segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Somos um país de racistas (mas não gostamos que nos lembrem disso)


O que se passou em Guimarães com Marega não foi nem mais nem menos grave do que aquilo que se tem passado durante décadas no futebol em Portugal. Na Europa. E um pouco por todo o mundo. Olhando para trás, não é difícil nem é preciso fazer um esforço grande para percebermos que o racismo estrutural é uma das maiores falhas da sociedade portuguesa.

Marega atingiu um ponto de rotura. Aconteceu ali, naquele minuto, naquele momento, como poderia ter sido num outro jogo qualquer. Fosse com Marega ou com outro jogador. Nós, por cá, habituámo-nos a criticar o que se passa em Itália. A achar que os italianos são o povo latino mais racista da Europa e episódios em que os jogadores sentem que chegou a altura de dizer basta são mais um capítulo na vergonha de um campeonato que outrora foi grande e agora não é mais do que um tremido reflexo.

Nós, por cá, habituámo-nos a achar que o problema está nos outros. Está em Inglaterra. Na Alemanha, daqueles nazis. Na Itália. Até em França, dos Le Pen. Nós, por cá, somos diferentes. O racismo cá é diferente. Se existe, é muito pontual. Não, nós não somos contra «pretos». Não, nós não os tratamos mal. Nós até temos amigos que o são. Até partilhámos balneários com eles. Histórias. Brincadeiras. Piadas.

Não, nós por cá, sempre fomos diferentes. Somos capazes de entrar numa sala de cinema e sentir nojo quando vemos filmes que retratam a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. E, ao mesmo tempo, incapazes de perceber que Portugal está longe de ser um paraíso. Nós, por cá, deixámo-nos, durante demasiado tempo, contagiar por um racismo estrutural que muitos continuam a apregoar ter desaparecido. Ou simplesmente nunca ter existido.

Violência policial? Sim, é giro falar sobre isso quando Colin Kaepernick se ajoelha. Cânticos animais nas bancadas? Coitado do Balotelli. Por cá, não há nada disso. Ou pelo menos assim foi sendo construída a mentira, num castelo de areia frágil perante a ameaça de um tsunami.

Houve quem tenha falado em hipocrisia. Fê-lo pelos motivos errados, mas acertou na palavra. No sentimento. Qualquer exercício de memória sem grande dificuldade é capaz de nos trazer episódios idênticos ou ainda mais graves ao de Marega em Guimarães. A diferença? Marega foi o único a dizer basta e, por isso, o único a garantir que havia ondas de solidariedade.

Este é, há muito, o problema do racismo em Portugal. Habituámo-nos a achar algo tão natural que eles próprios, os abusados, começaram a sentir que era aceitável. Que fazia parte da realidade. Que era impossível escapar, dizer basta, mostrar ao mundo que estava errado.

Contra mim falo. Olhando hoje para trás, sinto vergonha. Sinto repulsa. Sinto que fui praticamente obrigado a falhar por esta realidade paralela que nada trouxe de bom. Joguei futebol federado onze anos. Joguei com africanos ou filhos de africanos desde sempre. Nos primeiros anos, chegou até a haver treinos em que na minha equipa eu era o único branco. Brincávamos com isso. Eu podia ser o único mas eles sempre foram a minoria.

O racismo existia – e muito – nos escalões de formação. Numa altura em que a internet não existia, pouco se sabia sobre as equipas adversárias. O primeiro contacto visual com a chegada da carrinha adversária provocava sempre as mesmas curiosidades. Primeiro, se eram grandes. Depois, quantos «pretos» tinham.

Quem jogou no final da década de 90 na Associação de Futebol de Lisboa, poderá reconhecer alguns nomes. Toda a gente falava do Papa, o «preto» do Belenenses que tinha idade para ser papá dos outros todos. Ou pelo menos assim se dizia. E o Oeiras tinha o Upari (que se lia Apari) e que era, conhecendo-o anos mais tarde, uma pessoa genuinamente correta e impossível de não gostar. Mas ali, num primeiro momento, todos eram os «pretos» grandes, os «pretos» em destaque.

Mais tarde, lembro-me do Abílio. Dentro do balneário, fizemos praticamente do Abílio a nossa mascote. O Abílio falava de maneira estranha. A voz tremia, ecoava de forma muito peculiar. E imitávamo-lo, brincando com ele, perante os seus sorrisos. Ele nunca levou a mal. Ele seria incapaz de levar a mal. Ou pelo menos assim achávamos.

