street são o Banco Central, que domina a política monetária e as operações cambiais, o Ministério da Fazenda (Finanças) e o Banco do Brasil”, diz o artigo, destacando que, desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, passando por Lula da silva e Temer, Wall Street tem exercido controlo sobre os nomes indicados para liderar essas três instâncias estratégicas para a economia brasileira.

“Em nome de Wall Street e do ‘consenso de Washington’, o ‘governo’ interino pós-golpe de Michel Temer nomeou um ex-CEO de Wall Street, com cidadania dos EUA, para dirigir o Ministério da Fazenda”, diz o artigo, referindo-se a Henrique Meirelles, nomeado em 12 de Maio último. 

Como observa o artigo, Meirelles, que tem dupla nacionalidade, brasileira e norte-americana, serviu como presidente do FleetBoston Financial (fusão do BankBoston Corp. com o Fleet Financial Group) entre 1999 e 2002 e foi presidente do Banco Central sob o governo de Luís Inácio Lula da Silva, entre 1 de Janeiro de 2003 e 1 de Janeiro de 2011.

Antes disso, o actual ministro brasileiro das Finanças (Fazenda), que volta ao poder sob o governo Temer após ter sido dispensado por Dilma em 2010, também actuou durante 12 anos como presidente do BankBoston nos EUA.

Já o actual presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, nomeado por Temer em 16 de Maio, também tem dupla nacionalidade, brasileira e israelita, e foi economista-chefe do Itaú, maior banco privado do Brasil. Segundo o artigo, Goldfajn “tem laços estreitos tanto com o Fundo Monetário Internacional (FMI) como com o Banco Mundial”. 

“Goldfajn já tinha trabalhado no Banco Central do Brasil sob as ordens de Armínio Fraga, bem como durante o mandato de Henrique Meirelles. Tem estreitos laços pessoais com o Professor Stanley Fischer, actualmente vice-presidente da Reserva Federal dos EUA, além de ter sido vice-director do FMI e ex-presidente do Banco Central de Israel. Desnecessário dizer que a nomeação de Golfajn para o Banco Central foi aprovada pelo FMI, pelo Tesouro dos EUA, por Wall Street e pela Reserva Federal dos EUA”, afirma o artigo.

Armínio Fraga, por sua vez, foi presidente do Banco Central entre 4 de Março de 1999 e 1 de Janeiro de 2003. Exerceu a função de director de fundos de cobertura (“hedge funds”) durante seis anos na Soros Fund Management (associada ao multimilionário George Soros), e também tem dupla nacionalidade brasileira e norte-americana.

“O sistema monetário do Brasil sob o real (moeda brasileira) é fortemente dolarizado. Operações da dívida interna são conducentes a uma dívida externa crescente. Wall Street tem o objectivo de manter o Brasil numa camisa de forças monetária”, explica o professor Michel Chossudovsky. Por isso, afirma o artigo, quando Dilma Rousseff aponta um nome não aprovado por Wall Street para a presidência do Banco Central, a saber, Alexandre António Tombini, cidadão brasileiro e funcionário de carreira no Ministério das Finanças, é compreensível que os interesses financeiros externos se articulem aos interesses das elites brasileiras para mudarem o quadro político no país. 

Contexto histórico 
No início de 1999, na sequência imediata do ataque especulativo contra o real, diz Chossudovsky, o presidente do Banco Central, Francisco Lopez, nomeado em 13 de Janeiro de 1999, a “Quarta-Feira Negra”, foi demitido pouco depois e substituído por Armínio Fraga, cidadão americano e funcionário da Quantum Fund, de George Soros, em Nova Iorque. “A raposa foi nomeada para tomar conta do galinheiro”, resume o artigo, afirmando que, com Fraga, os especuladores de Wall Street tomaram o controlo da política monetária do Brasil. 