Hoje, olhando para trás, sinto sobretudo que ele talvez nunca tenha pensado sequer que poderia levar a mal. Muito possivelmente, para ele, aquela seria a única realidade que conhecia. Poderia nem sequer saber que aquilo era errado. Podia não ter o conforto necessário para levantar a voz, impor-se, e dizer basta. Afinal, o Abílio nem sequer estava inscrito. Que peso poderia ter ele num balneário?

Esta semana, em mais um genial episódio do podcast O Brinco do Baptista, falou-se sobre o problema de minorias em balneários. Dos perigos da mentalidade de matilha. Da toxicidade que alguns comportamentos podem ter. Sinceramente, olho para trás, e acho que sempre respeitei, tanto quanto conseguia, qualquer colega que tive. Mas, ao mesmo tempo, sou incapaz de ignorar que tive momentos, tanto no futebol como na escola, reprováveis.

Tenho memória suficiente para me lembrar do que fiz bem e do que fiz mal, do que poderia ter feito diferente. Fosse com negros, raparigas ou vítimas de bullying. Afinal, nestes casos, parecia sempre mais fácil deixar andar. Ficar calado. Felizmente, nunca fui instigador. Mas isso não me iliba de ter contribuído para ambientes negativos. De racismo, de machismo. De muito mais.

O que Marega fez em Guimarães foi acordar-nos em definitivo para uma realidade que nos deixa desconfortáveis. Marega não foi a primeira vítima. Marega foi, isso sim, o primeiro exemplo mediático a ser capaz de dizer basta. A trazer o elefante para o centro da sala. A garantir que seria impossível continuar a ignorar que Portugal é racista. Que há exemplos destes nos quatro cantos do país.

Hoje, é impossível dizer que só acontece lá fora. Podíamos dizer que estamos a importar o pior do que se passa lá fora. Estaríamos a ser hipócritas. Este racismo esteve sempre do lado de cá da fronteira. Só demorámos mais tempo a ter um escândalo com esta magnitude.

E, quando finalmente aconteceu, poucos foram aqueles que passaram com distinção. Tem havido muita hipocrisia, sim. Tem havido tiros ao lado. E houve, sobretudo, uma falta de compaixão e compreensão enorme por quem partilha a profissão e estava naquele relvado com Marega.

Foi o espelho perfeito do racismo em Portugal. Uma vez mais, esperou-se que Marega comesse e calasse. Que percebesse que faz parte. Que é assim mesmo. Que tem de se habituar. Ser profissional, ignorar e continuar a fazer aquilo para o qual é pago dentro de campo. Por outras palavras, houve quem lhe tenha pedido que ajudasse a propagar e eternizar a aceitação do racismo.

Marega recusou-se. Não o fez. E ao não o fazer deu um exemplo valioso para milhares de jovens em Portugal. Porque às vezes é mais importante manter as costas direitas do que ceder à vénia. Porque às vezes é preciso dizer basta. Porque às vezes só conseguimos avançar quando paramos. Para pensar e para mudar a mentalidade. Para mostrar ao mundo – e ao país – o que está errado.

Marega não foi a primeira vítima em Portugal. Mas foi o primeiro a conseguir provocar uma onda de solidariedade a nível interno e internacional. E só o fez, só garantiu que o tema viesse claramente para a luz do dia por ter tomado a atitude que tomou. Se tivesse continuado em campo e criticado os acontecimentos no final, o racismo teria ficado esquecido na espuma do dia. Assim, é impossível.

Temos, todos, de agradecer a Marega por isso. Fez-nos pensar. Olhar para trás. Perceber o que se fez de errado. O que continua errado. E o que tem mesmo de se fazer para que, ao olhar para a frente, se possa encarar o futuro com otimismo.

Porque Portugal sempre foi racista. E continua a sê-lo em 2020. Mas depende de todos nós ajudar a promover a mudança. O que Marega fez foi valioso. Mas será uma gota de água no deserto se não conseguirmos honrar verdadeiramente o que um gesto aparentemente tão simples mas cheio de coragem pode significar.

Marega relembrou-nos, com clareza, algo que não gostamos.


Texto de Rui Pedro Silva, blog É Desporto

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Marega


Moussa Marega, abandona o relvado em sinal de protesto, após insultos racistas por parte dos adeptos no Estádio D. Afonso Henriques em Guimarães. 16FEV2020

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Alentejo, 1974


Alentejo, Julho de 1974. Perto da vila de Pias. Trabalhadoras apanham pedras para preparar o terreno para plantar uma vinha. Desde a revolução de 25 de Abril de 1974, as pessoas passaram a trabalhar 8 horas por dia, antes trabalhavam do nascer até ao pôr do sol. 

Fotografia de Guy Le Querrec

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Terry Jones (1942 - 2020)


Bolívia, golpe silenciado

A Bolívia continua a viver sob um estado de excepção não declarado. A tentativa de institucionalização do golpe de estado de 10 de Novembro, que obrigou à saída do país do presidente legítimo Evo Morales, é feita à custa da repressão alargada, da instauração do ódio anti-índigena e de um clima de caça às bruxas. À semelhança do acosso antidemocrático de outros países sul-americanos, como o Brasil e o Equador, a penetração e manipulação da Justiça pelas forças reaccionárias faz parte do seu modus operandi. Funciona assim o princípio de inversão da verdade. A vitória por expressiva margem de Evo Morales nas presidenciais de 20 de Outubro é transformada, com o concurso da autoridade ‘imparcial’ da OEA de Almagro, em ‘fraude’, e o governo e poder terrorista de facto impõe a criminalização dos protestos contra o golpe e a usurpação da vontade popular expressa nas urnas. Os grupos de terror que agrediram e sequestraram dirigentes do governo anterior, deputados do parlamento e eleitos do poder local do Movimento ao Socialismo (MAS) gozam de plena impunidade. Não se conhecem medidas de coacção contra os responsáveis policiais e militares pelo assassinato de dezenas de manifestantes nos primeiros dias após o golpe. Ao invés, contra Morales, que sob chantagem e risco de vida apresentou a renúncia e logrou com a ajuda do México partir para o exílio, é emitido um mandado de captura por «terrorismo e sedição». Dirigentes do MAS e ex-membros do governo continuam a ser presos indiscriminadamente e o governo usurpador anunciou a investigação de 592 pessoas ligadas ao poder deposto. Como referiu um dos principais líderes do movimento camponês, Andrónico Rodríguez, está em curso uma operação sistemática para «decapitar e destroçar» a direcção do MAS.


É pois sob um regime de terror que o governo presidido pela autoproclamada Jeanine Áñez deseja manter a fachada democrática, apontando a realização de novas eleições como a água benta para extirpar as manchas do golpe. Foi o principal general golpista, Kaliman, a colocar-lhe a faixa presidencial no palácio Quemado depois da sua nomeação no Senado, numa sessão em que os deputados do MAS – em maioria nas duas câmaras do parlamento – foram mantidos à distância. Desde então o parlamento reassumiu funções de forma coarctada. Kaliman e os restantes comparsas do alto comando militar partiram para os EUA, premiados pela alta-traição. E o governo interino assumiu prerrogativas que extravasam largamente as de um governo de gestão, numa maratona contra o legado de 13 anos de conquistas progressistas. Para além da repressão feroz, do ‘reconhecimento’ de Guaidó na Venezuela e o ingresso no grupo de Lima, a saída da ALBA e as mudanças em empresas chave do sector público, antecipando o seu regresso às mãos das multinacionais, são apenas algumas das medidas do governo golpista.

Tudo isto com o beneplácito de Trump e ao abrigo da revigorada doutrina Monroe do imperialismo dos EUA. Mas também a tíbia reacção da ONU e a conivência da UE. Para os paladinos dos ‘direitos humanos’ não importa sequer que a Bolívia do primeiro presidente índio se tenha convertido num exemplo na América Latina do combate à pobreza extrema e do desenvolvimento económico e social. Como, por cá, Santos Silva que optou pelo silêncio, em mais uma demonstração indigna e perigosa de servilismo.

Fonte: Avante
Artigo de Luís Carapinha

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Os Muros de Santiago do Chile



As pesquisadoras e comunicadoras chilenas do coletivo Sin medios/Sin miedo registraram os muros da cidade de Santiago, que durante os meses de outubro, novembro e dezembro se transformaram no suporte das informações, denúncias, anseios e demandas da cidadania durante os protestos no Chile. O trabalho audiovisual realizado neste minidocumentário reúne parte das milhares de frases que podem ser observadas nas ruas de Santiago no setor da cidade entre o Palácio de La Moneda e a Praça da Dignidade – outrora Praça Itália, rebatizada pela população mobilizada.