Sob a liderança de Lula, a indicação de Meirelles para a presidência do Banco Central do Brasil deu seguimento à situação, diz o artigo, destacando que o nomeado já tinha trabalhado anteriormente como presidente e CEO dentro de uma das maiores instituições financeiras de Wall Street. “A FleetBoston era o segundo maior credor do Brasil após o Citigroup. Para dizer o mínimo, Meirelles estava em conflito de interesses. A sua nomeação foi acordada antes da ascensão de Lula à Presidência”, escreve o autor. 

Além disso, Meirelles foi um firme defensor do controverso Plano Cavallo da Argentina na década de 1990: “um ‘plano de estabilização’ de Wall Street que causou grandes estragos económicos e sociais”, segundo Chossudovsky. 

De acordo com Michel Chossudovsky, “a estrutura essencial do Plano Cavallo da Argentina foi replicada no Brasil sob o Plano Real, ou seja, a imposição de uma moeda nacional conversível dolarizada. O que este regime implica é que a dívida interna é transformada em dívida externa denominada em dólares”. 

Quando Dilma chegou à presidência em 2011, Meirelles foi retirado da presidência do Banco Central. Como ministro da Fazenda de Temer, ele defende a chamada “independência” do Banco Central. “A aplicação deste conceito falso implica que o governo não deve intervir nas decisões do Banco Central. Mas não há restrições para as ‘Raposas de Wall Street’”, refere o artigo, acrescentando que “a questão da soberania na política monetária é crucial” e que “o objectivo do golpe de Estado foi negar a soberania do Brasil na formulação da sua política macro-económica”. 

De facto, sob o governo Dilma, a “tradição” de nomear uma “raposa de Wall Street” para o Banco Central foi abandonada com a nomeação de Tombini, que permaneceu no cargo de 2011 até Maio de 2016, quando Temer assumiu a presidência interina do país. 

A partir daí, Meirelles, no Ministério das Finanças do governo interino, “indicou os seus próprios comparsas para chefiar o Banco Central (Goldfajn) e o Banco do Brasil (Paulo Caffarelli)”, refere o artigo do Global Research, sublinhando que o novo ministro tinha sido descrito pelosmeios de comunicação social dos EUA como “market friendly” (“amigo do mercado”). 

Operações de inteligência 
“O que está em jogo através de vários mecanismos – incluindo operações de inteligência, manipulação financeira e meios de propaganda – é a desestabilização pura e simples da estrutura estatal do Brasil e da economia nacional, para não mencionar o empobrecimento em massa do povo brasileiro”, afirma Chossudovsky. 

Segundo a tese do famoso professor, “Lula era ‘aceitável’ porque seguiu as instruções de Wall Street e do FMI”, mas Dilma, com um governo mais guiado por um nacionalismo reformista soberano, não pôde ser “aceite” pelos interesses financeiros dos EUA, apesar da agenda política neoliberal que prevaleceu sob o seu governo. “Se Dilma tivesse decidido manter Henrique de Campos Meirelles, o golpe de Estado muito provavelmente não teria ocorrido”, afirma o analista. 

“Um ex-CEO e presidente de uma das maiores instituições financeiras dos Estados Unidos (e um cidadão dos EUA) controla instituições financeiras importantes do Brasil e define a agenda macro-económica e monetária para um país de mais de 200 milhões de pessoas. Chama-se a isto um golpe de Estado... dado por Wall Street”, conclui Chossudovsky. 

Michel Chossudovsky, escritor premiado, é professor (emérito) de Economia da Universidade de Ottawa, fundador e director do Centro de Pesquisa sobre a Globalização (CRG) e editor da organização independente de pesquisa e meios de comunicação social Global Research. Leccionou como professor visitante na Europa Ocidental, no Sudeste Asiático e na América Latina, serviu como conselheiro económico para governos de países em desenvolvimento e tem trabalhado como consultor para várias organizações internacionais. É autor de 11 livros, publicados em mais de 20 línguas. Em 2014, foi premiado com a Medalha de Ouro de Mérito da República da Sérvia pela sua obra sobre a guerra de agressão da OTAN contra a agora desmembrada Jugoslávia.