Imagens: Sin medios/Sin miedo - https://www.instagram.com/sinmediossi...

Fonte: Opera Mundi

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Patxi Andión (1947-2019)



Ejecucion Publica "Garrote vil " La versión de Patxi Andión de "Ay Carmela ", canción popular republicana.
Patxi Andión (1947-2019)

domingo, 8 de dezembro de 2019

How poor people survive in the USA



Homelessness, hunger and shame: poverty is rampant in the richest country in the world. Over 40 million people in the United States live below the poverty line, twice as many as it was fifty years ago. It can happen very quickly.vMany people in the United States fall through the social safety net. In the structurally weak mining region of the Appalachians, it has become almost normal for people to go shopping with food stamps. And those who lose their home often have no choice but to live in a car. There are so many homeless people in Los Angeles that relief organizations have started to build small wooden huts to provide them with a roof over their heads. The number of homeless children has also risen dramatically, reaching 1.5 million, three times more than during the Great Depression the 1930s. A documentary about the fate of the poor in the United States today.

Deutsche Welle, 27/11/2019

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Claudia Cardinale, 1963


Claudia Cardinale for "Il Gattopardo" directed by Luchino Visconti, 1963
Photo Copyright Pathé Distribution

terça-feira, 12 de novembro de 2019

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Bolívia resiste!


El golpe en Bolivia: cinco lecciones


La tragedia boliviana enseña con elocuencia varias lecciones que nuestros pueblos y las fuerzas sociales y políticas populares deben aprender y grabar en sus conciencias para siempre. Aquí, una breve enumeración, sobre la marcha, y como preludio a un tratamiento más detallado en el futuro. Primero, que por más que se administre de modo ejemplar la economía como lo hizo el gobierno de Evo, se garantice crecimiento, redistribución, flujo de inversiones y se mejoren todos los indicadores macro y microeconómicos la derecha y el imperialismo jamás van a aceptar a un gobierno que no se ponga al servicio de sus intereses.

Segundo, hay que estudiar los manuales publicados por diversas agencias de EEUU y sus voceros disfrazados de académicos o periodistas para poder percibir a tiempo las señales de la ofensiva. Esos escritos invariablemente resaltan la necesidad de destrozar la reputación del líder popular, lo que en la jerga especializada se llama asesinato del personaje (“character assasination”) calificándolo de ladrón, corrupto, dictador o ignorante. Esta es la tarea confiada a comunicadores sociales, autoproclamados como “periodistas independientes”, que a favor de su control cuasi monopólico de los medios taladran el cerebro de la población con tales difamaciones, acompañadas, en el caso que nos ocupa, por mensajes de odio dirigidos en contra de los pueblos originarios y los pobres en general.

Tercero, cumplido lo anterior llega el turno de la dirigencia política y las elites económicas reclamando “un cambio”, poner fin a “la dictadura” de Evo que, como escribiera hace pocos días el impresentable Vargas Llosa, aquél es un “demagogo que quiere eternizarse en el poder”. Supongo que estará brindando con champagne en Madrid al ver las imágenes de las hordas fascistas saqueando, incendiando, encadenando periodistas a un poste, rapando a una mujer alcalde y pintándola de rojo y destruyendo las actas de la pasada elección para cumplir con el mandato de don Mario y liberar a Bolivia de un maligno demagogo. Menciono su caso porque ha sido y es el inmoral portaestandarte de este ataque vil, de esta felonía sin límites que crucifica liderazgos populares, destruye una democracia e instala el reinado del terror a cargo de bandas de sicarios contratados para escarmentar a un pueblo digno que tuvo la osadía de querer ser libre.

Cuarto: entran en escena las “fuerzas de seguridad”. En este caso estamos hablando de instituciones controladas por numerosas agencias, militares y civiles, del gobierno de Estados Unidos. Estas las entrenan, las arman, hacen ejercicios conjuntos y las educan políticamente. Tuve ocasión de comprobarlo cuando, por invitación de Evo, inauguré un curso sobre “Antiimperialismo” para oficiales superiores de las tres armas. En esa oportunidad quedé azorado por el grado de penetración de las más reaccionarias consignas norteamericanas heredadas de la época de la Guerra Fría y por la indisimulada irritación causada por el hecho que un indígena fuese presidente de su país. Lo que hicieron esas “fuerzas de seguridad” fue retirarse de escena y dejar el campo libre para la descontrolada actuación de las hordas fascistas -como las que actuaron en Ucrania, en Libia, en Irak, en Siria para derrocar, o tratar de hacerlo en este último caso, a líderes molestos para el imperio- y de ese modo intimidar a la población, a la militancia y a las propias figuras del gobierno. O sea, una nueva figura sociopolítica: golpismo militar “por omisión”, dejando que las bandas reaccionarias, reclutadas y financiadas por la derecha, impongan su ley. Una vez que reina el terror y ante la indefensión del gobierno el desenlace era inevitable.

Quinto, la seguridad y el orden público no debieron haber sido jamás confiadas en Bolivia a instituciones como la policía y el ejército, colonizadas por el imperialismo y sus lacayos de la derecha autóctona. Cuándo se lanzó la ofensiva en contra de Evo se optó por una política de apaciguamiento y de no responder a las provocaciones de los fascistas. Esto sirvió para envalentonarlos y acrecentar la apuesta: primero, exigir balotaje; después, fraude y nuevas elecciones; enseguida, elecciones pero sin Evo (como en Brasil, sin Lula); más tarde, renuncia de Evo; finalmente, ante su reluctancia a aceptar el chantaje, sembrar el terror con la complicidad de policías y militares y forzar a Evo a renunciar. De manual, todo de manual. ¿Aprenderemos estas lecciones?

Por Atilio A. Boron

domingo, 10 de novembro de 2019

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Julian Assange pode não viver até o final do processo de extradição

– O silêncio conivente dos media e dos jornalistas corporativos é ensurdecedor
– O caso de Assange é uma infâmia maior que o affaire Dreyfuss
– É uma tentativa de assinalar aos jornalistas as consequências de publicar informação relevante

por Craig Murray [*]


Fiquei profundamente abalado ao testemunhar os acontecimentos no Tribunal de Magistrados de Westminster, segunda-feira 21 de Outubro. Todas as decisões foram tomadas às pressas, mal ouvindo os argumentos e objecções da equipa jurídica de Assange, por uma magistrada que nem sequer pretendia estar a ouvi-las.

Antes de entrar nesta ausência flagrante de um processo justo, a primeira coisa que devo observar foi a condição de Julian. Fiquei muito chocado com o peso que o meu amigo perdeu, com a velocidade com que o seu cabelo caiu e com a sua aparência de envelhecimento prematuro e muito rápido. Ele está também a coxear de forma muito pronunciada, o que nunca vi antes. Desde a sua prisão, ele perdeu mais de 15 kg de peso.

Mas sua aparência física não era tão chocante quanto sua deterioração mental. Quando lhe pediram para dizer o nome e data de nascimento, ele lutou visivelmente por alguns segundos para se lembrar de ambos. Chegarei ao conteúdo importante de sua declaração no final do processo no devido tempo, mas a sua dificuldade em fazê-la era muito evidente; foi uma verdadeira luta para ele articular as palavras e concentrar-se na sua linha de raciocínio.

Até então, sempre fui discretamente céptico em relação àqueles que alegavam que o tratamento de Julian representava tortura – mesmo depois de Nils Melzer , relator especial da ONU sobre tortura, o afirmar – e céptico em relação àqueles que sugeriam que ele poderia estar sujeito a tratamentos de drogas debilitantes. Porém, depois de ter participado em julgamentos no Uzbequistão de várias vítimas de tortura extrema e de ter trabalhado com sobreviventes da Serra Leoa e de outros lugares, posso dizer que ontem mudei de ideias completamente: Julian exibiu exactamente os sintomas de uma vítima de tortura trazida para a luz, particularmente em termos de desorientação, confusão e verdadeira luta para reivindicar o livre arbítrio através da névoa de uma extrema debilidade adquirida.

Fiquei ainda mais céptico em relação àqueles que alegaram, como um membro sénior da sua equipa jurídica me fez na véspera da audiência, que estavam preocupados com o facto de Julian poder não viver até o fim do processo de extradição. Agora vejo-me não apenas a acreditar, mas assombrado por este pensamento. Todos no tribunal viram que um dos maiores jornalistas e dissidentes mais importantes do nosso tempo está a ser torturado até a morte pelo Estado, diante de nossos olhos.

Ver o meu amigo, o homem mais articulado, o pensador mais rápido que já conheci, reduzido àquele naufrágio e destruição incoerente, era insuportável. No entanto, os agentes do Estado, particularmente a insensível magistrada Vanessa Baraitser, não estavam apenas preparados, mas ansiosos por fazer parte desta força destruidora. Na verdade, ela disse-lhe que, se ele fosse incapaz de seguir os procedimentos, os seus advogados poderiam explicar-lhe mais tarde o que havia acontecido. A questão de saber por que um homem que, pelas próprias acusações contra ele era altamente inteligente e competente, fora reduzido pelo Estado a alguém incapaz de seguir um processo judicial, não lhe deu um milissegundo de preocupação.

A acusação contra Julian é muito específica: conspiração com Chelsea Manning para publicar documentos da Guerra do Iraque, da guerra do Afeganistão e telegramas do Departamento de Estado. As acusações não têm nada a ver com a Suécia, nada com sexo e nada com as eleições de 2016 nos EUA; seria uma simples clarificação que os grandes media parecem incapazes de entender.

O objectivo da audiência foi determinar o cronograma do processo de extradição. Os pontos principais em questão eram que a defesa de Julian solicitava mais tempo para preparar as suas evidências, argumentando que ofensas políticas fossem especificamente excluídas do tratado de extradição. Argumentaram que deveria haver, portanto, uma audiência preliminar para determinar se o tratado de extradição seria aplicável.

As razões apresentadas pela equipa de defesa de Assange por mais tempo para se preparar foram convincentes e surpreendentes. Eles tiveram um acesso muito limitado ao cliente na prisão e só haviam sido autorizados a entregar-lhe documentação uma semana antes. Ele também tinha acabado de ter autorização para um acesso limitado ao computador e todos os seus registos e materiais relevantes haviam sido apreendidos na Embaixada do Equador pelo Governo dos EUA; ele não tinha acesso aos seus próprios materiais com o objectivo de preparar a sua defesa.

Além disso, argumentou a defesa, entraram em contacto com os tribunais espanhóis sobre um caso jurídico em Madrid muito importante e relevante que forneceria provas vitais. Mostraria que a CIA estava a ordenar a espionagem directa a Julian na embaixada, através de uma empresa espanhola, a UC Global, contratada para fornecer segurança na embaixada. Fundamentalmente, isso incluía espiar conversas privilegiadas , entre Assange e seus advogados discutindo a sua defesa contra os processos de extradição que estavam em andamento nos EUA desde 2010. Em qualquer processo normal, esse facto seria suficiente para que o processo de extradição fosse julgado improcedente. Aliás, soube no dia anterior à audiência, que o material espanhol produzido em tribunal, encomendado pela CIA, inclui especificamente uma cobertura em vídeo de alta resolução de Julian discutindo vários assuntos comigo.

As evidências para o tribunal espanhol também incluíam uma conspiração da CIA para sequestrar Assange, que representava a atitude de ilegalidade das autoridades dos EUA neste caso e ao tratamento que ele poderia esperar nos Estados Unidos. A equipe de Julian explicou que o processo legal espanhol estava em curso e que as evidências seriam extremamente importantes, mas poderiam não estar concluídas e, portanto, as evidências não serem totalmente validadas e disponíveis no tempo do cronograma proposto para as audiências de extradição de Assange.

Na acusação, James Leais QC [1] afirmou que o governo se opunha fortemente a qualquer atraso que a defesa preparasse e se opunha fortemente a quaisquer considerações diferentes da questão de saber se a acusação era uma ofensa política excluída pelo tratado de extradição. Baraitser aceitou a sugestão de Lewis e afirmou categoricamente que a data da audiência de extradição seria em 25 de Fevereiro e não poderia ser alterada. Ela estava aberta a alterações nas datas para apresentação de evidências e respostas antes disso, neste sentido convocou um recesso de dez minutos para que a acusação e a defesa concordassem com essas etapas.

O que aconteceu depois foi muito instrutivo. Presentes cinco representantes do governo dos EUA (inicialmente três e mais dois chegaram no decorrer da audiência), sentados em mesas atrás dos advogados no tribunal. Os advogados de acusação entraram imediatamente em contacto com os representantes dos EUA e depois saíram do tribunal com eles, para decidir como responder às datas.

Após o regresso, a equipa de defesa afirmou que, em sua opinião profissional, não poderia preparar-se adequadamente se a data da audiência de Fevereiro fosse mantida, mas, seguindo as instruções de Baraitser, delinearam um cronograma para a entrega de evidências. Em resposta a isso, o advogado júnior de Lewis correu para o fundo do tribunal a fim de consultar os americanos novamente, enquanto Lewis disse ao juiz que estava "recebendo instruções dos que estavam atrás".

É importante observar que, ao dizer isto, não foi o gabinete do procurador-geral do Reino Unido que estava sendo consultado, mas a embaixada dos EUA. Lewis recebeu as instruções dos americanos e concordou que a defesa poderia ter dois meses para preparar as suas evidências (eles disseram que precisavam de um mínimo absoluto de três), mas a data da audiência de Fevereiro não foi alterada. Baraitser pronunciou a sua decisão concordando com tudo o que Lewis havia dito.

Nesta fase, não era claro por que estávamos participando nesta farsa. O governo dos EUA ditava as suas instruções a Lewis, que as transmitia a Baraitser, que as tomava como sua decisão legal. A farsa poderia ter sido evitada e o governo dos EUA simplesmente ocupar o lugar na barra do tribunal para controlar todo o processo. Ninguém poderia, estando naquele tribunal, acreditar que se estava num processo legal genuíno ou que Baraitser estava por um momento a ter em conta os argumentos da defesa. As suas expressões faciais nas poucas ocasiões em que ela olhou para a defesa, variaram de desprezo a tédio e sarcasmo. Quando ela olhava para Lewis, estava atenta, aberta e calorosa.

A extradição está sendo levada a cabo rapidamente de acordo com um cronograma ditado por Washington. Além do desejo de antecipar-se ao tribunal espanhol no fornecimento de provas da actividade da CIA para sabotar a defesa. O que torna a data de Fevereiro tão importante para os EUA? Muito gostaria de receber quaisquer ideias sobre isso.

Baraitser rejeitou o pedido da defesa de uma audiência prévia separada para considerar se o tratado de extradição se aplicava, sem se preocupar em dar qualquer razão para isso (possivelmente ela não memorizou adequadamente as instruções que Lewis tinha estado a dar-lhe para concordar). No entanto, este é o artigo 4º Tratado de Extradição UK/US de 2007 .

Em face disto, aquilo de que Assange é acusado é a própria definição de ofensa política – se não é, então o que é? Não está coberto por nenhuma das excepções listadas [2] . Há todas as razões para considerar se esta acusação está excluída pelo tratado de extradição e fazê-lo antes do longo e muito dispendioso processo de considerar todas as evidências, no caso de o tratado se aplicar. Mas Baraitser simplesmente pôs de imediato o argumento de parte.

No caso de alguém ter alguma dúvida sobre o que estava acontecendo ali, Lewis levantou-se e sugeriu que a defesa não deveria perder o tempo do tribunal com muitos argumentos. Todos os argumentos para a audiência substantiva devem ser apresentados por escrito com antecedência e uma "guilhotina deve ser aplicada" (suas palavras exactas) a argumentos e testemunhas em tribunal, talvez de cinco horas para a defesa. A defesa sugeriu que precisariam de mais do que os cinco dias programados para apresentar seu caso. Lewis respondeu que toda a audiência deveria terminar em dois dias. Baraitser disse que esse não era o momento correcto para concordar com isso, mas ela o considerará assim que receber os pacotes de evidências. (NOTA: Baraitser fará o que Lewis instruí e interromperá a audiência substantiva).

Baraitser limitou tudo dizendo que a audiência de Fevereiro será realizada, não no Tribunal de Magistrados de Westminster, relativamente aberto e acessível, onde estávamos, mas no Tribunal de Magistrados de Belmarsh, o sombrio mecanismo de alta segurança usado para o processamento legal preliminar de terroristas, anexo à prisão de segurança máxima onde Assange está detido. Existem apenas seis cadeiras para o público mesmo na maior sala de tribunal de Belmarsh, o objectivo é claramente evitar o escrutínio público e garantir que Baraitser não seja novamente exposta em público a um relato genuíno de seus procedimentos, como este que está a ler. Provavelmente não poderei participar na audiência substantiva de Belmarsh.

Claramente, as autoridades ficaram desconcertadas com as centenas de pessoas boas que apareceram para apoiar Julian. Eles esperam que muito menos cheguem a Belmarsh, muito menos acessível. Estou bastante certo (e recordo ter tido uma longa carreira como diplomata) de que os dois funcionários extras do governo americano que chegaram no meio do processo eram agentes de segurança armados, trazidos por causa do alarme provocado pelo número de manifestantes em torno de uma audiência na qual estavam presentes altos funcionários dos EUA. A mudança para Belmarsh pode ter sido uma iniciativa americana.

A equipe de defesa de Assange opôs-se vigorosamente à mudança para Belmarsh, principalmente porque não há salas de conferência disponíveis para consultar seu cliente e têm acesso muito inadequado a ele na prisão. Baraitser rejeitou a objecção de imediato com um sorriso muito pronunciado.

Finalmente, Baraitser virou-se para Julian, ordenou-lhe que se levantasse e perguntou se ele havia entendido o processo. Ele respondeu negativamente, disse que não conseguia pensar e deu toda a aparência de desorientação. Então ele pareceu encontrar uma força interior, levantou-se um pouco e disse:
Não entendo como este processo pode ser equitativo. Esta super-potência teve 10 anos para se preparar para este caso e eu nem consigo ter acesso aos meus escritos. É muito difícil, onde estou, fazer qualquer coisa. Essas pessoas têm recursos ilimitados.
O esforço pareceu tornar-se demasiado, sua voz caiu e ele ficou cada vez mais confuso e incoerente. Ele falou de denunciadores de irregularidades e editores sendo rotulados inimigos do povo, depois falou sobre o DNA de seus filhos ser roubado e espionado nas suas reuniões com o seu psicólogo. Não estou sugerindo de maneira alguma que Julian estivesse errado sobre esses pontos, mas ele não conseguiu enquadrá-los nem articulá-los adequadamente. Ele claramente não era ele mesmo, muito doente e era terrivelmente doloroso de assistir. Baraitser não mostrou nem simpatia nem a menor preocupação. Ela observou com veemência que, se ele não conseguia entender o que havia acontecido, seus advogados poderiam explicar-lhe isso e ela saiu do tribunal.

Toda a experiência foi profundamente perturbadora. Era muito claro que não havia nenhum processo genuíno de considerações legais a acontecer. O que tivemos foi uma demonstração nua do poder do Estado e um desbragado ditar de procedimentos pelos americanos. Julian estava numa caixa atrás de vidro à prova de balas, e eu e os trinta outros membros do público que nos espremíamos estávamos numa caixa diferente atrás de mais vidro à prova de balas. Não sei se ele podia ver-me ou a seus outros amigos no tribunal, ou se era capaz de reconhecer alguém. Ele não deu nenhuma indicação de que sim.

Em Belmarsh, ele é mantido em isolamento completo durante 23 horas por dia, tendo 45 minutos de exercício. Se tiver que ser movido, desimpedem os corredores antes que ele desça e trancam todas as portas das celas para garantir que não tenha contacto com nenhum outro prisioneiro fora do período de exercício curto e estritamente supervisionado. Não há justificação possível para que esse regime desumano, usado para grandes terroristas, seja imposto a um editor prisioneiro em prisão preventiva.

Venho catalogando e protestando há anos contra os poderes cada vez mais autoritários do Estado do Reino Unido, mas um abuso tão grave, tão aberto e sem disfarces ainda é um choque. A campanha de demonização e desumanização contra Julian, baseada nas mentiras do governo e dos media, levou a uma situação em que ele pode ser morto lentamente à vista do público e processado criminalmente com a acusação de publicar a verdade sobre irregularidades do governo, sem receber qualquer assistência da sociedade "liberal".

A menos que Julian seja libertado em breve, ele será destruído. Se o Estado puder fazer isso, quem será o próximo?
22/Outubro/2019
NT
[1] Queen's Counsel: advogado com competência para discutir casos em tribunais de nível superior
[2] Delitos que não são considerados crimes políticos.

Ver também:



  • JOHN PILGER: Did This Happen in the Home of the Magna Carta?
  • 'A 1950s show trial': John Pilger describes 'disgraceful' courtroom treatment of Julian Assange by UK judge
  • US government sent in 'hooded men' to break into offices connected to Assange, court hears
  • Punishing Assange sends ‘we will get you’ warning to other journalists

    [*] Escritor, radialista e activista de direitos humanos. Foi embaixador britânico no Uzbequistão desde Agosto 2002 a Outubro de 2004 e reitor da Universidade de Dundee de 2007 a 2010,   www.craigmurray.org.uk

    O original encontra-se em www.informationclearinghouse.info/52433.htm


    Fonte: http://resistir.info/